The Head and The Heart – Living Mirage



As primeiras produções de um artista ou de uma banda sempre estão em vantagem por dois motivos. Primeiro que não há base de comparação anterior, além de outros artistas. Segundo que, na maioria das vezes, existe uma autenticidade que raramente volta ao decorrer da carreira. E a perda da essência inicial do grupo norte-americano The Head And The Heart é, infelizmente, um ótimo exemplo desta teoria.

O que começou com um indie folk em 2009, com músicas contemplativas e doces, transformou-se, dez anos depois, em um som plástico, pop rock e repetitivo com o lançamento de Living Mirage. É estranho constatar que o grupo passou um tempo em um deserto da Califórnia para se concentrar apenas na produção de seu álbum mais pop e tão desconectado com o que um cenário natural e uma produção tão imersa poderia sugerir.

Para assinar definitivamente essa virada, a banda escolheu a chiclete “Missed Connection” para divulgar, pela primeira vez, o novo trabalho. No videoclipe, há cenas dos integrantes no deserto e, ao mesmo tempo, a música não conversa nem um pouco com atmosfera proposta. A medida que as imagens indicam uma intimidade dos músicos, grandes descobertas e boas nostalgias, a música super produzida está ao fundo mostrando que são apenas filtros, miragens e efeitos colocados propositalmente para vender uma fotografia do que a banda já foi.

Mas não dá pra enganar os ouvidos. Talvez para quem conheça a banda hoje em alguma loja de departamento ou no Uber, “See You Through My Eyes” e “Brenda” sejam músicas que trazem um bem-estar (que qualquer outro artista pop poderia trazer no momento). O problema é de quem já ouviu as simples, orgânicas e até imperfeitas primeiras gravações de THATH. Fica difícil acompanhar.

Uma das melhores músicas da banda, “Let’s Be Still” é incrível justamente pela dicotomia dispersão e encontro de vozes de Jonathan Russell e Charity Rose Thielen, que até murmura algumas vezes. Em Living Mirage, eles fizeram questão de criar quase uníssonos nos coros, deixando as vozes puras e perfeitas, como na faixa “People Need A Melody”, que parece uma versão masterizada do primeiro trabalho do grupo.

Fique claro que o problema não é a mudança sonora do grupo, mas sim a execução dessa virada. Na faixa “Honeybee”, por exemplo, é possível ver um caminho interessante que o restante do álbum poderia ter seguido, com uma atmosfera anos 80 e um pouco de desapego às repetitivas mensagens motivacionais, uma forte característica essencial da banda.

No entanto, é apenas neste momento que o grupo conseguiu cumprir o combinado de ter um novo começo, após três anos sem lançamentos, e agradar os ouvidos, de fato. Infelizmente, efeitos visuais nos videoclipes, capas nostálgicas e imersões no deserto não compram a autenticidade que um dia THATH já teve.

OUÇA: “People Need A Melody” e “Honeybee”

The Head and The Heart – Signs Of Light

head

_______________________________________

Primeiras impressões são perigosas. Não afirmamos isso o suficiente em nosso cotidiano. Tentamos ao máximo não julgar um livro pela capa, mas não vemos tanto problema em julgá-lo pelo prólogo. Primeiras conversas, primeira saboreada, primeiros minutos. Os momentos iniciais de um acontecimento nos marcam fácil, e acabam nos fazendo decidir se queremos mais do mesmo ou se é melhor deixar pra lá logo. De vez em quando, por pura curiosidade ou por força de vontade, acabamos superando essa segunda opção, a de desistência. Às vezes, saímos ainda mais desapontados; outras, temos sorte.

Signs Of Light (2016) foi uma boa surpresa. Uma ótima surpresa, na verdade. Não tenho vergonha nenhuma de admitir que estava completamente errado em acreditar que esse álbum iria me decepcionar. Antes de contar minha experiência, defendo-me: foi culpa das primeiras impressões. Ouço The Head and The Heart há uns quatro anos, e sempre fui apaixonado pelo debut da banda. Quando o segundo álbum, Let’s Be Still (2013), não alcançou minhas expectativas, a deixei de lado, esqueci-me dela por um tempo. Depois de ter ouvido o primeiro single do novo álbum pela primeira vez (“All We Ever Knew”), mesmo que divertido, me preparei para ouvir mais um álbum folk pop fraco e repetitivo. Não foi bem esse o caso.

The Head and The Heart sempre teve uma sonoridade meio hipster para mim. Arcade Fire costuma ser chamada de “a” banda hipster, mas acho que o pódio está bem repartido. Quero dizer, isso não é necessariamente uma coisa ruim: a música deles é aconchegante e melódica, mas dá a sensação de que a banda tivesse me convidado para a casa de campo deles, oferecido uma cerveja caseira e tivessem tocado com suas camisas de flanela e barbas colossais. Em Signs Of Light, a banda deixou um pouco de lado essa autenticidade-não-muito-autêntica hipster e procurou conforto em atos que os inspiraram. Tecnicamente, o gênero musical desse registro é indie folk, mas é muito fácil ouvir traços de (indie) rock, indie pop e até blues espalhados pelas músicas. As influências de outras bandas estão muito evidentes: Arcade Fire, Fleetwood Mac, Edward Sharpe, e até Radiohead e Coldplay nos inícios de suas carreiras.

Infelizmente, nem tudo são flores; o álbum peca em muitos aspectos. A voz mais sutil e tímida da Charity, por exemplo, contrasta muito bem com os vocais principais roucos e intensos de Josiah Johnson, mas ela raramente ganha espaço para fazer esse contraste (curiosamente, para mim, uns dos principais defeitos de Let’s Be Still foram os vocais da Charity; é perceptível uma melhora em sua cantoria). Às vezes o ouvinte é obrigado a ouvir alguns dos truques mais clássicos para se fazer uma música indie pop: la la las, míseras três notas pro ritmo (novamente, culpo “All We Ever Knew”!)… Outro componente da problemática são as letras. Não que sejam ruins, só são bem rasas, não adicionam muito às músicas. Os diferenciais da parte vocálica acabam sendo as entonações, as melodias.

O que torna um álbum “bom”? A sua fluidez, consistência? Suas temáticas? Sua capacidade de ser memorável? De tudo um pouco, mas acho que o que mais colabora na qualidade de um disco é sua capacidade de evocar sentimentos no seu receptor. Seja felicidade, curiosidade, calma, fúria ou tudo junto, um bom álbum precisa se destacar para você de alguma forma. Não sei se irei ouvir muito o Signs Of Light no futuro, ou se o recomendarei fervorosamente a todos os meus amigos que pedirem uma sugestão de música, mas sei que esse disco me entreteve, me deixou feliz em seus 49 minutos de duração. Talvez seja muito pop para algumas pessoas que ouvirem, mas para outras será uma ótima trilha sonora para uma dia calmo e ensolarado. E não é isso que importa?

OUÇA: “City Of Angels” se você gosta de Arcade Fire, “Library Magic” se você gosta de Fleetwood Mac, “Oh My Dear” se você gosta de Coldplay, “I Don’t Mind” se você gosta de Edward Sharpe.