Dona Onete – Rebujo



Dona Onete lança o seu terceiro álbum de estúdio e torna ainda mais difícil para o seu público a tarefa de escolher um favorito. Desde os seus sessenta e poucos anos, a quase octogenária artista não trai as raízes que nutrem o seu estilo e através dos ritmos paraenses segue fazendo sua festa e contando suas histórias, mas nunca com o peso de soar repetitiva. Escutar as 11 faixas de Rebujo é prestar audiência a uma sabedoria popular que é, ao mesmo tempo, secular e cotidiana disposta em timbres orgânicos e modernos.

Em seu último lançamento, a artista apresenta uma variedade rítmica ainda mais abundante. Elementos do brega paraense, da batucada de terreiro, da cumbia latina, da guitarrada, do bolero, do swing, entre outros, engrossam o caldo da mistura carimbolesca que a artista faz. “Festa De Tubarão” é o single deste disco. Tem a cara do carnaval de rua. Marchinha animada e ornamentada com flores de jambu e cheiro de tucupi, é fácil de cantar e tem sua cota de duplos sentidos. Assim como os hits “Jamburana” e “Banzeiro”, essa faixa é forte candidata a fazer o gosto popular. No entanto, outras músicas também fazem sua campanha à conquista de ouvintes, é o caso de “Mistura Pai D’égua”, “Fogo Na Aldeia” e “Balanço Do Açaí”.

Nesta última, a guitarra confere à faixa uma densidade rockeira que não se faz ruidosa, mas aumenta a tensão do contexto das inconveniências da colheita do açaí. Ainda na primeira faixa, “Mexe, Mexe”, é possível identificar elementos rítmicos do funk que reforçam o atestado de saliência da Rainha do Chamego. Já em “Musa Da Babilônia”, com a participação de BNegão, o ritmo popular paraense conversa com o samba carioca para exaltar a beleza não de uma garota de Ipanema, mas de uma sereia do Leme, “negra, negra, negra, negra”.

Em “Mexe, Mexe” e “Vem Chamegar”, enquanto convida à dança, Dona Onete faz mistério quanto a essa substância que se produziu em solos amazônicos a partir da miscelânea histórica, isso que é “coisa de branco/de índio e de negro”. Esta temática se faz presente, seja como figura ou fundo, ao longo de todo o álbum. Além disso, ela que é a rainha do assunto, ainda encontra espaço para dar provas do seu chamego, disso que resulta da riqueza cultural e folclórica que banha a artista e o Pará, e que se estende por onde passam os rios dessa terra.

Se por um lado a presença de significantes como “cacuri”, “juriti”, “iraúna”, “suí”, “tucandeira”, “tracuá”, representa uma referência identificatória para os nortistas, por outro, instiga aqueles que não estão familiarizados com o termo. A experiência de ter o toque da palavra desconhecida nos ouvidos se traduz em outra força atrativa ao disco. A novidade é sempre excitante e levanta questões: “que diabo é ‘rebujo’?”.

Rebujo é o movimento que faz subir aquilo que se assentou no fundo das águas, voltando à superfície. Pode-se dizer que é nisso que reside a sua popularidade e o sucesso do trabalho da artista. Ao exaltar as delícias rítmicas concebidas no Norte, ao cantar a cultura popular e cotidiana dos paraenses, ao construir cenários de bregas românticos, sempre usando o abastado dialeto dessas terras, Dona Onete está no front dos artistas que se dispõem ao resgate da musicalidade folclórica e regional e conta com uma gama de músicos talentosos para construir seus arranjos, incrementando estilos e ritmos que conferem robustez sonora. No entanto, isso também pode ser interpretado, do ponto de vista criativo, como uma repetição da forma; interessante enquanto novidade, mas extenuante em sua continuidade prolongada.

Assim, embora o disco seja recheado de boas e marcantes faixas, há também aquelas que passam, e só. Convido o leitor a escutar o disco e identificar por si quais são. Mesmo que possa haver divergências críticas quanto ao valor da obra de Dona Onete, dificilmente ocorrerá um debate a respeito disso em meio à folia das ruas, mais fácil seria se jogar na bagaceira. Enfim, fato é que, mais uma vez, esta senhora faceira nos mostra sua habilidade em condensar suas referências musicais com as profundezas de sua origem, construindo uma identidade artística sincera na medida em que é tradução da identidade de Ionete Gama, a professora aposentada. Ela é o que ela canta.

OUÇA: “Festa Do Tubarão”, “Balanço Do Açaí”, “Ação E Reação”

1 Comments

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