2018: Best Albums (Editor’s Choice – André)

10 | PALE WAVES – My Mind Makes Noises

O hype mais certeiro de 2018, My Mind Makes Noises é um electropop divertidíssimo e muito bem construído. Do hit “Television Romance” à introspectiva “Karl (I Wonder What It’s Like To Die)”, o Pale Waves navega por caminhos já trilhados antes por bandas como Chvrches e The 1975, e não há nada de errado nisso. O que o quarteto pode faltar em termos de originalidade eles certamente compensam com a qualidade de suas produções. My Mind Makes Noises é em sua maioria leve e divertido, pra se ouvir no dia a dia enquanto passamos pelas tribulações cotidianas, sem grandes pretensões ou experimentações. Talvez seja exatamente isso que o tornou um disco tão memorável nesse ano que chega ao fim.

OUÇA:  “Television Romance”, “There’s A Honey” e “Drive”


09 | CHVRCHES – Love Is Dead

O terceiro disco do Chvrches nos mostra uma banda muito mais pop e acessível do que qualquer outra coisa que já lançaram antes. Os sintetizadores densos de The Bones Of What You Believe que haviam sido suspensos na maior parte de Every Open Eye fazem aqui seu moderado retorno, mas ainda assim o clima aqui (apesar de seu título) não é muito pesado. Love Is Dead marca a primeira vez na qual o grupo trabalhou com produtores externos, talvez por isso a grande mudança na vibe em relação aos outros dois discos. Isso, nesse caso, está longe de ser algo ruim. “My Enemy”, parceria que conta com vocais de ninguém menos do que Matt Berninger, é um show à parte. O Chvrches tem trilhado uma carreira consistente e interessante nesses anos desde que apareceu, e a coisa aqui não é diferente.

OUÇA: “Deliverance”, “My Enemy” e “Graves”


08 | HARU NEMURI – 春と修羅 「Haru To Shura」

Haru To Shura é um álbum difícil de ser classificado, estranho e extremamente interessante. A japonesa Haru Nemuri caminha livremente entre o dream pop, rap e o noise rock e desafia os gêneros o tempo todo. Lembra daquela coisa que foi o Art Angels da Grimes? Pense isso, mas cantado em japonês e com mais guitarras e é possível chegar perto do que é Haru To Shura. Trata-se do primeiro álbum da moça, seguindo o EP Atom Heart Mother do ano passado, e serve pra firmar Nemuri como um dos mais interessantes nomes da música atual. A moça, que também faz parte do maravilhoso lineup do Primavera Sound 2019, já lançou dois novos singles (“I Wanna” e “Kick In The World”) que mostram que ela não está parando por aqui. Certeza de que muita coisa boa ainda virá de Haru Nemuri, e espero que reconhecimento internacional também faça parte do pacote.

OUÇA: “Sekai Wo Torikae Shite Okure”, “Narashite”, “Underground” e “Yumi Wo Miyou”


07 | DREAM WIFE – Dream Wife

As moças do Dream Wife nos presentearam com um indie punk dosado com a quantidade perfeita de acessibilidade pop e nítidas influências de bandas como Savages, The Libertines, Be Your Own Pet e Bikini Kill. O resultado? Um dos melhores e mais competentes debuts de 2018. Divertidíssimo, cheio de riffs interessantes, letras feministas e universais, e uma urgência, um fogo que não aparece com frequência. O som apresentado por Dream Wife pode não ser nem um pouco original, no final das contas, mas isso não importa nem um pouco quando trata-se de um rock tão bem feito quanto o que elas fizeram. Afinal, a tríade guitarra-baixo-bateria e nada mais funciona desde os ’70 por um motivo. E continua funcionando hoje.

OUÇA: “Fire”, “Hey Heartbreaker”, “Kids” e “Act My Age”


06 | DEATH CAB FOR CUTIE – Thank You For Today

Thank You For Today acabou se revelando uma das maiores surpresas do ano. Mesmo Death Cab for Cutie sendo uma de minhas bandas preferidas há muitos anos, eu admito que seus últimos álbuns pecaram um pouco – desde o Narrow Stairs em 2008 eu não incluía um de seus discos em meu top 10 do ano. Mas Thank You For Today, seu nono álbum de estúdio, superou todas as expectativas. Seu som aqui está muito mais parecido com sua fase ‘anos 2000’ do que com seus últimos trabalhos, e é o seu primeiro desde que o guitarrista e produtor Chris Walla saiu da banda em 2014 (e mesmo assim produzir Kintsugi, lançado em 2015). Thank You For Today soa quase como um presente para os fãs de longa data da banda, um álbum que resgata aquele sentimento que fez você se apaixonar por indie rock em 2005.

OUÇA: “Summer Years”, “Gold Rush” e “Northern Lights”


05 | SCREAMING FEMALES – All At Once

O Sreaming Females, depois de 15 anos de carreira e chegando agora em seu sétimo álbum de estúdio, já se consolidou como uma daquelas bandas das quais você já sabe o que esperar. E All At Once segue exatamente nesse momento. A maior surpresa de  All At Once é a direção quase pop-punk que a banda decidiu tomar; mas, talvez, mais surpreendente ainda seja o fato de que isso não alterou em nada a sua identidade construída nos trabalhos anteriores. Uma das maiores novidades que o Screaming Females nos trouxe em seu novo disco de estúdio é, na verdade, a sua simplicidade;  a banda nos traz os mesmos elementos de punk e metal que sempre fizeram com perfeição, mas dessa vez os misturam com uma produção acessível e fazem de All At Once um dos melhores discos lançados esse ano.

OUÇA: “Agnes Martin”, “Black Moon”, “My Body” e “I’ll Make You Sorry”


04 | LUCY DACUS – Historian

Lucy Dacus, desde o seu debut No Burden, já estava se firmando como uma das maiores compositoras do so-called indie rock atual. A moça, que tem apenas 23 anos, já nos mostra uma maturidade e complexidade invejáveis em seu segundo disco, Historian. “Night Shift”, que abre o disco, já é sozinha uma aglutinação de todos os elogios feitos à moça durante esse ano de 2018 como um todo: uma música extremamente pessoal e que traz Lucy Dacus como uma das melhores e mais interessantes vozes do ano. A moça, além de seu segundo álbum de estúdio, também lançou nesse ano o mini-álbum/EP boygenius composto, gravado e cantado ao lado de Phoebe Bridgers e Julien Baker, que apenas ilustra e consolida Lucy como uma das melhores compositoras de sua geração.

OUÇA: “Night Shift”, “Yours & Mine”, “Addictions” e “Pillar Of Truth”


03 | MITSKI – Be The Cowboy

Be The Cowboy, quinto álbum da maravilhosa Mitski, tinha um trabalho bastante complicado: seguir a obra prima que foi Puberty 2 em 2016. E ela não apenas consegue entregar um disco tão bom quanto o anterior, como lança um dos melhores álbuns de 2018. Be The Cowboy aposta em uma produção diferente do que foi Puberty 2, evitando as guitarras distorcidas e nos trás algo mais limpo e polido, levemente mais eletrônico e tão emocional quanto. ‘I’m a geyser, feel it bubbling from below‘, Mitski canta em “Geyser”, música com a qual abre o álbum. E a partir daí, ela voa. Em Be The Cowboy, Mitski Miyawaki prova mais uma vez que é uma das melhores compositoras de sua geração. Be The Cowboy seguiu um álbum perfeito se igualando a ele e talvez até o superando.

OUÇA: “A Pearl”, “Nobody”, “Washing Machine Heart”, “Geyser”, “Remember My Name”, “Pink In The Night” e “Why Didn’t You Stop Me?”


02 | SNAIL MAIL – Lush

Desde seu EP Habit em 2016 (e sua maravilhosa faixa “Thinning”), Lindsey Jordan e seu Snail Mail já estavam causando barulho na cena indie. Isso com, na época, apenas 16 anos. A moça, inclusive, foi descrita pela Pitchfork como ‘a adolescente mais inteligente do indie rock’ no ano passado. E agora, com Lush, seu primeiro álbum completo, ela ultrapassa todas e quaisquer expectativas. Com um som lindamente influenciado por nomes como Cat Power, Liz Phair, Pavement, Fiona Apple e Sonic Youth (como ela e a própria banda admitem), Lush traz uma Lindsey confiante e muito mais experiente do que aquela que lançou o ótimo Habit – e pouquíssimo tempo se passou. Com Lush, Lindsey rapidamente se coloca no mesmo patamar que nomes como Lucy Dacus e Julien Baker como uma das mais honestas e interessantes vozes do indie rock atual. Se em tão pouco tempo a moça já cresceu tanto e lançou um dos melhores discos do ano, tudo isso antes dos 20, sua carreira promete ser extraordinária. E eu pessoalmente fico no aguardo.

OUÇA: “Pristine”, “Let’s Find An Out”, “Heat Wave”, “Full Control” e “Speaking Terms”


01 | E A TERRA NUNCA ME PARECEU TÃO DISTANTE – Fundação

Desde 2012 com Allelujah! Don’t Bend! Ascend! do Godspeed You! Black Emperor um álbum instrumental não acabava o ano no topo da minha lista de melhores, se me recordo bem. E agora, em 2018, isso acontece de novo com o primeiro álbum completo dos paulistanos E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante, Fundação. E não tinha como ser diferente. Fundação é um álbum que não aparece com frequência, é um álbum impecável, extremamente complexo e emocional que aglutina tudo o que a banda já havia apresentado antes em seus EPs e singles desde 2014. Fundação é um álbum que, como todo bom post-rock, dispensa palavras e apresentações. A banda já havia se provado como uma das melhores e mais intensas do gênero (não apenas pensando em nacionais, mas como um todo) e agora aqui veio a última gota que faltava para sua consolidação. Isso tudo sem falar em seus shows ao vivo… Sendo ou não fã de post-rock eu recomendo a todos assistirem ao E A Terra ao vivo se tiverem a oportunidade. É uma catarse brutal como pouquíssimas outras experiências na vida.

OUÇA: “Karoshi”, “Daiane”, “Como Aquilo Que Não Se Repete”, “Se A Resposta Gera Dúvida, Então Não É A Solução” e “Quando O Vento Cresce E Parece Que Chove Mais”

Screaming Females – All At Once


É difícil escrever sobre uma de suas bandas preferidas e tentar ser imparcial, mas vamos lá; o Screaming Females é uma banda de New Jersey que já tem quase quinze anos de carreira e All At Once, seu novo registro, é seu sétimo álbum de estúdio. Trata-se de uma banda extramemente competente e que nesses anos vem lançando álbuns cada vez melhores. Seu anterior, Rose Mountain (2015), havia sido impecável e seu melhor trabalho até então pois mostrou que a banda conseguia acessibilizar seu som bastante pesado sem mudá-lo integralmente.

A primeira música nova que ouvimos foi a estonteante “Black Moon”, lançada de forma extremamente limitada – apenas 24 cópias em vinil existem e foram vendidas somente em uma loja de discos em sua cidade natal. Isso foi em setembro do ano passado, e a música em questão era a prova de que mais uma vez o Screaming Females não ia decepcionar, e não decepcionou.

All At Once começa exatamente de onde Rose Mountain tinha parado, a banda continua com seus riffs e baterias pesados ao mesmo tempo em que torna suas músicas cada vez mais acessíveis. Há momentos aqui que são quase um pop punk, como “I’ll Make You Sorry”, e outros bastante pesados e reminiscentes de álbuns como Castle Talk (“Agnes Martin”) – e isso é algo muito maravilhoso.

Aqui o Screaming Females mostra toda a gama do que conseguem fazer com perfeição, e essa versatilidade permeia o álbum do início ao fim. Os vocais e guitarras de Marissa Paternoster estão cada vez mais confiantes e poderosos, e seus colegas de banda não ficam atrás. O baixo de Mike Abbate também tem seu destaque em várias das faixas – especialmente “Glass House”.

No entanto, All At Once não é livre de falhas e marca a primeira vez desde Power Move no qual uma certa edição da tracklist teria levantado ainda mais o álbum. Faixas como “End Of My Bloodline” e “Bird In Space” não adicionam tanto e poderiam facilmente ser cortadas sem grandes detrimentos.

All At Once é um nome bastante apropriado para o álbum, pois aqui o Screaming Females realmente faz de tudo ao mesmo tempo. Do suave ao bruto, do calmo ao agitado, da leveza ao peso – e faz tudo isso com maestria. Em seu sétimo disco, a banda se confirma mais uma vez como uma das melhores bandas de rock da atualidade e que sabem como agregar elementos ao seu som sem perder sua identidade.

OUÇA: “Agnes Martin”, “Black Moon”, “I’ll Make You Sorry”, “Soft Domination”, “My Body” e “Deeply”. E todo o restante de sua discografia.

2015: Best Albums (André)

10 | BEST COAST – California Nights

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Após uma escorregada feia e grave em seu segundo disco, o Best Coast retorna em sua melhor forma. E tudo funciona como sempre deveria: bem. Letras que parecem ter vindas de um diário, riffs monstruosos em sua simplicidade.  O Best Coast mais do que compensou pela insipidez de The Only Place e nos presenteou com o melhor álbum que eles poderiam ter lançado. O melhor verso de California Nights é o seu mais simples: ‘I know it’s love that’s got me feeling ok‘. E ninguém nunca precisou de mais nada. O amor pode e deve te deixar se sentindo ok, mas ‘ok’ não é nem de longe a melhor palavra para California Nights. Iremos com ‘ótimo’, ‘supreendente’ e ‘incrível’.

OUÇA: “Feeling Ok”, “Jealousy”, “So Unaware”, “Run Through My Head” e “Heaven Sent”

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09 | CHVRCHES – Every Open Eye

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Otimismo é uma coisa que não parecia combinar muito bem com o Chvrches apenas dois anos atrás, mas é o que encontramos em Every Open Eye. Um instrumental mais ensolarado flertando forte com os anos 80 mas ainda gótico suave. Todas as músicas são épicas como hinos e grudentas como o hit do verão, em seu segundo disco o Chvrches altera um pouco a fórmula mas faz um álbum ótimo. A melhor metáfora para o novo trabalho do Chvrches foi uma que eles mesmos fizeram no clipe de “Empty Threat”: adolescentes góticos bêbados se divertindo em um parque aquático.

OUÇA: “Clearest Blue”, “Empty Threat”, “Never Ending Circles”, “Bury It” e “Playing Dead”

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08 | OF MONSTERS AND MEN – Beneath The Skin

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O Of Monsters and Men tinha um trabalho bem difícil pela frente, e ele era conseguir superar seu excelente primeiro álbum My Head Is An Animal. E eles conseguiram. Beneath The Skin mostra uma banda mais em contato consigo mesma, mais séria, melódica e (por falta de outra palavra) sombria e sóbria. Sua música continua trazendo um sentimento de pura esperança mais do que nunca, e isso já pode ser percebido desde “Crystals”. My Head Is An Animal foi um começo excelente, mas Beneath The Skin consegue ser melhor ainda. Versos como ‘Cover your crystal eyes and let your colours bleed and blend with mine‘ traduzem perfeitamente coisas que muitas vezes não conseguimos falar apenas com palavras para quem mais precisamos. É exatamente pra isso que a música de forma geral existe, e Beneath The Skin faz isso o tempo todo – é uma catarse a cada verso.

OUÇA: “Crystals”, “Empire”, “Thousand Eyes”, “I Of The Storm” e “Wolves Without Teeth”

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07 | TULIPA RUIZ – Dancê

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Tulipa Ruiz volta em seu terceiro álbum com um único objetivo: te fazer dançar. E ela consegue, navegando com maestria as diferentes influências e ritmos e se mostrando uma das mais competentes cantoras da nova MPB. As composições assinadas por Tulipa e seu irmão Gustavo estão em sua melhor forma, assim como os vocais da moça. Tudo em Dancê funciona perfeitamente, é um álbum que te faz esquecer por alguns minutos de todas as incertezas da vida e dançar sem preocupações. Podia não ter dado em nada, então como é que virou?

OUÇA: “Virou”, “Prumo”, “Proporcional”, “Expirou” e “Algo Maior”

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06 | TEREZA – Pra Onde A Gente Vai

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Ah, o Tereza. Pra Onde A Gente Vai é seu segundo disco, e definitivamente o álbum mais divertido e engraçado do ano. Mas isso não quer dizer que trata-se de um álbum de comédia. O Tereza consegue, pela segunda vez, caminhar na linha tênue entre a irreverência e a maturidade, se levando a sério o suficiente para poder fazer piada – e não o contrário. Em termos de composição instrumental, Pra Onde A Gente Vai mostra um Tereza muito mais competente e profissional do que o de seu álbum anterior. As letras continuam geniais, no melhor estilo Outubro Ou Nada! do Bidê ou Balde – e, claro, sem contar que Pra Onde A Gente Vai é o lar do indiscutível melhor verso do ano; ‘Um dia com você na praia tem gosto de mamão papaya‘. Essas coisas não têm preço, e não podem ser fabricadas.

OUÇA: “Tara De Bicho”, “Intrusa”, “Eu Não Vou Mais Ligar”, “Não Sei” e “DJ”

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05 | JOHN GRANT – Grey Tickles, Black Pressure

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Grey Tickles, Black Pressure é um dos álbuns mais peculiares do ano. Em seu terceiro registro, John Grant continua misturando suas influências folk com eletrônicos de formas inusitadas e aparentemente desordenadas. Um álbum cujo tema principal, de uma forma ou de outra, é o amor – a si mesmo, aos amantes, à vida – e que abusa de referências a toda e qualquer coisa, transborda senso de humor e é mais do que tudo uma obra de arte. É um álbum que definitivamente nunca apareceu antes e não poderia ter sido feito por nenhuma outra pessoa. Grey Tickles, Black Pressure é o tipo de álbum que usa clichês de um jeito novo e original, que casa o folk e o eletrônico, que sempre vai ser interessante mesmo daqui a dez ou quinze anos.

OUÇA: “You And Him”, “Disappointing”, “Down Here”, “Grey Tickles, Black Pressure” e “Geraldine”

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04 | QUARTO NEGRO – Amor Violento

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É até difícil falar de Amor Violento, segundo trabalho dos paulistanos do Quarto Negro. Ele é um álbum que não se encaixa em definições pré-concebidas de gêneros musicais, o mais próximo é ‘shoegaze intenso ocasionalmente leve’. Mas mesmo isso parece não ser o suficiente. Amor Violento é um álbum que precisa ser vivenciado, talvez mais do que qualquer outro nessa lista. A única forma de entendê-lo é dar o play e se entregar completamente sem tentar entender o que está acontecendo, é deixar a atmosfera de guitarras, pianos e teclados te envolver por inteiro. É prestar atenção nas ótimas letras, quando elas estão claras o suficiente para serem compreendidas, e deixar que as composições falem quando não estão. Amor Violento é uma experiência sensorial única.

OUÇA: “3012”, “Julien”, “Orlando”, “Há Um Oceano Entre Nós” e “Amor Violento”

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03 | SCREAMING FEMALES – Rose Mountain

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Rock. Puro, cru e simples. Guitarra, baixo, bateria e uma voz marcante. Isso é tudo que o Screaming Females sempre precisou pra fazer um álbum maravilhoso, e é isso que temos aqui pela sexta vez. Marissa Paternoster encontrou seu estilo de vez em Rose Mountain. Seus vocais estão cada vez mais vindos diretamente da Escola Corin Tucker de Vibrato Entre Riffs Pesados, com músicas que vão do punk ao metal com a mesma fluidez de uma respiração. Rose Mountain é um passo certeiro na consolidação do Screaming Females como uma das melhores bandas de rock da atualidade. O conceito de ‘banda de rock’, assim como o de ‘rock’ em geral, está cada vez mais diluido, mas é só ouvir uma música como “Criminal Image” ou “Ripe” que tudo cai em seu lugar certo. Um álbum como Rose Mountain não aparece sempre, e deve ser celebrado quando chega.

OUÇA: “Criminal Image”, “Hopeless”, “Wishing Well”, “It’s Not Fair” e “Ripe”

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02 | GRIMES – Art Angels

GRIMES2015

Praticamente três anos desde o pop experimental de “Oblivion”, Grimes retorna ainda mais pop e ainda mais experimental. Com uma produção muito mais radiofônica do que qualquer outra coisa que ela já fez, Art Angels é instantaneamente uma das coisas mais interessantes que você já ouviu. Pra cada batida pop acessível, existe algum algo completamente oposto – seja um grito, grunhido, sussurro ou instrumento estranho. Com uma mistura bem peculiar de influências que podem ir do punk ao country, Grimes em Art Angels está muito mais parecida com Kathleen Hanna do que com qualquer outra coisa. No começo dos anos 90, o movimento Riot Grrrl reinventou o punk aliando-o a temas feministas e podemos perceber que há algo parecido acontecendo no mundo pop hoje em dia. Não dá pra saber se ele tomará a mesma forma que o Riot Grrrl teve, mas sua necessidade continua gritante. E a Grimes é com certeza um dos principais nomes dessa nova Revolution Girl Style Now!

OUÇA: “Kill V. Maim”, “Flesh Without Blood”, “Artangels”, “Pin” e “Venus Fly”

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01 | COURTNEY BARNETT – Sometimes I Sit And Think, And Sometimes I Just Sit

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Quando ouvi “Pedestrian At Best” lá em Fevereiro, eu sabia que o até-então não lançado primeiro álbum da Courtney Barnett estaria nessa lista. Após ouvi-lo repetidas vezes durante o ano, a certeza era só uma: ele estaria nessa lista, e nessa posição. Não há outro álbum esse ano que mereça mais esse lugar do que Sometimes I Sit And Think, And Sometimes I Just Sit. Courtney Barnett entregou um álbum anacrônico, cheio de composições e letras que ultrapassam o ‘genial’ por quilometros. Mas mais importante, todos os versos cantados por Courtney, seja em formato confessional ou narrativo, fazem parte da vida de todos. Músicas como “Small Poppies” e “An Illustration Of Loneliness” são extremamente universais em sua simplicidade. Courtney Barnett faz música com o mundano em forma de fluxo de consciência, e canta histórias que acontecem com todas as pessoas, músicas sobre comprar vegetais orgânicos, nadar ou sobre procurar casas para morar. E tudo isso com uma boa dose de humor e auto-depreciação, pra contrabalancear a seriedade presente em cada música. Isso tudo, e o fato de que Courtney canta a palavra ‘funny’ por longos cinco segundos no refrão de “Pedestrian At Best”, depois de restaurar sua fé na versatilidade das guitarras. Não tem pra mais ninguém.

We either think we are invincible or that we are invisible, when realistically we’re somewhere in between.

OUÇA: “Depreston”, “Pedestrian At Best”, “An Illustration Of Loneliness (Sleepless In NY)”, “Small Poppies”, “Nobody Really Cares If You Don’t Go To The Party” e “Debbie Downer”

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00 | SLEATER-KINNEY – No Cities To Love

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Ready to climb out from under concrete.

Seria injusto com qualquer outra banda ou artista considerar No Cities To Love para uma lista de melhores desse ano. A importância e significância de No Cities To Love, principalmente depois de ler o maravilhoso livro de memórias Hunger Makes Me A Modern Girl da Carrie Brownstein, é imensurável tanto para a banda quanto para seus fãs. O Sleater-Kinney voltou depois de quase dez anos longe dos palcos, revigorado e com ainda mais força do que tinha antes. Um dos melhores aspectos de No Cities To Love é o fato de ser quase metalinguístico; elas justificam e explicam os dez anos separadas da melhor forma que sabem como, com palavras e guitarra (“Hey Darling”), e mostram que estava na hora certa de voltar também da mesma forma (“Bury Our Friends” e “Surface Envy”). A urgência vista em “Surface Envy” é algo que nunca esteve em nenhum outro lançamento delas, a voz rasgada de Corin Tucker junto com a bateira de Janet Weiss é o suficiente pra te deixar sem fôlego por dias.

I’m breaking the surface, tasting the air, reaching for things that I could never before.

No Cities To Love era inevitável. Sleater-Kinney é inevitável. Uma banda como Sleater-Kinney precisa existir, por que nunca existiu nada igual antes e nem depois. Somente elas mesmas podem continuar o trabalho que começaram, e é o que fazem aqui em seu oitavo álbum. Continuam exatamente de onde pararam, mas dessa vez mais maduras e responsáveis. O hiato também foi necessário para que houvesse esse distanciamento, para que fosse possível esse retorno com essa intensidade. E agora voltaram, e o mundo está muito melhor por isso. Não existe outra coisa a ser dita sobre No Cities To Love e nem para o Sleater-Kinney a não ser Muito Obrigado.

It’s not a new wave, it’s just you and me.

OUÇA: It’s not the cities, it’s the weather we love! It’s not the weather, it’s the nothing we love! It’s not the weather, it’s the people we love!

Screaming Females – Rose Mountain

1FEMALES

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O Screaming Females é aquela banda que você, se acompanha minimamente o que acontece no ~lado indie da vida~, já ouviu falar em algum momento nesses últimos dez anos em que o trio existe. Talvez tenha ouvido falar sobre Ugly, seu álbum de 2012, que surpreendeu meio mundo por que marcou de uma forma nítida e impactante a evolução da banda de uma só vez. Não que seus álbuns anteriores fossem ruins, mas Ugly foi algo meio inexplicável. Talvez tenha ouvido falar neles por causa do (incrível) cover que fizeram de “If It Makes You Happy” da Sheryl Crow, da gravação ao lado do Garbage da clássica “Because The Night” da Patti Smith. Ou talvez até de sua versão inesperada de “Shake It Off” da Taylor Swift. De qualquer forma, você já deve ter ouvido falar do Screaming Females e grandes chances de não ter dado a eles muita atenção antes. E é aqui que eu falo: Parem agora o que estiverem fazendo e vão ouvir Screaming Females. De nada.

Marissa Paternoster não é sua frontwoman típica. Fora dos palcos ela é quieta, pequena e de aparência frágil. É algo até meio idiossincrático, pois ela é uma das vozes e guitarras mais poderosas da música atual. E ‘poderoso’ é o melhor adjetivo para falar de seu sexto álbum, Rose Mountain. Marissa, Michael e Justin pegaram tudo o que deu certo em Ugly e reduziram, condensaram e elevaram ao máximo, resultando em um álbum curto, mas que beira a perfeição porque não existe uma única música fraca. Como sempre, o trio caminha livremente entre o indie, o punk e o metal, e em Rose Mountain fazem isso de uma forma muito mais fluida do que as anteriores e com uma pegada mais, de certa forma, acessível.

Essa acessibilidade faz com que Rose Mountain seja um álbum muito mais radiofônico do que qualquer um dos seus anteriores, e a sacada genial é que ele continua tão pesado quanto eles sempre foram. Mesmo Ugly tendo sido uma obra prima, Rose Mountain é a primeira vez em que Marissa parece ter finalmente encontrado sua voz e seus riffs, como se tivesse conseguido pegar a confiança que transbordou em “Doom 84” e a utilizado no álbum todo dessa vez. Todas as dez músicas de Rose Mountain têm potencial para serem o lead single do álbum, e isso só significa que Rose Mountain foi feito para ser ouvido na íntegra. Se houver uma obrigação de escolher uma única música para representar o álbum, esse fardo vai para “Hopeless”, a mais calma do disco. Sua estrutura sem refrão e em constante crescendo sem nunca explodir de fato é algo que instiga e te obriga a ouvi-la de novo e de novo e de novo e de novo…

Apesar de toda a sua qualidade, Rose Mountain provavelmente não será o momento em que o “mainstream” prestará atenção no Screaming Females. E grandes chances desse momento não chegar nunca, mesmo que a banda seja aquele caso raríssimo de artistas literalmente se tornam melhores a cada lançamento ao invés de lançarem cada vez álbuns mais fracos e inevitavelmente pertencerem à gama de artistas que ‘eram melhores no começo’.

Então eu concluo esse texto refazendo o pedido que há pouco fiz a vocês, leitores. Ouçam Rose Mountain. Prestem atenção no Screaming Females.

OUÇA: “Hopeless”, “Criminal Image”, “Triumph”, “Wishing Well”, “Ripe” e “It’s Not Fair”.