Nick Cave & the Bad Seeds — Ghosteen



Esta é a resenha mais difícil da minha carreira. Desde o dia 03 de outubro, a internet — como um todo — vem falando nesse álbum. E isso vem me apavorando um pouco desde que tirei a sorte grande de falar de Nick Cave & the Bad Seeds, pelo simples fato de não saber se estou à altura. 

Aproveito, porém, a oportunidade de mergulhar nesse universo e trazer a você, caro leitor, um pouco desse turbilhão de emoções que sinto após ouvi-lo. Tentei me “contaminar” o mínimo possível com informações sobre o álbum ou ler outras resenhas para que minhas palavras sejam as mais verdadeiras possíveis.

Classifico Ghosteen como um espetáculo sonoro pessoal e introspectivo. Não tenho nenhuma bagagem de Nick Cave, só conheço uma de suas músicas “Into My Arms”, do álbum God Is In The House (2003) e que está presente na trilha sonora de Questão De Tempo, um dos meus filmes favoritos. Lembro que, quando o assisti pela primeira vez, criei um ritual, graças a outra música da trilha sonora que me tocou muito. Logo que o filme acabou, deitei no sofá, coloquei “Spiegel Im Spiegel”, de Arvo Pärt (aka a música mais triste do mundo), para tocar nos fones e fiquei lá deitada. Olhando para o teto. Sentindo a música.

Construo esse cenário, pois logo na primeira canção de Ghosteen eu relembrei esse momento e fui tomada por esse mesmo desejo. Largar tudo, deitar imóvel e deixar com que cada partícula do álbum fosse sentida pelo meu corpo. É um disco para se ouvir assim. Sem pressa. Sem preocupações. Nu. Vazio. Pronto para ser preenchido por cada uma das músicas.

Em sua experimentação gótico-psicodélica, Nick Cave & the Bad Seeds traz camadas e mais camadas de vozes, com o destaque para a voz potente e inconfundível de Nick Cave, além de um instrumental que faz arrepiar qualquer um que ouça, seja nos pianos e órgãos ou nas misturas eletrônicas e distorcidas que o faz. 

É arte pura, dividida em dois atos. “Leviathan” promove um perfeito fim de primeiro ato. Que poderia ser muito bem o fim do álbum. Mas Nick Cave and the Bad Seeds vai além. O segundo é ainda mais experimental, com duas — de suas três canções — com mais de 10 minutos de duração. Embora o destaque nesse segundo momento seja o instrumental, principalmente nas canções mais longas “Ghosteen” e “Hollywood”, é impossível não mencionar “Fireflies”, que funciona quase como um poema a ser declamado por Nick Cave. É um momento precioso e reflexivo. 

Não se engane. É uma obra belíssima, mas igualmente pesada. É preciso respirar e processá-la. 

E eu poderia ficar horas a fio tentando descrever o mais recente trabalho de Nick Cave, mas de nada adiantaria. É um álbum que pede pelo mergulho do ouvinte. Que pede pela suspensão do mundo por 1h e 8 minutos. Faça esse favor a si mesmo. 

Dizer que Ghosteen é o álbum do ano de 2019 talvez seja um eufemismo. Mas é isso. É o melhor álbum que você vai ouvir hoje. E como Nick Cave bem canta em “Waiting For You”: “Sometimes a little bit of faith can go a long, long way”.

OUÇA: >“Waiting For You”, “Hollywood”, “Night Raid” e “Sun Forest”

viciada em criar playlists

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