White Lies – Five


Tocar uma composição clássica (ou que soe assim) em sintetizadores não é uma novidade. Wendy Carlos já fazia isso com suas versões de Bach e até mesmo o MGMT fez algo assim em Little Dark Age. Mas, se essa banda parecia querer emular os cravos com um ritmo mozartiano, White Lies se apropriou de uma estética totalmente distinta em “Time To Give”, faixa que abre Five, o (aptamente intitulado) quinto álbum da banda. Aqui os sintetizadores se aproximam mais de órgãos tocando uma fuga grandiloquente. É um ponto chave da canção e o mais próximo que a banda chega de transmitir sensações de êxtase em uns bons anos. Embora o recurso a uma sonoridade que reconfigure a música clássica não se restrinja a essa canção, não é utilizado em excesso, mas caracteriza muito bem o estilo e a emoção por trás de todo esse álbum.

Não é esse o único fantasma do passado que assola Five. Já há alguns discos White Lies vem se tornando cada vez mais dependentes da capacidade de seu vocalista. Se, no seu debute, há dez anos, a estética era completamente pós-punk, agora a comparação que não pode ser escapada é a com outras bandas focadas em crooners como McVeigh parece convencido a se tornar. É verdade que os vocais sempre foram uma parte importante da identidade da banda, seja por sua emulação do pós-punk ou por seu tom grave ressaltado. Mas, se em To Lose My Life o foco dos vocais parecia ser transmitir as letras, agora isso é deixado em lado em prol de uma utilização da voz por ela mesma. O que não é algo ruim, mas faz com que sintamos falta de músicas com as quais possamos cantar junto. Alguns dos melhores momentos de Five são justamente esses, quando sentimos vontade de entrar junto ao refrão. Ou aqueles em que a riqueza de camadas sonoras nos faz como que flutuar no espaço. Essas são duas características quase impossíveis de serem combinadas.

As tentativas de unir ambições tão distantes, assim como o recurso a estéticas passadas (seja no instrumental clássico ou nos vocais de big band) fazem com que Five seja uma obra profundamente pós-moderna. E fazem também com que o White Lies esteja o mais distante que já esteve de suas referências no pós-punk, ao mesmo tempo que abraçando uma melancolia ainda mais pronunciada. A euforia dançante que marcou trabalhos anteriores da banda raramente encontra espaço aqui. Difícil é só saber se isso acontece por acidente ou por uma maturidade inevitável. De modo geral, no entanto, é um álbum bem balanceado, que dificilmente desagradará quem gostou da produção da banda a partir de Ritual. Talvez fique aquém do debute, é verdade, mas quantas bandas são capazes de sobreviver a uma comparação do tipo? E, por outro lado, as composições de Five são bastante acessíveis, fáceis mesmo de ouvir.

Lembro de ter ouvido a banda tocando para um palco ainda quase vazio no Festival Planeta Terra, o primeiro que fui, tendo me mudado pouco antes para uma cidade onde poderia conferir as bandas que gostava. A banda alternava hits do primeiro álbum e músicas então recém-lançadas do segundo, o que fazia com que dançasse uma e parasse na outra. Acho que, em um show atual da banda, a quantidade de tempo parado seria muito maior.

OUÇA: “Time To Give”, “Tokyo” e “Jo?”

2016: Best Albums (Henrique)

10 | ÉLÉPHANT – Touché Coulé

Particularmente fico muito feliz quando descubro bandas novas e interessantes do nada, caçando por vídeos do YouTube recomendações musicais que possam soar interessantes à primeira batida de olho. O Éléphant, assim mesmo, com dois acentos agudos, foi uma delas. O duo francês lançou o segundo álbum Touché Coulé no começo do ano e o amor veio logo na primeira batida da música título. Batidas cativantes, uma cantoria no estilo palavra-cantada e uma sinergia bastante nítida entre os dois são os elementos principais que fazem desse registro do Éléphant uma pérola perdida nos baús das descobertas musicais que deveriam ser feitas por mais gente e com maior constãncia. Touché Coulé reúne elementos de pop francês, batidas eletrônicas casando perfeitamente e um jogral de vozes que serve como uma luva em cima de tudo isso.

OUÇA: “Touché Coulé”, “Respire” e “Pas D’Idées”

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09 | MIIKE SNOW – iii

Depois do desastre de Happy To You em 2012 e de um hiato indefinido no ano seguinte, cheguei até a pensar que o Miike Snow tinha desistido dessa carreira musical e embarcado em outras tarefas. Para minha surpresa, quando “Heart Is Full” apareceu como primeiro single desse terceiro álbum, o Miike Snow apareceu com um ar mais revigorante. O lançamento de “Genghis Khan” aumentou essa expectativa e, finalmente, com o lançamento de iii tudo se confirmou. Os suecos tinham voltado com força total depois dessa pausa e retomavam a carreira como se nada tivesse acontecido entre o primeiro excelente álbum e esse. iii tem participações bem colocadas, um casamento perfeito entre a voz de Wyatt e as batidas como estávamos acostumados a associar quando o assunto era Miike Snow, retomando todo o primor técnico e bem alinhado costumeiro para a banda.

OUÇA: “My Trigger” e “Genghis Khan”

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08 | MAHMUNDI – Mahmundi

O que falar sobre a alegria que é ouvir Mahmundi? Acho que um parágrafo não é suficiente para falar do poder que as palavras cantadas, ritmadas e poeticadas (sic) por Marcela Vale possuem. O primeiro disco da carioca é um retrato perfeito e jovial do Brasil e, principalmente, do RJ atuais. Uma atmosfera oitentista misturada com ares de praia e frescor embalam as canções que nos remetem a cenários paradisíacos e distantes. A viagem provocada pela voz fresca e leve de Mahmundi são peças essenciais para o registro e num mundo praticamente fechado para mulheres fortes e de presença como Marcela conseguirem progredir com seu talento e avançar para conquistar carreiras mais sólidas, Mahmundi acaba sendo um sopro de boas fortunas e bons sentimentos.

OUÇA: “Hit”, “Eterno Verão” e “Calor Do Amor”

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07 | PETITE MELLER – Lil Empire

Lil Empire é um título bastante apropriado para o universo criado pela peculiar Petite Meller dentro de seu primeiro registro de estúdio. A aclamada francesinha criou uma personagem de face empoada e bochechas rosadas com sua própria tribo e com um espírito aventureiro, numa tentativa de buscar seu lugar no mundo. O título do álbum é apropriado justamente por esse fator wanderlust que permeia boa parte das canções, questionando a nossa existência e o nosso local no mundo, nossas interações sociais e nossos costumes. Lil Empire, no fim, pode ser considerado uma coleção poderosa de registros de viagens sonoras que lembram lugares reais (os clipes são grande aliado para entender o que a própria Petite imaginou para suas canções transcontinentais). Em pleno 2016 nos imaginamos num império particular da francesa, bastante convidativo e que oferece uma boa música para acompanhar essa paisagem.

OUÇA: “The Flute”, “Baby Love” e “Barbaric”

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06 | FITZ AND THE TANTRUMS – Fitz and The Tantrums

O terceiro registro do Fitz and The Tantrums tem um gostinho de primeiro álbum. Além de ser autointitulado, o registro traz um ambiente com cheiro de novidade para os rumos que a banda tinha trilhado até então. A banda distanciou-se totalmente da pegada soul pop que fazia nos primeiros dois registros e focou sua energia em uma batida mais dançante e eletrônica, mas ainda assim conquistadora. O álbum é animado, possui letras chiclete e serve muito bem pra esse propósito de música fácil de ser ouvida, digerida, processada e proferida. Às vezes tudo que precisamos é de uma letra rápida e certeira em cima de uma batida bem trabalhada para sermos conquistados em cheio – e esse é o caso desse álbum.

OUÇA: “HandClap”, “Complicated” e “Roll Up”

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05 | THE TEMPER TRAP – Thick As Thieves

Ponderei muito antes de considerar esse álbum para essa lista quando estava montando a mesma. Assim que o álbum do Temper Trap saiu no começo-meio-do-ano eu tive um clique de quão genial ele era e quão bem colocado na carreira da banda ele aparecia. Depois de um tempo, com outros álbuns interessantes saindo e novas bandas aparecendo, ele acabou ficando pra escanteio e aí que veio a dúvida de se realmente ele deveria estar numa lista de melhores. E eu penso que é nessa dúvida de quão bom ele é que reside boa parte da genialidade de Thick As Thieves. O disco aparece num momento posterior ao apogeu da banda com o disco intenso e político de 2012 e demonstra uma destreza e maturidade impressionantes para os australianos que aqui acabam fazendo músicas mais sucintas, simples e diretas. A dúvida vai embora quando você percebe que são essas nuances que fazem de Thick As Thieves, permeado por guitarras poderosas e um resgate da essência lá do comecinho da banda, um álbum significativo tanto para eles quanto para esse ano.

OUÇA: “Riverina”, “Burn”, “Fall Together” e “Alive”

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04 | BLOC PARTY – HYMNS

Acho que se existe uma banda daquela meia-década dos anos 00 que sofre muito com as diferenças entre o som passado e o som atual essa banda, sem dúvida, é o Bloc Party. HYMNS é o quinto álbum da banda e a crítica e os “antigos fãs” ainda insistem em apontar e rasgar desabafos de quão bom era o Silent Alarm e de o quanto a banda possa tentar e nunca vai conseguir se igualar àquilo. Cabe o questionamento: será que a banda realmente quer resgatar esse som que fez eles estourarem nas paradas especializadas lá nos idos dos anos 2000? Eu diria que não e é nesse ponto que HYMNS entra muito bem. O grupo passou por uma reformulação gigantesca e ainda está aí, bem das pernas, trabalhando em músicas excelentes e uma musicalidade sempre com ar de novidade, apesar da falta de apoio da crítica. A NME que adorava o Bloc Party está mais ocupada em fazer testes do quanto você conhece sobre o Arctic Monkeys e deixa passar músicas com letras brilhantes inseridas aqui nesse registro. O maior alicerce de Okereke e companhia nesse disco acaba sendo esse nível extraordinário ao juntar melodias já intensas com letras ainda mais intensas. HYMNS é mais um tiro certeiro do Bloc Party que, apesar de ser essa metamorfose ambulante, acaba construindo uma carreira bastante consolidada nesse meio musical cruel.

OUÇA: “The Love Within”, “Only He Can Heal Me”, “Virtue” e “Living Lux”

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03 | PAPA – Kick At The Dust

Curioso como com apenas um registro de estúdio uma banda passa a fazer diferença em sua biblioteca. O PAPA passou de uma simples coadjuvante para banda principal. Kick At The Dust é o segundo álbum de uma daquelas bandas que você tem escondida e empoeirada e ouve de vez em nunca, mas que de repente lança um álbum incrível e começa a fazer parte da sua vida cotidiana. Aconteceu isso com outras bandas e esse ano aconteceu com o PAPA, duo dos Estados Unidos, ao lançar essa belezinha aqui. Kick At The Dust é um álbum de rock clássico, com bateria pontual, guitarras bem dedilhadas, linhas de baixo potentes e uma voz peculiar que harmonizam perfeita e completamente nesse cenário. O bom é que esse cenário é mutante e as faixas, que parecem não se conversar num primeiro momento, encontram sua coesão e conexão nessa disparidade de sons e sabores, elevando Kick At The Dust a um patamar curioso nesse 2016.

OUÇA: “Hold On”, “What Good Is The Night” e “Comfort’s A Killer”

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02 | WHITE LIES – Friends

Friends, quarto disco de estúdio dos ingleses do White Lies, mostra mais um passo no desprendimento do trio em relação ao seu som original. Se há uns dez anos a banda surgia como nova esperança do post-punk, hoje em dia, com a inserção de camadas de som bastante diferentes e curiosas para o estilo anterior, acabam deixando essas características para trás e apostando forte em novas viagens. Isso não é mal e, sim, muito pelo contrário, o White Lies demonstra uma maestria em fazer música boa que chega ser difícil encontrar defeitos em seus álbuns. Num caminho natural, os britânicos continuam a trilhar um caminho de bons frutos e o lançamento de Friends não deixa de ser um deles. Cada vez mais a banda se afirma nesse nicho e acerta suas pontas para criar um som redondo, com letras inteligentes e melodias harmoniosas.

OUÇA: “Take It Out On Me”, “Is My Love Enough”, “Morning In LA” e “Swing”

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01 | CLARICE FALCÃO – Problema Meu 

Desculpe o transtorno, mas precisamos falar da Clarice e o quão genial é Problema Meu, segundo disco de estúdio da amável pernambucana. Crescida no YouTube quando o mesmo ainda nem pagava pelos seus vídeos, Falcão demorou bastante para lançar seu primeiro álbum de estúdio e, rapidamente, levou uma multidão jovial a entoar suas letras criativas, engraçadas e sádicas por aí. Quase como que num romantismo das relações interpessoais surgiu Monomania, com suas melodias suaves e poesia leve. Problema Meu volta, depois de três anos, com uma Clarice mulher feita, convicta e inserida em um contexto social muito mais interessante do que o seu primeiro álbum. As letras continuam ácidas, engraçadas e irônicas, carregadas de sentimentos mais intensos e uma ressaca de todo o melodrama passado por lá. Problema Meu é um ode à necessária independência das mulheres e um disco extremamente bem colocado no contexto sociopolítico atual. Quem ouve o disco pode até não se tocar de tamanha perspicácia da menina-mulher ao passar desapercebido por letras tão simples como “Irônico”, “Problema Meu” ou “Banho De Piscina”, mas num segundo de reflexão entende os hinos de sororidade, feminismo, atitude e independência. Com Problema Meu, Clarice Falcão passa a ancorar-se em mares não navegados e se saí muito bem nessas excursões para fora do seu lugar comum.

OUÇA: “Deve Ter Sido Eu”, “Marta”, “Como É Que Eu Vou Dizer Que Acabou”, “Banho De Piscina” e “Vinheta Mix”

White Lies – Friends

whitelies

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O que é alegria pra você?

O lançamento de To Lose My Life… em 2009, o primeiro álbum dos britânicos do White Lies, colocou eles no mesmo pacote de bandas influentes do post-punk: Joy Division, Interpol e Editors eram tidos como genitores da nova e promissora banda de Londres. O álbum tem uma atmosfera carregada típica do gênero e conquistou o mundo com a voz grave de Harry McVeigh que cabia muito com aquelas letras dramáticas e um conjunto harmônico denso.

Ao longo da carreira da banda o panorama foi mudando e aos poucos o tom mais post-punk e melódico vai sendo dissociado da figura cativa do White Lies, que hoje em dia é uma banda de proporções gigantescas. Friends, o aguardado quarto disco, é mais um passo nesse distanciamento das características que distinguiram a banda no cenário em que surgiram lá em 2007.

Acho curioso (e muito bom) que a banda tenha tomado um carinho especial para esse processo de mudança de ares e que o mesmo esteja sendo feito de maneira lenta e, assim, um pouco menos dolorosa para quem via a banda como uma insurgência do gênero há 10 anos. Os sintetizadores e as batidas mais dançantes foram sendo inseridos aos poucos e, no fundo, casaram muito bem com a proposta dos discos. Todo esse processo de se distanciar de um ritmo que dá a fama inicial para uma banda pode ser um processo de difícil aceitação pelo público que acompanha.

Dito isso, Friends é o passo natural que eu esperava após o incrível Big TV. Os sintetizadores continuam discretos e a banda dá mais um passinho na direção de um ritmo mais dançante (como anteriormente tínhamos visto em “There Goes Our Love Again”, por exemplo), colocando batidas mais propícias numa maior quantidade de faixas. A voz de Harry ainda é um instrumento essencial aqui dentro e amarra tudo de maneira muito bem feita. O White Lies é carregado por elementos típicos muito bem pontuados dentro das músicas.

No fim das contas, mesmo com toda essa mudança, o White Lies parece estar apenas expandindo seus sabores e ritmos, não mudando sua essência, passeando e divagando dentro de ritmos diferentes que cabem muito bem para eles, mas residindo dentro da mesma poesia soturna declamada por Harry que os levou tão longe. Se antes em “Death” a letra sofrida era escancarada e auxiliada pela melodia pesada, aqui em “Is My Love Enough” os questionamentos amorosos ainda estão bem presentes, mas escondidos por trás de uma aura carregada de tons sintéticos mais alegres.

Portanto, é de se admirar a estratégia do White Lies (que pode muito bem estar fazendo isso sem pensar muito) de angariar um público mais pop, conquistando com sua melodia, e não deixando na mão os fãs de longa data, fazendo isso de maneira devagar e certeira e não deixando de lado sua poesia espetacular. O White Lies está vendendo música triste como se fosse música pop!

OUÇA: “Take It Out On Me”, “Is My Love Enough”, “Morning In LA” e “Swing”