2018: Best Albums (Staff’s Choice)

10 | MGMT – Little Dark Age

Como eu gosto de um grande retorno! E não há outra maneira de descrever Little Dark Age, a não ser dizendo que é o merecido e aguardado grande retorno do MGMT. Depois do aclamado álbum de estreia em 2007, é inegável dizer que a discografia do MGMT foi ladeira a baixo. Apesar de alguns singles interessantes ao longo dos anos, vide “Your Life Is A Lie” e “Congratulations”, os discos soaram bastante irregulares e pareciam ter sido feitos propositalmente inacessíveis. Esse jogo começou a virar quando a banda liberou o primeiro single dessa nova safra, o homônimo “Little Dark Age”, revelando letra inspiradíssima e estrutura mais pop, no melhor e mais precioso sentido dessa palavra por vezes tão mal interpretada. Essas características se repetem em maior ou menor grau em todas as demais faixas do disco, com destaque para o segundo single “When You Die”, a pegajosa “Me And Michael” e a psicodélica “Hand It Over”. No entanto, apesar de bem mais acessível, ainda há uma estranheza cativante que misturada a refrãos grudentos faz de Little Dark Age o melhor disco do MGMT desde seu debut. Quem foi paciente e não se dispersou ao longo dos anos, foi recompensado com um álbum bastante inspirado e digno de figurar na nossa lista de melhores. MGMT, sejam bem-vindos de volta!

por Angelo Fadini

OUÇA: “Little Dark Age”, “When You Die”, “Me And Michael” e “Hand It Over”


09 | CARNE DOCE – Tônus

No cerrado, o Sol não dá trégua, o calor e o clima seco aumentam a temperatura de cidades como Goiânia, que apesar do sertanejo, é referencia como berço de vários grupos de indie nacional, como Boogarins, Black Drawing Chalks e Carne Doce. Tônus é o terceiro o disco do Carne Doce, uma ode ao corpo e ao prazer e, por que não, a todo esse calor. Salma Jô e sua voz, grave, muitas vezes calma, canta ao longo de longos riffs de guitarra e percussão, as suas letras mais íntimas, repletas de sensibilidade e amor. Se na faixa “Comida Amarga”, o envelhecimento é um empecilho, é em “Amor Distrai (Durin)” onde o sexo e o tesão ganham força em um lirismo sutil e livre de amarras, auge lírico do disco, onde todas as bads que permeiam faixas como “Ossos” e “Golpista” se perdem e dão ao eu lírico um momento de prazer. 2018 foi marcado por vários lançamentos nacionais de qualidade, e Tônus se destaca não só pelas suas letras e produção, mas também por fortalecer a carreira do Carne Doce, aumentando o seu reconhecimento para além das playlists mais moderninhas. O trabalho é lembrado também pela grande mídia e, ao contrário dos que dizem que o rock morreu, mostra que é possível se reinventar e enfrentar temas tão atuais e, ao mesmo tempo, íntimos de todos nós.

por Alexandre Leopoldino

OUÇA: “Tônus”


08 | SNAIL MAIL – Lush

2018 se despede, mas não antes de estabelecer as fundações para uma nova era no jeito como o rock é feito. A pesquisa de mercado produzida nos EUA e no Reino Unido pela gigante Fender em outubro deste ano mostra que metade dos aspirantes a guitarristas são mulheres; há também mais LGBTQs e negros interessados na compra e aprendizagem do instrumento. O estudo arrebata: quase metade desse público vê a guitarra como parte de sua identidade. E se essa ótima notícia não é o suficiente para convencer e propor uma visão otimista sobre o futuro desse gênero musical, talvez pela quietude das palavras, deixe que as primeiras melodias de Lush façam o trabalho. De “Pristine” à já clássica “Heat Wave” ao fechamento em “Anytime”, o debut de Lindsay Jordan (que assina seu projeto como Snail Mail), a jovem garota de 19 anos, é absolutamente irresistível. Com uma produção límpida, o disco desfila 38 minutos em alta performance, com destaques para o vocal agridoce, extremamente potente, e, claro, arranjos de guitarras magnéticos advindos da Fender carmesim da própria Lindsey. O colorido e pujante Lush, enfim, demonstra que o rock e a guitarra estão mais vivos do que nunca e (re)florescerão com novo frescor nas mãos de Lindsey Jordan e de outras jovens mulheres.

por Jorge Fofano Junior

OUÇA: “Heat Wave”, “Full Control” e “Stick”


07 | COURTNEY BARNETT – Tell Me How You Really Feel

Tem sido muito bom ser Courtney Barnett. Depois do bom disco de estréia Sometimes I Sit And Think, And Sometimes I Just Sit, de 2015, a guitarrista e vocalista australiana, que é um dos principais nomes do rock alternativo embarcou, no ano passado, num projeto conjunto com o também elogiado Kurt Ville e lançou Lotta Sea Lice, que combinava o talento de composição e o contraste vocal dos dois guitarristas com os temas bucólicos mais presentes na carreira de Ville. O sucesso da parceria deixava claro: Barnett não era um piano de uma nota só. Se é que restava dúvida após os dois discos, hoje em dia elas provavelmente foram implodidas com o excelente Tell Me How You Really Feel, segundo disco solo da guitarrista e uma franca evolução em relação ao seu primeiro trabalho autoral. Se Sometimes I Sit And Think… exibiu o talento da artista para a composição de riffs e melodias e apresentou performance vocal cínica que combinava bem com as letras auto-depreciativas e irônicas das suas músicas, Tell Me How You Really Feel evoluiu naquilo que foi uma das principais críticas ao debut: a unidimensionalidade. Como o nome já diz, o segundo disco de Courtney Barnett, enquanto mantém o tom irônico e as guitarras distorcidas com pitadas de garage rock do primeiro, se permite expor a própria vulnerabilidade e tocar em pontos bastante sensíveis e pessoais, como a dificuldade em lidar consigo mesmo, na faixa “Need A Little Time” (melhor do disco), ou a insegurança urbana a que a mulher está sujeita em “Nameless, Faceless”. Além disso, se esse disco apresenta uma maior profundidade emocional de Barnett, ele o faz sem perder o sarcasmo que era uma das maiores forças do disco de estreia. Três discos entre bons e excelentes em quatro anos é uma bela conquista. A vontade era elogiar o trabalho de Courtney, mas ela avisou que se a colocarmos num pedestal, ela vai decepcionar…

por Guilherme Vasconcellos

OUÇA: “Need A Little Time”, “Nameless, Faceless”, “Charity”, “Walkin’ On Eggshells” e “Sunday Roast”


06 | ROSALÍA – El Mal Querer

Diferentemente do seu primeiro álbum Los Ángeles (2017), em que a artista presta uma homenagem ao flamenco, em El Mal Querer ela buscou fazer algo diferente, mas sem abandonar suas raízes. Baseado em um manuscrito de autoria desconhecida do século 13, O Romance De Flamenca, seu último disco conta a história de uma mulher cujo amante está preso em uma torre. Quase como em uma inversão de papéis de Rapunzel, o romance satiriza os costumes e instituições da época. Narrativa também presente no álbum, que dividido em capítulos, narra os diferentes estágios de uma relação amorosa tóxica. Da provocativa imagem de capa, do fotógrafo e artista visual Flip Custic – o formato de uma vagina em meio a símbolos religiosos — ao refinamento melódico e lírico que se destaca em cada composição, El Mal Querer (2018, Sony Music) é um trabalho político cultural mais do que essencial em 2018. Em períodos de intolerância, xenofobia, homogeneização e extinção de patrimônios culturais, ROSALÍA resgata o flamenco, um dos principais símbolos da cultura espanhola, e lhe dá uma nova roupagem, usando-o para falar sobre algo estrutural, que, infelizmente, todas as mulheres enfrentam – o machismo.

por Giovanna Querido

OUÇA: “MALAMENTE (Cap.1: Augurio)”, “PIENSO EN TU MIRÁ (Cap.3: Celos)”, “BAGDAD (Cap.7: Liturgia)” e “DI MI NOMBRE (Cap.8: Éxtasis)”


05 | BACO EXU DO BLUES – Bluesman

Se em Esú (2017) Baco Exu do Blues transpôs a barreira entre deuses e homens e encurtou a distância entre os céus e a terra, em Bluesman o rapper baiano contempla sua própria fragilidade enquanto jovem negro vivendo em uma sociedade hostil aos corpos e mentes negras e reflete de forma honesta sobre sua saúde mental. Depressão e ansiedade estão no coração de Bluesman, mas Baco também fala sobre autoestima, sobretudo a autoestima do homem e da mulher negra, sobre estar vivo e prosperar em um mundo racista que não se conforma com o sucesso, a criatividade e beleza daqueles cuja humanidade era negada há pouco mais de 100 anos. Ser bluesman, afinal, é celebrar a arte negra que propõe um exercício de re-imaginação do papel dos negros na sociedade e rejeitar a imagem do negro submisso, desprovido de talento e fadado à invisibilidade em meio a um mundo branco. Bluesman é certamente um dos melhores álbuns brasileiros de 2018, pois abre novas portas criativas para o rap brasileiro e toca em assuntos urgentes em nosso país como o cuidado com a saúde mental e os efeitos do racismo em nosso cotidiano.

por Felipe Adão

OUÇA: “Kanye West Da Bahia”, “Me Desculpa Jay-Z” e “Girassóis De Van Gogh”


04 | KALI UCHIS – Isolation

O que se destaca em Isolation além da produção impecável e da naturalidade com que a jovem colombiana transita entre estilos musicais é a verdade que ela imprime em suas letras e performances vocais. Tudo ali vibra uma vulnerabilidade sincera de se colocar no mundo como é sem pedir desculpas e por isso se torna tão cativante. As participações de artistas já consagrados tanto na produção como nas performances aparecem de tal forma que fica claro toda a autoconsciência e controle que Kali Uchis tem sobre o seu trabalho pois todas elas servem apenas para reforçar o potencial que a suavidade e a cadência de sua voz podem trazer. Isolation merece ser visitado porque é um retrato claro do momento musical que vivemos com a diversidade de influências que agrega sem se prender a um estilo ou gênero específico e tão bem executado que com certeza será um referencial pra quem busca fazer música pop hoje em dia.

por Diego Bonadiman

OUÇA: “Just A Stranger”, “Tyrant”, “Nuestro Planeta” e “After The Storm”


03 | ELZA SOARES – Deus É Mulher

Não é à toa que o melhor álbum brasileiro de 2018 seja da Elza Soares. Diante da consagração política da imbecilidade, ignorância e preconceito, cabe a uma mulher negra de mais de 80 anos dar um grito que representa Marielle Franco, Môa do Katendê e tantas outras pessoas que fazem parte de minorias cada vez mais ameaçadas. Depois do aclamado A Mulher Do Fim Do Mundo (2015), Elza apostou em uma levada mais rock com Deus É Mulher, em que aborda racismo, intolerância religiosa, machismo e tantas outras complexidades da nossa sociedade, de um jeito cru e corajoso, sem nunca soar como lição de moral. Sua voz continua feroz, ecoando a resistência que o Brasil tanto precisa. Artistas que evitam se posicionar, seja em sua música ou em declarações, deveriam seguir o exemplo dessa deusa.

por Ronaldo Trancoso Junior

OUÇA: Todas. Aproveite para ouvir o álbum anterior. E tudo o que ela já fez antes.


02 | JANELLE MONÁE – Dirty Computer

Dirty Computer, terceiro álbum da americana Janelle Monáe, com sua capa repleta de referências imagéticas que vão desde representações arcaizantes de religiões africanas, passando pela iconografia religiosa russa, às máscaras de cavaleiros da Idade Média, e também à ciência e à tecnologia (a representação da auréola em uma corola repleta de erupções solares), é exatamente isto: um corpo estético atemporal se deslocando pelas camadas de sonoridades, que flertam com o R&B, o chill out, o funk, o hip-hop, o pop e a música de vanguarda. Janelle soube fusionar tais referências em um álbum coeso, feminino, mas feminino de uma maneira muito queer, andrógina, ambígua. A heterogeneidade das faixas, ainda que enfeixadas por uma abordagem sonora primariamente calcada na black music, opera na construção de pequenas fissuras por meio das quais se pode vislumbrar a seriedade, o comprometimento e a força política da alegria e do auto-respeito. Um álbum cuja tapeçaria discursiva em prol da mulher, dos negros e das ditas minorias sexuais estalam como tapas na alienação política da sociedade americana da era Trump. Ao lado de Broken Politics, da sueca Neneh Cherry, também negra e consciente de seu papel como mulher e artista, Dirty Computer se justifica como um dos álbuns mais interessantes desse terrível 2018.

por Claudimar da Silva

OUÇA: “Dirty Computer”, “Crazy, Classic, Life”, “Take A Byte”, “Django Jane” e “Americans”


01 | BEACH HOUSE – 7

Embora todos os discos anteriores do Beach House sejam marcados pela atmosfera de sonhos, 7 se diferencia pelo peso que essa construção toma: infinitamente mais planejado que os últimos, um dedicado a b-sides e Thank You Lucky Stars, significantemente mais fraco até do que o apanhado de sobrinhas, anuncia a chegada do duo de Baltimore a um novo patamar. As guitarras ficam mais pesadas, os vocais ficam mais claros e a construção de uma narrativa, tanto internamente nas letras e arranjos, quanto externamente na tentativa de traduzir essa atmosfera de nebulosidade para a promoção do álbum: a vocalista Victoria deu entrevistas enigmáticas nas quais ela discorria sobre as influências da Lua no disco, intensificando a relação da banda com a criação de uma ambientação enquanto elemento essencial da música deles. Depois de discos iniciais sólidos e um meio de carreira um pouco menos consistente, parece apontar para uma nova direção, como a vocalista mesma disse, não tão certa quanto o número 1, mas ainda assim, uma direção.

por Bárbara Blum

OUÇA: “L’Inconnue”, “Dark Spring” e “Black Car”

ROSALÍA – El Mal Querer


A junção da tradição local e a imponente personalidade identitária se fundem com a melodia tradicional e o R&B modernizado para configurar uma experiência multifacetada de sons e ambientes que tornam El Mal Querer uma experiência valiosa. Introspectiva mas ao mesmo tempo bastante expansiva, a espanhola ROSALÍA funde o melhor da sua origem catalã com a contemporaneidade e urbanismo modernosos em um projeto aguçado e ambicioso.

As referências pop são evidentes e ajudam a inserir o álbum numa dinâmica que, ao invés de soar repetitiva, promove uma sensação de renovação. O tom de voz acaba por marcar em todas as faixas, sendo um elemento de união e ponto alto do disco como um todo, contribuindo para a construção de um imaginário marcado pelas raízes espanholas da cantora, com elementos religiosos e folclóricos associados à contemporaneidade em que o disco se insere.

A primeira faixa e possivelmente mais conhecida, “Malamente”, é uma das mais animadas do álbum e  das mais associáveis a uma sonoridade atual, ajudando a iniciar a série de músicas que sustentam esse estilo mas que o expandem e lhe agregam diferentes elementos complementares.

Sonoridade coesa e permeada por detalhes que favorecem uma movimentação por uma trajetória que faz sentido e vai se complementando com o passar das faixas. Entendido como um álbum de conceito, cada música parece elencar um diferente momento da história que conta, muito relacionada ao imaginário romântico da cantora e a diferentes narrativas envolvendo a relação, associadas a contextos de emoções distintas. É uma conceptualização que gira em torno de um contexto relacional difuso e manipulativo, do qual a autora relata episódios (chamados de capítulos) com energias distintas, algumas mais distorcidas e irreverentes (os momentos mais experimentais do álbum, em que sua voz assume grande destaque) e outros mais estáveis e serenos, para concluir em “A Ningún Hombre” (Nenhum Homem), vocalizando a sua fuga do contexto em que se encontra e ditando sua independência.

Constrói-se, ao todo, um imaginário musical que conduz claramente a uma percepção também visual da história, com a sonoridade voraz do flamenco fortemente marcada e uma tonalidade vocal etérea. Curto, os trinta minutos de duração do álbum não parecem pouco, mas meticulosamente pensados na construção narrativa que parece pautar a condução do disco. “Bagdad”, o capítulo da Liturgia, inicia com uma clara referência rítmica a “Cry Me A River” de Justin Timberlake, transita por momentos exuberantes e remexidos, para posteriormente atrair o momento do Êxtase (Cap. 8), em “Di Mi Nombre”, para uma estabilização. O Mau Amor (em tradução livre) é um nome contundente para classificar a jornada que o álbum atravessa.

A variação sonora aliada à experimentação vocal constroem um cenário prazeroso e com trânsito por diferentes sensações, que posicionam El Mal Querer como uma peça sólida e digna de destaque. A consolidação da espanhola para além desse projeto ainda pode ser questionada (cabe pensar na sustentação dessa ritmicidade e estética ao longo do tempo como risco de monotonicidade), mas a obra, em sua construção individual, se posiciona com facilidade entre as mais diversas e inovadoras do pop de 2018.

OUÇA: “Malamente”, “Pienso En Tu Mirá”, “Bagdad” e “Di Mi Nombre”