Godspeed You! Black Emperor – Luciferian Towers


Eu sempre achei um pouco irônico que uma banda com posicionamento político tão radical como o Godspeed You! Black Emperor fizesse música instrumental, fugindo da banalidade da língua, deixando ao ouvinte a possibilidade de imaginar e criar significados; afinal, o esperado é que aproveitassem as letras para “passar a mensagem adiante”. No entanto, seus discos são sempre compostos por artes, textos e comentários que deixam bem claro a visão de mundo da banda, e que sugerem um viés significativo das canções. O press realease de Luciferian Towers por exemplo pede:

“o fim de invasões estrangeiras. o fim de todas as fronteiras. o total desmantelamento do sistema prisional-industrial. plano de saúde, moradia, comida e água reconhecidos como direitos humanos inalienantes. que os filhos da puta que quebraram o mundo nunca voltem a falar.”

Se você tem um conhecimento, mesmo que mínimo, de Godspeed, somando ao nome do álbum, era de se esperar que este mais recente lançamento chegasse mandando tudo pelos ares, da primeira à última faixa. Ledo engano. Esqueça os riffs apocalípticos que marcaram os álbuns anteriores (principalmente os últimos dois). Esqueça também aqueles minutos de falsa calmaria que antecediam o estrondo. Estamos diante do álbum mais melódico e positivo da banda em sua história.

O que percebemos ao longo das faixas é uma colisão entre precisão e caos, com momentos obscuros sendo pontuados pela beleza de uma única melodia que vai crescendo em velocidade e peso ao longo de sua duração, mas que nunca atinge a fúria que caracteriza sua discografia. Talvez seja o disco mais consistente do Godspeed, com oito faixas sendo distribuídas em 44 minutos – para se ter uma ideia Allelujah! Don’t Bend! Ascend! (2012) possui quatro faixas e 53 minutos de duração. A banda segue construindo climaxes mas que não mais terminam em explosões catárticas, as quais emprestavam uma carga dramática às composições.

É interessante ver a capacidade técnica da banda fazendo algo mais simples, “limpo”. Assim como é curioso que, conhecendo o posicionamento anti-capitalista da banda (e o atual contexto político internacional), tenham escolhido uma nova direção, que aponta para a esperança e a reconstrução. Enfim, eu sinto falta da fúria.

OUÇA: “Undoing A Luciferian Towers”, “Bosses Hang, Pt.1”, “Anthem For No State, Pt.1”

Eu anoto todos os discos que ouço. Você também? Massa, me manda em pdf.

Leave a comment

Please be polite. We appreciate that. Your email address will not be published and required fields are marked