Tycho – Weather



Se reduzidos às suas características mais essenciais, poderia-se dizer que o que difere o post-rock e o ambient é a atenção. Ambos os gêneros consistem de músicas instrumentais (normalmente) compostas com conjuntos de instrumentos semelhantes, mas enquanto o post-rock pretende ser um avanço nas características estéticas do rock, usando guitarras, baterias, baixos e etc para criar arranjos mais atmosféricos, de certa forma opressivos e envolventes, que exigem que sua presença seja percebida, o ambient vai no sentido contrário, numa quase anti-estética, guiando a composição para o objetivo de ser o menos presente possível, mesclada com o ambiente ao redor, ocupando apenas de maneira periférica a atenção do ouvinte. Dada a natureza contrastante dos dois gêneros, transitar entre ambos, para um artista, resume-se a uma questão de equilíbrio. É essa a proposta do artista de ambient e post-rock Tycho em seu quinto álbum, Weather.

Lançado três anos depois do último disco, Epoch, Weather marca uma nova perspectiva na carreira do artista. Enquanto Epoch marcou o fim de uma triologia de discos que exploravam a criatividade do artista dentro do ambient, com melodias voltadas para a criação de climas e arranjos minimalistas e usando bastante downtempo, Weather tem um Tycho que procura voltar à materialidade, aventurando-se mais no campo do post-rock e adicionando até mesmo vocais à boa parte das composições, tudo com a intenção de fazer do disco mais orgânico e presente que os seus anteriores.

Mas Tycho é um artista de ambient em primeiro lugar, e os elementos desse gênero não conseguem evitar sangrar para dentro das composições novas. Ao invés de rejeitar suas influências anteriores, Tycho as abraça e incluí no novo processo criativo, fazendo do disco um exercício de reflexão sobre quem se é e quem se almeja ser. Como todo exercício de exploração pessoal, este é um caminho de erros e acertos.

Seja com as guitarras ora líquidas, fluídas, que se mesclam com a bateria eletrônica para criar um efeito etéro, quase antigravitacional da faixa de abertura, “Easy”, que mostra, logo de cara, o ponto de intersecção entre o que seria o arranjo de um disco de post-rock, com um instrumental presente, impositivo, que apresenta materialidade no som e o ambient, com sua preferência por harmonias mais elusiva ou com a faixa seguinte, “Pink & Blue”, que firma sua posição ao incluir vocais e com isso revestir de presença tangível a composição. Existem  ainda os ocasionais arrebatamentos provocados pela guitarra, mas esses adquirem um significado diferente, que parece ser resultado da tomada de consciência do próprio corpo. 

Com a exceção de “Pink & Blue” e da faixa seguinte, “Japan”, entretanto, os melhores momentos do disco são os em que o vocal não se faz presente e os arranjos ganham mais espaço para respirar e flutuar livremente, se a presença do vocal é a tomada de consciência do corpo, a existência material não vem sem limitações.

Em “Japan”, o movimento continua, ainda mais terreno e corporificado por conta da ênfase do arranjo na bateria e nos vocais, a guitarra passa a dividir espaço também com o baixo que dá mais peso à música, tanto literal quanto figuradamente.As faixas instrumentais “Into The Woods” e “Weather”, a primeira logo depois de “Japan”, a segunda encerrando o disco, fecham o grupo de boas músicas da obra. Em “Into The Woods” as notas altas e claras de guitarras elevando-se sobre a bateria e preenchendo a composição num novo impulso em direção à fluidez extracorpórea. Já em “Weather” mesmo o baixo, que mantém a estrutura da música, ao invés de fixá-la no chão, apenas estabiliza o vôo conduzido pela combinação de guitarras e sintetizadores. Os efeitos emulando flautas adicionam mais uma camada à sensação de voo e encerram o disco com uma nota alta, literalmente.

Apesar disso, a experiência de adquirir corpo não vêm sem suas desvantagens, e é quando Tycho tenta assentar mais as composições na materialidade, dando ênfase a arranjos graves e à presença do vocal, que as faixas deixam a desejar, a primeira do trio é “Skate”, que traz de volta os vocais depois de “Into The Woods”, o que faz a faixa perder um pouco da sua energia e se tornam etéreos, mas sem compensar a mundaça de intensidade da faixa anterior. Logo depois de “Skate” vem “For How Long”, que se fundamenta na batida cadenciada do baixo, acompanhada da guitarra que tira parte do peso do arranjo grave, a terceira das faixas, “No Stress”, continua o movimento terreno conduzido pela voz, mas o movimento, além de ser em direção à matéria, também parece ser em direção à vulgaridade dela, com cada uma das três faixas soando menos inspirada e mais comum que a anterior.

Com um tempo de reprodução de cerca de 29 minutos divididos em oito faixas, Weather é um grande acerto pela maioria das faixas, a criação dos sentimentos, que é a maior força de um disco de ambient, é feita com cuidado e, ao mesmo tempo, desprovido de expectativa, que é a liberdade da não-presença. Por outro lado, algumas das faixas com vocais, entretanto, falham em criar a atmosfera ao mesmo tempo que a mudança de ritmo não contribui tanto para o clima geral do disco. Talvez a existência corpórea seja uma prisão forte demais para Tycho. É o tipo de disco que pode crescer com ouvidas repetidas. A vantagem do corpo é que cada experiência (mesmo uma reencenada), pode deixar marcas novas.

OUÇA: “Easy”, “Pink & Blue”, “Japan”, “Into The Woods” e “Weather”