Pharmakon – Devour



No universo de gêneros musicais que tendem ao experimental, como o noise, o papel da música como meio costuma sofrer uma inversão. Mais do que condutora de uma narrativa eloquente, nesse estilo, a música age como um gatilho, provocando no ouvinte sensações mais primitivas do que sentimentos ou pensamentos racionais, quase reações instintivas que se originam das distorções, efeitos e rupturas que esse gênero musical explora. Entretanto, essa direção artística pode ser uma faca de dois gumes, por que se de um lado, um experimento bem sucedido causa marcas duradouras no espectador que podem transcender até sua capacidade de as explicar de maneira razoável, um experimento mal sucedido falha até mesmo em provocar uma sensação ruim, chegando perigosamente próximo de uma experiência inócua, nula. Um exemplo desse risco pode ser encontrado em Devour, disco mais recente da artista de noise Pharmakon.

Quarto disco de estúdio da artista nova-iorquina, Devour vem dois anos depois do último projeto, Contact, e compreende 36 minutos de noise divididos em cinco faixas. Explorando relevos sonoros que passam por distorções, modulações vocais e sintetizadores, Pharmakon procura construir uma atmosfera opressiva e sufocante no disco, alcançando com isso resultados variados, mas que em sua maioria caem no campo da repetição e da monotonia.

Uma vez que a orientação artística de artistas de noise com essa abordagem tende a procurar causar desconforto e incômodo (e obras como Virgins, de Tim Hecker, Excavation, de Haxan Cloak, Black Vase, de Prurient, Replica, de Oneohtrix Point Never e Puce Mary surgem como excelentes exemplos de obras que exploram esse estilo), muito do sucesso do projeto vai depender ou da capacidade do artista de surpreender seu público ou de construir ambientes que provoquem a sensação de inquietação desejada, e Devour falha nas duas frentes, não sendo agressivo o suficiente para atacar a audiência e muitas vezes retornando a composições seguras que se resolvem muito próximas da monotonia.

Seja nas influências de industrial e a percussão em longos intervalos de “homeostasis”, os graves pulsantes e a sirene estridente e ondulante de “spit it out”, os guinchos e os efeitos distorcidos da voz de Pharmakon em “deprivation”, pouco na composição da obra parece ir além da exploração rasa de efeitos sonoros que tem a intenção de tirar o ouvinte da zona de conforto. Mais do que isso, a duração excessiva das faixas (a maioria passando de seis minutos) para composições de tão pouca duração e com uma agressividade tão controlada torna o resultado final especialmente cansativo e monotônico. Como uma ideia morna que apesar disso foi repetida à exaustão.

Obras de noise carregam um potencial grande de serem marcantes, justamente por sua motivação artística de propor algo desconfortável, que foge às referências seguras do ouvinte. Para isso, é essencial que as composições sejam provocadoras, de preferência dirigindo seus golpes de posições inesperadas. Devour não é um bom exemplo de nenhuma das duas coisas, mas com otimismo, quem sabe a segurança da obra leve o ouvinte a procurar outras, que o ameacem realmente.

OUÇA: “spit it out”.

Pharmakon – Contact

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Uma constante no trabalho da nova-iorquina Margaret Chardiet é explorar os limites da percepção humana. Contact, seu mais novo trabalho deixa isso explícito logo na capa, onde diversas mãos tocam o rosto da artista. Durante todo o disco, vemos que a ideia é brincar com a percepção do ouvinte, utilizando de elementos sonoros para ativar diversos sentidos, ampliando o contato entre o corpo e o som.

Não vou mentir pra vocês aqui, minha primeira impressão do trabalho do Pharmakon há uns anos atrás foi o mesmo que a maioria das pessoas teria; que é um estranhamento natural do uso exagerado de sintetizadores repetindo acordes dissonantes, batidas metálicas, ruídos e gritos, muitos gritos. Mas, ouvindo com mais calma e, principalmente lendo sobre o conceito por trás de cada música, passei a entender melhor o que estava debaixo daquele “barulho” todo.

Contact traz elementos que já haviam sido utilizados nos primeiros trabalhos,  se reaproximando de algo levemente mais melódico, deixando de lado um pouco a sujeira explícita do antecessor Bestial Burden, mas sem deixar o experimentalismo de lado. A construção dos ruídos desde a primeira faixa servem para criar uma atmosfera sensorial distinta para cada faixa. Quando você embarca na viagem, a experiência é quase cinematográfica, com poucos movimentos, cada faixa conta uma história distinta.

Justamente por contar com ambiências sonoras distintas, em alguns pontos o curto álbum perde a coesão, mesmo com algumas repetições dos sintetizadores como elemento de ligação, o resultado final pode soar como uma colagem de várias coisas que nem sempre se complementam.

Talvez Contact seja um álbum de apreciação lenta em que você tenha que parar em alguns momentos para refletir sobre o que acabou de experienciar e só aí dar continuidade. Não é um disco pra todo mundo e nem se propõe a ser, é perturbador e provocador ao apresentar algo como uma aleatoriedade precisa que instiga a reflexão sobre o que consumimos, como consumimos e como nosso corpo é afetado por isso.

OUÇA: “Sentient”, “Transmission” e “No Natural Order”.