Weyes Blood – Titanic Rising



Esta foi a primeira vez que entrei em contato com a produção do Weyes Blood, projeto prolífico da americana Natalie Mering, que lançou seu debut em 2011, com The Outside Room. E o primeiro play que dei em Titanic Rising, quarto álbum da cantora, eu já pensei “ora ora temos aqui uma discípula de Joni Mitchell.”

Se você se encanta por essa estética folk anos 1970, de The Carpenters, Carole King e Cass Elliot, seja bem-vindo. Titanic Rising é um refinamento dessa estética com um ar atualizado, as prenúncias de um novo retro-futurismo já cantado anteriormente por artistas como First-Aid Kit e Julia Holter.

Sendo assim, tudo iria de vento em popa para essa resenha: sonoridade familiar, melodias aconchegantes, até a própria capa do álbum um deleite visual por si só. Mas assim que “A Lot’s Gonna Change” terminou, e deixou uma atmosfera soturna e melancólica no ar eu perdi o rumo. ‘Let me change my words, show me where it hurts’. E tudo dói, acredite em mim.

Mering se aventura liricamente por um universo profundo e delicado, cantando com honestidade sobre melancolias que podem ser até disparos para uma tristeza reprimida. É um olhar calmo para o caos que encanta e desconcerta. A jornada onírica do álbum lentamente ganha contornos de esperança conforme o registro avança, até culminar em “Nearer To Thee”. A faixa instrumental combina com a faixa de abertura e dá uma noção cíclica para o produto.

O álbum é uma sequência de pontos altos, e não há partes que pareçam deslocadas. Tudo se encaixa. A radiofônica “Everyday” é genial eu sua letra jocosa. ‘True love is making a comeback for only half of us, the rest just feel bad‘. Em “Mirror Forever”, o ritmo fúnebre é embalado por uma letra tão concisa que mostra que Mering é de um esmero no estúdio invejável.

Todo esse liricismo apoiado em arranjos de orquestra e synths muito atualizados, como é o caso de “Movies” ou “Andromeda”, tão ricas em instrumental que poderiam se sustentar sem vocal algum. Eu poderia fazer citações de cada uma das canções, esmiuçar cada um dos violinos, apenas para mostrar que aqui está um dos melhores trabalhos do ano.

Depois de duas semanas escutando o álbum, finalmente consegui me tornar um pouco imune à melancolia que as canções emanam Fica então um veredito menos desesperador : Titanic Rising é sobre tristeza, mas é sobre esperança mais que tudo. Um feixe de luz reverso, que sai do fundo sombrio do oceano e vai de encontro a superfície, à procura de mais luz. O Weyes Blood fez um produto impecável e que certamente será lembrado no futuro.

OUÇA: “Everyday”, “Andromeda” e “Movies”.