Club 8 – Golden Island


Em 1962, Aldous Huxley publicou aquele que viria a ser seu último livro, A Ilha, narrativa utópica que nos apresenta Pala, uma ilha isolada e ainda preservada da sanha neocolonialista. Nesse atol paradisíaco, homem e natureza se encontram unidos em prol do bem-estar comum, não se estabelecem hierarquias sociais, e todos os indivíduos são felizes e convivem em harmonia. Diferentemente de Admirável Mundo Novo, romance no qual a droga soma proporciona instantes de êxtase sintético em uma sociedade esfumaçada, industrial e disfórica, Huxley propõe a existência de um mundo justo, por meio de diálogos filosóficos acerca de questões inerentes ao ser humano, como amor, sexo, liberdade, vida e morte.

Golden Island (2018), décimo álbum de estúdio do duo de synth pop sueco Club 8, poderia muito bem servir como trilha para os habitantes dessa ilha exuberante concebida por Aldous Huxley. Não apenas pelo paralelismo semântico dos títulos das duas obras, mas porque Golden Island também transporta o ouvinte para um arquipélago aquecido, metálico e repleto de sons do contemporâneo.

Formado pelo programador e multi-instrumentista Johan Angergård e pela vocalista Karolina Komstedt, o Club 8 chega com bagagem, ao final dessa década. Contabilizando 22 anos de carreira, a dupla sueca sobreviveu à sismologia cultural e tecnológica que transformou a indústria musical nos últimos dezoito anos: da crise das majors ao avanço das gravadoras independentes à Internet, do compartilhamento de arquivos aos serviços de streaming, componentes que reconfiguraram a maneira como as pessoas consomem música. Assim, protegidos dos solavancos mais bruscos da indústria pela bolha indie, a banda lança agora seu décimo trabalho de estúdio, sucessor de álbuns como Nouvelle (1996), The Boy Who Couldn’t Stop Dreaming (2007) e Above The City (2013).

Golden Island nos transporta através de um amontoado de sensações oníricas e rarefeitas, calcadas em cores quentes e luminosas. “Swimming With The Tide”, faixa que abre o álbum dando boas vindas ao visitante dessa ilha paradisíaca, se desenvolve progressivamente em um punhado de beats orgânicos e sumarentos, pontuados por synths petulantes, e acompanhados por um fraseado de acordeão. Calor, contemplação e sensualidade permeiam a primeira faixa. “Breathe” dilui-se em um background de sons oceânicos, enquanto teclados gotejam sobre uma base eletrônica noir, com o vocal sussurrado de Karolina Komstedt amarrando todo o conjunto.

A instrumental “Pacific”, com seu recorte Brazil 66 e ambiente music, traz sons marinhos e de pássaros, espalhando uma textura filigranada de pó dourado no ar. Já o teclado barroco-litúrgico de “Got To Live” nos remete à capa do álbum, uma montagem sobre Vanity, tela algo klimtiana do pintor inglês Frank Cadogan Cowper, uma espécie de madona da contracultura, pairando onipresente sobre essa ilha espectral. Golden Island proporciona ainda bons momentos, na mística “Touch You”, ou fechando muito bem com a crepuscular “Silence”, uma das melhores faixas do álbum.

Apesar de irregular na qualidade das faixas (“Lost” e “Fire” são bastante esquecíveis), a sensação final é a de um álbum correto, redondo e objetivo em sua proposta. Contrastando ao purgatório da beleza e do caos que é a ilha proposta por Björk em Utopia (2017), último trabalho da islandesa, Club 8 e seu Golden Island  desejam apenas que relaxemos, estirados numa rede, usando chinelos e atentos aos sons do oceano e da existência. De preferência em uma sociedade igualitária, como o mundo imaginário idealizado por Huxley.

OUÇA: “Swimming With The Tide”, “Breathe”, “Pacific” e “Silence”.

Professor e pós-graduando em Estudos Literários (Mestrado) pela UNESP. Capricórnio com ascendente em Escorpião e Lua em Câncer. Erudição e cultura pop: não são estanques pra mim. Literatura, cinema, Björk, plantas carnívoras, poesia contemporânea, música de vanguarda, sessão de análise, geologia, sorvete de chocolate, existencialismo, filmes indie da Hungria, teremins, amor, sexo e sonhos ridículos de todo tipo são algumas das coisas que eu mais gosto.

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