Meg Mac – Hope



Depois de um primeiro álbum que parecia ficar dividido entre querer ser intimista ou fácil de ouvir, Meg Mac volta em Hope conseguindo algo muito difícil de realizar que é unir duas vontades aparentemente conflitantes em uma única coisa muito bem feita. O álbum traz bastante vulnerabilidade sentimental ao mesmo tempo que é cativante e atraente para um público amplo.

Hope traz o melhor da voz de Meg com sua potência e expressividade e sentimos isso logo de cara com “Give Me My Name Back” uma canção que fala de auto-afirmação e identidade em tempos difíceis. A música é um R&B moderno em que a cantora traz desde a faceta mais suave até as grandes frases de fôlego e melismas característicos do gênero muito bem executados para passar a vibe que a música pede. “Sometrhing Tells Me” vem na sequência e não é uma faixa ruim mas parece reminiscente da parte mais fraca do primeiro álbum da cantora com pouca variação no canto, um piano super melódico cheio de sétimas e uma bateria simples, a música acaba obscurecida pelo que veio antes e o que vem depois no álbum.

A faixa-título é um movimento interessante porque, apesar da letra sobre acreditar num amanhã melhor, o instrumental não é super pra cima e aqui que a gente pode perceber a inventividade da artista ao cantar sobre esperança em momentos sombrios usando um instrumental mais downtempo que vai crescendo com uma voz que ganha força aos poucos, representando a vontade de sobreviver e persistir mesmo quando o ambiente em volta parece querer te derrubar.

“If You Wanted Me To Stay” é puro show off vocal no melhor sentido da coisa e lembra os momentos mais soul do primeiro álbum. É uma faixa feita com poucos elementos e bastante calcada em instrumentos orgânicos para fazer a voz de Meg Mac brilhar e conduzir a música inteira quase que sozinha e passar toda a carga de sentimento que a letra pede.

O restante do álbum traz diversas facetas da esperança e da força seja ao se libertar de um relacionamento que não serve mais, ao buscar o sucesso ou apenas sobreviver à escuridão do mundo. Hope fecha com “Before Trouble” que mostra a inventividade de Meg Mac ao usar a voz sempre num registro mais alto e experimenta bastante conduzindo a melodia em compassos pouco usuais numa faixa empolgante que faz com que você queira ouvir de novo.

Hope é tudo o que um álbum pop em 2019 deve ser: conciso, fácil de escutar, criativo dentro do que se propõe a fazer e sincero o suficiente para tocar a empatia do ouvinte.

OUÇA: “Give Me My Name Back”, “Hope”, “I’m Not Coming Back” e “Before Trouble”

Meg Mac – Low Blows


O primeiro álbum é sempre um momento único na vida de um artista. É a primeira oportunidade de mostrar seu trabalho de uma forma mais completa e dizer ao mundo o que e como você faz. Talvez por esse peso, o debut de Meg Mac tenha demorado tanto a sair. Anunciado em 2015 e com um time de produção que já trabalhou com nomes como Nicole Atkins, Coldplay e Vance Joy, Low Blows é algo difícil de atingir em um debut: um álbum cheio da personalidade e vontade de se colocar no mundo pela artista e polido o bastante para não parecer algo feito por uma principiante.

Um elemento que permeia o trabalho inteiro de Meg Mac é a característica soul do seu vocal. Com um alcance de notas que transita muito bem do mais grave aos tons médios-agudos do piano, do começo ao fim sentimos um domínio vocal dos mais impressionantes. Na faixa de abertura, “Grace Cold” somos expostos a um arranjo que tira muito bom proveito do range da artista, o humming da introdução e das pontes junto com o piano e a bateria são bem impactantes, uma daquelas músicas que você continua cantando por horas mesmo depois que o álbum já acabou.

“Low Blows” que dá título ao álbum é uma das faixas mais esquecíveis de todo o trabalho, com um vocal muito bem trabalhado mas o  arranjo como um todo faz a canção soar mais como um pop genérico, tirando a força de alguns bons elementos que existem ali. “Don’t Need Permission” continua na mesma pegada, a superprodução com uns toques de strings e reverb nos instrumentos acabam ofuscando uma faixa que tinha um grande potencial pra ser poderosíssima com seu lindo refrão “I don’t need permission to be myself”.

“Kindness” é um momento interessantíssimo no registro pois traz o arranjo mais diferenciado do trabalho todo com uma coisa meio bossa nova, meio soul experimental e uma quebrada bem bluesística que faz da faixa um universo em si só com muitas cadências e frases instrumentais que em toda sua diversidade valorizam sempre o trabalho vocal de Meg Mac. Seria legal ver mais experimentações nesse sentido dentro do próprio álbum ou em trabalho futuros.

“Cages” continua a pegada mais experimental do disco com elementos celtas dentro do arranjo soul da música e o clap hand combinado ao vocal do meio pro final da música são elementos simples mas que trazem muita personalidade e identificação no contexto.

Os momentos onde a artista mais brilha é quando ela é deixada pra cantar sozinha com um piano. “I Didn’t Wanna Get So Low But I Had To” é uma demonstração disso. Claro que é muito legal ver todos os arranjos no trabalho mas prestando atenção às letras, fica claro que foram escritas no silêncio do quarto com um piano ao lado e é bom ver essa verdade acentuada em alguns momentos do trabalho.

Low Blows é um debut atípico. É perfeito tecnicamente e consegue mostrar com precisão quem é Meg Mac e o que ela gosta de fazer.  No entanto, por ser tão tecnicamente apurado, parece que a superprodução faz algo que deveria ser um momento de “estou aqui abrindo meu coração pro mundo” soar como um grande concerto num estádio com backing vocals e dançarinos.

OUÇA: “Grace Cold”, “Kindness”, “Cages” e “Shiny Bright”