Sleater-Kinney – The Center Won’t Hold



I need something pretty to help me ease my pain‘. Esse é o primeiro verso da faixa-título, que abre o nono álbum de estúdio da lendária banda americana Sleater-Kinney. ‘But I’m broken in two, cause I’m broken inside‘ é o verso que o encerra. Não se trata em momento algum de um álbum fácil, leve e divertido.

É impossível falar de The Center Won’t Hold sem comentar sobre o fato de que ele foi inteiramente produzido pela Annie Clark, também conhecida como St. Vincent. E sua influência no trabalho final já era perceptível desde a capa e a música “Hurry On Home“, primeira divulgada pela banda para promover o álbum. Trata-se da música mais explicitamente sexual já gravada pela banda, e sonoramente mistura o tradicional som do S-K com uma produção bastante urgente e moderna quase robótica, característica principalmente do último álbum da Annie, o excelente MASSEDUCTION. Mas as coisas param por aí. O restante do álbum todo é Sleater-Kinney do começo ao fim.

Também é impossível falar desse disco sem citar a saída de Janet Weiss, a melhor baterista de rock da história, que anunciou que estava deixando a banda faltando pouco mais de um mês para o lançamento de The Center Won’t Hold. “The band is heading in a new direction and it is time for me to move on.“, seu anúncio no twitter dizia. The Center Won’t Hold é o nono álbum da banda e o sétimo gravado e composto com Janet nas baquetas, e essa notícia veio como um baque para Deus e o mundo. Tudo o que o S-K sempre fez em toda a sua carreira foi seguir em direções novas a cada trabalho, indo do punk cru de Dig Me Out ao psicodélico The Woods. Poderia a mudança dessa vez ser tão drástica a ponto de sua baterista há 24 anos querer sair da banda? Bom, não. Mas também sim.

The Center Won’t Hold é com certeza o álbum menos acessível da banda até hoje, o mais difícil e o mais controverso. Ele também marca a primeira vez em que as guitarristas e vocalistas Carrie Brownstein e Corin Tucker escreveram separadamente e isso é bastante claro. A diferença entre as músicas da Corin e as da Carrie são bastante evidentes, causando uma certa disparidade e idiosincrasia que nunca antes apareceu. Aquela sua tradicional dinâmica de tirar o fôlego de uma começar um verso ou riff em sua guitarra e a outra terminar quase passando por cima não está presente em nenhum momento aqui. De uma certa forma, apesar de tudo, The Center Won’t Hold têm as composições e músicas mais estruturalmente tradicionais de sua carreira como S-K também.

Mas nada disso necessariamente é uma coisa ruim, pelo contrário. O que o álbum falta de coesão ele compensa com toda a certeza em qualidade. Os mais diversos humores se entrelaçam e se encavalam e resultam, por vezes, em transições incríveis como da sombria “RUINS” para a leve “LOVE”. E “LOVE”… Outro ponto que é impossível de se ignorar nesse disco.

“LOVE” é, literalmente, uma declaração de amor da Carrie Brownstein à banda como um todo e a tudo o que já passaram e viveram (talvez à Corin um pouquinho mais). Citando em sua letra toda a sua trajetória e trabalhos passados, ela nos conta como foi o começo de tudo e conclui onde estão agora. ‘There’s nothing more frightening and nothing more obscene than a well-worn body demanding to be seen‘, uma crítica ferrenha ao fato de que mulheres após uma certa idade (as três já passaram dos 40 anos) são colocadas de lado por que ‘envelhecer é feio’.

Outra música que merece um destaque especial é “The Dog/The Body”, penúltima faixa. É a mais próxima da velha dinâmica do S-K, seus versos quase proféticos ‘If you wanna go, can’t find a reason not to leave‘ seguem o refrão mais ‘todos-juntos-com-seus-isqueiros-e-celulares’ da carreira da banda.

Quem me conhece minimamente sabe que esta se trata da minha banda favorita, trago em minha pele uma homenagem permanente a elas e ao que significam pra mim. E The Center Won’t Hold foi com certeza um dos álbuns mais difíceis de se resenhar, pra mim, em todos esses anos de You! Me! Dancing!. E o resultado é que, sim, elas foram para uma nova direção. Talvez a mais drástica que já tomaram até hoje. Mas eu ainda estou aqui com elas. Agora apenas com Carrie e Corin. Call the doctor, dig me out of this mess.

OUÇA: “LOVE”, “Hurry On Home”, “The Center Won’t Hold”, “The Dog/The Body”, “Bad Dance” e “RUINS”

2015: Best Albums (André)

10 | BEST COAST – California Nights

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Após uma escorregada feia e grave em seu segundo disco, o Best Coast retorna em sua melhor forma. E tudo funciona como sempre deveria: bem. Letras que parecem ter vindas de um diário, riffs monstruosos em sua simplicidade.  O Best Coast mais do que compensou pela insipidez de The Only Place e nos presenteou com o melhor álbum que eles poderiam ter lançado. O melhor verso de California Nights é o seu mais simples: ‘I know it’s love that’s got me feeling ok‘. E ninguém nunca precisou de mais nada. O amor pode e deve te deixar se sentindo ok, mas ‘ok’ não é nem de longe a melhor palavra para California Nights. Iremos com ‘ótimo’, ‘supreendente’ e ‘incrível’.

OUÇA: “Feeling Ok”, “Jealousy”, “So Unaware”, “Run Through My Head” e “Heaven Sent”

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09 | CHVRCHES – Every Open Eye

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Otimismo é uma coisa que não parecia combinar muito bem com o Chvrches apenas dois anos atrás, mas é o que encontramos em Every Open Eye. Um instrumental mais ensolarado flertando forte com os anos 80 mas ainda gótico suave. Todas as músicas são épicas como hinos e grudentas como o hit do verão, em seu segundo disco o Chvrches altera um pouco a fórmula mas faz um álbum ótimo. A melhor metáfora para o novo trabalho do Chvrches foi uma que eles mesmos fizeram no clipe de “Empty Threat”: adolescentes góticos bêbados se divertindo em um parque aquático.

OUÇA: “Clearest Blue”, “Empty Threat”, “Never Ending Circles”, “Bury It” e “Playing Dead”

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08 | OF MONSTERS AND MEN – Beneath The Skin

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O Of Monsters and Men tinha um trabalho bem difícil pela frente, e ele era conseguir superar seu excelente primeiro álbum My Head Is An Animal. E eles conseguiram. Beneath The Skin mostra uma banda mais em contato consigo mesma, mais séria, melódica e (por falta de outra palavra) sombria e sóbria. Sua música continua trazendo um sentimento de pura esperança mais do que nunca, e isso já pode ser percebido desde “Crystals”. My Head Is An Animal foi um começo excelente, mas Beneath The Skin consegue ser melhor ainda. Versos como ‘Cover your crystal eyes and let your colours bleed and blend with mine‘ traduzem perfeitamente coisas que muitas vezes não conseguimos falar apenas com palavras para quem mais precisamos. É exatamente pra isso que a música de forma geral existe, e Beneath The Skin faz isso o tempo todo – é uma catarse a cada verso.

OUÇA: “Crystals”, “Empire”, “Thousand Eyes”, “I Of The Storm” e “Wolves Without Teeth”

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07 | TULIPA RUIZ – Dancê

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Tulipa Ruiz volta em seu terceiro álbum com um único objetivo: te fazer dançar. E ela consegue, navegando com maestria as diferentes influências e ritmos e se mostrando uma das mais competentes cantoras da nova MPB. As composições assinadas por Tulipa e seu irmão Gustavo estão em sua melhor forma, assim como os vocais da moça. Tudo em Dancê funciona perfeitamente, é um álbum que te faz esquecer por alguns minutos de todas as incertezas da vida e dançar sem preocupações. Podia não ter dado em nada, então como é que virou?

OUÇA: “Virou”, “Prumo”, “Proporcional”, “Expirou” e “Algo Maior”

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06 | TEREZA – Pra Onde A Gente Vai

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Ah, o Tereza. Pra Onde A Gente Vai é seu segundo disco, e definitivamente o álbum mais divertido e engraçado do ano. Mas isso não quer dizer que trata-se de um álbum de comédia. O Tereza consegue, pela segunda vez, caminhar na linha tênue entre a irreverência e a maturidade, se levando a sério o suficiente para poder fazer piada – e não o contrário. Em termos de composição instrumental, Pra Onde A Gente Vai mostra um Tereza muito mais competente e profissional do que o de seu álbum anterior. As letras continuam geniais, no melhor estilo Outubro Ou Nada! do Bidê ou Balde – e, claro, sem contar que Pra Onde A Gente Vai é o lar do indiscutível melhor verso do ano; ‘Um dia com você na praia tem gosto de mamão papaya‘. Essas coisas não têm preço, e não podem ser fabricadas.

OUÇA: “Tara De Bicho”, “Intrusa”, “Eu Não Vou Mais Ligar”, “Não Sei” e “DJ”

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05 | JOHN GRANT – Grey Tickles, Black Pressure

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Grey Tickles, Black Pressure é um dos álbuns mais peculiares do ano. Em seu terceiro registro, John Grant continua misturando suas influências folk com eletrônicos de formas inusitadas e aparentemente desordenadas. Um álbum cujo tema principal, de uma forma ou de outra, é o amor – a si mesmo, aos amantes, à vida – e que abusa de referências a toda e qualquer coisa, transborda senso de humor e é mais do que tudo uma obra de arte. É um álbum que definitivamente nunca apareceu antes e não poderia ter sido feito por nenhuma outra pessoa. Grey Tickles, Black Pressure é o tipo de álbum que usa clichês de um jeito novo e original, que casa o folk e o eletrônico, que sempre vai ser interessante mesmo daqui a dez ou quinze anos.

OUÇA: “You And Him”, “Disappointing”, “Down Here”, “Grey Tickles, Black Pressure” e “Geraldine”

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04 | QUARTO NEGRO – Amor Violento

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É até difícil falar de Amor Violento, segundo trabalho dos paulistanos do Quarto Negro. Ele é um álbum que não se encaixa em definições pré-concebidas de gêneros musicais, o mais próximo é ‘shoegaze intenso ocasionalmente leve’. Mas mesmo isso parece não ser o suficiente. Amor Violento é um álbum que precisa ser vivenciado, talvez mais do que qualquer outro nessa lista. A única forma de entendê-lo é dar o play e se entregar completamente sem tentar entender o que está acontecendo, é deixar a atmosfera de guitarras, pianos e teclados te envolver por inteiro. É prestar atenção nas ótimas letras, quando elas estão claras o suficiente para serem compreendidas, e deixar que as composições falem quando não estão. Amor Violento é uma experiência sensorial única.

OUÇA: “3012”, “Julien”, “Orlando”, “Há Um Oceano Entre Nós” e “Amor Violento”

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03 | SCREAMING FEMALES – Rose Mountain

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Rock. Puro, cru e simples. Guitarra, baixo, bateria e uma voz marcante. Isso é tudo que o Screaming Females sempre precisou pra fazer um álbum maravilhoso, e é isso que temos aqui pela sexta vez. Marissa Paternoster encontrou seu estilo de vez em Rose Mountain. Seus vocais estão cada vez mais vindos diretamente da Escola Corin Tucker de Vibrato Entre Riffs Pesados, com músicas que vão do punk ao metal com a mesma fluidez de uma respiração. Rose Mountain é um passo certeiro na consolidação do Screaming Females como uma das melhores bandas de rock da atualidade. O conceito de ‘banda de rock’, assim como o de ‘rock’ em geral, está cada vez mais diluido, mas é só ouvir uma música como “Criminal Image” ou “Ripe” que tudo cai em seu lugar certo. Um álbum como Rose Mountain não aparece sempre, e deve ser celebrado quando chega.

OUÇA: “Criminal Image”, “Hopeless”, “Wishing Well”, “It’s Not Fair” e “Ripe”

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02 | GRIMES – Art Angels

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Praticamente três anos desde o pop experimental de “Oblivion”, Grimes retorna ainda mais pop e ainda mais experimental. Com uma produção muito mais radiofônica do que qualquer outra coisa que ela já fez, Art Angels é instantaneamente uma das coisas mais interessantes que você já ouviu. Pra cada batida pop acessível, existe algum algo completamente oposto – seja um grito, grunhido, sussurro ou instrumento estranho. Com uma mistura bem peculiar de influências que podem ir do punk ao country, Grimes em Art Angels está muito mais parecida com Kathleen Hanna do que com qualquer outra coisa. No começo dos anos 90, o movimento Riot Grrrl reinventou o punk aliando-o a temas feministas e podemos perceber que há algo parecido acontecendo no mundo pop hoje em dia. Não dá pra saber se ele tomará a mesma forma que o Riot Grrrl teve, mas sua necessidade continua gritante. E a Grimes é com certeza um dos principais nomes dessa nova Revolution Girl Style Now!

OUÇA: “Kill V. Maim”, “Flesh Without Blood”, “Artangels”, “Pin” e “Venus Fly”

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01 | COURTNEY BARNETT – Sometimes I Sit And Think, And Sometimes I Just Sit

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Quando ouvi “Pedestrian At Best” lá em Fevereiro, eu sabia que o até-então não lançado primeiro álbum da Courtney Barnett estaria nessa lista. Após ouvi-lo repetidas vezes durante o ano, a certeza era só uma: ele estaria nessa lista, e nessa posição. Não há outro álbum esse ano que mereça mais esse lugar do que Sometimes I Sit And Think, And Sometimes I Just Sit. Courtney Barnett entregou um álbum anacrônico, cheio de composições e letras que ultrapassam o ‘genial’ por quilometros. Mas mais importante, todos os versos cantados por Courtney, seja em formato confessional ou narrativo, fazem parte da vida de todos. Músicas como “Small Poppies” e “An Illustration Of Loneliness” são extremamente universais em sua simplicidade. Courtney Barnett faz música com o mundano em forma de fluxo de consciência, e canta histórias que acontecem com todas as pessoas, músicas sobre comprar vegetais orgânicos, nadar ou sobre procurar casas para morar. E tudo isso com uma boa dose de humor e auto-depreciação, pra contrabalancear a seriedade presente em cada música. Isso tudo, e o fato de que Courtney canta a palavra ‘funny’ por longos cinco segundos no refrão de “Pedestrian At Best”, depois de restaurar sua fé na versatilidade das guitarras. Não tem pra mais ninguém.

We either think we are invincible or that we are invisible, when realistically we’re somewhere in between.

OUÇA: “Depreston”, “Pedestrian At Best”, “An Illustration Of Loneliness (Sleepless In NY)”, “Small Poppies”, “Nobody Really Cares If You Don’t Go To The Party” e “Debbie Downer”

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00 | SLEATER-KINNEY – No Cities To Love

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Ready to climb out from under concrete.

Seria injusto com qualquer outra banda ou artista considerar No Cities To Love para uma lista de melhores desse ano. A importância e significância de No Cities To Love, principalmente depois de ler o maravilhoso livro de memórias Hunger Makes Me A Modern Girl da Carrie Brownstein, é imensurável tanto para a banda quanto para seus fãs. O Sleater-Kinney voltou depois de quase dez anos longe dos palcos, revigorado e com ainda mais força do que tinha antes. Um dos melhores aspectos de No Cities To Love é o fato de ser quase metalinguístico; elas justificam e explicam os dez anos separadas da melhor forma que sabem como, com palavras e guitarra (“Hey Darling”), e mostram que estava na hora certa de voltar também da mesma forma (“Bury Our Friends” e “Surface Envy”). A urgência vista em “Surface Envy” é algo que nunca esteve em nenhum outro lançamento delas, a voz rasgada de Corin Tucker junto com a bateira de Janet Weiss é o suficiente pra te deixar sem fôlego por dias.

I’m breaking the surface, tasting the air, reaching for things that I could never before.

No Cities To Love era inevitável. Sleater-Kinney é inevitável. Uma banda como Sleater-Kinney precisa existir, por que nunca existiu nada igual antes e nem depois. Somente elas mesmas podem continuar o trabalho que começaram, e é o que fazem aqui em seu oitavo álbum. Continuam exatamente de onde pararam, mas dessa vez mais maduras e responsáveis. O hiato também foi necessário para que houvesse esse distanciamento, para que fosse possível esse retorno com essa intensidade. E agora voltaram, e o mundo está muito melhor por isso. Não existe outra coisa a ser dita sobre No Cities To Love e nem para o Sleater-Kinney a não ser Muito Obrigado.

It’s not a new wave, it’s just you and me.

OUÇA: It’s not the cities, it’s the weather we love! It’s not the weather, it’s the nothing we love! It’s not the weather, it’s the people we love!

Sleater-Kinney – No Cities To Love

sleaterkinney
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Poucas bandas conseguem fazer os últimos dez anos desaparecerem completamente em três minutos, e foi isso o que aconteceu quando o Sleater-Kinney liberou “Bury Our Friends”, sua primeira música desde 2005. As palavras ‘álbum novo do Sleater-Kinney’ pareciam inconcebíveis em Janeiro de 2014, e cá estamos apenas um ano depois. O simples fato de No Cities To Love existir já é extraordinário, tendo em vista que elas encerraram suas atividades em 2006 pelo que parecia ser um motivo bastante simples e honesto: quiseram parar.

Antes de continuar sobre o álbum novo em si, é necessário falar um pouco sobre a importância histórica do Sleater-Kinney. A banda nasceu das cinzas de Heavens to Betsy e Excuse 17, percursoras do movimento Riot Grrrl na época em que isso significava alguma coisa, antes dele ter sua mensagem, imagem e propósito distorcidos pela (surpresa!) imprensa mainstream machista. O Riot Grrrl, juntamente com o Queercore, veio para dar voz (e muitas vezes gritos) a uma contracultura de mulheres e homens-não-héteros que lutavam por um espaço, principalmente na cena do rock, que consistia até então de um gigantesco clube do bolinha. E ela é assim até hoje, na verdade. A pergunta ‘Como é ser uma mulher em uma banda?’ é feita a literalmente todas as mulheres dentro da música, e ela é tão ridícula hoje quanto era em 1997 ou 1977. Talvez até mais. Nunca houve espaço para uma banda como Sleater-Kinney. Então elas estilhaçaram todas as regras e padrões e fizeram seu próprio espaço, obrigando a todos (incluindo os omi) a prestarem atenção por que suas músicas eram boas demais para serem ignoradas.

É um fato que nenhuma outra banda, nem antes e nem depois delas, chega aos pés do Sleater-Kinney no que se trata de, bem, tudo. Esqueçam Dohery/Barât, Turner/Kane, Barlow/Loewenstein e até mesmo Lennon/McCartney. A dinâmica da dupla Carrie Brownstein e Corin Tucker é a mais interessante que já apareceu no rock, as duas dividem as guitarras e os vocais na banda, mas sua colaboração tem mais um ar de competição do que qualquer outra coisa, como se estivessem testando uma à outra o tempo todo. Riffs que começam na guitarra de uma e terminam na da outra, linhas de vocais com ritmos completamente diferentes que se sobrepõem (ou então que parecem duas músicas sendo tocadas ao mesmo tempo), sem contar as vezes em que Carrie começa um solo de guitarra enquanto Corin ainda nem terminou de cantar seu verso. Tudo isso amarrado pela bateria matadora de Janet Weiss, que sempre cria composições e ritmos inusitados que parecem simples e casam perfeitamente com o que quer que seja que Carrie e Corin estão fazendo. Ouvir Sleater-Kinney é eletrizante.

Um dos motivos pelos quais um álbum novo do Sleater-Kinney parecia inconcebível, além do óbvio hiato, era seu último The Woods. A longevidade do S-K quando comparada às outras bandas também nascidas no Riot Grrrl deve-se ao fato de que elas sempre souberam evoluir. Sempre estiveram em contato com suas raízes, mas não há dois álbuns em sua discografia que dividem o mesmo som. É impossível ouvir uma de suas músicas e não saber exatamente em qual disco ela se encaixa, do punk cru de Call The Doctor à perfeição-indie-rock de One Beat. Até The Woods. Seu último álbum mudou literalmente tudo o que todo mundo conhecia do Sleater-Kinney. Com uma mistura de guitarras cristalinas e extremamente distorcidas, muitas vezes ao mesmo tempo, The Woods foi seu trabalho mais pesado tanto sonica quanto emocionalmente – mas que mesmo assim, de alguma forma, era mais acessível do que seu The Hot Rock. Era difícil, quase impossível, tentar adivinhar como seria o som de um Sleater-Kinney pós-The Woods e por muitos longos anos pareceu que não teríamos a chance de vivenciar isso.

E isso nos leva a No Cities To Love. Por onde começar?

Até aqui já devem ter percebido que Sleater-Kinney é algo extremamente pessoal para mim, e só o last.fm é capaz de dizer quantas vezes eu já ouvi No Cities To Love nessas poucas semanas desde que ele viu a luz do dia. E eu ainda não sei dizer o que é No Cities To Love. Talvez ninguém saiba. Talvez seja mais fácil tentar dizer o que No Cities To Love não é.

Ele não é a hora em que o trio não tem mais nada de novo para mostrar e muito menos o momento em que as meninas relaxaram e estão apenas se apoiando em seu próprio nome, por que Carrie e Corin continuam criando sons com as guitarras que desafiam qualquer lógica – desde usá-la para tocar algo que é basicamente uma linha de baixo até, segundo Tom Breihan, imitando ‘gatos robôs sendo estrangulados‘ – e a bateria de Janet está tão criativa quanto sempre foi.

Ele não é The Woods. A produção barulhenta monstruosa foi trocada por uma mais polida, simples e moderna, porém ainda mantendo a intensidade sem igual apresentada em seu trabalho anterior e é exatamente o que um álbum do Sleater-Kinney pós-The Woods seria.

Ele definitivamente não é o tão temido ‘álbum de reunião’, por que em momento algum No Cities To Love passa esse sentimento. Lembra aquela história dos últimos dez anos desaparecendo? É por que ele é tão orgânico e natural quanto qualquer outra coisa que elas já fizeram antes.

Ele pode ser que seja a última coisa que escutaremos do Sleater-Kinney. Não há planos a longo prazo sobre o que irá acontecer quando sua turnê acabar. Talvez um outro álbum novo possa aparecer no futuro, talvez não.

Ele é um presente. No Cities To Love é aquilo que você passou anos querendo mas não tinha nem coragem de dizer em voz alta por que sabia que era algo impossível de se conseguir. E agora que o tem, não consegue mais lembrar de um mundo no qual ele não existia.

O Sleater-Kinney deixou um buraco gigantesco na música quando encerraram suas atividades, um buraco que nenhuma outra banda conseguiu preencher e que ninguém conseguia ter real noção do seu tamanho até que elas próprias resolveram tapá-lo novamente.

Nas palavras da própria banda na música que encerra o disco: ‘If we are truly dancing our swan song, darling, shake it like never before‘. Tudo o que podemos fazer é apreciar No Cities To Love por tudo o que ele não é e o que ele é. Por isso que eu me recuso a quantificar No Cities To Love em uma escala arbitrária de zero a dez. Então não, essa resenha não tem nota. Nem sei direito se isso aqui pode ser chamado de ‘resenha’, na verdade…

OUÇA: Eu poderia dizer pra começar em “Price Tag” e só parar em “Fade”, mas na verdade o começo tá lá em “You Ain’t It” e não é pra parar nunca.