Luan Bates – Reboot: The Morning Sun



Natal é uma cidade efervescente, não somente pelo sol escaldante em 90% do ano, mas também porque é aqui o berço de muitos artistas relevantes no cenário musical dos últimos anos. Natal exportou para o Brasil: Far From Alaska, Plutão Já Foi Planeta, Mahmed, Camarones Orquestra Guitarrística (já falada aqui no site com o álbum Surfers – 2019). Todas essas bandas citadas já receberam bônus e grandes oportunidades, seja para tocar em grandes festivais nacionais, como o Lollapalooza ou o Rock in Rio, ou para viajar para o exterior e inclusive gravar por lá (como é o caso do Far From Alaska e seu Unlikely – 2018). No entanto, a capital potiguar também é palco de algumas desigualdades musicais, algo tão comum nesse nicho, fazendo alguns artistas caminharem pelo lado marginal e realmente alternativo. É o caso de Luan Bates, compositor, instrumentista e criador do selo Nightbird Records. Luan lançou esse ano o projeto REBOOT, com seu primeiro álbum The Morning Sun.

Luan Bates pode não estar na boca do povo brasileiro, pode não ser o alvo principal das nossas resenhas aqui no You! Me! Dancing!, mas não é por não ser tão conhecido que o som de Luan se faz menor que outros. Pelo contrário, é admirável a qualidade de som e de composição vindo de um artista da tromba do elefante, sem patrocínios, sem amigos influentes, sem produtores conhecidos. Um rock puramente potiguar, cantado em inglês, influenciado pelo brit rock, falando de temas de jovens adultos como a exaustão, o amor, a solidão, as contas pra pagar… É assim The Morning Sun

O CD começa com “Listen Up, Mates”, uma reflexão amargurada sobre o crescer. Já faço aqui um parêntesis pra falar da riqueza que é Luan como letrista. Nesta faixa, Bates joga na nossa cara a dura realidade: “But this spring is not good for some ones / Sometimes we just want to throw it all away / Life never made much sense at all / For people made of feelings and songs”. O álbum continua com a solidão de “Distant Minutes” e com a rebelde “You are Free”, seguida de “This Weight”, que conhecendo o Luan Regio (nome de nascimento de Bates), mesmo que pouco, fala sobre a luta contra demônios pessoais e também comunitários, como distúrbios psicológicos, regras sociais tidas como padrões (questões corporais principalmente), o racismo etc. Para mim, “This Weight” é uma favorita: suingada, tanto em violão, quanto em bateria, e necessária. “Manu” é a faixa do CD que, imaginando-a num estádio em um show sold out, seria a “Don’t Look Back in Anger” de Bates com direito a lanternas dos celulares ou isqueiros acesos para os mais tradicionais. A faixa título do trabalho, por sua vez, poderia ter saído de um The Bends (1995) da vida pela simplicidade da bateria, o uso do aro da caixa e também pelo dedilhado de guitarra comumente encontrado em Ed O’Brien. É válido mencionar também “The City of the Sun”, é uma mensagem (crítica) a Natal, estruturalmente falando — quando diz: “All the traffic at the bridge” ou “all the sick people in hospital halls” —, socialmente — “I was squared between the young folks / Lost in a sad beach of illusions” — e poeticamente — “it’s always raining in the city of the sun”.

É necessário, por fim, dizer que não é só em Natal, não é só no Brasil, não é só na América Latina que acontece parcialidade no ramo musical (e também não é só na música!). Enquanto houver uma indústria, haverá desigualdade. Contudo, fico feliz que exista a marginalidade, o outro lado da ponte. Acredito que Luan Bates é um excelente exemplo de como se desenrolar diante desse cenário: com criatividade, muito suor e muita coragem. 

Façam de Bates um exemplo. Apoiem a cena local. É isto.

OUÇA: “Manu”, “You Are Free”, “This Weight”

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