KIDS SEE GHOSTS – KIDS SEE GHOSTS


De certa forma, a junção das mentes de Kanye West e Kid Cudi em um álbum até faz sentido. Os dois saíram de uma fase aclamada por público e crítica para experimentar com elementos que fogem do padrão mainstream do hip hop e obtiveram respostas mistas devido a toda loucura envolvida no processo de criação de seus trabalhos, tornando-os mais difíceis de digerir para quem já estava acostumado com a acessibilidade de álbuns como My Beautiful Dark Twisted Fantasy e Man On The Moon I/II. De outro lado, parece que um collab entre os dois é uma forma deles se ajudarem a sair de posições complicadas, sendo que enquanto um deles luta contra a reação negativa da mídia sobre sua personalidade volátil e suas falas polêmicas, o outro tenta atrair a confiança do seu público de volta depois de desastres como a mudança brusca pro grunge no álbum Speedin’ Bullet 2 Heaven.

Então, nesse ponto, KIDS SEE GHOSTS é quase terapêutico. É um esforço em conjunto para exorcizar certos demônios que cercam a vida dos dois e, ao mesmo tempo, humanizar essa figura intocável de rappers de sucesso que acham que não existem consequências pros seus atos. Se o Cudi já tinha esse teor confessional em suas músicas anteriormente, aqui ele incentiva o Kanye a mostrar esse lado mais frágil em faixas como “Reborn” e na faixa título, que tocam em temas como depressão e essa luta contra seus problemas com um teor espiritual, demonstrando melhor a relação dele com sua fé. É uma forma de tentarem se libertar de suas próprias limitações (o que fica bem na cara na música “Freeee (Ghost Town Pt.2)”)

Mas não é só líricamente que os dois combinam bem. O álbum dá certo pois a mistura do ego inflável e produção majestosa do Kanye e a melancolia influenciada por rock do Kid Cudi resulta em uma sonoridade psicodélica, suja e, principalmente, injeta novos ares necessários em um gênero saturado pelas suas últimas tendências. O sample de uma demo do Kurt Cobain em “Cudi Montage”, por exemplo, é tudo que as tentativas do Cudi de misturar rock e rap deveriam ser. E o melhor de tudo isso é que apesar da carga emocional desse trabalho, também parece que eles estão se divertindo ao fazer essas músicas. Momentos como os ad-libs insanos do Ye em “Feel The Love”, o refrão cômico de “Freeee” e o uso genial de um sample de uma música de natal pra construir todo o beat de “4th Dimension” mostram que é possível misturar insanidade, experimentação e acessibilidade pop sem perder o fator diversão no meio do processo.

E o resultado final é que Kanye e Cudi são duas personas que se complementam e que tiram o melhor um do outro. KIDS SEE GHOSTS é um aperto de mão, um gesto para tirar um ao outro do buraco onde ambos se encontravam, mostrando ao mundo que esses dois ainda são capazes de fazer algo relevante, diferente e palatável para todos os públicos. E se as coisas ruins que aconteceram nos últimos anos nas carreiras desses dois eram necessárias pra esse álbum ser criado, podemos resumir tudo isso em um provérbio popular: “Há males que vem para o bem”.

OUÇA: “Cudi Montage”, “4th Dimension” e “Feel The Love”

Leave a comment

Please be polite. We appreciate that. Your email address will not be published and required fields are marked