Teen Daze — Bioluminescence



Bioluminescência é a produção de luz por organismos vivos. Peixes, bactérias e vagalumes possuem essa característica, no entanto seria o homem capaz de realizar tal acontecimento? Talvez seja isso que Teen Daze estivesse propondo quando compôs Bioluminescence, seu novo álbum de inéditas.

Que Jamison Isaak tem a natureza como tema principal (nos últimos anos) nós já sabemos. O músico canadense vem explorando o meio em que vivemos em suas faixas desde Glacier (2013) — que para mim, Bárbarah, foi a descoberta deste artista e do gosto pela música eletrônica. Na época eu estava em crise de insônia e ansiedade e o universo chillout de Teen Daze me ajudava a relaxar e a dormir. Mas deixando de falar de mim, Bioluminescence é estritamente instrumental. Diferente do que aconteceu em trabalhos anteriores, em que houve empréstimo de vozes de alguns artistas — como em Themes For A Dying Earth (2017) e em A Silent Planet (2018).

O novo cd começa forte com “Near” e suas sobreposições de strings. E de repente você se imagina assistindo um cardume de peixes passeando magnificamente em um programa como Blue Planet (BBC). Após a efervescência sonora, a faixa vai desaparecendo com o barulho de espuma do mar que dá lugar a solar “Spring”, faixa um pouco mais orgânica devido ao uso de guitarra e — imagino — de uma bateria acústica. Em seguida vem a suingada “Hidden Worlds” e “Ocean Floor” (filha do house), falo já já dela. “Longing” inicia a segunda parte da obra e retorna a vibe da faixa de abertura: acordes em looping, snares tensionados e uma sensibilidade quase etérea. O mesmo acontece com as celestiais “An Ocean on the Moon” e “Drifts”. Por fim, temos “Endless Light” delicada, gotejante e esperançosa.

É admirável o trabalho de Isaak em Bioluminescence, mesmo que esta nova fase esteja mais voltada para o house. Porém é no house que o cd dá uma enjoada. Enquanto na parcela calma as repetições funcionam como mantras, a parcela mais animada soa reincidente demais. A exemplo disso temos a faixa “Ocean Floor” (eu disse que ia falar dela!). Com 7 min e 47 seg, a canção parece exageradamente grande, aos 3 min já dá uma vontadezinha de pular para a próxima.

Em termos de conceito, o trabalho se faz muito coeso. Em diversas faixas podemos perceber centelhas luminosas provenientes da natureza, seja no ambiente terrestre ou no aquático. Isso se reproduz também na capa do disco: a mesma imagem justaposta de um lago e sua vegetação característica. O que poderia ser, muito bem, os habitats naturais desses ecossistemas bioluminescentes.

Teen Daze pra mim é a exemplificação de que música feita no computador com um monte de plug-ins pode ser tão sensível quanto uma orquestra, basta se deixar ouvir. Sendo assim, voltamos à questão inicial do texto: seria o ser humano capaz de produzir luz por si próprio? Devo dizer-lhe que, metaforicamente falando, a música (por mais brega que essa afirmação seja!) é luz, e Jamison Isaak parece estar no caminho certo: produzindo um material de qualidade e sintetizando toda a vida que nos rodeia.

OUÇA: “Near”, “An Ocean On The Moon” e “Drifts”

Teen Daze – Themes For A New Earth


Partindo de um bom momento graças ao álbum anterior, o Teen Daze segue inquieto produzindo mais e mais coisa, mudando sua dinâmica costumeira onde o artista tende a transportar seus fãs para todo canto imaginável do planeta ou fora dele, Jamison Isaak resolveu dar continuidade ao que já tinha abordado em Themes For A Dying Earth, seja complementando ou mostrando novas nuances, continua inegável, que mesmo não estando a todo vapor, o moço continua em boa forma.

Themes For A New Earth não é nem de perto uma contraparte de Themes For A Dying Earth, e seria grosseria demais chamá-lo de “sobras” do seu antecessor, até por que há um claro zelo em todas as suas faixas, enquanto no trabalho anterior o Teeon Daze te fazia entrar em harmonia com seus arredores e abraçar seu dia, aqui já há uma quietude bem maior, ainda bem otimista, mas bem mais mansa e introspectiva, se realmente há algum contexto maior em ambas as obras, muito provavelmente devem tratar das passagens estacionais, Dying Earth representando Primavera e Verão, e New Earth Outono e Inverno.

O grande porém do álbum é que diferentemente dos trabalhos anteriores, não acontece uma imersão do ouvinte nas faixas, a experiência com ele não chega a ser rasa, mas rápida demais pra causar um impacto maior. O álbum é mais curto, as faixas são mais curtas, não há mais participações (vocais) e Themes For A New Earth acaba sendo apenas um registro fofo. Mas se tratando de um projeto mais casual e descompromissado com a vida, tudo isso se torna perdoável. Aliás, a qualidade do trabalho em comparação ao pouco tempo entre um lançamento e outro é prova mais do que necessária que Jamison está mais do que capacitado para seu trabalho.

Themes For A New Earth acaba sendo um abraço mais extenso a suas voltas, solidificando a paz de espírito do ouvinte e garantindo uma chance para Jamison recarregar suas baterias (se é que ele de fato precise disso), pra quem já conhece o artista e sentia falta da roupagem mais ambiente e nítida, sem se perder ou se ofuscar com outros componentes, New Earth é uma ótima pedida, tem toda a simplicidade e leveza do mundo a seu lado, seja procurando canções de ninar ou alguma adição para playlist durante estudos ou trabalho, o Teen Daze, como sempre, tem ótimas coisas pra te oferecer!

OUÇA: “On The Edge Of A New Age”, “Kilika” e “Echoes”.

Teen Daze – Themes For Dying Earth

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Apesar de já estar há um bom tempo na estrada, o Teen Daze (aka Jamison Isaak) sempre soa como coisa nova, e não por acaso, apesar de trabalhar consistentemente com chillwave, ao longo de seus trabalhos a gente se depara com todos os gêneros que orbitam ao redor de sua base: dream pop, synthpop, downtempo, coldwave, ambient e afins, em Themes For Dying Earth a fórmula é a mesma, mas com a adição de convidados e ares mais alegres, o projeto segue firme e forte.

Em seu último trabalho (Morning World, 2015), o Teen Daze optou por uma aura mais introspectiva, reflexiva e solitária, some isso ao fato de 2015 ter sido um dos melhores anos de lançamentos musicais e o moço, apesar de bem recebido pela crítica, passou despercebido pelo grande público. E é graças a isso que se pode notar a maior mudança na nova abordagem do artista, Themes For Dying Earth é extremamente colorido e ensolarado, tornando-o difícil de ser ignorado, sem precisar se distanciar dos outros trabalhos do projeto, ficou evidente que o balanço entre o atual e o antigo estava no ponto.

Um dos traços mais fortes e marcantes do Teen Daze sempre foi se apegar a um tema, dar terreno a ele e transportar o ouvinte para os lugares mais distantes do planeta (ou fora dele), em Themes For Dying Earth esse aspecto não muda, mas o destino final pode ser muito bem seu quarto, a praça na esquina ou a casa de sua vó, em vez de focar em uma viajem longínqua como de costume, aqui o que muda é o clima, a natureza parece tomar voz e brincar com sua percepção das coisas, tornando o álbum extremamente divertido e fácil de se absorver. Apesar de ainda ser um álbum autocentrado e usado como refúgio, nada soa como uma fuga, e sim como a criação de um lugar melhor, convidativo, pacífico e até mesmo de cura.

Por acaso eu tentei fazer uma comparação com algumas bandas pra poder dar uma noção melhor do que esperar pro leitor (eu tentei Purity Ring, múm e M83) e mesmo a contragosto a coisa toda se mesclava e criava outra completamente nova, o que me animou bastante por remixes, foi um grande bônus notar que apesar de ser um álbum bem completo por si só, ainda há muito espaço pra expansão nele.

Themes For Dying Earth não serve apenas para solidificar a carreira do Teen Daze, há um claro passo dado adiante mesmo ainda se mantendo fiel a suas raízes. Pra quem gosta de dormir com o barulho de chuva, quer uma trilha sonora pra faxina ou tá precisando de um pouquinho de paz de espírito e não sabe por onde começar, vale muito a pena dar uma chance pro Teen Daze, não apenas pro álbum em questão, mas toda a discografia do rapaz.

OUÇA: “Becoming”, “Cherry Blossoms” e “First Rain”.

Teen Daze – Morning World

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Talvez algumas bandas sejam famosas por conseguir fazer um trabalho similar ao seu anterior. Definitivamente, não é o caso de Teen Daze. A banda, que lançou seu último álbum, Glacier, ainda em 2013 tinha uma vertente um tanto dançante e eletrônica naquela época. Morning World parece demarcar um limite para a banda de Jamison (como é conhecido profissionalmente) no universo chillwave. A sensação de estar flutuando num mundo primaveril permeia o novo trabalho de Teen Daze, trazendo aos ouvintes a velha sensação que se tem quando se ouve qualquer álbum do Washed Out, por exemplo.

Essa mudança se deu, principalmente, por conta da mudança do vocalista para São Francisco. Ao invés de se utilizar massivamente de sintetizadores como no seu último álbum, Jamison parece ter atingido maior organicidade com a voz em Morning World. A música que é homônima ao álbum talvez seja a melhor representação desse fato – a voz, ainda que infantil de Jamison, parece se mesclar perfeitamente à nova sonoridade de Teen Daze. Porém, não se espante: isto não significa que o álbum seja triste ou melancólico.

A batida inicial de “It Starts At The Water” talvez seja uma das melhores surpresas do álbum. Ao invés do dream pop que caracterizou o último álbum, aqui vemos um vocalista mais confiante quanto a sua própria habilidade vocal – coisa que Jamison já deveria ter usado faz um tempo, para ser sincero. Talvez uma comparação mais sólida para o álbum possa ser o primeiro trabalho do Observer Drift, em que fez mais sucesso por conta do vocal do que pela sonoridade em si.

O objeto imagético de Teen Daze continua sendo o mundo dos sonhos. Os riffs de guitarra que iniciam a faixa instrumental “Post Storm” é um dos melhores exemplos disso. Aqui vemos como o trabalho anterior da banda não se dissipou, apenas se desenvolveu. A voz angelical de Jamison ao final da faixa mostra que temos um expoente do chillwave em ascensão.

Pode ser que Morning World não seja exatamente um trabalho original, porém é, sem dúvidas, um álbum que primou no sentido de ser concreto e mais sólido do que o disco anterior. As músicas de Teen Daze são aquelas capazes de transportar o ouvinte para um ambiente menos melancólico e com mais esperanças. Sobre as letras, há ainda uma ingenuidade digna de qualquer álbum de Postal Service do Ben Gibbard, por exemplo – com poucas firulas e um verdadeiro oásis para quem deseja passar um final de tarde de verão ao som de um bom chillwave.

OUÇA: “Morning World” e “It Starts At The Water”