Gang of Four – Happy Now



Os veteranos do Gang Of Four retornaram à cena com seu mais novo álbum, Happy Now, sucessor de What Happens Next (2015), lançado pelo selo alternativo do frontman Andy Gill. Happy Now, em contraste com seu antecessor, é um álbum eminentemente político por meio do qual o grupo inglês reflete sobre os principais acontecimentos da presente época: Brexit, Trump, pós-verdade e a persistente distribuição de renda ao redor do mundo.

Happy Now dificilmente representa um retorno à sonoridade pela qual o Gang of Four se tornou conhecido nos anos 80, uma sonoridade marcada pelos clássicos riffs funkeados de guitarra, linhas de baixo alucinantes e batidas pesadas e cruas de bateria, o que os tornou expoentes no que se convencionou chamar de pós-punk. Ao contrário, o álbum explora em quase toda sua extensão uma espécie de eletropop misturado com pitadas de rock industrial, recheado de sintetizadores, vozes sampleadas, drum machines e efeitos sonoros.

A sonoridade das faixas é vívida e animada, mas nem por isso deixam de ser sombrias, cruas e intensas; contudo, as faixas são interessantes, não repetitivas e envolventes.

A razão para isso reside no fato de que a formação atual grupo parece estar em maior sintonia do que no disco anterior (desde 2013, Andy Gill, o único remanescente da formação original, vem testando novas formações para o grupo) e Happy Now pode ser visto como um ponto importante para o “longo retorno” do grupo.

As letras das faixas tratam dos acontecimentos políticos da presente época. Em “Alpha Male”, o grupo critica o presidente estadunidense Donald Trump e os escândalos que acompanham seu governo (inclusive, um dos quadrantes da capa do contém o rosto do presidente) e até sampleia sua voz em alguns trechos; em “Ivanka: ‘My Names On It’”, a crítica se estende à esposa de Trump e ao resto da família do presidente, que são símbolos dos cúmplices e testemunhas coniventes de um governo marcado por escândalos, desmandos e violação de direitos. “I’m A Liar” e “White Lies” nos trazem reflexões sobre a natureza da verdade e como sua importância tem sido relativizada nos grandes territórios de embate político, notadamente as redes sociais.

Happy Now não é exatamente o expoente da arte de protesto de nossos tempos, mas representa um trabalho tematicamente interessante e sonoramente consistente de uma banda que sempre foi marcada por boas e ácidas críticas aos tempos em que esteve inserida. O mais novo trabalho da banda é louvável por não se silenciar diante de catástrofes políticas e sociais que ainda nos assolam e por nos mostrar que a música é um instrumento vital de resistência.

OUÇA: “Alpha Male”, “Change The Locks” e “White Lies”

Um rapaz latino-americano apoiado por mais de 50 mil manos.

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