2018: Best Albums (People’s Choice)

10 | THE CARTERS – Everything Is Love

Beyoncé e Jay-Z lançaram um álbum juntos. São tantos plot twists vindos desses dois que eu os considero o M. Night Shyamalan do mundo da música. Um show melhor que o outro, álbuns fascinantes e projetos audiovisuais que nem sei por onde começar a descrever – o que foi o clipe no Louvre?! Após Lemonade e 4:44, o lançamento de EVERYTHING IS LOVE consagra o casal como o mais poderoso do mundo da música. LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI.

OUÇA: “LOVEHAPPY”, “BLACK EFFECT”, “SUMMER” e “NICE”


09 | FLORENCE AND THE MACHINE – High As Hope

Depois do insosso e quase furioso How Big How Blue How Beautiful de 2015, Florence Welch retorna, quase como uma surpresa e sem muito alarde, com seu quarto disco de estúdio agora em 2018. High As Hope apareceu repentinamente, sem muito furdunço e sem muitas promessas a serem cumpridas depois do balde de água fria que foi o disco anterior. De qualquer maneira, mesmo sem expectativas e, ainda pior, com o curto intervalo de tempo entre o anúncio oficial e o lançamento, a internet sempre vai à polvorosa quando um álbum da cantora é anunciado – a esperança vai lá pro alto. Não foi diferente com High As Hope. LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI.

OUÇA: “Hunger”, “Patricia” e “100 Years”


08 | BLOOD ORANGE – Negro Swan

Existe até uma página na Wikipedia intitulada homofobia na cultura hip hop. Em seu 10° álbum de carreira, lançado no final de agosto, Eminem usa um insulto homofóbica para se referir ao rapper Tyler The Creator. A homofobia ainda persiste no rap, ainda é velada no rap, ainda perdoamos comportamentos homofóbicos no rap. De Beastie Boys, Kid Rock, 50 cent, Kanye West, Travis Scott, Migos… Nesse histórico de masculinidade tóxica e homofobia, Blood Orange ao lado de Tyler The Creator e seguindo a linhagem do Frank Ocean integra uma nova versão. Homens queers que citam David Bowie que se inspiram em Prince. E Negro Swan, quarto álbum de carreira do Blood Orange, é um ótimo expoente dessa nova possibilidade de futuro mais inclusiva e livre para r&b e o rap. LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI.

OUÇA: “Orlando”, “Jewelry”, “Saint” e “Charcoal Baby”


07 | BACO EXU DO BLUES – Bluesman

Se em Esú (2017) Baco Exu do Blues transpôs a barreira entre deuses e homens e encurtou a distância entre os céus e a terra, em Bluesman o rapper baiano contempla sua própria fragilidade enquanto jovem negro vivendo em uma sociedade hostil aos corpos e mentes negras e reflete de forma honesta sobre sua saúde mental. Depressão e ansiedade estão no coração de Bluesman, mas Baco também fala sobre autoestima, sobretudo a autoestima do homem e da mulher negra, sobre estar vivo e prosperar em um mundo racista que não se conforma com o sucesso, a criatividade e beleza daqueles cuja humanidade era negada há pouco mais de 100 anos. Ser bluesman, afinal, é celebrar a arte negra que propõe um exercício de re-imaginação do papel dos negros na sociedade e rejeitar a imagem do negro submisso, desprovido de talento e fadado à invisibilidade em meio a um mundo branco. Bluesman é certamente um dos melhores álbuns brasileiros de 2018, pois abre novas portas criativas para o rap brasileiro e toca em assuntos urgentes em nosso país como o cuidado com a saúde mental e os efeitos do racismo em nosso cotidiano.

OUÇA:  “Kanye West Da Bahia”, “Me Desculpa Jay-Z” e “Girassóis De Van Gogh”


06 | BEACH HOUSE – 7

O sétimo álbum do duo de Baltimore Beach House, intitulado 7, foi lançado no dia 11 de maio de 2018. Era o quarto dia de lua minguante, na metade da transição para a lua nova, e se via menos da lua clara, bem menos, do que da lua escura. Eu julgaria irrelevante essa informação no contexto de qualquer outro álbum que não o 7. Envolto por simbolismos desde o título, que remete a ciclos encerrados, recomeços, tomada de consciência e completude, Victoria Legrand e Alex Scally criaram uma atmosfera de mistérios e incertezas em torno do álbum: agora a banda tem 77 músicas, o primeiro single foi lançado em 14/2. Victoria, em entrevista ao Pitchfork, disse que o número 7 “aponta para uma direção”, como o número 1, mas, diferentemente do primeiro, é uma direção desconhecida. Cultivando ainda mais a atmosfera nebulosa, Victoria encerrou a entrevista dizendo: “Somos todos controlados pela lua”. LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI.

OUÇA: “L’Inconnue”, “Dark Spring” e “Black Car”


05 | DUDA BEAT – Sinto Muito

Eu fui muito relutante para começar a ouvir a Duda Beat de fato. Ouvi e re-ouvi o Sinto Muito algumas vezes antes de pensar no quão bonito e bem feito era o som da cantora de Recife. Isso tudo porque Duda aparece um pouco fora das caixinhas de gênero que tenho ouvido muito recentemente, mas Sinto Muito é extremamente arrebatador e apaixonante. Duda Beat consegue cativar em diversas frentes e de diversas maneiras, seja com o seu sotaque carregado mesmo na cantoria ou seja em sua melodia que casa perfeitamente com sua voz doce, Duda mostra um primeiro trabalho eficaz e certeiro. mostrando que está mais do que pronta para conquistar o Brasil e o mundo.

OUÇA: “Bédi Beat”, “Bixinho” e “Bolo De Rolo”


04 | CARNE DOCE – Tônus

Eu optei por aguardar ao escrever sobre o novo álbum de Carne Doce, Tônus, terceiro disco de estúdio da banda goiana. Composições menos políticas, vocais menos gritados, instrumental menos afobado. A primeira impressão, um estranhamento saudosista. Inclusive, quem vai aos shows da banda com frequência, já havia experimentado algumas das inéditas ao vivo, e o sentimento que pairava era de curiosidade sobre o que viria no novo trabalho. LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI.

OUÇA: “Comida Amarga”, “Nova Nova” e “Golpista”


03 | ROBYN – Honey

O que fazer quando a tão esperada volta (solo) de uma de suas artistas preferidas, que realmente teve um impacto significativo na sua vida em seu gosto musical, é levemente decepcionante e não o que você esperava? Esse é o motivo do atraso dessa resenha. Tenho ouvido Honey com bastante frequência mas ainda não sei o que pensar dele nem pro bom e nem pro ruim. Só sei que não sei muito bem ainda. LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI.

OUÇA: “Missing U”, “Honey” e “Because It’s In The Music”


02 | JANELLE MONÁE – Dirty Computer

Pirulitos, roupa de couro, homens, mulheres, vaginas, Tessa Thompson, trono. Insuficientes são as palavras capazes de descrever o álbum visual de Janelle Monáe, Dirty Computer (2018). No terceiro de sua carreira, Janelle faz um tributo à liberdade. Liberdade como mulher, negra e queer. Liberdade que exige luta, vulnerabilidade e esperança. LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI.

OUÇA: “Django Jane”, “So Afraid” e “Pynk”


01 | KALI UCHIS – Isolation

(…) Isolation, apesar de ser o primeiro álbum de Kali Uchis, consolida a cantora entre os principais artistas em ascensão no cenário musical atual, pois conta com uma produção impecável e multifacetada, faixas com letras interessantes e muito bem escritas e participações de peso como Tyler, The Creator, Jorja Smith e Reykon. A primeira impressão que se tem de Isolation é que este é um álbum recheado de influências. Kali Uchis apresenta grande versatilidade ao navegar por um conjunto diversificado de estilos e influências espalhado pelas faixas. LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI.

OUÇA: “Nuestro Planeta”, “After The Storm” e “Tyrant”

2018: Best Albums (Editor’s Choice – André)

10 | PALE WAVES – My Mind Makes Noises

O hype mais certeiro de 2018, My Mind Makes Noises é um electropop divertidíssimo e muito bem construído. Do hit “Television Romance” à introspectiva “Karl (I Wonder What It’s Like To Die)”, o Pale Waves navega por caminhos já trilhados antes por bandas como Chvrches e The 1975, e não há nada de errado nisso. O que o quarteto pode faltar em termos de originalidade eles certamente compensam com a qualidade de suas produções. My Mind Makes Noises é em sua maioria leve e divertido, pra se ouvir no dia a dia enquanto passamos pelas tribulações cotidianas, sem grandes pretensões ou experimentações. Talvez seja exatamente isso que o tornou um disco tão memorável nesse ano que chega ao fim.

OUÇA:  “Television Romance”, “There’s A Honey” e “Drive”


09 | CHVRCHES – Love Is Dead

O terceiro disco do Chvrches nos mostra uma banda muito mais pop e acessível do que qualquer outra coisa que já lançaram antes. Os sintetizadores densos de The Bones Of What You Believe que haviam sido suspensos na maior parte de Every Open Eye fazem aqui seu moderado retorno, mas ainda assim o clima aqui (apesar de seu título) não é muito pesado. Love Is Dead marca a primeira vez na qual o grupo trabalhou com produtores externos, talvez por isso a grande mudança na vibe em relação aos outros dois discos. Isso, nesse caso, está longe de ser algo ruim. “My Enemy”, parceria que conta com vocais de ninguém menos do que Matt Berninger, é um show à parte. O Chvrches tem trilhado uma carreira consistente e interessante nesses anos desde que apareceu, e a coisa aqui não é diferente.

OUÇA: “Deliverance”, “My Enemy” e “Graves”


08 | HARU NEMURI – 春と修羅 「Haru To Shura」

Haru To Shura é um álbum difícil de ser classificado, estranho e extremamente interessante. A japonesa Haru Nemuri caminha livremente entre o dream pop, rap e o noise rock e desafia os gêneros o tempo todo. Lembra daquela coisa que foi o Art Angels da Grimes? Pense isso, mas cantado em japonês e com mais guitarras e é possível chegar perto do que é Haru To Shura. Trata-se do primeiro álbum da moça, seguindo o EP Atom Heart Mother do ano passado, e serve pra firmar Nemuri como um dos mais interessantes nomes da música atual. A moça, que também faz parte do maravilhoso lineup do Primavera Sound 2019, já lançou dois novos singles (“I Wanna” e “Kick In The World”) que mostram que ela não está parando por aqui. Certeza de que muita coisa boa ainda virá de Haru Nemuri, e espero que reconhecimento internacional também faça parte do pacote.

OUÇA: “Sekai Wo Torikae Shite Okure”, “Narashite”, “Underground” e “Yumi Wo Miyou”


07 | DREAM WIFE – Dream Wife

As moças do Dream Wife nos presentearam com um indie punk dosado com a quantidade perfeita de acessibilidade pop e nítidas influências de bandas como Savages, The Libertines, Be Your Own Pet e Bikini Kill. O resultado? Um dos melhores e mais competentes debuts de 2018. Divertidíssimo, cheio de riffs interessantes, letras feministas e universais, e uma urgência, um fogo que não aparece com frequência. O som apresentado por Dream Wife pode não ser nem um pouco original, no final das contas, mas isso não importa nem um pouco quando trata-se de um rock tão bem feito quanto o que elas fizeram. Afinal, a tríade guitarra-baixo-bateria e nada mais funciona desde os ’70 por um motivo. E continua funcionando hoje.

OUÇA: “Fire”, “Hey Heartbreaker”, “Kids” e “Act My Age”


06 | DEATH CAB FOR CUTIE – Thank You For Today

Thank You For Today acabou se revelando uma das maiores surpresas do ano. Mesmo Death Cab for Cutie sendo uma de minhas bandas preferidas há muitos anos, eu admito que seus últimos álbuns pecaram um pouco – desde o Narrow Stairs em 2008 eu não incluía um de seus discos em meu top 10 do ano. Mas Thank You For Today, seu nono álbum de estúdio, superou todas as expectativas. Seu som aqui está muito mais parecido com sua fase ‘anos 2000’ do que com seus últimos trabalhos, e é o seu primeiro desde que o guitarrista e produtor Chris Walla saiu da banda em 2014 (e mesmo assim produzir Kintsugi, lançado em 2015). Thank You For Today soa quase como um presente para os fãs de longa data da banda, um álbum que resgata aquele sentimento que fez você se apaixonar por indie rock em 2005.

OUÇA: “Summer Years”, “Gold Rush” e “Northern Lights”


05 | SCREAMING FEMALES – All At Once

O Sreaming Females, depois de 15 anos de carreira e chegando agora em seu sétimo álbum de estúdio, já se consolidou como uma daquelas bandas das quais você já sabe o que esperar. E All At Once segue exatamente nesse momento. A maior surpresa de  All At Once é a direção quase pop-punk que a banda decidiu tomar; mas, talvez, mais surpreendente ainda seja o fato de que isso não alterou em nada a sua identidade construída nos trabalhos anteriores. Uma das maiores novidades que o Screaming Females nos trouxe em seu novo disco de estúdio é, na verdade, a sua simplicidade;  a banda nos traz os mesmos elementos de punk e metal que sempre fizeram com perfeição, mas dessa vez os misturam com uma produção acessível e fazem de All At Once um dos melhores discos lançados esse ano.

OUÇA: “Agnes Martin”, “Black Moon”, “My Body” e “I’ll Make You Sorry”


04 | LUCY DACUS – Historian

Lucy Dacus, desde o seu debut No Burden, já estava se firmando como uma das maiores compositoras do so-called indie rock atual. A moça, que tem apenas 23 anos, já nos mostra uma maturidade e complexidade invejáveis em seu segundo disco, Historian. “Night Shift”, que abre o disco, já é sozinha uma aglutinação de todos os elogios feitos à moça durante esse ano de 2018 como um todo: uma música extremamente pessoal e que traz Lucy Dacus como uma das melhores e mais interessantes vozes do ano. A moça, além de seu segundo álbum de estúdio, também lançou nesse ano o mini-álbum/EP boygenius composto, gravado e cantado ao lado de Phoebe Bridgers e Julien Baker, que apenas ilustra e consolida Lucy como uma das melhores compositoras de sua geração.

OUÇA: “Night Shift”, “Yours & Mine”, “Addictions” e “Pillar Of Truth”


03 | MITSKI – Be The Cowboy

Be The Cowboy, quinto álbum da maravilhosa Mitski, tinha um trabalho bastante complicado: seguir a obra prima que foi Puberty 2 em 2016. E ela não apenas consegue entregar um disco tão bom quanto o anterior, como lança um dos melhores álbuns de 2018. Be The Cowboy aposta em uma produção diferente do que foi Puberty 2, evitando as guitarras distorcidas e nos trás algo mais limpo e polido, levemente mais eletrônico e tão emocional quanto. ‘I’m a geyser, feel it bubbling from below‘, Mitski canta em “Geyser”, música com a qual abre o álbum. E a partir daí, ela voa. Em Be The Cowboy, Mitski Miyawaki prova mais uma vez que é uma das melhores compositoras de sua geração. Be The Cowboy seguiu um álbum perfeito se igualando a ele e talvez até o superando.

OUÇA: “A Pearl”, “Nobody”, “Washing Machine Heart”, “Geyser”, “Remember My Name”, “Pink In The Night” e “Why Didn’t You Stop Me?”


02 | SNAIL MAIL – Lush

Desde seu EP Habit em 2016 (e sua maravilhosa faixa “Thinning”), Lindsey Jordan e seu Snail Mail já estavam causando barulho na cena indie. Isso com, na época, apenas 16 anos. A moça, inclusive, foi descrita pela Pitchfork como ‘a adolescente mais inteligente do indie rock’ no ano passado. E agora, com Lush, seu primeiro álbum completo, ela ultrapassa todas e quaisquer expectativas. Com um som lindamente influenciado por nomes como Cat Power, Liz Phair, Pavement, Fiona Apple e Sonic Youth (como ela e a própria banda admitem), Lush traz uma Lindsey confiante e muito mais experiente do que aquela que lançou o ótimo Habit – e pouquíssimo tempo se passou. Com Lush, Lindsey rapidamente se coloca no mesmo patamar que nomes como Lucy Dacus e Julien Baker como uma das mais honestas e interessantes vozes do indie rock atual. Se em tão pouco tempo a moça já cresceu tanto e lançou um dos melhores discos do ano, tudo isso antes dos 20, sua carreira promete ser extraordinária. E eu pessoalmente fico no aguardo.

OUÇA: “Pristine”, “Let’s Find An Out”, “Heat Wave”, “Full Control” e “Speaking Terms”


01 | E A TERRA NUNCA ME PARECEU TÃO DISTANTE – Fundação

Desde 2012 com Allelujah! Don’t Bend! Ascend! do Godspeed You! Black Emperor um álbum instrumental não acabava o ano no topo da minha lista de melhores, se me recordo bem. E agora, em 2018, isso acontece de novo com o primeiro álbum completo dos paulistanos E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante, Fundação. E não tinha como ser diferente. Fundação é um álbum que não aparece com frequência, é um álbum impecável, extremamente complexo e emocional que aglutina tudo o que a banda já havia apresentado antes em seus EPs e singles desde 2014. Fundação é um álbum que, como todo bom post-rock, dispensa palavras e apresentações. A banda já havia se provado como uma das melhores e mais intensas do gênero (não apenas pensando em nacionais, mas como um todo) e agora aqui veio a última gota que faltava para sua consolidação. Isso tudo sem falar em seus shows ao vivo… Sendo ou não fã de post-rock eu recomendo a todos assistirem ao E A Terra ao vivo se tiverem a oportunidade. É uma catarse brutal como pouquíssimas outras experiências na vida.

OUÇA: “Karoshi”, “Daiane”, “Como Aquilo Que Não Se Repete”, “Se A Resposta Gera Dúvida, Então Não É A Solução” e “Quando O Vento Cresce E Parece Que Chove Mais”

2018: Best Albums (Editor’s Choice – Henrique)

10 | LE CORPS MINCE DE FRANÇOISE – Sad Bangers

Apesar de nunca terem oficialmente parado de lançar coisas novas, a dupla da Finlândia não lança algo em duração completa desde 2011. São por volta de sete anos de diferença entre o primeiro álbum e esse segundo, mas a animação e a música boa continuam vivas aqui como eram lá – Love & Nature com sua icônica capa de ovo frito apareceu em minha lista de melhores do ano, inclusive. Sad Bangers não é exatamente algo que soe tão fresco e interessante quanto o Love & Nature, mas tem sintetizadores bem colocados com letras feministas, pessoais e muito necessárias para o momento em que vivemos, deixando o disco temporal e propício, mesmo que lançado no susto.

OUÇA: “Another Sucker”, “Thank God I Didn’t Get To Know You At All” e “Glitter”


09 | DUDA BEAT – Sinto Muito

Eu fui muito relutante para começar a ouvir a Duda Beat de fato. Ouvi e re-ouvi o Sinto Muito algumas vezes antes de pensar no quão bonito e bem feito era o som da cantora de Recife. Isso tudo porque Duda aparece um pouco fora das caixinhas de gênero que tenho ouvido muito recentemente, mas Sinto Muito é extremamente arrebatador e apaixonante. Duda Beat consegue cativar em diversas frentes e de diversas maneiras, seja com o seu sotaque carregado mesmo na cantoria ou seja em sua melodia que casa perfeitamente com sua voz doce, Duda mostra um primeiro trabalho eficaz e certeiro. mostrando que está mais do que pronta para conquistar o Brasil e o mundo.

OUÇA: “Bédi Beat”, “Bixinho” e “Bolo De Rolo”


08 | VANCE JOY – Nation Of Two

O Vance Joy tem tudo para ser ídolo de 8 em cada 10 garotinhas indies fofas. E isso não é ruim. Vance Joy faz parte de uma entoada de artistas que está usando o folk de maneira a se aproximar do pop. Nation Of Two chega para desprender o australiano do seu maior hit até agora – “Riptide”, do primeiro disco lá de 2014 – e traz uma nova coleção de hits bastante chicletes para você cantarolar junto. Nation Of Two tem melodias fortes e cativantes e, no fim das contas, é um álbum bastante gostoso de ouvir e nada muito além disso, nada muito genial, nada com letras inteligentes, apenas um álbum de folk que tem os elementos certos para fazer do disco algo concreto e interessante.

OUÇA: “Call If You Need Me”, “We’re Going Home”, “Saturday Sun” e “One Of These Days”


07 | CONFIDENCE MAN – Confident Music For Confident People

Eu adoro descobrir bandas do nada. Confidence Man é um exemplo disso. A banda é desconhecida do grande público, mas esse primeiro álbum é uma coletânea de pérolas da melhor estirpe. Primos longínquos do Cansei de Ser Sexy e do Natalie Portman’s Shaved Head, o Confidence Man faz música séria com cara de escrachada (ou seria o contrário?) e consegue cativar com batidas simples e letras toscas.

OUÇA: “Try Your Luck”, “Don’t You Know I’m In A Band” e “Boyfriend (Repeat)”


06 | CHVRCHES – Love Is Dead

Perdi um pouco a vontade de Chvrches depois de não ter apreciado tanto assim o segundo disco do trio, o Every Open Eye e cheguei a pensar que eles provavelmente não lançariam outra coisa tão boa ou melhor que o The Bones Of What You Believe. Ainda bem que eu estava enganado e o Chvrches entrega pra gente agora em 2018 o Love Is Dead, terceiro disco da carreira e com músicas que figuram, facilmente, entre as melhores do trio. Com uma entoada mais puxada para o pop e com uma presença de sintetizadores não tão marcantes, o Chvrches se apoia muito mais na voz de Lauren do que em todo o resto, criando um som bem distante do anterior e um pouco próximo do primeiro álbum.

OUÇA: “Graffiti”, “Get Out”, “Forever” e “Heaven/Hell”


05 | NATALIE PRASS – The Future And The Past

Foi quase que o homônimo disco de estreia da Natalie Prass apareceu na minha lista de melhores do ano lá em 2015. Com sua voz pitoresca no maior estilo musical da Disney, Natalie abandona um pouco essa persona fofinha e segue como um mulherão poderoso em The Future And The Past, revelando músicas que figuram, facilmente, nas melhores do ano. O que faltou para o primeiro disco aparecer numa lista de melhores do ano aparece de sobra aqui. Prass apara com folga e leveza as pontas soltas e faz um som com um ar menos etéreo e mais focado no indie pop cativante que ela chegou a fazer em músicas como “Bird Of Prey”, colocando a cantora num patamar próximo de contemporâneas como Courtney Barnett, Lianne La Havas e NAO.

OUÇA: “Oh My”, “Shourt Court Style”, “The Fire” e “Sisters”


04 | CAROLINE ROSE – LONER

LONER tem uma cara de primeiro disco, mas não é a primeira empreitada da interessante Caroline Rose. Depois de não ter muita atenção lançando álbuns que beiravam o country, a moça dos EUA decidiu inovar e repaginou sua carreira. LONER tem músicas escrachadas, no estilo historinha, rápidas e certeiras. É um com um humor ácido que Rose cativa uma certa audiência com seu disco, mas ainda não está fadada a ser descoberta pelo grande público, infelizmente. A pérola desse terceiro álbum da cantora parece inaugurar uma nova chance de uma carreira interessante e empolgante.

OUÇA: “More Of The Same”, “Jeannie Becomes A Mom” e “Soul No.5”


03 | GEORGE EZRA – Staying At Tamara’s

Depois de “Budapest” ficou díficil pensar que o George Ezra conseguiria se afastar de uma música tão popular. O resultado e a guinada para outra direção demoraram menos do que a gente esperava. Staying At Tamara’s é o segundo disco do jovem da Inglaterra e é muito mais bem preparado, certeiro e interessante do que o primeiro álbum que revelou o hit, mas ainda assim dentro do seu folk original. Há aqui algo muito mais sólido e bem feito do que o debut, que elevam a atmosfera do álbum em patamares que não pareciam ser conquistáveis por alguém da estirpe de Ezra. Com um disco desses, é fácil falar que agora o rapaz tem cadeira cativa no hall de grandes vozes da música britânica.

OUÇA: “Pretty Shining People”, “Get Away”, “Shotgun” e “Paradise”


02 | THE VACCINES – Combat Sports

Assim como o primeiro lugar, o Vaccines demorou para lançar algo tão interessante quanto o primeiro disco, mas dessa vez acertou a mão em cheio. De banda querida da NME em 2010 e 2011 a um desastre de 2012 em diante, a banda do Reino Unido acaba mostrando um som mais rápido e inteligente em seu quarto álbum, o digno Combat Sports de 2018. Justin e seus parceiros aparecem de cara mais limpa, renovados e com um hiato mais considerável entre discos – o último tinha sido em 2015 – o que deixa as coisas mais frescas e bacanas para a banda. Talvez o mundo não aprecie bandas nesse estilo tanto mais quanto apreciava lá em 2010, mas o Vaccines está voltando a fazer algo interessante e merece retomar sua coroa de volta de guitar band mais interessante da década.

OUÇA: “Put It On A T-Shirt”, “I Can’t Quit”, “Your Love Is My Favourite Band”, “Out On The Street” e “Take It Easy”


01 | MGMT – Little Dark Age

O MGMT demorou três álbuns para fazer outra coisa interessante. Demorou, demorou, mas fez com gosto. Little Dark Age não tem quase nenhum defeito e aponta o duo novamente para uma estrada cheia de oportunidades e de esperança. A banda voltou a figurar em espaços importantes em grandes festivais, fez uma turnê exaustiva ao redor do globo com as músicas novas, apareceu em programas de TV com uma roupagem mais interessante e cativou logo no primeiro single. Órfãos do Oracular Spectacular que esperavam algo tão bom quanto esse primeiro álbum podem ficar mais sossegados agora e torcer para que eles não percam a mão, novamente.

OUÇA: “Little Dark Age”, “When You Die” e “Me And Michael”

2018: Best Albums (Staff’s Choice)

10 | MGMT – Little Dark Age

Como eu gosto de um grande retorno! E não há outra maneira de descrever Little Dark Age, a não ser dizendo que é o merecido e aguardado grande retorno do MGMT. Depois do aclamado álbum de estreia em 2007, é inegável dizer que a discografia do MGMT foi ladeira a baixo. Apesar de alguns singles interessantes ao longo dos anos, vide “Your Life Is A Lie” e “Congratulations”, os discos soaram bastante irregulares e pareciam ter sido feitos propositalmente inacessíveis. Esse jogo começou a virar quando a banda liberou o primeiro single dessa nova safra, o homônimo “Little Dark Age”, revelando letra inspiradíssima e estrutura mais pop, no melhor e mais precioso sentido dessa palavra por vezes tão mal interpretada. Essas características se repetem em maior ou menor grau em todas as demais faixas do disco, com destaque para o segundo single “When You Die”, a pegajosa “Me And Michael” e a psicodélica “Hand It Over”. No entanto, apesar de bem mais acessível, ainda há uma estranheza cativante que misturada a refrãos grudentos faz de Little Dark Age o melhor disco do MGMT desde seu debut. Quem foi paciente e não se dispersou ao longo dos anos, foi recompensado com um álbum bastante inspirado e digno de figurar na nossa lista de melhores. MGMT, sejam bem-vindos de volta!

por Angelo Fadini

OUÇA: “Little Dark Age”, “When You Die”, “Me And Michael” e “Hand It Over”


09 | CARNE DOCE – Tônus

No cerrado, o Sol não dá trégua, o calor e o clima seco aumentam a temperatura de cidades como Goiânia, que apesar do sertanejo, é referencia como berço de vários grupos de indie nacional, como Boogarins, Black Drawing Chalks e Carne Doce. Tônus é o terceiro o disco do Carne Doce, uma ode ao corpo e ao prazer e, por que não, a todo esse calor. Salma Jô e sua voz, grave, muitas vezes calma, canta ao longo de longos riffs de guitarra e percussão, as suas letras mais íntimas, repletas de sensibilidade e amor. Se na faixa “Comida Amarga”, o envelhecimento é um empecilho, é em “Amor Distrai (Durin)” onde o sexo e o tesão ganham força em um lirismo sutil e livre de amarras, auge lírico do disco, onde todas as bads que permeiam faixas como “Ossos” e “Golpista” se perdem e dão ao eu lírico um momento de prazer. 2018 foi marcado por vários lançamentos nacionais de qualidade, e Tônus se destaca não só pelas suas letras e produção, mas também por fortalecer a carreira do Carne Doce, aumentando o seu reconhecimento para além das playlists mais moderninhas. O trabalho é lembrado também pela grande mídia e, ao contrário dos que dizem que o rock morreu, mostra que é possível se reinventar e enfrentar temas tão atuais e, ao mesmo tempo, íntimos de todos nós.

por Alexandre Leopoldino

OUÇA: “Tônus”


08 | SNAIL MAIL – Lush

2018 se despede, mas não antes de estabelecer as fundações para uma nova era no jeito como o rock é feito. A pesquisa de mercado produzida nos EUA e no Reino Unido pela gigante Fender em outubro deste ano mostra que metade dos aspirantes a guitarristas são mulheres; há também mais LGBTQs e negros interessados na compra e aprendizagem do instrumento. O estudo arrebata: quase metade desse público vê a guitarra como parte de sua identidade. E se essa ótima notícia não é o suficiente para convencer e propor uma visão otimista sobre o futuro desse gênero musical, talvez pela quietude das palavras, deixe que as primeiras melodias de Lush façam o trabalho. De “Pristine” à já clássica “Heat Wave” ao fechamento em “Anytime”, o debut de Lindsay Jordan (que assina seu projeto como Snail Mail), a jovem garota de 19 anos, é absolutamente irresistível. Com uma produção límpida, o disco desfila 38 minutos em alta performance, com destaques para o vocal agridoce, extremamente potente, e, claro, arranjos de guitarras magnéticos advindos da Fender carmesim da própria Lindsey. O colorido e pujante Lush, enfim, demonstra que o rock e a guitarra estão mais vivos do que nunca e (re)florescerão com novo frescor nas mãos de Lindsey Jordan e de outras jovens mulheres.

por Jorge Fofano Junior

OUÇA: “Heat Wave”, “Full Control” e “Stick”


07 | COURTNEY BARNETT – Tell Me How You Really Feel

Tem sido muito bom ser Courtney Barnett. Depois do bom disco de estréia Sometimes I Sit And Think, And Sometimes I Just Sit, de 2015, a guitarrista e vocalista australiana, que é um dos principais nomes do rock alternativo embarcou, no ano passado, num projeto conjunto com o também elogiado Kurt Ville e lançou Lotta Sea Lice, que combinava o talento de composição e o contraste vocal dos dois guitarristas com os temas bucólicos mais presentes na carreira de Ville. O sucesso da parceria deixava claro: Barnett não era um piano de uma nota só. Se é que restava dúvida após os dois discos, hoje em dia elas provavelmente foram implodidas com o excelente Tell Me How You Really Feel, segundo disco solo da guitarrista e uma franca evolução em relação ao seu primeiro trabalho autoral. Se Sometimes I Sit And Think… exibiu o talento da artista para a composição de riffs e melodias e apresentou performance vocal cínica que combinava bem com as letras auto-depreciativas e irônicas das suas músicas, Tell Me How You Really Feel evoluiu naquilo que foi uma das principais críticas ao debut: a unidimensionalidade. Como o nome já diz, o segundo disco de Courtney Barnett, enquanto mantém o tom irônico e as guitarras distorcidas com pitadas de garage rock do primeiro, se permite expor a própria vulnerabilidade e tocar em pontos bastante sensíveis e pessoais, como a dificuldade em lidar consigo mesmo, na faixa “Need A Little Time” (melhor do disco), ou a insegurança urbana a que a mulher está sujeita em “Nameless, Faceless”. Além disso, se esse disco apresenta uma maior profundidade emocional de Barnett, ele o faz sem perder o sarcasmo que era uma das maiores forças do disco de estreia. Três discos entre bons e excelentes em quatro anos é uma bela conquista. A vontade era elogiar o trabalho de Courtney, mas ela avisou que se a colocarmos num pedestal, ela vai decepcionar…

por Guilherme Vasconcellos

OUÇA: “Need A Little Time”, “Nameless, Faceless”, “Charity”, “Walkin’ On Eggshells” e “Sunday Roast”


06 | ROSALÍA – El Mal Querer

Diferentemente do seu primeiro álbum Los Ángeles (2017), em que a artista presta uma homenagem ao flamenco, em El Mal Querer ela buscou fazer algo diferente, mas sem abandonar suas raízes. Baseado em um manuscrito de autoria desconhecida do século 13, O Romance De Flamenca, seu último disco conta a história de uma mulher cujo amante está preso em uma torre. Quase como em uma inversão de papéis de Rapunzel, o romance satiriza os costumes e instituições da época. Narrativa também presente no álbum, que dividido em capítulos, narra os diferentes estágios de uma relação amorosa tóxica. Da provocativa imagem de capa, do fotógrafo e artista visual Flip Custic – o formato de uma vagina em meio a símbolos religiosos — ao refinamento melódico e lírico que se destaca em cada composição, El Mal Querer (2018, Sony Music) é um trabalho político cultural mais do que essencial em 2018. Em períodos de intolerância, xenofobia, homogeneização e extinção de patrimônios culturais, ROSALÍA resgata o flamenco, um dos principais símbolos da cultura espanhola, e lhe dá uma nova roupagem, usando-o para falar sobre algo estrutural, que, infelizmente, todas as mulheres enfrentam – o machismo.

por Giovanna Querido

OUÇA: “MALAMENTE (Cap.1: Augurio)”, “PIENSO EN TU MIRÁ (Cap.3: Celos)”, “BAGDAD (Cap.7: Liturgia)” e “DI MI NOMBRE (Cap.8: Éxtasis)”


05 | BACO EXU DO BLUES – Bluesman

Se em Esú (2017) Baco Exu do Blues transpôs a barreira entre deuses e homens e encurtou a distância entre os céus e a terra, em Bluesman o rapper baiano contempla sua própria fragilidade enquanto jovem negro vivendo em uma sociedade hostil aos corpos e mentes negras e reflete de forma honesta sobre sua saúde mental. Depressão e ansiedade estão no coração de Bluesman, mas Baco também fala sobre autoestima, sobretudo a autoestima do homem e da mulher negra, sobre estar vivo e prosperar em um mundo racista que não se conforma com o sucesso, a criatividade e beleza daqueles cuja humanidade era negada há pouco mais de 100 anos. Ser bluesman, afinal, é celebrar a arte negra que propõe um exercício de re-imaginação do papel dos negros na sociedade e rejeitar a imagem do negro submisso, desprovido de talento e fadado à invisibilidade em meio a um mundo branco. Bluesman é certamente um dos melhores álbuns brasileiros de 2018, pois abre novas portas criativas para o rap brasileiro e toca em assuntos urgentes em nosso país como o cuidado com a saúde mental e os efeitos do racismo em nosso cotidiano.

por Felipe Adão

OUÇA: “Kanye West Da Bahia”, “Me Desculpa Jay-Z” e “Girassóis De Van Gogh”


04 | KALI UCHIS – Isolation

O que se destaca em Isolation além da produção impecável e da naturalidade com que a jovem colombiana transita entre estilos musicais é a verdade que ela imprime em suas letras e performances vocais. Tudo ali vibra uma vulnerabilidade sincera de se colocar no mundo como é sem pedir desculpas e por isso se torna tão cativante. As participações de artistas já consagrados tanto na produção como nas performances aparecem de tal forma que fica claro toda a autoconsciência e controle que Kali Uchis tem sobre o seu trabalho pois todas elas servem apenas para reforçar o potencial que a suavidade e a cadência de sua voz podem trazer. Isolation merece ser visitado porque é um retrato claro do momento musical que vivemos com a diversidade de influências que agrega sem se prender a um estilo ou gênero específico e tão bem executado que com certeza será um referencial pra quem busca fazer música pop hoje em dia.

por Diego Bonadiman

OUÇA: “Just A Stranger”, “Tyrant”, “Nuestro Planeta” e “After The Storm”


03 | ELZA SOARES – Deus É Mulher

Não é à toa que o melhor álbum brasileiro de 2018 seja da Elza Soares. Diante da consagração política da imbecilidade, ignorância e preconceito, cabe a uma mulher negra de mais de 80 anos dar um grito que representa Marielle Franco, Môa do Katendê e tantas outras pessoas que fazem parte de minorias cada vez mais ameaçadas. Depois do aclamado A Mulher Do Fim Do Mundo (2015), Elza apostou em uma levada mais rock com Deus É Mulher, em que aborda racismo, intolerância religiosa, machismo e tantas outras complexidades da nossa sociedade, de um jeito cru e corajoso, sem nunca soar como lição de moral. Sua voz continua feroz, ecoando a resistência que o Brasil tanto precisa. Artistas que evitam se posicionar, seja em sua música ou em declarações, deveriam seguir o exemplo dessa deusa.

por Ronaldo Trancoso Junior

OUÇA: Todas. Aproveite para ouvir o álbum anterior. E tudo o que ela já fez antes.


02 | JANELLE MONÁE – Dirty Computer

Dirty Computer, terceiro álbum da americana Janelle Monáe, com sua capa repleta de referências imagéticas que vão desde representações arcaizantes de religiões africanas, passando pela iconografia religiosa russa, às máscaras de cavaleiros da Idade Média, e também à ciência e à tecnologia (a representação da auréola em uma corola repleta de erupções solares), é exatamente isto: um corpo estético atemporal se deslocando pelas camadas de sonoridades, que flertam com o R&B, o chill out, o funk, o hip-hop, o pop e a música de vanguarda. Janelle soube fusionar tais referências em um álbum coeso, feminino, mas feminino de uma maneira muito queer, andrógina, ambígua. A heterogeneidade das faixas, ainda que enfeixadas por uma abordagem sonora primariamente calcada na black music, opera na construção de pequenas fissuras por meio das quais se pode vislumbrar a seriedade, o comprometimento e a força política da alegria e do auto-respeito. Um álbum cuja tapeçaria discursiva em prol da mulher, dos negros e das ditas minorias sexuais estalam como tapas na alienação política da sociedade americana da era Trump. Ao lado de Broken Politics, da sueca Neneh Cherry, também negra e consciente de seu papel como mulher e artista, Dirty Computer se justifica como um dos álbuns mais interessantes desse terrível 2018.

por Claudimar da Silva

OUÇA: “Dirty Computer”, “Crazy, Classic, Life”, “Take A Byte”, “Django Jane” e “Americans”


01 | BEACH HOUSE – 7

Embora todos os discos anteriores do Beach House sejam marcados pela atmosfera de sonhos, 7 se diferencia pelo peso que essa construção toma: infinitamente mais planejado que os últimos, um dedicado a b-sides e Thank You Lucky Stars, significantemente mais fraco até do que o apanhado de sobrinhas, anuncia a chegada do duo de Baltimore a um novo patamar. As guitarras ficam mais pesadas, os vocais ficam mais claros e a construção de uma narrativa, tanto internamente nas letras e arranjos, quanto externamente na tentativa de traduzir essa atmosfera de nebulosidade para a promoção do álbum: a vocalista Victoria deu entrevistas enigmáticas nas quais ela discorria sobre as influências da Lua no disco, intensificando a relação da banda com a criação de uma ambientação enquanto elemento essencial da música deles. Depois de discos iniciais sólidos e um meio de carreira um pouco menos consistente, parece apontar para uma nova direção, como a vocalista mesma disse, não tão certa quanto o número 1, mas ainda assim, uma direção.

por Bárbara Blum

OUÇA: “L’Inconnue”, “Dark Spring” e “Black Car”

2017: Best Albums (People’s Choice)

10 | THE NATIONAL – Sleep Well Beast

Foram quatro anos de espera por um álbum novo da banda americana. Quando anunciaram o novo álbum, ainda no primeiro semestre do ano, deram ao mundo “The System Only Dreams In Total Darkness”, que foi o suficiente pra criar um hype bem grande ao redor do que poderia vir. E tudo valeu a pena: a melancolia suja de sempre tá forte nas letras, que dessa vez acompanham um som mais eletrônico e por vezes bem minimalista experimentado pela banda. Um álbum gerido com paciência (“Walk It Back” já teve algumas versões tocadas em shows) e que deu asas tanto à criatividade dos integrantes, quanto à imaginação dos ouvintes. Emocionante e necessário, como (quase) tudo o que a banda já lançou.

por Vitor Henrique Guimarães

OUÇA: “Walk It Back”, “Day I Die”, “Guilty Party” e “Sleep Well Beast”


09 | LIAM GALLAGHER – As You Were

Depois de aproximadamente três anos de resguardo, Liam Gallagher ressurge com um trabalho digno dos melhores álbuns do Oasis, tais como Definitely Maybe e (What’s The History?) Morning Glory. As You Were sabe muito bem mesclar canções introspectivas e delicadas com músicas agitadas e que carregam nas guitarras. Apesar disso, aqui Liam não se distancia muito do que já foi feito no Oasis e nos dois álbuns do Beady Eye, banda cuja qual ele era vocalista e reunia membros remanescentes do Oasis. Mesmo que as propostas sejam diferentes, a comparação é inevitável, Who Built The Moon?, do seu irmão e ex-companheiro de banda, Noel Gallagher, cumpre um papel bem mais experimental. Mas para os órfãos de Oasis, As You Were é um prato cheio e entrega bem mais do que promete, com faixas que se tornam fácil hinos de estádio.

por Lauriberto Pompeu

OUÇA: “Come Back To Me”, “I’ve All I Need” e “For What It’s Worth”


08 | BJÖRK – Utopia

Embora a palavra utopia seja atualmente usada para significar um lugar ideal, um paraíso ou sociedade perfeita, a origem da palavra remonta exatamente o contrário. Trata-se de um não-lugar ou lugar nenhum. Difícil para uma artista como Björk, que já construiu uma carreira sólida e com várias obras importantes, conseguir superar o padrão de qualidade que se espera de um novo lançamento, pois ela estabeleceu seus próprio padrões de comparação. Nesse caso, com Utopia, Björk consegue a proeza de se situar no terreno da música pop: em um não-lugar, ou lugar nenhum. Um trabalho inclassificável. Música pop é um rótulo que não cabe mais para a obra de Björk, pois a erudição necessária para apreciar seus trabalhos, incluindo aí o conhecimento prévio de sua própria obra, não condiz mais com os padrões daquilo que se conhecia como pop. A não ser se a compararmos com um movimento artístico, como a arte pop, quando o que se pensa compreender, à primeira vista, é algo muito mais complexo, culturalmente falando, do que latas de sopa, garrafas de coca-cola ou ampliações gigantescas de imagens de ídolos populares. Desse modo, a tábula rasa, ou a folha em branco que Björk estabelece como lugar para sua Utopia está entre os lugares. As paisagens sonoras que ela consegue evocar nos levam para mundos distantes, estranhamente familiares. É um tão longe, tão perto (ou o contrário) que nos desorienta, a princípio, para depois nos levar a planos mais elevados. O uso de harmonias e ruídos estranhos, construções com polirritmias aparentemente desconcertantes, tudo isso nos leva a ampliar nossos sentidos e abre um portal para essas utopias ou não-lugares, onde não somos mais capazes de nos situar. Só por isso, essa obra já merece um lugar de destaque na produção de Björk e um dos melhores lançamentos do ano de 2017.

por Gedley Belchior Braga

OUÇA: “Future Forever”, “Tabula Rasa”, “Utopia” e “Arisen My Senses”


07 | LCD SOUNDSYSTEM – American Dream

Se o medo se instalou entre os fãs do LCD Soundsystem quando houve o anúncio que a banda retornaria após o término em 2011, ele se desfez completamente nos primeiros acordes do quarto álbum da curta discografia de uma das bandas mais influentes desse começo de século. Tudo o que fez o grupo de Nova York famoso ainda está presente, desde a confluência de diversos ritmos – da dance music ao pós-punk -, passando pelo perfeccionismo de James Murphy, nítido no cuidado com cada elemento em todas as músicas. A principal diferença, contudo, está no tom. Uma atmosfera sombria, por vezes perturbada, perpassa todo o disco, refletindo nas letras que retratam amizades desfeitas, problemas pessoais e desesperança. American Dream pode pecar por não ter um hit tão grande quanto alguns outros já lançados por eles, mas é um complemento preciso para a trajetória do grupo.

por Guilherme Henrique

OUÇA: “Oh Baby”, “How Do You Sleep?” e “Tonite”


06 | ST. VINCENT – MASSEDUCTION

Annie Clark fez um apanhado de tudo o que fez anteriormente em sua carreira no seu pós moderno e conceitualmente ousado MASSEDUCTION. Enquanto que caminha segura para um publico mainstream, sua mensagem passa longe de ser facilmente palatável ao explorar temas como sexualidade, tristeza, uso de drogas controladas. Munida de uma postura deveras mais agressiva, o caos construído em colaboração com seus produtores joga o ouvinte em diferentes direções sem rodeios e luvas de pelica, é um de seus lançamentos mais interessantes ainda que seu disco mais inconsistente.

por João Vitor

OUÇA: “Pills”, “MASSEDUCTION”, “Smoking Section” e “Happy Birthday, Johnny”


05 | THE XX – I See You

I See You traz um The xx mais maduro, mais em sintonia. Pode não ser o mais primoroso dos três álbuns da banda, mas é arriscado em sonoridades e em expressar o momento que cada membro da banda está passando e quão mais confortável cada um deles está consigo mesmo. Pode ser considerado o disco mais comercial, por suas melodias, o uso de samples e uma vibe mais vibrante, mais pop. A banda experimenta sonoridades, mas, ainda sim, consegue manter sua essência, sua “estranheza”. O que torna I See You um dos melhores dos ano é a complexidade e a sinceridade colocada em cada som e cada letra.

por Carolina Chrispim

OUÇA: “I Dare You”, “Performance”, “On Hold” e “Dangerous”


04 | LANA DEL REY – Lust For Life

O último álbum de Lana Del Rey chama atenção logo pela capa: Lana está sorrindo. Em Lust For Life (paixão pela vida, em uma tradução livre), ouvimos uma Lana Del Rey diferente de seus trabalhos anteriores. A melancolia ainda está lá, mas além de amor, há também esperança em suas letras. Tentando mudar a pessoa por quem ela está apaixonada, Lana está disposta a mudar, até sonoramente falando, já que temos pitadas de hip hop neste disco. Se em Born To Die temos uma Lana “querendo estar morta”, em Lust For Life é justamente o contrário, ela quer estar viva, e feliz.

por Lucas Barboza

OUÇA: “Love”, “White Mustang” e “Summer Bummer”


03 | SZA – CTRL

Depois de 5 anos desde sua primeira mixtape, SZA finalmente lançou seu aguardado debut. CTRL é um álbum de histórias, de emoções que alguma vez na vida já experimentamos, de vulnerabilidade, de cair de amor em festas, amadurecimento, liberdade sexual feminina, de duvidar de si mesmo, desejo por aceitação, de medos. Temas que inúmeros outros artistas já exploram, porém SZA consegue transformar experiências tão pessoais e agoniantes em algo que o ouvinte consegue se relacionar, tudo isso bem conectado a sua voz e a produção das músicas, CTRL é um álbum onde cada musica tem seu espaço, seu momento e que juntas formam uma experiência bem marcante.

por Pedro Henrique Aguiar

OUÇA: “Love Galore”, “Normal Girl” e “20 Something”


02 | KENDRICK LAMAR – DAMN.

Evocando conceitos extremamente universais e complexos como amor, deus ou medo, Kendrick volta com um álbum denso, pesado e bem longe de toda a positividade de To Pimp A Butterfly. DAMN. é obra de um poeta habilidoso que, de forma bem ágil e direta, mostra os vários dilemas e dramas do negro norte-americano, através de um prisma socioeconômico ou (frequentemente) religioso. Era o álbum que faltava para definir Kendrick como o maior rapper de sua geração.

por Gianlucca Lisboa

OUÇA: “ELEMENT.”, “FEAR.” e “DUCKWORTH.”


01 | LORDE – Melodrama

Segundo o dicionário, “drama acompanhado de música instrumental”. É o que Lorde faz de peito aberto em Melodrama. Queridinha indie com hit na rádio, a cantora neozelandesa voltou em tempo certo com seu segundo disco produzido por Jack Antonoff (fun., Bleachers) que também assina praticamente todas as composições. Ela conta de maneira muito emotiva, do alto de seus 21 anos, sobre seu amadurecimento, desilusões e a maneira como leva a vida e se relaciona com as pessoas e o meio, conduzida por sintetizadores oitentistas dançantes ou pianos dramáticos. Não a toa, está em muitas listas de melhores do ano.

por Bernardo Gasino

OUÇA: “Homemade Dynamite”, “Liability” e “Perfect Places”

2017: Best Albums (Editor’s Choice – Henrique)

10 | SAMPHA – Process

Confesso de antemão que para mim é uma enorme surpresa um cara como o Sampha estar presente em minha lista de melhores do ano. O R&B peculiar que o britânico faz não é, nem de longe, um dos meus estilos mais ouvidos; e quiça tenho outros artistas que representem o gênero na minha biblioteca. Mesmo assim Process é um disco tão incrível que é impossível negar a genialidade do músico que consegue fazer um disco tão bagunçado e tão coeso ao mesmo tempo que é até difícil explicar o que cativa ali dentro. O músico demorou para lançar seu primeiro disco – está na ativa desde 2009 – mas a beleza de Process supera toda essa expectativa.

OUÇA: “Blood On Me”, “Kora Sings”, “(No One Knows Me) Like The Piano” e “Reverse Faults”


09 | THE JUNGLE GIANTS – Quiet Ferocity

Quiet Ferocity é o terceiro álbum do The Jungle Giants e foi só aqui que eles finalmente conseguiram entregar um álbum bem coeso e bastante interessante. A mudança em relação aos álbuns anteriores é nítida logo nos primeiros acordes de “On Your Way Down” e persiste até o fim do disco em “People Always Say”. O instrumental alinha-se muito bem com as letras da banda e a grata surpresa fica por conta das experimentações que vemos em músicas como “Feel The Way I Do”. O The Jungle Giants dá uma distanciada do seu som original, mas ainda bebe muito de um indie pop característico.

OUÇA: “On Your Way Down”, “Feel The Way I Do” e “Time And Time Again”


08 | SAN CISCO – The Water

O San Cisco deu uma leve escorregada em Gracetown, seu segundo disco, por dar uma de Tame Impala e tentar ir prum lado mais psicodélico. O cabelão de Jordi e o jeito largado de Scarlett eram mais do que pose, talvez, mas ficaram um pouco mais comedidos em The Water. A cara indie pop da banda dá uma retornada e consegue mesclar perfeitamente com algumas sonoridades mais experimentais. A música boa de The Water é chiclete e daquelas bem simples, mas gostosas demais de ouvir. O disco acaba rapidinho e a gente sempre fica na vontade de repetir e não consegue cansar – e foi exatamente isso que aconteceu.

OUÇA: “Kids Are Cool”, “Sunrise” e “SloMo”


07 | FRANCES – Things I’ve Never Said

A voz doce e delicada de Frances me acompanha desde o ano passado. Eu conheci a moçoila numa dessas ávidas buscas por música nova na internet e desde então fiquei muito ansioso para o primeiro álbum da britânica. Things I’ve Never Said é uma abertura de carreira perfeita e rendeu comparações à músicos consagrados da música da ilha-continente. Adele e Sam Smith já estão fazendo escola e Frances deve dar um baita orgulho para suas influências. Assim como sua inspiração direta [a Adele], Frances começou cedo na música e já entrega um disco cheio de sentimentos como esse. É música feita para arrepiar a pele e piano muito bem tocado para deixar todo mundo com aquele sorriso meio bobo na cara.

OUÇA: “Don’t Worry About Me”, “Drifting” e “Let It Out”


06 | AS BAHIAS E A COZINHA MINEIRA – Bixa

A fauna de Bixa é singular. Cachorro, urubu, coruja, pica-pau, peixe, tigre, veado… É nessa alegoria animalesca e numa nuance tropical que as líderes d’As Bahias e A Cozinha Mineira trazem seu segundo disco. Fugindo um pouco da MPB clássica que é a influência principal de Mulher, primeiro álbum, aqui temos uma mistura sensacional de ritmos. Temos bolero, disco, MPB, samba, jazz, axé. Fato é que Bixa não economiza nem um pouco suas cartas quando quer mostrar a força e a maestria da banda na sua versatilidade musical.

OUÇA: “Um Doido Caso”, “Dama Da Night” e “Mix”


05 | NATALIA LAFOURCADE – Musas

Musas é um disco de celebração. Celebração da história da cultura da América Latina, sobretudo dos falantes da língua espanhola. Natalia Lafourcade faz um álbum de homenagens com regravações e canções originais, emborcando totalmente em seu som as veias abertas da sua América; e faz isso de forma maestral, passando pelos ritmos de diferentes países e nos levando à viagens distantes ao passado sem sequer sairmos do presente. Musas continua a boa onda que começou com Hasta La Raíz (2015) e expôs Natalia Lafourcade ao grande público mundial. De uma delicadeza e cuidado ímpares, o disco ainda conta com a participação do duo Los Macorinos que complementam a voz da – já musa da música mexicana – Lafourcade com bastante significado.

OUÇA: “Tú Sí Sabes Quererme”, “Mi Tierra Veracruzana” e “Te Vi Pasar”


04 | FLEET FOXES – Crack-Up

Talvez seja só na minha concepção, mas Crack-Up do Fleet Foxes é um disco que não pode ser ouvido aos pedaços. As músicas funcionam de uma maneira operesca, unidas dentro de uma quase-mesma harmonia e unidas nitidamente (seja através do título e suas hifenações e barras indicando continuações ou através da sonoridade que acaba em uma faixa mas já é logo relembrada em outra). Os instrumentos se encaixam perfeitamente, a voz de Robin Pecknold acentua todos esses altos e baixos que percorrem o álbum e o produto final é esse presente que chegou pra gente seis anos depois do segundo álbum da banda. O hiato pode não ter feito muito bem para nós, fãs, ansiosos por esse retorno, mas fez bem para eles, que voltaram de maneira estrondosa com esse disco tão singular.

OUÇA: o álbum inteirinho (se você ouvir músicas separadas o sentimento não será o mesmo, acredite)


03 | LOS CAMPESINOS! – Sick Scenes

A discografia do Los Campesinos! é muito coesa e praticamente sem baixos ao longo dela. Algumas músicas do Romance Is Boring (2010) e do We Are Beautiful, We Are Doomed (2008) podem até não chegar tão perto das pérolas que encontramos nos outros discos, mas a banda sempre prolífica esteve sempre muito bem alinhada e produzindo músicas muito boas. Sick Scenes é a continuação natural do som mais limpo e educado, assim digamos, que a banda vem fazendo desde Hello Sadness (2011) e apresenta novas adições ao hall de músicas incríveis que a banda faz em cima de seu indie pop. Talvez um dos únicos remanescentes interessantes desse estilo que mistura um pouco de hardcore com o indie, o Los Campesinos! traz nesse disco músicas sem muitas surpresas dentro do seu feijão-com-arroz, mas que se encaixam muito bem dentro dessa proposta e, com isso, conseguem cativar muito bem por conta de toda essa profissionalidade da banda em produzir esse estilo com uma proeza e uma qualidade excepcionais.

OUÇA: “Renato Dall’Ara (2008)”, “Sad Suppers”, “I Broke Up In Amarante” e “Hung Empty”


02 | BLACK KIDS – ROOKIE

Posso ser um pouco suspeito quando o assunto é Black Kids, claro, mas não consigo deixar de negar que a banda perdeu a mão em apenas uma coisa aqui nesse novo registro: demorar tempo demais para lançar um álbum. São quase dez anos separando o primeiro álbum e ROOKIE, que representa uma volta natural aos tempos pré-Partie Traumatic e soa delicioso desde a primeira audição. Uma sonoridade mais respeitosa às influências originais – como The Cure, por exemplo -, mas ainda assim um disco regado de letras ácidas e ironias engraçadas típicas da banda de Jacksonville. É naturalmente óbvio que ROOKIE não tem a força da obra prima que foi o primeiro álbum e isso em diversas instâncias – seja na produção elevada ou na fanbase que se perdeu com a espera ou na enrolação nauseante para aparecer com um segundo disco. A boa recepção do disco que foi lançado sem uma gravadora gigante por trás, entretanto, nos faz esperar que o Black Kids não demore tanto para lançar outro álbum e que faça isso da mesma maneira que fez esse: bem por baixo dos panos, quase exclusivo e sem muito burburinho – parece que isso é o que os deixa mais felizes, afinal de contas.

OUÇA: “IFFY”, “If My Heart Is Broken”, “V-Card (Not Nuthin’)” e “Rookie”


01 | SONDRE LERCHE – Pleasure

Não conheço o Sondre Lerche há tanto tempo assim e acompanhava sua história nos bastidores até. Pleasure foi, então, uma surpresa gigante para mim quando saiu lá no começo do ano e foi o disco responsável por colocar o artista no patamar de “músicos preferidos”. Desde que saiu o disco não conseguiu ser deixado de lado e foi tocado algumas várias vezes por semana. A boa fase do cantor é refletida em todas as canções que passeiam muito bem pelo seu meio-eletrônico-meio-folk, com sussurros, gritarias e bagunça generalizada sem muito significado. Sondre consegue por caos na ordem – e não o contrário como muita gente faz – e com isso faz um som que é facilmente associado somente à ele e sua cena da Noruega. Aqui estão músicas que versam sobre os mais diferentes sentimentos, mas sempre muito bem alinhadas com o instrumental; ou seja, o disco é muito bem pensado e encaixado em todo o seu processo criativo e isso é facilmente notado. A melhor surpresa que 2017 conseguiu trazer musicalmente e eu adoro quando casos como esse acontecem – é necessário prestar melhor atenção nessas pedras preciosas bem guardadas da música mundial.

OUÇA: “I’m Always Watching You”, “Serenading In The Trenches” e “Hello Stranger”

2017: Best Albums (Editor’s Choice – André)

10 | TAYLOR SWIFT – Reputation

Um dos maiores trunfos da Taylor Swift é a sua capacidade de usar absolutamente tudo o que falam dela ao seu favor. E é exatamente isso que a cantora entrega em seu sexto álbum de estúdio. Reputation é um álbum caótico e desconexo resultante de tempos caóticos na vida da moça. Em meio a tretas, rixas e brigas com meio mundo, Taylor entrega aqui o motivo pelo qual, na verdade, nada disso importa muito: ela é muito boa no que faz. Não podemos nos esquecer de que Taylor lançou seu primeiro registro aos 16 anos e que ela cresceu sob os olhos do mundo e sob uma pressão gigantesca em ser a queridinha moça perfeita. Taylor precisava desesperadamente de uma mudança drástica em sua carreira e vida, e aproveitou esse momento para realizá-la. Em Reputation, Taylor é tanto a vilã quanto a vítima e não se importa nem um pouco com isso. A qualidade musical até dos momentos mais questionáveis de Reputation mostra por que ela é e está onde está: a moça é boa. Menos “End Game”, essa a gente finge que não existe.

OUÇA: “Delicate”, “Getaway Car”, “…Ready For It?”, “New Year’s Day” e “I Did Something Bad”


09 | SISO – Saturno Casa 4

Saturno Casa 4 é o álbum de electropop que a cena musical brasileira estava precisando. Extremamente bem escrito e produzido, Siso mostra que não saiu de casa à toa e sim pra fechar negócio. Parcerias acertadas, letras incríveis e um som não muito comum de se encontrar por aqui. Casando eletrônicos com instrumentos orgânicos e uma vulnerabilidade ímpar, Siso cria seu próprio universo em Saturno Casa 4 e, o melhor de tudo, ele mesmo aponta tudo o que há de errado nele com críticas sutis e certeiras. É apenas seu primeiro trabalho completo, mas Siso com certeza ainda dará muito o que falar.

OUÇA: “O Amor É 1 Arma De Destruição Em Massa”, “Saudade”, “Tentação” e “4 De Ouros”


08 | GLORIA GROOVE – O Proceder

Gloria Groove é uma drag queen negra da Zona Leste de São Paulo que tem uma voz poderosíssima capaz de deixar muitas cantoras com inveja, e ela resolveu fazer um álbum de hip hop. São poucos os momentos em O Proceder nos quais Gloria faz uso de toda a sua potência vocal, mas ela troca isso por uma coisa muito mais importante: sua autenticidade. O Proceder é periférico, é hip hop, é socialmente consciente, é luta, é vivência. Indo na contramão do que se espera musicalmente de uma drag queen, Gloria não tem medo de exigir seu lugar e afirmar “Eu sou a dona da porra toda” e essa convicção é uma batalha diária. Mas em momento nenhum ela se acha melhor do que os outros por causa disso, muitíssimo pelo contrário. A humildade que Gloria esbanja em suas letras, se igualando sempre aos seus fãs e colegas de profissão, é um exemplo a ser seguido. O Proceder é um álbum curto e conta com duas músicas já lançadas quase um ano antes do trabalho completo chegar, mas ele passa sua mensagem. Gloria Groove com toda a certeza ainda vai muito longe, e ela é sim a dona da porra toda.

OUÇA: “Dona”, “Gloriosa”, “O Proceder” e “Império”


07 | PARTNER – In Search Of Lost Time

Esse é um tipo de álbum que eu nunca imaginei que fosse encontrar de novo. Um álbum que me fizesse sentir com 16 anos, procurando e encontrando música nova em comunidades do Orkut. Nada é capaz de transportar pra 2007 tão facilmente e tão instantaneamente quanto o debut da dupla Partner – um álbum leve e divertido, com um som que infelizmente caiu em desuso nos últimos dez anos. É impossível separar a música apresentada por Josée e Lucy aqui de seu próprio senso de humor, que permeia o álbum como um todo, mas a música feita pelas amigas está longe de ser uma piada. In Search Of Lost Time mostra e te lembra que é necessário se levar menos a sério às vezes e a dupla faz uma música extremamente competente enquanto se diverte. E escreve sobre o quanto é bom ficar em casa. Tem coisa melhor?

OUÇA: “Play The Field”, “Comfort Zone”, “Daytime TV”, “Creature In The Sun” e “Ambassador To Ecstasy”


06 | AS BAHIAS E A COZINHA MINEIRA – Bixa

Em seu segundo trabalho, As Bahias e A Cozinha Mineira mostram que sabem muito bem o que estão fazendo. Seu som, mesmo no estonteante Mulher, já era difícil de ser classificado direito – MPB, claro, mas um MPB que também ia até o forró, samba, axé, rock… E agora, em Bixa, Raquel e Assucena adicionam também o eletrônico e o disco na gama de ritmos que podem fazer com perfeição. A produção de Bixa é muito mais pop e acessível do que Mulher foi, mas em momento algum as moças perdem sua identidade nesse meio do caminho. Bixa é um álbum bastante colorido e visual, assim como sua capa sugere, e essas cores todas se fazem presente principalmente nos vocais e harmonizações das duas cantoras – que apresentam um controle vocal invejável – e nas letras ambíguas e cheias de metáforas. Bixa é um álbum completo em todo e qualquer sentido que você queira. E, pelo amor de Deus, vão ver as duas ao vivo assim que tiverem oportunidade. Além de boas em estúdio, elas são donas de um dos melhores shows que eu já fui na vida. Vida longa às Bahias.

OUÇA: “Sua Tez”, “Um Doido Caso”, “Drama” e “Universo”


05 | ALEX LAHEY – I Love You Like A Brother

Há anos não aparecia um álbum em minha vida lá por Novembro que escalasse imediatamente ao meu Top 5 preferidos do ano. E essa é Alex Lahey. Apostando num pop punk/indie rock bem simples e direto, a australiana acerta em cheio em seu primeiro álbum completo, I Love You Like A Brother. De Courtney Barnett em “Lotto In Reverse” a The Pipettes em “I Want U”, as influências da moça são as mais variadas, mas muito bem costuradas em sua própria identidade. Subvertendo papeis de gênero, tanto seu quanto de seu irmão, na faixa título do disco e esbanjando dor de cotovelo no restante do álbum, Alex Lahey se mostra bastante confiante em seu primeiro registro. E não tem como ser diferente, I Love You Like A Brother é impecável.

OUÇA: “I Haven’t Been Taking Care Of Myself”, “I Love You Like A Brother”, “Lotto In Reverse”, “I Want U” e “Awkward Exchange”


04 | SLOWDIVE – Slowdive

O Slowdive conseguiu em 2017 fazer quase o impossível: um álbum de reunião, depois de mais de duas décadas, que realmente parece necessário. Essa reunião, que contém todos os membros-chave da banda, conta com inovações e modernizações em seu som; mas poucas. O que a banda apresenta em Slowdive é apenas uma coisa: o motivo de seu nome estar sempre atrelado à palavra ‘icônico’. Souvlaki já era uma obra prima e agora Slowdive justifica o porquê disso. Slowdive fez uma volta melhor que a do My Bloody Valentine, e muito mais essencial. Ao invés de tentarem fingir que o tempo não passou, eles mostram porque influenciaram centenas de bandas nos últimos vinte anos. Isso tudo em apenas uma música, “Star Roving”. E o mais impressionante é que o restante do álbum realmente mantém a mesma qualidade.

OUÇA: “Star Roving”, “Slomo”, “Sugar For The Pill” e “No Longer Making Time”


03 | LORDE – Melodrama

Melodrama é o álbum que ninguém estava muito esperando. Não dava pra saber como o segundo trabalho da Lorde seria sonoramente, já que o primeiro foi gravado e lançado antes de o mundo inteiro estar de olho nela. E o resultado foi surpreendente. Melodrama é um álbum absurdo. Cheio de contradições que se complementam, momentos extremamente cinemáticos e cheios de luz e vida mesmo em estúdio. Não dá pra dizer que Lorde amadureceu muito desde o debut porque ele também já foi um álbum maduro e completo. Mas ela se aprimorou sim em, bom, tudo. Letras, produção, voz, conceito. Lorde se entregou ao pop, sim, e isso está longe de ser algo ruim. Melodrama conta com momentos de genialidade pura, como a jornada de auto-descobrimento pós-boy lixo de “Green Light” e, principalmente, ‘I overthink your punctuation use‘. Na verdade, “The Louvre” é uma música que traduz tão perfeitamente o começo de um relacionamento nos dias de hoje que chega até a ser um pouco assustadora a sua universalidade. E Melodrama é bem isso. A universalidade do álbum como um todo é absurda. Melodrama é o álbum que ninguém estava esperando, porque ninguém achou que alguma pessoa ia conseguir jogar na cara do mundo inteiro o quanto todos somos iguais nas nossas paranoias, medos, anseios e dramas. E a Lorde faz exatamente isso do começo ao fim do disco.

OUÇA: “Supercut”, “Perfect Places”, “The Louvre”, “Green Light”, “Hard Feelings/Loveless” e “Liability”


02 | ALVVAYS – Antisocialites

Antisocialites é um dos álbuns mais bonitos não só desse ano, mas dos últimos tempos de uma forma geral. O quinteto de Toronto em seu segundo disco adicionou elementos de garage rock e punk em seu indie pop já levemente barulhento, e o resultado é um álbum bastante agradável. É possível se perder no tempo ouvindo Antisocialites no repeat, sem nunca se cansar. Trata-se de um trabalho bastante curto, com dez músicas e apenas 32 minutos de duração; mas não existe um único filler aqui. Cada música, cada letra, cada decisão, cada acorde foi muito bem pensado nesses três anos de intervalo. O resultado é um disco lindíssimo, cheio de influências e ritmos que acrescentam ainda mais vida às composições da banda. A voz etérea de Molly Rankin parece finalmente confiante e flutua sobre o instrumental de forma bastante calma, porém firme. Antisocialites é a prova de que todo o potencial que o Alvvays mostrou em seu debut não foi à toa, e está aqui agora em forma de fato.

OUÇA: “In Undertow”, “Dreams Tonite”, “Saved By A Waif”, “Lollipop (Ode To Jim)” e “Hey”


01 | JAPANDROIDS – Near To The Wild Heart Of Life

Não tinha como outro álbum encabeçar essa lista. Tenho um caso de amor com o Japandroids há quase dez anos, e metade desse tempo a dupla canadense ficou inativa. A incerteza de que se haveria algum dia um álbum novo, principalmente depois da obra prima que foi Celebration Rock em 2012, era agoniante. E agora esses lindos voltam com Near To The Wild Heart Of Life, um álbum que continua exatamente de onde tinham parado. Algumas poucas inovações, como violões acústicos e um ou outro sintetizador aqui e ali, mas o cerne de Wild Heart continua sendo o mesmo. Trata-se de uma música atemporal, ninguém consegue trazer uma catarse atrás da outra como o Japandroids e isso agora é mais evidente do que nunca. As letras estão mais maduras, e agora celebram as conquistas difíceis da vida e não os momentos efêmeros como faziam no passado. E eles fazem questão de nos dizer que ainda estão apenas próximos ao coração selvagem da vida; eles não chegaram lá ainda. Mas quando chegarem… A palavra ‘hino’ tem sido comumente usada para hits do pop, mas não existe outra melhor para o conteúdo de Wild Heart; a cada ‘a drink for the body is a dream for the soul‘ e ‘can’t leave your dreams to chance or to a spirit in the sky‘ – é um Hino depois do outro. Então mesmo escrevendo isso em Dezembro, preciso dizer que essa posição, a de número 01, a de Melhor Álbum do Ano, para mim, já havia sido preenchida em Janeiro.

All life long, ‘til I’m gone

OUÇA: “Arc Of Bar”, “No Known Drink Or Drug”, “Near To The Wild Heart Of Life”, “Midnight To Morning” e “True Love And A Free Life Of Free Will”

2017: Best Albums (Staff’s Choice)

10 | PARAMORE – After Laughter

Depois de quase encerrar as atividades, que maravilha foi ouvir o retorno à cena do Paramore! After Laughter tem o frescor da nova direção escolhida pela banda. Esse novo caminho soa tão natural e, ao mesmo tempo, tão inventivo, que faz do disco o melhor que a banda lançou até agora. After Laughter é cheio de influências da new wave e do synthpop dos anos 80 com uma sonoridade majoritariamente ensolarada, apesar das letras lidarem com assuntos quase sempre pesados como: depressão, conflitos, ansiedade e até fobia social. E é justamente nesse contraste entre a música dançante e o sentimento das letras que mora boa parte da sagacidade de After Laughter. O grande destaque do disco é “Fake Happy”, a faixa é capaz de sintetizar o espírito e sonoridade do álbum, além de ainda conter elementos do “velho” Paramore –  e um refrão feito sob medida para ser cantado a plenos pulmões. Poucas vezes uma letra tão simples quanto a de “Fake Happy” foi capaz de representar com tamanha precisão e profundidade as emoções daqueles que, por um motivo ou outro, tem que encarar uma rotina que não lhes preenche. After Laughter é o tipo de disco que encapsula o modo como boa parte de uma geração se sente: feliz por fora, mas com medo, ansiosa e confusa por dentro. Até por esse motivo, é o tipo de disco que nos acompanhará por anos. Ou por toda a vida.

por Angelo Fadini

OUÇA: “Fake Happy”, “Rose-Colored Boy”, “Hard Times”, “Tell Me How” e “26”


09 | HARRY STYLES – Harry Styles

Com o disco de estreia solo, Harry Styles justifica o hype em torno de si. No álbum autointitulado, o membro da boyband britânica, ainda em hiato, One Direction deixa de lado o caminho mais seguro – e comercial – e explora uma sonoridade muito mais voltada ao rock em que a influência de seus artistas favoritos, como Pink Floyd, David Bowie e Fleetwood Mac, fica evidente. As dez composições bastante pessoais expõem uma vulnerabilidade impressionante de Styles ao mesmo tempo que deixam muito espaço para interpretação. Explico: na rock ballad “Sign Of The Times”, primeiro single e de quase seis minutos de duração, o cantor pode estar falando de alguma experiência pessoal bem como de episódios políticos do último ano ou até mesmo do fim do mundo. Cada faixa do disco é claramente diferente: enquanto a rápida “Kiwi”, com guitarras mais pesadas e refrão que grita ‘I’m having your baby, it’s none of your business‘ remete ao glam rock, “Sweet Creature” é acústica e delicada. Todas, contudo, parecem unidas por elementos nostálgicos que resgatam o rock clássico de diferentes décadas e, ao invés de soarem como apenas um apanhado de referências, trazem sempre algo novo e mostram que Harry Styles está aberto a experimentações e crescendo como músico, cantor e compositor.

“Meet Me In The Hallway”, “Kiwi” e “From The Dining Table”

por Mariana Rudizinski

OUÇA: “Meet Me In The Hallway”, “Kiwi” e “From The Dining Table”


07 | LCD SOUNDSYSTEM – American Dream

O fim definitivo do LCD Soundsystem durou menos que o intervalo entre discos de várias bandas por aí. Fora do contexto do disco, os dois singles lançados não empolgaram, e a capa… digamos… “minimalista” deixou no ar a possibilidade de uma volta caça-níquel. Nada mais equivocado. American Dream deixa a sensação de que a discografia da banda teria restado incompleta sem seu lançamento. James Murphy segue sendo um observador sagaz da vida cultural e conflitos geracionais a sua volta. Há algo de radicalmente diferente desse registro em relação aos anteriores? Ainda bem que não, pois ninguém faz o disco-rock que o LCD faz: pra dançar, pra se emocionar, pra refletir, pra dar risadinhas de canto de boca, tudo ao mesmo tempo, um turbilhão de sensações e sons que parecem milimetricamente posicionados, durando o quanto tem que durar para fazer as letras de Murphy ainda mais grandiosas. Vida longa.

por Rodrigo Giordano

OUÇA: “How Do You Sleep?”, “Tonite” e “American Dream”


07 | TYLER, THE CREATOR – Flower Boy

Tyler, the Creator, conhecido pela excentricidade de suas produções e pela liderança do coletivo OFWGKTA, lançou em 2017 o quinto álbum de sua carreira. Assim, com uma discografia estabelecida e com admiradores de suas músicas e estilo espalhados pelo mundo, Tyler explora a sua faceta mais romântica em Flower Boy. O disco conta com participação de alguns grandes nomes como Frank Ocean, Lil’ Wayne e A$AP Rocky, e também de jovens como Kali Uchis, com quem repete a parceria de sucesso de “Perfect” (Cherry Bomb, 2015) no hit “See You Again”. O encadeamento das faixas pelo álbum é primoroso, tornando-o uma experiência muito agradável de se ter, e a temática de amor perpassa o álbum do início ao fim. Um detalhe curioso é a mensagem de voz deixada deixada à secretária eletrônica que ocorre ao final de “November” e serve como um gancho para a subsequente “Glitter”, uma canção que declara todo o sentimento ao ser amado. Porém, ao final da canção, a secretária eletrônica diz que houve um problema e a declaração não foi sequer gravada. Triste. E é possível amar sem doer? Flower Boy é o disco mais sensível e confessional da carreira de Tyler e, longe de ser frisson passageiro, será relembrado e ouvido por muito.

por Marta Barbieri

OUÇA: “Boredom”, “Glitter”, “See You Again” e “Garden Stand”


06 | THE XX – I See You

Conversar. I See You é sobre a importância de falarmos sobre o que sentimos, por mais difícil que seja. O terceiro álbum do The xx talvez não seja o mais forte e coeso da carreira da banda, mas é com certeza o que retrata de modo mais sincero os sentimentos de cada um dos 3 integrantes. Com letras sobre situações pessoais, I See You é um álbum transparente e que mostra uma nova sintonia entre Romie, Jamie e Oliver.  Essa sintonia, que além de ser muito clara nos clipes dos singles lançados, também é perceptível na própria música, com os vocais e o instrumental muito mais maduros e confortáveis do que no álbum de estreia, por exemplo. O álbum não aparece na lista de melhores do ano a toa, ele passa uma mensagem sobre reflexão e o quão importante é nos esforçarmos para conversar sobre nossos sentimentos com as pessoas mais próximas, e que existem outras formas, como a música, caso você não consiga se abrir completamente.

por Isabella Goulart

OUÇA: “Say Something Loving”, “I Dare You” e “On Hold”


05 | THE NATIONAL – Sleep Well Beast

Com uma discografia impecável, as expectativas sempre são altas quando se fala no The National. É uma banda que não se acomoda no próprio sucesso e se propõe a experimentar caminhos ainda não trabalhados em cada novo registro. Isso tem feito com que cada álbum do The National se torne singular, apresentando uma nova versão da banda em cada trabalho. Em Sleep Well Beast, a perspectiva de experimentar novos ares vai além do habitual e o resultado não poderia ter sido mais certeiro. O sétimo disco da banda é marcado por uma estética monocromática em câmera lenta que impressiona já na primeira audição. Em cada faixa, é apresentada uma sobreposição de texturas conduzidas por uma melancolia cheia de nuances. Os diversos elementos eletrônicos criam uma atmosfera calma e anestesiante que da identidade ao disco. Sleep Well Beast é uma belíssima adição à discografia do The National, mostrando o incrível potencial que a banda consegue alcançar ao se afastar com veemência de fórmulas passadas.

por Stefan Maier

OUÇA: “Guilty Party”, “The System Only Dreams In Total Darkness”, “Carin At The Liquor Store” e “Turtleneck”


04 | SZA – CTRL

SZA começou pelos bastidores. Após alguns EPs que criaram burburinho na cena alternativa, Solána Rowe encontrou sucesso ajudando a escrever canções de grandes nomes do pop, como Beyoncé, Nicki Minaj e Rihanna, e chegou até a considerar se não devia seguir carreira como escritora. Quem ouve seu disco de estreia, CTRL, só consegue achar isso um completo disparate. O conjunto de músicas nesse projeto revela uma artista de voz própria já bem definida e com todo o potencial para o estrelato. Trazendo letras quase chocantes de tão honestas com todas as suas inseguranças, além de trabalharem a perspectiva rara da outra mulher numa traição, é claro que SZA precisava cantar as próprias histórias. Misturando sons eletrônicos e tradicionais com seus vocais potentes, as 14 faixas em CTRL demonstram versatilidade dentro do gênero do R&B. Da crua e melancólica abertura “Supermodel”, à sensual “The Weekend”, ao solo de guitarra que fecha “Normal Girl”, Solána domina todos os espaços com seu carisma e nos deixa pendurados em suas palavras. Depois desse debut, o mundo musical também fica pendurado na espera de seu próximo projeto – já em produção, com participação de Mark Ronson e Tame Impala.

por Fredy Alexandrakis

OUÇA: “Love Galore”, “Doves In The Wind”, “The Weekend” e “Normal Girl”


03 | ST. VINCENT – MASSEDUCTION

MASSEDUCTION é o álbum mais enigmático e gostoso de decifrar da St. Vincent, onde conseguimos perceber uma Annie Clark explorando as relações amorosas, os enfrentamentos dos problemas familiares e também a sua relação com a fama intensa que recebeu dos holofotes mundiais nos últimos anos. O trocadilho de MASSEDUCTION reflete totalmente em como o ouvinte irá interpretar todo esse amontoado de conceitos que Annie traz em seu quinto álbum de estúdio: educação, sedução, destruição em massa? O que podemos dizer de MASSEDUCTION é que o álbum consegue ir de New York a Los Ageless, de um amor para outro, mostrando St. Vincent ainda mais forte no cenário musical, através de sua genialidade como guitarrista, suas letras tão elaboradas e com tantos significados, que concretiza ainda mais a versatilidade e potencialidade da vencedora do Grammy 2015 de melhor álbum alternativo do ano.

por Cassiano Kayan

OUÇA: “Los Ageless”, “Savior” e “Smoking Section”


02 | KENDRICK LAMAR – DAMN.

Kendrick Lamar é seguramente um dos grandes artistas de nosso tempo e seu reinado se expandiu com o lançamento de DAMN., o quarto álbum de estúdio do rapper de Compton, Califórnia. Em DAMN., Kendrick Lamar explora uma sonoridade mais comercial e conta com participações de peso como Rihanna e Bono Vox do U2, embora o disco conte com poucos featurings. Mesmo que tenha seu apelo comercial, o álbum pode ser visto como uma obra complexa em que Kendrick reflete sobre os efeitos do sucesso em sua vida pessoal, sobre os altos e baixos de estar no topo, sobre amor, religião, racismo, violência, medo e tantas outras coisas. DAMN. é um registro sólido e belíssimo que traz importantes reflexões para os ouvintes e é um dos trabalhos que ajudaram a colocar o rap em posição de destaque no cenário musical contemporâneo. É, com certeza, um dos melhores álbuns lançados em 2017.

por Felipe Adão

OUÇA: “DNA.”, “DUCKWORTH.” e “LOVE.”


01 | LORDE – Melodrama

Após uma estreia arrasadora, não apenas com um hit onipresente, como também com um debut marcante, a pressão era enorme para Lorde provar que não era somente uma promessa. As experiências com a fama e com a solidão nos quatro anos depois do lançamento de Pure Heroine ajudaram na composição meticulosa das canções de Melodrama, que tem hino atrás de hino, sem os exageros que costumam ser associados à palavra. Com apenas 21 anos, Lorde se firma como uma queridinha do público e da crítica, devido à profundidade das suas letras melancólicas, às batidas que vão da calmaria à agitação em questão de segundos de forma fluida e também graças a uma voz que transmite poder e vulnerabilidade com a mesma facilidade. Melodrama funciona tanto para quem está se sentindo no fundo do poço, como para quem deseja se preparar para uma festa. Curiosamente, exatamente há um ano escrevi na nossa lista de melhores do ano sobre o último trabalho de David Bowie, o qual havia declarado que acreditava que Lorde seria “o futuro da música”. Com o melhor álbum de 2017, Lorde nos deixou mais confiantes de que o futuro da música pop realmente está em ótimas mãos.

por Ronaldo Trancoso

OUÇA: “Supercut”, “Perfect Places”, “The Louvre” e “Homemade Dynamite”

2016: Best Albums (Audiência)

10 | ANGEL OLSEN – My Woman

Angel Olsen não precisa fazer esforço para despertar seu interesse, é uma artista que canta o que queremos ouvir e ler em suas letras, mesclando sentimentos que conseguem proporcionar o transcendental já nas primeiras faixas. O álbum mais recomendado do ano (por vários artistas influentes) é a escolha perfeita para ouvir num final de tarde observando o degradê das cores do céu, ou numa madrugada intensa onde você só quer sentir os tons graves de uma voz que te preenche e leva para um outro nível.

por Cassiano Kayan (@ckcff)

OUÇA: “Shut Up Kiss Me”, “Sister” e “Not Gonna Kill You”

________________________________________________

09 | SOLANGE – A Seat At The Table

Solange descreveu A Seat At The Table – que combina elementos de R&B, funk, soul, pop e até mesmo um pouco de poesia – como um “um projeto de identidade, autonomia, independência, dor e cura”. Numa espécia de manifesto de cuidado e amor-próprio, Solange se junta a irmã para contar uma narrativa similar, porém escolhendo palavras e estilos musicais distintos para expressar essas histórias individuais. O disco tem uma abordagem futurista para música black sem esquecer suas raízes. Ela sabe de onde veio; se mostra ora alegre por isso, ora consciente da realidade em que vive. O disco todo soa como se ela experimentasse um otimismo cauteloso em relação ao que ainda está por vir.

por Gabriel Felipe Martins (@BielFelipe)

OUÇA: “Cranes In The Sky” e “Don’t Touch My Hair”

________________________________________________

08 | LADY GAGA – Joanne

Desde seu surgimento no cenário musical, Lady Gaga sempre mostrou ser uma perfeccionista. The Fame/The Fame Monster talvez tenha chegado sem muitas pretensões, mas Born This Way e ARTPOP foram concebidos para serem álbuns que marcassem a história da música, o que acabou não acontecendo. Com bastantes influências de country e rock, sem perder a essência pop, Joanne traz uma Lady Gaga mais próxima de si, uma Lady Gaga mais “Stefani Joanne” (seu nome de batismo). Bem intimista em relação aos temas abordados, Joanne marca a transição de Lady Gaga a novas possibilidades musicais. Pode não ser o álbum que seus little monsters estavam esperando, mas é o álbum que precisava ser lançado por ela.

por Lucas Barboza (@lucastardust)

OUÇA: “Million Reasons”, “Perfect Illusion” e “Hey Girl”

________________________________________________

07 | KANYE WEST – The Life Of Pablo

The Life Of Pablo é o sétimo álbum solo de Kanye West e um de seus menos coesos até agora. Kanye mudou o título do disco inúmeras vezes, começando com So Help Me God (Que Deus Me Ajude), passando por SWISH e Waves, que é uma das faixas mais interessantes do álbum, que por fim foi batizado de The Life Of Pablo. Seja ele Picasso ou Escobar, como há especulação circula, alimentada pelo próprio Kanye. O disco é, como prometido, “um registro gospel com um monte de palavrões”. Nele, Kanye procura redenção, sua busca recorrente, e polariza seu status de costureiro do hip-hop ao juntar pequenas partes em um produto final grandioso.

por Gabriel Felipe Martins (@BielFelipe)

OUÇA: “Ultralight Beam”, “Fade”, “Famous” e “Wolves”

________________________________________________

06 | RIHANNA – ANTI

Rihanna já produziu, em somente 10 anos de atividade, o que outros levaram muito mais tempo para criar. Madonna, por exemplo, lançou seu 8° disco de estúdio, o Music, com 17 anos de estrada. ANTI serve como um elemento de re-construção, como o título indica, uma ideia de oposição, contrariedade e direção oposta. Antes do lançamento de ANTI, Rihanna produziu tentativas de singles promocionais que sequer entraram na lista final do álbum, clipes grandiosos – e já históricos, além de performances ao vivo. Menos o álbum, menos a obra completa. ANTI chegou, por fim, esse ano, como um disco de R&B, mas com experimentação e referências de outros estilos.

por Gabriel Felipe Martins (@BielFelipe)

OUÇA: “Work” e “Needed Me”

________________________________________________

05 | BON IVER – 22, A Million

… Bon Iver é música para se ouvir em dias chuvosos. Ou, pelo menos, era assim que eu pensava antes de ouvir o novo álbum, 22, A Million. Esse novo trabalho da banda de Justin Vernon, apesar de manter a essência daquilo que torna uma música do Bon Iver uma música do Bon Iver (principalmente os vocais sempre sensíveis e reconhecíveis), traz, com um quê de experimental, vários elementos diferentes às canções do grupo…

[LEIA NOSSA RESENHA]

OUÇA: “33 “GOD”” e “666”

________________________________________________

04 | DAVID BOWIE – Blackstar

Sem querer, logo depois de seu aniversário de 69 anos, David Bowie se despediu de nós da “melhor” maneira possível: com um álbum novo.   (pronunciado Blackstar) é ainda mais sombrio que seu antecessor, The Next Day (2013), e mostra um David Bowie do jeito que nós o conhecemos mas que não vimos na última década: experimental, se reinventando, mas sempre se adaptando ao momento. Não apenas por ter sido o último álbum de Bowie, Blackstar provou que o artista ainda poderia contribuir para a música por bastante tempo. Uma pena o “Camaleão do Rock” não estar mais aqui.

por Lucas Barboza (@lucastardust)

OUÇA: “Lazarus” e “Blackstar”

________________________________________________

03 | FRANK OCEAN – Blonde

… Com o apoio de gente como James Blake, Sampha, Arca, SebastiAn e o deus Jonny Greenwood, Endless pode até soar ‘cabeçudo’ e artístico logo de cara, mas soa mais como um arremedo de faixas meio inacabadas, reunidas como que para sanar a sede dos fãs (e quase nos enganou, já que o danado até sampleou Gal Costa). “Visual album” ou qualquer outro nome que Ocean queira dar pra esse vídeo (aliás, vídeo esse que não passa dessas instalações artísticas meio embustes que vemos por aí) com essas faixas curtas, eu prefiro chamar isso de teaser do que viria a seguir…

[LEIA NOSSA RESENHA]

OUÇA: “Nikes”, “Ivy”, “Pink + White” e “Nights”

________________________________________________

02 | RADIOHEAD – A Moon Shaped Pool

Uma das coisas que torna o Radiohead uma das bandas que mais influenciaram outros artistas nas duas últimas décadas é a capacidade de reformular e experimentar a cada álbum novo, fazendo com que cada obra seja algo próprio de si. A Moon Shaped Pool veio um pouco na contramão: O LP9 é provavelmente o cd mais “óbvio” de Yorke e cia. Ele possui, claro, sua própria identidade, mas soa quase como um greatests hits, um grande apanhado de fases antigas desde o Kid A (2000) até The King Of Limbs (2011) batido dentro de um liquidificador, permitindo-se ainda de um pouco de novidade com tempero brasileiro. A presença de músicas já conhecidas dos fãs influenciou bastante nesta visão, mas isto não tira o mérito de um álbum que pode ser definido como o mais elegante, frio. preciso e calculado da banda até agora.

por Rodrigo Takenouchi (@diguete)

OUÇA: “Burn The Witch” e “Present Tense”

________________________________________________

01 | BEYONCÉ – Lemonade

Os conflitos conjugais de Beyoncé e Jay-Z ardem, explodem e desaparecem, eventualmente, em Lemonade, o álbum que acompanha o filme lançado pela Beyoncé em abril desse ano. Liricamente, a maioria das canções em Lemonade soam como um follow-up de “Jealous”, do disco anterior de 2013, onde Beyoncé canta “Eu te odeio por suas mentiras”. O disco não foi feito pensando em formatos convencionais de singles promocionais; o convite é que fãs explorem todo o álbum, ouvindo todas as faixas, e percebam o quão experimental – seja com blues-rock, country sulista ou soul dos anos 60 – Beyoncé está disposta a ser. Ela canta de peito aberto, dando voz a dilemas complexos em refrões fortes, onde toca ideais e emoções que muita gente sente. Mesmo que ela seja uma estrela que tem um mundo tão diferente do nosso, quando o assunto é coração, suas complicações e paradoxos, Beyoncé poderia estar numa mesa de boteco com a gente.

por Gabriel Felipe Martins (@BielFelipe)

OUÇA: “Formation”, “All Night” e “Sorry”

2016: Best Albums (André)

10 | SAVAGES – Adore Life

Ah, o Savages. ‘If you don’t love me, don’t love anybody‘. Esse é o verso que abre Adore Life, segundo álbum das inglesas, e logo em seguida elas completam com ‘Love is the answer‘. O Amor é o tema central do trabalho, mas não se tratam de ‘músicas de amor’, mas sim ‘músicas sobre amor’, em todas as suas vertentes. Músicas que mantêm a intensidade visceral do debut Silence Yourself e ao mesmo tempo se apresentam mais acessíveis do que nunca. Mesmo com uma produção mais limpa do que a vista em seu primeiro trabalho, as moças entregam um trabalho maravilhoso que é uma ótima adição à sua curta, mas cada vez mais promissora discografia.

OUÇA: “Adore”, “Surrender”, “Slowing Down The World” e “The Answer”.

________________________________________________

09 | LUCIUS – Good Grief

Lucius é uma das bandas que, infelizmente, passa desapercebida tanto pela crítica quanto pelo público geral. Com sua teatralidade cada vez mais aparente mesmo em estúdio, Jess Wolfe e Holly Laessig, ao lado de sua banda de apoio, resgatam o aspecto visual da música em seus shows e misturam influências criando algo realmente marcante. Country, folk, indie e pop se mesclam em uma atmosfera riquíssima em detalhes e cheia de reviravoltas e mudanças de ritmo. É realmente uma pena que tão pouca gente preste a devida atenção à genialidade apresentada em seu segundo álbum, que é uma continuação direta e aperfeiçoada de seu Wildewoman. Good Grief apresenta um frescor ímpar e bastante agradável, fazendo dele um álbum que se pode dar o play em qualquer momento do seu dia.

OUÇA: “Almost Makes Me Wish For Rain”, “What We Have (To Change)”, “Gone Insane” e “Almighty Gosh”.

________________________________________________

08 | ANOHNI – HOPELESSNESS

HOPELESSNESS é um grito em toda a sua calmaria. É um álbum angustiante, difícil de se ouvir, pesadíssimo e extremamente necessário. ‘Blow my head off, explode my crystal guts‘ canta Anohni dando voz à uma menina afegã cuja família foi morta por um ataque aéreo via drones. E isso é apenas a primeira música. No restante do álbum, Anohni continua explorando assuntos como guerras, feminismo, meio ambiente e relacionamentos. Tudo sempre com um cunho bastante político, às vezes irônico e sarcástico, mas nunca debochado. Tudo dito aqui é pra ser levado à sério, não só pela cantora mas por todos. A produção eletrônica (e às vezes quase dançante) cria uma discrepância entre as letras e as melodias de uma forma que te obriga a ouvi-lo de novo, para tentar entender o que está acontecendo. Mas, spoiler alert, você nunca entende o que está acontecendo. Assim como na vida, HOPELESSNESS mostra um mundo sem esperanças e que está fadado à autodestruição. E Anohni já se encontra nessa provável distopia pós-apocalíptica e nos escreve de lá.

OUÇA: “4 Degrees”, “Drone Bomb Me”, “Violent Men” e “Execution”.

________________________________________________

07 | BEYONCÉ – Lemonade

Preciso começar esse texto dizendo que nunca fui muito fã da Beyoncé. Não sou uma pessoa que a acompanhava desde o Destiny’s Child e seguiu sua carreira solo fielmente. Conheço pouquíssimas de suas músicas, e menos ainda por nome. Por mais que sempre a admirasse como pessoa, Beyoncé simplesmente nunca me interessou enquanto música. Até Lemonade. Um álbum bem diferente do que a cantora estava acostumada a fazer, com produtores que vão de Jack White a Diplo e com influências desde Dixie Chicks até Vampire Weekend, Lemonade é uma experiência surpreendentemente coesa quando teria tudo para não ser. As diversas produções, que não deveriam funcionar juntas, são amarradas pela narrativa (que pode ou não ter acontecido) de uma mulher negra trabalhadora que foi traída pelo marido e decide perdoá-lo e continuar casada. Mas não é tão simples assim, as músicas vão de súplicas desesperadas à ameaças. O que fica de Lemonade é que sua narradora, assim como a própria Beyoncé, é uma mulher negra, forte e independente que não precisa de ninguém e é dona de sua própria história. E livre pra fazer o que ela quiser de sua vida.

OUÇA: “Hold Up”, “Formation”, “Don’t Hurt Yourself”, “Daddy Lessons”, “Freedom” e “6 Inch”.

________________________________________________

06 | TEGAN AND SARA – Love You To Death

Acho que não sou fisicamente capaz de montar um Top 10 sem Tegan and Sara em um ano em que as moças lançaram algo novo. Dessa vez é seu oitavo álbum de estúdio e segundo desde que mudaram seu som para pop comercial, as irmãs Quin seguem o que começaram em Heartthrob de uma forma extremamente competente e surpreendentemente madura. Os temas abordados aqui continuam os mesmos de sempre, relacionamentos e suas vidas pessoais, mas aqui é perceptível a forma como sua abordagem é outra. Tegan e Sara, agora mulheres adultas, escrevem e cantam sobre as dificuldades de se manter um relacionamento saudável e duradouro, e nisso está incluso admitir seus próprios erros. Com batidas pop e sintetizadores. Um álbum pop feito por e para pessoas adultas não aparece com frequência, e fazer isso depois de quase 20 anos de uma carreira consolidada com outro tipo de som não é pra todo mundo.

OUÇA: “U-Turn”, “Stop Desire”, “Boyfriend”, “100x” e “Faint Of Heart”.

________________________________________________

05 | PETITE MELLER – Lil Empire

Sem dúvida um dos lançamentos mais interessantes de 2016, Lil Empire nos apresenta um quase mundo paralelo criado pela francesa Petite Meller. Seu pop vanguardista e provocativo mistura ritmos tribais com, basicamente, qualquer outra coisa. Jazz, pop convencional, teclados, sintetizadores, guitarras. Tudo é válido e usado de forma bastante única em seu primeiro álbum. Tudo isso enterrado sob uma maquiagem propositalmente infantil e estranha, hiperssexualizada e quase desconfortável. Lil Empire é um álbum fascinante, assim como a própria Meller. Nada é muito o que parece ser, ou (pior e mais assustador ainda) é exatamente o que você está vendo e ouvindo. Mas Lil Empire, mais do que tudo, é capaz de te fazer dançar sem pretensões como poucas outras coisas esse ano.

OUÇA: “The Flute”, “Backpack”, “Barbaric”, “Baby Love” e “Milk Bath”

________________________________________________

04 | LADY GAGA – Joanne

Lady Gaga volta em seu quinto álbum de uma forma como nunca a vimos antes: como ela mesma. Joanne foi com certeza a surpresa do ano, depois do questionável primeiro single “Perfect Illusion”. Trabalhando com Beck, Josh Homme, Mark Ronson e Kevin Parker, Gaga lançou um álbum de rock. E, pela primeira vez em sua carreira, um álbum que funciona como um álbum coeso do começo ao fim, e não apenas uma compilação de singles e fillers como comumente vimos na música pop. Gaga em Joanne mistura jazz e blues com rock americano clássico de Bruce Springsteen e o sertanejo de Naiara Azevedo, criando algo que nunca esperamos ouvir vindo da cantora. Joanne é simples e sucinto, um álbum não feito com três músicas para as pistas mas sim para ser apreciado em sua totalidade.

OUÇA: “John Wayne”, “Million Reasons”, “A-YO”, “Hey Girl” e “Joanne”.

________________________________________________

03 | MAHMUNDI – Mahmundi

Finalmente chegou o primeiro álbum completo da carioca Marcela Vale e Mahmundi não decepciona em nada. Recheado de sintetizadores, praias e uma pegada oitentista, Marcela mostra um álbum que tem cara de novidade e de velho conhecido ao mesmo tempo. As músicas de seus EPs anteriores que foram regravadas funcionam muito bem e casam perfeitamente com as composições novas, é até difícil lembrar que algumas das melhores faixas já eram conhecidas desde 2012. Algo que é bem único da Mahmundi é que sua voz literalmente refresca o ouvinte e te faz dançar até em suas faixas mais lentas. O talento de Marcela já era aparente desde seu primeiro EP e sua trajetória até aqui não foi fácil – mas agora, finalmente, ela parece estar recebendo a atenção que sempre mereceu. E a partir de agora, o céu é o limite. Ou melhor, o mar.

OUÇA: “Desaguar”, “Hit”, “Eterno Verão”, “Leve”, “Azul” e “Calor Do Amor”.

________________________________________________

02 | SHURA – Nothing’s Real

De fininho, single a single desde 2014, a inglesa Alexandra Denton, também conhecida como Shura, veio e lançou um dos mais deliciosos álbuns do ano. Seu primeiro registro, Nothing’s Real, traz um synthpop leve e dançante, cheio de melodias cativantes e letras grudentas que te fazem esquecer da vida durante seus curtos minutos. Das onze faixas de seu debut, várias já eram conhecidas por seu público, mas ainda assim se destacam no álbum por ainda apresentarem um nível sônico e lírico superior à maioria do indie pop (ou pop mainstream) feito no momento, principalmente no que se trata do uso de samples. No entanto, é nítida a evolução de suas composições mais recentes em relação aos primeiros singles de 2014, o que só prova que a carreira da moça está só começando e ainda vem muita coisa boa por aí. A cereja do bolo fica com o fato de que Shura, especialmente em seus clipes, deixa claro que canta sobre mulheres e essa representatividade lésbica é maravilhosa e necessária.

OUÇA: “What’s It Gonna Be?”, “Nothing’s Real”, “Indecision”, “What Happened To Us?”, “Touch”, “Make It Up” e “White Light”.

________________________________________________

01 | MITSKI – Puberty 2

Sabe quando você ouve uma música e o mundo para? Sabe quando você é obrigado fisicamente por seu próprio corpo a parar qualquer coisa que estiver fazendo para realmente ouvir a música sem distrações? Sabe quando, depois que tal música acaba, o mundo parece estar sutilmente diferente do que era antes? Essa é a experiência de se ouvir “Your Best American Girl”, da japonesa-americana Mitski Miyawaki. Puberty 2 é o álbum mais humano e complexo lançado em 2016. Seu tema predominante é a dificuldade de viver, basicamente, indo desde decepções amorosas a entrevistas de emprego, sexo casual e morte. Mitski em apenas 32 minutos resume toda a amplitude das emoções humanas e faz isso com a mesma naturalidade com a qual nós as vivenciamos em nosso cotidiano. Sempre com uma serenidade invejável, mesmo nas músicas mais agressivas de Puberty 2, Mitski traduz sentimentos universais a todos através de metáforas bastante inteligentes e letras simplesmente sensacionais, como ‘If you would let me give you pinky promise kisses, then I wouldn’t have to scream your name atop of every roof in the city of my heart‘. Mitski dessa vez elevou tudo o que já havia apresentado em Bury Me At Makeout Creek (2014) ao seu máximo, como se testasse seus próprios limites e os ultrapassasse a cada música. Puberty 2 pode não ter alcançado gigantescos níveis de sucesso convencional, mas com certeza absoluta é o álbum que mais marcou 2016.

OUÇA: “Your Best American Girl”, “Once More To See You”, “Happy”, “Fireworks”, “A Loving Feeling”, “My Body’s Made Of Crushed Little Stars”, “Dan The Dancer” e todo o restante do álbum. Ah, e aproveite e vá ouvir Bury Me At Makeout Creek também caso ainda não tenha feito.