Janelle Monáe – Dirty Computer


Pirulitos, roupa de couro, homens, mulheres, vaginas, Tessa Thompson, trono. Insuficientes são as palavras capazes de descrever o álbum visual de Janelle Monáe, Dirty Computer (2018). No terceiro de sua carreira, Janelle faz um tributo à liberdade. Liberdade como mulher, negra e queer. Liberdade que exige luta, vulnerabilidade e esperança.

“Dirty computer, walk in line

If you look closer you’ll recognize

I’m not that special, I’m broke inside”

Com essa estrofe, Janelle abre Dirty Computer. Pela primeira vez, a cantora não faz uso da personagem androide Cindi Mayweather, introduzida em seu primeiro lançamento, em 2008. Apesar de manter a estética futurista presente desde The ArchAndroid (2010), Janelle deixa a figura de androide, ou melhor assume para ela mesma essa figura simbólica, em uma jornada de autoconhecimento e aceitação.  A metáfora do computador sujo, quebrado é uma alusão a como a sociedade e a própria artista se enxergava – a margem da normalidade branca heteronormativa.

Esse disco, quase manifesto, não é apenas seu coming out (e declaração de amor a Tessa Thompson para aqueles que acreditam no amor), mas também a afirmação de seu lugar como artista. Como disse em entrevista a Rolling Stone, as músicas são o reconhecimento de como lidar e aceitar o que significa ser um dirty computer. É sobre sofrer racismo, machismo e homofobia pela primeira vez.

Divulgado em conjunto com um filme, batizado por Janelle como uma “emotion picture”, o álbum visual Dirty Computer traz a história de uma sociedade distópica, onde seres considerados “fora da norma” são computadores sujos. E como tudo que foge da norma em uma sociedade constantemente vigiada e sitiada, precisa ser normalizado, pasteurizado, assim, esses computadores sujos passam por uma limpeza de suas memórias. E cada uma dessas lembranças é uma música, uma experiência “freak”, considerada “fora da lei”. Nem que o crime seja se amar.

Em muitas faixas, Janelle opta por retratar as injustiças que mulheres negras sofreram e sofrem na Era Trump, colocando o orgulho nos holofotes e não o sofrimento. O hino pop, “Crazy, Classic, Life” é um bom exemplo. Em  “Django Jane”, a abordagem é a ainda mais forte. Um rap ou seria o mais novo hino mundial feminista? Ah e não esqueçam: Let the vagina have a monologue.

Desde do lançamento do videoclipe de “Django Jane”, seguido por “Make Me Feel”  e “Pynk”, a comunidade queer foi a loucura, conspirando sobre a possível sexualidade da Janelle, mas principalmente por sentirem-se representados em produto cultural (algo bem raro). Resta questionarmos se a indústria pop está disposta a dar espaço para mulheres negras. Ouvir Dirty Computer é muito menos sobre analisar a qualidade técnica do álbum e sim se perguntar o que significa uma mulher negra e queer fazer um álbum pop em 2018? Ela vai conseguir ocupar os mesmos espaços que artistas brancos? Aqui o conceito de superestimado ou subestimado passa antes pelo prisma racial de uma sociedade branca. Será que se a Taylor Swift cantasse “Pynk” o sucesso seria maior?

O objetivo de Janelle Monaé com Dirty Computer era mostrar para jovens, gays, bisexuais, trans, não binários, negros, que se sentem errados, sujos em afirmar a sua sexualidade, em lidar com a sua identidade que ela está lá, que ela nos vê e sente orgulho.  E essa jornada como um dirty computer não vai ser fácil. Vamos ter medo até de amar, mas podemos ter certeza que nunca estamos sozinhos. Caso esse sentimento surja na bad solidão domingal, recomendo ouvir esse álbum.

OUÇA: “Django Jane”, “So Afraid” e “Pynk”

0 Comments

Leave a comment

Please be polite. We appreciate that. Your email address will not be published and required fields are marked