Melanie Martinez – K-12



Criar seu álbum em torno de um conceito não chega a ser um problema, desde que a música que o envolve cative o ouvinte mesmo fora de contexto, e até ultrapassando barreiras de linguagem. Então, se você não fizer parte de uma banda de prog moderno mega conceitual, deveria levar isso em consideração, construindo uma experiência que abrigue o consumidor casual e o hardcore, sem causar conflitos entre os lados. Equilíbrio é uma coisa ótima, sabe, alguns artistas deveriam tentar mais manter pelo menos algum.

Então quando um artista entrega um álbum que, não só recicla um conceito antigo, mas ainda piora e muito a qualidade “casual” do produto, é difícil defender. E a Melanie não é a primeira pessoa a fazer isso, o primeiro exemplo que me vem a mente é o 21st Century Breakdown do Green Day. Sucede um conceito ambicioso, que acerta em alguns pontos e erra em outros, pra repetir a fórmula de forma genérica e apática.

Só que no caso do Green Day tinha, sei lá, a dupla “Viva La Gloria”, que dava uma energia ocasional pro projeto de forma diferente o suficiente pra manter o mínimo de novidade pra puxar o ouvinte ocasionalmente. O problema de K-12 é que é tudo mais do mesmo: músicas com uma temática que remete à infância, mas com um subtexto de maldade pra causar uma ambiguidade desconfortável. Se a fórmula funcionava pelo menos decentemente no Cry Baby, isso se deve às metáforas inventivas, e ao carisma com o qual Melanie acentuava essas distorções na estética infantil, ambos acompanhados de uma produção bem digna. Já aqui, tudo perde qualquer vestígio de naturalidade que poderia ter pra virar um “kkkk olha como eu sou uma menina má” em temas completamente clichés, com melodias fracas e beats insossos.

Se no álbum anterior tínhamos músicas como “Mrs. Potato Head”, que era uma crítica ao modo compulsivo como as plásticas estéticas são incentivadas na sociedade americana, nesse álbum temos algumas tentativas , como “Strawberry Shortcake”, que se você pensar bem tem até uma mensagem ok lá no fundo, mas fica ofuscada pela mesma problemática de que, em algum momento, a Melanie PRECISA ser edgy pra te lembrar que, apesar do conceito ser sobre escola, ela é não é nem um pouco inocente. E se você já fez cara feia só de ler essa frase, fique longe desse álbum.

E o pior de tudo é que tem um filme de uma hora e meia que acompanha o álbum, pra deixar bem claro que tudo aqui é parte de uma masturbação de um tema e uma estética que não dá mais tesão pra ninguém. Reenforça o argumento do “conceito”, mas em K-12, nem isso salva.

OUÇA: “Strawberry Shortcake” e “Teacher’s Pet”

Melanie Martinez – Cry Baby

mel _______________________________________

Talvez você não recorde, mas provavelmente sabe quem é Melanie Martinez. Lembra de uma blind audition da terceira temporada do The Voice US que foi bastante compartilhada nas redes sociais, na qual uma guria de cabelo bicolor e gap-toothed fez um versão incrível do hit “Toxic” de Britney Spears tocando violão e pandeiro com os pés?! Pois é, ela mesma. Além dessa performance, Melanie apresentou versões incríveis de músicas como “Too Close” do Alex Clare, “Seven Nation Army” do The White Stripes, e até “Hit The Road Jack”, clássico de Ray Charles, todas com uma interpretação única. Me tornei fã, mas infelizmente ela foi eliminada no Top 6 do reality show. Hoje, realmente no mercado musical, Melanie vem conquistando espaço não corrompendo toda sua esquisitice e singularidade.

Com um contrato assinado pela Atlantic Records, Melanie começou a trabalhar em seu EP de estréia. Em 2014 veio ao mundo Dollhouse, que já apresentava uma diferente persona sendo desenvolvida, que mais tarde viríamos a descobrir que se chama Cry Baby, exatamente, o título de seu álbum de estréia. Publicamente fã de Marina & The Diamonds, Melanie foi sensata ao dizer que se inspirou em sua musa durante a composição de seu álbum, da mesma forma que Marina criou Electra Heart.

Mesmo assim, Cry Baby tem muito de Melanie e consegue expressar obscuridade através de melodias leves e fofas. Como ela mesma disse: “eu sou o personagem que fiz para mim mesma”, e esse personagem é apresentado na primeira faixa do álbum, auto-intitulada, na qual podemos observar como ela reage às coisas da vida e sentimentos. Em seguida aparece “Dollhouse”, brilhantíssima composição presente no EP anterior de mesmo nome, na qual ela descreve sua família ao mesmo tempo em que faz uma crítica à forma como as pessoas têm necessidade de ver famosos e artistas como “bons modelos”, enquanto essas expectativas não costumam ser reais.

Em “Sippy Cup” podemos observar um olhar mais profundo sobre “Dollhouse”, a qual é seguida por “Carousel”, faixa que colocou Melanie nos spotlights por ter sido trilha da divulgação da série American Horror Story: Freak Show. Na faixa podemos observar o primeiro interesse amoroso de Cry Baby, a qual cria uma imagem de seu amado sentado no cavalo à sua frente no carrossel, nunca conseguindo alcançá-lo.

“Alphabet Boy” é uma música de término de relacionamento – tanto de Cry Baby quanto de Melanie – e foi nomeada assim porque seu namorado freqüentava uma faculdade de música e tentava “ensiná-la” a compor como se houvessem fórmulas para uma boa composição. Isso a deixou furiosa e quis utilizar como fonte de inspiração para essa faixa. Ela brincou com a ordem do alfabeto, como se pode observar nos versos ‘Always aiming paper airplanes at me when you’re around/You build me up like building blocks just so you can bring me down/You can crush my candy cane, but you’ll never catch me cry/If you dangle that diploma and I dead you, don’t be surprised’. Brilhante.

A faixa seguinte é “Soap”, na qual Cry Baby literalmente lava sua boca com sabão por ter falado demais. O destaque da música são os curiosos barulhos de bolhas de sabão no refrão. Depois aparece “Training Wheels”, a única faixa romântica do álbum na qual sua persona se apaixona por outro garoto melhor que Alphabet Boy, que vem a se mostrar não tão melhor em “Pity Party”, quando Cry Baby o convida além de todos seus amigos para sua festa de aniversário e ninguém aparece. Nesse momento ela fica com coração partido pela segunda vez e é o breaking point na transformação da personalidade de nossa protagonista.

As faixas seguintes, “Tag You’re It” e “Milk And Cookies”, são um conto de fadas a parte, e depois disso ela se torna uma pessoa completamente abraçada pela sua loucura. Como podemos observar em “Pacify Her”, na qual ela agora se mostra insensível ao amor e acha que ele não existe. Em “Mrs. Potato Head” ela começa a ficar mais confortável em seu próprio corpo e a criar novas opiniões. A grande sacada da música é a analogia entre a imagem de um boneco Cabeça de Batata com todas suas peças que podem ser trocadas e encaixadas, com a obsessão das pessoas nos dias de hoje em deixar seus corpos perfeitos sendo que eles já são da forma que são. “Mad Hatter” conclui essa jornada com Cry Baby e Melanie aceitando quem realmente elas são: pessoas loucas. Dito pela mesma.

Nos dias de hoje são poucos os artistas que se entregam da forma como Melanie Martinez se entregou ao criar esse álbum, que não é nada além de uma releitura mais fantasiosa dela mesma. Através de uma temática infantil e canções inspiradas por sons de brinquedos, Melanie desenvolveu um contraste com suas composições obscuras e pesadas com tamanha genialidade, que você provavelmente irá se surpreender.

OUÇA: “Dollhouse”, “Sippy Cup”, “Tag You’re It” e “Mrs. Potato Head”