Ibeyi – Ibeyi

ibeyi

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Acende um cigarro. Não, acende uma vela. Também não. Luz, é. Ao piano, alguém toca um fá sustenido. Inexpresso, a música ainda não começou, veja. Em música isto se faz pra que num cenário musical sem afinações fixas como é um duo vocal (ou qualquer conjunto vocal), haja concordância de vibrações. As que você ouve agora são duas mulheres, duas meninas, irmãs. Se intitulam Ibeyi, em Yoruba (vide Nigéria) diz-se ser o espírito existente numa conexão entre gêmeos. Elas são gêmeas. Mas cubanas e em Paris. Eu as escuto em Brasília. E você?

A faixa atende pelo nome de “Eleggua (Intro)”. Ou, Eleguá. Eleguá é uma das deidades da Iorubá, sincretismo com Santo Antônio de Pádua. Eleguá é o dono dos caminhos, o início e o fim, são dele. Travesso e infantil, é poderoso. Essas meninas são filhas de um homem chamado Miguel “Angá” Díaz, você deve conhecê-lo dum tal de Buena Vista Social Club. Esta família vê raízes na Regla de Ocha, ou Santería. Essencialmente sincretista, semelhante ao nosso Candomblé. De influências riquíssimas, do cristão às religiões animistas africanas, popular em Porto Rico, em República Dominicana, entre outros.

A medula do duo é também dualidade, uma percussão que convence, e as vozes das moças, persuasão vocal de primeiríssima. Veja você que coisa mais deliciosa esta, o tambor, o atabaque são evocativos ao transe de incorporações de orixás. E a voz, a voz acalenta tudo, traz humanidade e afeto, proximidade, divindade terrena, a mãe próxima. Mas estas meninas, ó! Estas meninas misturam esta genial e pegajosa e frenética riqueza e agregam o que entendem de jazz. E não só jazz. Mas jazz, soul, hip-hop e umas coisas eletrônicas meio downtempo. Evocativo, profundo, quase covil. Dum turvado adocicado é o que resta em formato de 15 faixas.

A instrumentação harmônica do disco, não a vocalização, soa um tanto mais ou menos. Os pianos restam pouco para quase nada brilhantes, por mal exemplo. A quantidade reduzida de coisas acontecendo nas faixas é apreciável, mas em tais condições, é desvalorizada a paisagem musical. Quando sintetizado, o som resulta convincente, cativante.

Elas são bem intencionadas, o talento resta, mas falta algo. Um perfeccionismo, uma teimosia, uma clareada. (Menos faixas, inclusive, quinze é coisa à beça, um tanto fica por descartável). Mas vem cá, pra um debut, tá bem demais pra quase menos. Se posso dizer algo, já tendo dito um montão, menos Lorde e mais candomblé, moças d’ouro.

OUÇA: “Eleggua”, “Ghosts” e “Think Of You”

Pianista e compositor de Brasília youtube.com/arturosampaio

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