Ólafur Arnalds – re:member


Em 2001, o escritor e jornalista Fábio Massari publicou, pela editora Conrad, Rumo à Estação Islândia, um híbrido de diário, guia de viagem e caderno cultural, que mostrava já no título certo grau de subversão ao parodiar Rumo à Estação Finlândia, petardo marxista do crítico norte-americano Edmund Wilson. O livro de Massari propunha-se a fazer um apanhado informal e despretensioso sobre a cena musical da Islândia, da pulsão punk operária da década de 70 até os minimalismos conceituais da música pop no final da década de 90. Rumo à Estação Islândia é interessante na medida em que apontava essa ilhota gelada na beirada do Circulo Polar Ártico como um centro cosmopolita e irradiador de música e cultura, como foi Seattle para o grunge, a Inglaterra para o brit-pop, e o estado de Pernambuco para o manguebeat.

A cena islandesa, dezessete anos depois, parece bem menos distante da praça global, podendo ser acompanhada com apenas um click. Com a crise na indústria fonográfica gerada pelo compartilhamento de arquivos, os streamings, o advento da informação e as redes sociais, a terra gelada e escura da pequena notável Björk sedimentou-se como um dos lugares mais interessantes quando o assunto é música. Nem mesmo a forte crise econômica que se abateu sobre o país em 2008 deslocou a Islândia de sua epítome de tudo o que é cool, cosmopolita e contemporâneo.

Na realidade, esse efeito de misticismo da Islândia também caiu por terra: descobriu-se que lá não se fazia apenas sons melancólicos e contemplativos, mas também música de várias vertentes. Artistas e bandas como Björk, Sugarcubes, Emiliana Torrini, Sigur Rós, Gus Gus, Arnór Dan, Sóley, Vök, Ásgeir, Muginson, Krauka, Kiasmos, oferecem um depoimento da variedade de sonoridades possíveis do país de origem do Nobel de Literatura Halldór Laxness, do poeta Sjón e do Montanha, de Game Of Thrones.

É nesse contexto de facilidades que se insere Re:member, novo trabalho do compositor e multi-intrumentista Ólafur Arnalds. Como seus conterrâneos Björk, Sigur Rós e Sóley, e diretamente influenciado por Steve Reich, Nico Muhly e Yann Tiersen, Ólafur também opta por uma sonoridade instrumental e experimental, que parece transmitir a atmosfera nublada e primordial dos campos de lava de seu país. No entanto, diferentemente do belo For Now I am A Winter, de 2013, a sonoridade de Re:member está calcada em timbres, texturas e fraseados de piano mais exatos e límpidos como cristais de gelo, ainda que predominantemente melancólicos.

Assim, a linda faixa-título abre o álbum, fraturando-se em dois movimentos: a primeira parte, com pianos e orquestrações reflexivas, e uma segunda, mais ágil e emulando um minimalismo clássico. A cartunística “Unfold”, que vem logo em seguida, poderia estar na trilha de algum filme indie fofinho indicado ao Oscar, tipo Juno ou Pequena Miss Sunshine. A transparência de “Brot”, com suas modulações gélidas de cordas, abre caminho para a grave “Ypsilon”, composta em uma linha de beats massudos e soturnos. A única ressalva ao álbum diz respeito à uniformidade de algumas faixas: “Saman”, “Momentary” e “Nyepi” são muito semelhantes entre si. Outros destaques são “They sink”, “Partial” e “Undir”.

Re:member é um bom álbum, dentro da sonoridade proposta por Ólafur desde seu primeiro trabalho, Eulogy for Evolution, de 2007. E dá o seu recado, numa época em que os sons da Islândia, diferentemente das décadas de 90 e 2000, estão ali, na próxima esquina.

OUÇA: “Re:member”, “Unfold”, “Brot”, “They Sink” e “Ypsilon”.

Professor e pós-graduando em Estudos Literários (Mestrado) pela UNESP. Capricórnio com ascendente em Escorpião e Lua em Câncer. Erudição e cultura pop: não são estanques pra mim. Literatura, cinema, Björk, plantas carnívoras, poesia contemporânea, música de vanguarda, sessão de análise, geologia, sorvete de chocolate, existencialismo, filmes indie da Hungria, teremins, amor, sexo e sonhos ridículos de todo tipo são algumas das coisas que eu mais gosto.

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