The Black Keys – “Let’s Rock”



Os Black Keys voltaram. Cinco anos após seu último lançamento, Turn Blue, o duo de blues rock de Ohio chega com o incendiário “Let’s Rock”, 9º álbum da banda. Os três primeiros singles apresentados em 2019 (“Lo/Hi”, “Eagle Bird” e “Go”) já mostravam uma proposta mais crua e direta nas novas produções. E, de fato, o que vemos em “Let’s Rock” é um Black Keys mais ácido e marrento do que nunca.

Assim que começamos a ouvir o álbum, imediatamente percebemos o pavio queimar. A abertura é marcada pelo riff penetrante de “Shine A Little Light”, que soa como um lamento agressivo sobre a perda e a morte. As canções, em geral, se destoam liricamente dos enérgicos arranjos de guitarra de Dan Auerbach. Inclusive, “Let’s Rock” é uma ode ao efeito overdrive e a sujeira distorcida do fuzz que acompanham a banda desde seu início.

Arranjos melancólicos surgem em “Walk Across The Water”, que mostra a outra face do álbum. Ora poderoso e mordaz, ora denso e bruxuleante, “Let’s Rock” carrega uma dualidade que só poderia ser transposta em um álbum de blues. A dança é dividida entre 12 faixas distribuídas em 39 minutos e encerra de forma explosiva com “Fire Walk With Me”.

O duo abusa da simplicidade e usa como matéria bruta guitarras cheias de overdrive e fuzz nas faixas. As composições remetem muito ao tempo que precede o Magic Potion, de 2006. Porém, tudo é feito de forma muito mais madura e consciente, e o disco acaba por transmitir uma certa dose de atrevimento em seus acordes.

A estrada e as crises internas entre Dan Auerbach e Patrick Carney parecem ter os forjado para esse momento. Os Black Keys voltaram com a segurança de quem enfrentou seus demônios e voltou para contar a história. E que história.

OUÇA: “Shine A Little Light”, “Tell Me Lies”, “Under The Gun”.

The Black Keys – Turn Blue

keys

_______________________________________

A hipnótica capa do novo álbum dos namoradinhos do indie rock The Black Keys já denuncia a pegada psicodélica que será descarregada nos ouvidos dos fãs, ansiosos pelo lançamento do sucessor de El Camino, de 2011. Após o sucesso do disco, nomeado melhor álbum de rock pelo Grammy, a dupla norte-americana resolveu dar asas a outras referências que permeiam seu universo musical – o que inclui pitadas de rock progressivo, novas texturas e diversas experimentações que remetem à psicodelia do rock dos anos 70.

A proposta colocada por Dan Auerbach, Patrick Carney e, não podemos esquecer, o produtor Brian “Danger Mouse” Burton pode assustar um pouco quem esperava por uma continuidade do indie-dançante presentes nos dois últimos discos do Black Keys. Ou seja, álbum difícil para fãs xiitas que não aceitam mudanças. Mas ficou bem claro que essa mudança é positiva.

Primeiro single e videoclipe de Turn Blue, “Fever” vem com roupagem quase totalmente eletrônica e, em relação às outras 11 faixas do disco, conversa um pouco mais com os hits dançantes que fazem a setlist das baladas de rock, como “Lonely Boy”. Quem sentir saudades dos trabalhos anteriores da dupla de Ohio também ficará mais à vontade ao ouvir “Year In Review”, uma das únicas músicas em que Dan Auerbach não explora sua ótima habilidade com falsetes, pelo menos não na linha vocal principal – diferentemente de “Waiting On Words, na qual Auerbach faz um trabalho incrível nos vocais.

A influência de Pink Floyd fica evidente logo na inaugural “Weight Of Love” e chega ao ápice em “Bullet In The Brain”, que, vamos dizer assim, lembra muito “Breathe”, do lendário álbum The Dark Side Of The Moon, de 1973.  Como já havia avisado o vocalista, a melancolia é um dos aspectos que formam a essência de Turn Blue, o que compõe também a sonoridade da faixa-título.

Uma quebrada para a disco music chega em “10 Lovers”, revestida com uma linha de baixo envolvente e sintetizadores que, apesar de deixar a proposta mais eletrônica e dançante, decresce ao refrão e acaba trazendo uma pegada mais triste, evidenciada pelos chorosos riffs de guitarra ao final.

Trabalho para ser ouvido com cuidado, Turn Blue finaliza seu curso com “Gotta Get Away”, que remete mais ao rock n’roll clássico, com riffs de guitarra que já inauguram a canção e o típico teclado órgão. Um final até divertido para um disco que traz, segundo a própria banda, “sufocação, tristeza, entorpecimento provocado por frio extremo, um apresentador de um programa de TV dos anos 60 chamado Ghoulardi, ou todas estas opções”.

OUÇA: “Weight Of Love”, “10 Lovers”, “Waiting On Words”, “Fever” e “Gotta Get Away”