Mark Ronson – Late Night Feelings



Mark Ronson é conhecido por colaborar com grandes artistas como Amy Winehouse, Lady Gaga, Adele, Lily Allen, Miley Cyrus, Queens of the Stone Age e Bruno Mars. Além disso, possui cinco álbuns solo, tendo ficado bastante conecido por seu hit “Uptown Funk”, em parceria com Bruno Mars, do disco Uptown Special. Em seu quinto disco, Ronson decidiu usar somente vozes femininas e apostar num estilo mais voltado pro disco, e acertou em cheio.

Trazendo a sueca Lykke Li como convidada, a faixa-título do disco – “Late Night Feelings” – exemplifica muito bem o conceito do álbum, trazendo um arranjo com pop dançante acompanando a voz melancólia da cantora. “Find U Again” traz a cantora Camila Cabello e a produção de Kevin Parker, do Tame Impala. É válido destacar a presença da cantora YEBBA que está presente em três excelentes faixas: “Knock, Knock, Knock”; “Don’t Leave Me Lonely” e “When U Went Away”. O grande destaque do disco é a parceria com Miley Cyrus, “Nothing Breaks Like A Heart”, que combina o disco com o country característico no estilo da cantora.

Ronson trabalha muito bem a estética dos anos 70 em Late Night Feelings, mas trazendo as sonorizações com economia em músicas que servem muito bem para dançar e combinam também com momentos mais relaxados. O caminho nostálgico seguido pelo produtor encaixou muito bem com a escolha das cantoras e com o tom das composições. Late Night Feelings não traz um hit como “Uptown Funk”, mas é – como um todo – um dos melhores álbuns da carreira de Mark Ronson.

OUÇA: “Nothing Breaks Like A Heart”, “Find U Again”, “Don’t Leave Me Lonely” e “Late Night Feelings”

Mark Ronson – Uptown Special

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Pra início de conversa, eu sempre achei estranho considerar o Mark Ronson como uma entidade artistíca, dar o seu nome à um coletivo de colaborações sempre foi meio egocêntrico da parte do PRODUTOR Mark Ronson. Porque, desculpe-me, mas ele não passa nem perto de ser um artista por mais excelente que os discos que levam sua figurinha na capa possam ser. Ele é a alma crua por trás de tudo, mas peca e deixa para os outros fazer uma das partes essenciais do que ele quer mostrar: as letras criadas por ele e as batidas são carregadas pela identidade [a voz] de grandes nomes da música, ou seja, toda a carreira de Mark Ronson são sob os olhos de outros pessoas. E foi assim desde o começo e foi estranho desde o começo. Quem é a figura tímida de Mark Ronson e porque a polaridade da sua figura artística sempre mira para lados totalmente diferentes e destoantes nos seus quatro lançamentos até agora? Esfacelar o espetáculo Mark Ronson da pessoa Mark Ronson é algo fácil, mas destrinchar e, mais importante ainda, entender o espetáculo em quatro atos (até agora, que fique claro) diferentes entre si não é algo tão simples assim.

O espetáculo musical do Mark Ronson – esqueçamos que ele já produziu discos excelentes e aqui foquemos que ele se considera, sim, um artista – chega ao seu quarto ato. Para entender as terminologias: considero a carreira de Mark Ronson como um espetáculo pelo nítido fato de ele tentar produzir álbuns conceito dentro de um tema (cada um sendo um ato diferente) – Here Comes The Fuzz com seu rap exacerbado, Version com os covers de grandes hits do indie moderno, Record Collection como uma remessa de faixas que vieram dos anos 80 e, agora, Uptown Special com sua vibe Motown e soul, com foco à vozes poderosas de Bruno Mars, Stevie Wonder, Mystikal, entre outros.

A genialidade de Mark Ronson em sua carreira – mesmo que eu ainda não o considere o protagonista da causa – é nítida: ele distorce metais, assimila guitarras e cria letras grudentas e honestas que caem como uma luva, na grande maioria das vezes, para os intérpretes que ele escolhe a dedo. Mark Ronson vai atrás das combinações áureas como ninguém, caçando suas múltiplas identidades em diferentes lugares, foi assim que ele fez em todos os outros álbuns e não fica diferente em Uptown Special, mas, mesmo que seja um crime comparar que tem propósitos totalmente diferentes um do outro, é inevitável quando se fala de músicas e, infelizmente, Uptown Special chega depois do melhor disco do Ronson e não surpreende quase em nenhum momento.

A vibe soul, cheia de riqueza e sensualidade que era pra ser o carro-chefe do álbum desde o começo e toda a identidade criada parece se perder em algum momento ali – muito talvez quando ele decide chamar o Kevin Parker [Tame Impala] e o Andrew Wyatt [Miike Snow] para colaborar num álbum que tem claramente uma alma que não é a cara deles. Para citar um breve exemplo, já que estamos considerando um álbum conceito, mesmo que “Daffodils” seja uma das melhores músicas desse álbum, ela fica ali deslocada, num abismo etéreo e desnecessário para o andamento do álbum, parece uma quebra no impacto alegre que as músicas anteriores tinham criado – que emenda em uma salada musical infindável que desvia do propósito do álbum de uma maneira estupeficante. O que aconteceu com o soul, o jazz, o funk e o blues, Mark Ronson?

Mesmo que as guitarras, as baterias e os metais combinem com os synths em sua maioria, o Mark Ronson se perde muito feio em seu propósito inicial. Sabe quando você tá fazendo alguma coisa muito interessante e no procrastinar da vida se perde em miúdos desconexos e totalmente diferentes? Uptown Special soa como uma colagem mal feita de músicas que podem até soar interessantes quando vistas separadas, mas quando colocadas sob um tema universal, estão em dois pólos totalmente diferentes. Ronson tem ao mesmo tempo as melhores músicas da sua carreira e o álbum mais desconexo e desinteressante dela. Uma pena que o quebra-cabeça não tenha sido montado direito com as peças excelentes que ele tinha em mãos.

OUÇA: “Uptown Funk” e “I Can’t Lose”