The Darkness – Easter Is Cancelled



Em seu primeiro conto publicado numa revista comercial, Late Night, David Foster Wallace argumenta “se você sabe de antemão que vai ser feito de ridículo, então você está um passo à frente, porque você pode fazer a si mesmo de ridículo ao invés de deixar ele fazer isso com você”. A ideia talvez seja o melhor resumo do processo criativo que orientou a banda britânica de hard rock The Darkness na composição da maioria de seus discos, e continua sendo verdade para o último lançamento do grupo: Eastern Is Cancelled.

Sexto disco de estúdio da banda, Eastern Is Cancelled compreende 53 minutos de músicas divididos em 14 músicas fundadas numa mistura de composições firmemente estabelecidas no campo do hard rock mais comercial e humor autoconsciente e às vezes autoindulgente. Muito da composição do The Darkness usa – e conscientemente – os clichês sonoros do hard rock mais farofa, inclusive os exagerando, então julgar a qualidade do trabalho da banda depende mais de analisar a qualidade das letras.do que as harmonias. 

Dentro desses critérios, Eastern Is Cancelled é um disco competente. Jogando com suas forças (às vezes até demais) o The Darkness consegue fazer o que se espera de um disco da banda. É essa a maior qualidade da  banda, mas também é sua principal fraqueza, tanto como artistas como nessa obra especificamente.

O disco não é sem seus pontos fortes, seja com “Rock And Roll Deserves To Die”, faixa que abre o disco e tem interessantes influências de folk no violão, além da teatralidade da voz de Justin Hawkins e do som dramático e triunfante da percussão na segunda metade da música, “How Can I Lose Your Love”, uma power ballad que atende todas as tropes do gênero, de novo dando destaque para a performance vocal aguda e lamuriosa de Hawkins e o solo rápido e agressivo, “Heart Explodes”, uma metabalada em que Hawkins explora a dificuldade de escrever uma música de amor e a subsequente separação em que ele reflete sobre a vida de solteiro enquanto sua ex-parceira abre um asilo para palhaços (?), a faixa tem um momento interessante no final, quando crescendo com ares de hino triunfante surpreende.

Outros pontos interessantes – mas não muito – ficam por conta de “Deck Chair”, outra balada (são muitas no disco) dessa vez sobre a perda de uma cadeira e agora com influências de valsa e “Sutton Hoo”, com uma levada country e contando sobre as experiências com abdução alienígena dos moradores de um pequeno vilarejo. 

Contudo, o disco também tem falhas, que infelizmente superam suas qualidades, e a principal e mais geral delas que pode ser estendida à maioria das faixas é: clichê. Seja nos riffs clássicos do hard rock em faixas como “Eastern Is Cancelled” e “Choke On It” ou na imensa e repetitiva quantidade de baladas que não conseguem ter personalidade o suficiente para se destacar no catálogo, a banda parece satisfeita em aproveitar e reciclar as fórmulas clássicas do gênero adicionando só humor o suficiente para reduzir qualquer expectativa que poderia se ter sobre o trabalho e deixar claro que a banda em si não leva o que faz tão a sério assim. 

O tempo de execução também age contra o disco, e 53 minutos parece um tempo longo demais para ver os mesmos tipos de piadas e personagens desfilarem de novo e de novo pelas letras das músicas.

Em resumo, não faz muito sentido ouvir a banda se você não gosta do estilo, porque as composições que você vai encontrar são bem comuns e o humor das letras é o ponto forte da banda.

Como Foster Wallace discorre no conto que abre esta resenha, saber que você vai ser feito de ridículo é uma vantagem poderosa que tira do seu interlocutor a chance de rir de você porque você tem a oportunidade de fazer isso antes dele. Em especial num gênero de fórmulas tão performáticas e exageradas quanto o hard rock, isso pode ser efetivo, e quando o The Darkness surgiu, a banda conseguiu destaque justamente pela forma descarada com que assumia o absurdo do estilo. Ao mesmo tempo, não se levar a sério demais também pode ser uma fraqueza que impede o artista de se propor algo mais ambicioso e o deixa confinado a repetir a piada constantemente.

E uma piada repetida demais ou por tempo demais acaba sempre perdendo a graça.

OUÇA: “Rock And Roll Deserves To Die”, “How Can I Lose Your Love”, “Heart Explodes” e “Sutton Hoo”

The Darkness – Pinewood Smile


Desde o estrondoso Permission To Land (2003) eu me mantive bem distante do The Darkness pelo simples motivo de ser um tiro no escuro, um daqueles álbuns que emplacam e põe a cara da banda no mundo mas põe a carreira dela em irrelevância logo em seguida, incapaz de se sustentar; e infelizmente eu estava certo quanto a isso, entre uma notícia e outra era claro que o ápice da banda era seu debut e resto da carreira seria apenas uma sombra do que já foi um dia, e depois de longos 5 anos o efeito dominó se mostra mais evidente do que nunca, não tendo absolutamente nada de novo a oferecer além de pura imaturidade e tesão desenfreado sendo usado como desculpa pra uma vida e trabalho já sem nenhum sentido.

O álbum já começa aos tropeços com “All The Pretty Girls”, que nada mais é do que uma ode àquela garota “especial e diferente das outras”, que na verdade é qualquer garota, os caras simplesmente não notam o quão otários estão sendo, comportamento esse que fica mais visível ainda em “Solid Gold”, um exemplo perfeito do descaso da banda com o próprio trabalho e, consequentemente, com o resto do mundo, se afogando no marasmo trazido pela fama, praticamente todas as faixam seguem sem nenhuma noção e fazendo cada vez menos sentido, desde “Southern Trains”, que supostamente seria algum tipo de protesto contra a situação precária dos meios de transportes públicos mas acaba por soar como o choro de marmanjo classe média mimado que por algum motivo resolveu pegar um trem uma vez na vida e não gostou muito da experiência, até “Japanese Prisioner Of Love” que tem uma das origens mais patéticas do álbum (auto confinamento numa prisão enquanto a mesma é visitada por turistas e de alguma forma se torna uma metáfora para uma relação amorosa em declínio por mero capricho do casal [???]). Mesmo com as próprias entrevistas da banda explicando faixas e objetivo do trabalho, tudo continua parecendo mais e mais com um monte de desculpas esfarrapadas.

Pinewood Smile estranhamente é pura nostalgia, mas no pior sentido da palavra, não é nenhuma surpresa você se pegar lembrando de Green Day, The All-American Rejects, Blink-182 e afins em seus respectivos auges, a sensação de cópia desgasta bastante o álbum, a conexão entre as faixas é quase nula, some uns “fuck” aqui e uns “shit” ali com os arranjos típicos do The Darkness e está feito o remendo, tornando tudo uma mistureba sem rumo ou propósito. A desvalorização da mulher e a cegueira causada pela fama tornam o álbum extremamente sofrível. Provavelmente a intenção, como de costume, era um álbum casual e divertido, mas acaba não passando de pura alienação, desrespeito e retardo do animal homem, a evidência cabal disso é a faixa final do álbum “Stampede Of Love”, que não bastando ser a faixa mais desconexa do álbum em todo aspecto possível, é também uma “piada” triste, irritante e de mau gosto sobre uma moça gorda.

Num geral Pinewood Smile se sustenta apenas pela sonoridade fácil e já conhecida por qualquer pessoa que curta um sonzinho mais alternativo e pop rock da vida, mas cai por terra pelo vazio e ignorância em seu conteúdo lírico, deixando claro que a banda segue vivendo num mundinho só dela sem nenhuma ligação com seu público ou qualquer ouvinte aleatório que tenha um pingo de bom senso, deixando claro que perdeu de vez o tato com a música e a realidade. Infeliz e decadente são as melhores formas de definir o trabalho do The Darkness, mas se por acaso você achar intensidade e poesia em “we are all but bubble and squeak in the frying pan, the frying pan of life”, esse álbum é pra você, fora isso, não há riff que salve esse álbum do esquecimento.

OUÇA: A voz da razão e se mantenha longe dessa joça.

The Darkness – Last Of Our Kind

ASH

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Com músicas como “I Believe In A Thing Called Love” e “Every Inch Of You” na discografia, The Darkness é o tipo de banda que você não sabe dizer se o que eles fazem é sério ou se é pra levar na brincadeira. Last Of Our Kind, seu último trabalho pode soar tanto como uma homenagem à história do rock and roll, quanto como uma grande piada com os clichês do gênero.

O disco abre com uma narração contando um evento da história da Inglaterra, que logo dá lugar a um riff cadenciado numa faixa que traz elementos do Viking metal oitentista e uma letra que justificam essa narração inicial de “Barbarian”. A faixa que vem na sequência traz uma das características mais importantes do som da banda que, embora não seja nem um pouco original com suas origens lá no hard rock dos anos 70, ainda empolga e são os riffs poderosos que cativam mais do que as letras e, durante o resto do álbum, ainda temos uma série de outros tão memoráveis quanto o de “Open Fire”.

As baladas também tem lugar nessa grande miscelânea de referências, mas de forma mais fraca. “Wheels Of The Machine” é um momento de descanso da distorção, mas não dos falsetes de Justin Hawkins que, por serem colocados em todas as faixas, tendem a deixar o ouvinte saturado nessa altura do disco. “Conquerors”, a faixa que encerra o disco, também é uma dessas baladas enjoativas com o falsete mal colocado e que parece que não acaba nunca. Já “Sarah O’Sarah” quase seria uma grande balada com um instrumental consistente mas se perde em meio a um refrão com bateria cavalgada que se repete até você não aguentar mais e quase agradecer quando a faixa acaba.

“Hammer & Tongs” é o último grande momento do disco, um hard rock com uma cadência puxada pro country, trazendo mais um riff marcante, a voz de Justin Hawkins muito bem colocada como mais um instrumento preenchendo o vazio entre as partes instrumentais e um refrão que ficaria muito bem ao vivo com toda a platéia cantando junto.

Como eu disse no início, não dá pra saber até que ponto podemos levar The Darkness a sério ou não. Nada é muito original mas, com certeza, ainda é muito divertido. A faixa-título é (aqui sim, sem ambiguidade) uma homenagem ao rock que formou o som da banda. Uma introdução dedilhada de violão como o Led Zeppelin fazia, a linha de teclado destacada como nas músicas do Queen, a guitarra que entra aos poucos com um baixo cavalgado como o Kiss, um solo que esbanja técnica como nos hits do AC/DC e os falsetes inconfundíveis de Justin Hawkins fortemente inspirados nos agudos de Rob Halford do Judas Priest fazem “Last Of Our Kind” soar como um hino exaltando um rock extravagante que aos poucos desaparece do mainstream atual. Na letra e durante todo o disco, The Darkness se coloca, um pouco como fãs, um pouco exaltando a si mesmos, como defensores desse legado, os últimos dessa espécie de roqueiros. Mas talvez isso tudo seja apenas uma piada.

OUÇA: “Open Fire”, “Roaring Waters”, “Last Of Our Kind” e “Hammer & Tongs”