Chet Faker – Built On Glass

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Nicholas James Murphy, vulgo Chet Faker, chega com um recado em seu primeiro álbum: quero te conquistar. E podemos adiantar que o prometido é feito. O músico australiano, experiente com produções, mostrou em 2012 com seu primeiro e único EP (Thinking in Textures) tudo o que era capaz. Com apenas 22 anos na época e uma voz marcante, a banda de um único homem mostrou que era muito mais do que o hype de sua barba avantajada, e com seu primeiro trabalho já foi notado. Em 2014, com Built On Glass, ele concretizou seu nome na música e provou que R&B, Soul, Jazz e a mesa de mixagem podem sim existir juntos.

O álbum, claramente construído de forma simétrica, tem em sua ordem musical o perfeccionismo de uma noite agradável. Uma boa bebida, uma boa conversa, uma boa companhia. Release Your Problems, faixa que abre o álbum, começa com um doce piano, que não só é uma introdução para a música, mas sim um pedido de licença para invadir seus pensamentos. Cortando abruptamente com sua voz cerrada, o australiano inicia colocando a postos não só a qualidade sonora, mas também a capacidade de compor belas letras, cheias de melancolia, sensualidade e sofrimento, tendo ele mesmo sempre como protagonista.

Nesse ritmo gradativo, o disco vai ganhando pouco a pouco o ouvinte, instigado por diferentes referências musicais, misturados a um leve toque eletrônico. E quase como em uma conversa, um mundo de possibilidades é aberto ao ouvinte em Talk Is Cheap, que mesmo sendo apenas a segunda música do álbum, ganha a qualquer um. Nicholas usa de algumas pontes no decorrer do álbum, sendo elas pequenas produções musicais ou trechos de sua voz, como em No Advice. Música que antecede Melt, e tem participação de Kilo Kish, que com muita sutileza beira o hip hop. Toda qualidade da rapper americana é colocada em dosagem certa na música, que mesmo com a força da voz de Nicholas, não teve a delicadeza de sua voz perdida na canção.

As canções seguem com deliciosas batidas, que mesmo sendo tão únicas e peculiares, não abandonam a identidade de Chet Faker. Na sétima faixa, entitulada /, se encerra o lado A do disco, com Nicholas pedindo pra você relaxar ainda mais para a segunda parte. Segunda parte essa, que por pouco não se perdeu do resto do disco. Blush, primeira música desse lado B carrega toda atmosfera musical que é possível apreciar de início. Porém, as que se seguiram tomaram diferentes rumos, que apesar de não serem ao todo ruins, desfocaram do R&B/Soul/Jazz/Eletrônica que estávamos apaixonados, tomando cada uma sua própria identidade e não tendo uma forma homogênea ao ouvi-las seguidas umas das outras.

Encerrando de forma não tão incrível quanto sua introdução, Chet Faker mostra um primeiro trabalho repleto de paixão, qualidade musical, e boa produção. Pode agradar dos ouvidos mais críticos até as pessoas que só querem um bom álbum para ouvir em suas atividades. Mesmo com suas falhas de identidade em seu lado B, o disco tem seu merecido lugar na música. Falhas essas que são quase esquecidas quando se lembra que o australiano é um novato no mercado, com apenas 24 anos. Com certeza, Built On Glass será bastante memorado no futuro brilhante que acompanharemos do rapaz. Mas lembre-se: se quiser embalar uma noite romântica, é melhor parar de ouvir o álbum em Blush. Ou você e sua(seu) parceira(o) correm sérios riscos de terminarem a noite brochados.

OUÇA: “Release Your Problems”, “Talk is Cheap”, “Melt” e “Gold”.

Designer que acha que entende de música e conhece uns loucos que o deixam opinar sobre. Tem Radiohead como religião.

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