Mac DeMarco – Here Comes The Cowboy


É chegada a hora de dizer a verdade. Não há mais escapatória. As aparências não mais podem enganar. Fato é que eu sou fã de Mac DeMarco. Gosto muito. Eu sei, tem gente que diz que é superestimado. Que virou meme. Que é genérico. Não me importo com essas discussões. Sou uma pessoa simples: ouço Mac Demarco e me sinto feliz e satisfeito com a vida. Quando vi pela primeira vez seu A Take Away Show no canal La Blogothèque, fiquei embasbacado. Comprei um violão só para aprender os riffs do início de “Still Beating” e sair também pelas ruas cantando, fumando, conversando, intercalando os sons da canção com o ambiente barulhento, sirenes e crianças brincando. Esse show, por si só, merecia um review. Acontece que o músico acaba de nos presentear com seu novo álbum, Here Comes The Cowboy, um disco íntimo produzido por ele próprio – e é sobre esse episódio que esse texto se debruçará. Acenda seu cigarro.

Ouvir um álbum de Mac DeMarco é como fazer terapia. Mas é ele quem está no divã, você é o terapeuta, escutando. Desde seu primeiro trabalho, o artista construiu um eu-lírico sincero, indulgente, compassivo. Lamenta-se pelos tempos que foram e não mais voltarão, pelo cansaço da vida cotidiana, pelas mulheres que amou, pelos relacionamentos que não deram certo. Tudo isso tocando uma guitarra como se fosse dormir em qualquer momento. E funciona. Em Here Comes The Cowboy, há mais do Mac Demarco de sempre. E só isso, na verdade. Eu me contento, mas se você espera ouvir algo que seja ousado, experimental e diferente do que o músico tem apresentado em sua carreira, talvez esteja decepcionado. Ainda assim, convenhamos, é sempre bom experimentar a intromissão de canções despreocupadas e odes a cigarros na dinâmica da costumeira rotina.

E quando digo que o novo álbum é apenas um pouco mais do que usualmente se espera de DeMarco, estou, de certa forma, glorificando o disco. O primeiro single, “Nobody”, é genuinamente bom, em todos os sentidos. Paradoxalmente, Mac faz alusão ao fato de que tornou-se uma criatura, um ícone da música – ainda que uma parte de si almejasse ser um artista reconhecido, a outra parte ainda sente saudades do anonimato, da pessoa comum, desconhecida. Uma posição que não há volta: ‘I’m the preacher / A done decision / Another criature / Who’s lost its vision.

Em ‘K’, DeMarco faz um tributo à sua namorada, Kiera McNally, e, olha, ela deve ter curtido bastante. Em entrevista para a revista Huck, diz: “Me and Kiera have known each other six years longer than we’ve dated. It took time for us to get here but she’s part of who I am, I’m part of who she is, and I wouldn’t want it any other way. I’m really lucky”. Em um riff melancólico, o eu-lírico evidencia a experiência de crescer em um relacionamento e junto com ele: “Still so much for me to learn / And as I do, my love stays with you”. Que bonitinho, gente.

E é de amargar o coração, mas nem tudo são flores. O álbum segue uma linha melódica bem sutil, com riffs calmos e um arranjo instrumental leve. E esse é o problema: em muitos momentos, parece que falta algo. Um clímax, um refrão, um entusiasmo. O álbum tem quarenta e seis minutos e às vezes a mudança de faixa não é perceptível para os ouvintes menos atentos. Isso sem falar da terrível “Choo Choo”. Péssima. Pulem essa e tudo certo.

No geral, Here Comes The Cowboy é um bom disco. Há faixas esquecíveis, sim, mas vale a pena. Nada como as obras primas anteriores (não que caiba a comparação), mas um deleite que tem seu merecimento, no fim das contas. Por fim, encerro com um trecho da canção ‘Little Dogs March’, talvez um prelúdio do fim desse estágio de quase sete anos escrito pelo próprio DeMarco: “hope you had your fun…all those days are over now”.

OUÇA: “Nobody”, “Little Dogs March”, “Heart To Heart” e “K”

Mac DeMarco – This Old Dog

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Mac DeMarco é o tipo de cara que você queria ter no grupo de amigos. Ele é aquele cara sensível que consegue falar o que você está sentindo em poucas e boas palavras. Em seu novo disco o cantor canadense encarou a relação conturbada com seu pai ausente em letras sinceras e arranjos pouco complexos com violão, drum machine e sintetizadores. Em todos os seus discos, fica clara a facilidade que Mac DeMarco tem em criar discos e músicas que se encaixam e traduzem sentimentos profundos de forma simples. This Old Dog foi capaz de deixar a mostra toda a essência verdadeira e sincera de Mac, que não tenta ser o que não é. Talvez esse seja um dos motivos que de uns tempos para cá suas músicas tenham ganhado grande relevância com novos públicos.

Assim como em Salad Days, o cantor usa e abusa da sua principal fonte de riqueza musical: riffs de guitarra que grudam na cabeça e ficam lá para sempre. “Sister”e “A Wolf Who Wears A Sheeps Clothes” são bons exemplos disso.

O álbum tem ótimo fluxo e sintonia ao longo de todas as faixas que contam a trajetória de pensamentos e reflexões. Por mais que o tema principal das letras seja a relação com seu pai ausente, DeMarco não segura o seu lado romântico em faixas como “Still Beating” e “For The First Time”. No seu novo disco, Mac também se joga na psicodelia na canção “Moonlight On The River”, que conta com um belíssimo final instrumental. “On The Level”, talvez a melhor canção do álbum, é uma das faixas que tem a carinha simpática de Mac DeMarco. Aqui é fácil perceber a homogeneidade dos trabalhos do cantor que ao longo desses 5 discos continua inovando sem perder o seu estilo musical que agrada tanto seus fãs.

This Old Dog mostra a visão de um jovem de vinte-e-poucos-anos que colocou pra fora pensamentos que carregava consigo durante anos. É o tipo de álbum que quem passou por alguma experiência parecida vai se identificar totalmente. O conceito do disco traduz muita coisa, sendo assim impossível ignorar a genialidade na escolha de sequência de músicas. A música final do disco, “Watching Him Fade Away”, contrasta com a primeira canção do álbum “My Old Man”. Tudo que vem no meio disso é um histórico que marcou a vida de Mac DeMarco e lhe rendeu inspiração para mais um bom trabalho de sua carreira.

OUÇA: “Still Beating”, “Moonlight On The River” e “On The Level”.

Mac DeMarco – Another One

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Diferente dos meus amigos mais descolados, que já eram fã de Mac DeMarco há mais tempo, eu nunca havia ouvido nada do rapaz. Aliás, tentando fugir do hype em torno desse músico até então desconhecido, virei o nariz algumas vezes.

Escrever então sobre seu disco novo é uma tarefa, como diria um amigo, “no mínimo complicada”. Complicada porque quando algo é uma unanimidade, é difícil ter colhão o bastante para perceber (ou escrever) que sua opinião não está de acordo com a maioria.

Quarto lançamento de inéditas da carreira do rapaz (afinal ele só é cinco anos mais velho que eu, tomei a liberdade em chamá-lo de rapaz), Another One tem pouco menos de vinte e cinco minutos e oito canções rápidas e de fácil escuta. Não é um disco que cobre muito de quem está ouvindo: você pode simplesmente dar o play e ir lavar as vasilhas ou ouvir no caminho para o supermercado, por exemplo.

A produção é um caso à parte. Melancólica, nostálgica e bastante ambígua. Logo na primeira ouvida lembrei de Daniel Johnston e nas subsequentes, coisas como a versão lo-fi de Smiths e Mark Stoermer vieram à minha cabeça. É difícil também estabelecer um gênero. Tirando o lo-fi, do que poderia chamar esse conjunto de oito músicas? A bateria e o baixo sorridentes de “I’ve Been Waiting For Her” quase contrastam com a atmosfera letárgica, psicodélica e quase onírica de “A Heart Like Hers”, que me causou a estranha sensação de incômodo, lembrando algumas sequências da primeira versão de The Texas Chain Saw Massacre. Os vocais às vezes são moldados de modo etéreo, às vezes não. Ainda já espaço para um solo de guitarra na faixa de abertura, mesmo que distorcida, “The Way I’d Love Her”. A faixa homônima do disco parece com algo, uma abertura perfeita para os vídeos educativos norte-americanos ou a trilha de um elevador futurista, que combinam tanto com a falta de pretensão criada em torno de sua figura.

Enquanto escrevo, lido com um problema específico: por maior que seja a expectativa construída em cima de uma obra (seja ela sonora, visual ou audiovisual) sempre haverá uma parcela humana intransponível ali. Um crítico pomposo ou um relés admirador sempre encontrarão esse impasse. É o famoso toca ou não toca, bate ou não bate. A gente espera que tenha alguma culpa cósmica, uma explicação plausível ou que seja só porque o ascendente é em Escorpião e a lua dele é em Áries. Por mais que eu consiga enumerar várias qualidades positivas no trabalho de Mac e possa até acordar algum dia querendo ouvir alguma faixa específica, simplesmente não bateu. Desculpa amigos descolados, desculpa toda uma legião de críticos, desculpa pessoal. Não foi dessa vez.

Another One é um disco que, mesmo assim, merece a escuta. Ainda que seja só pela curiosidade.

OUÇA: “The Way You’d Love Her”, “Another One” e “I’ve Been Waiting For You”

Mac DeMarco – Salad Days

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O canadense mais cool de todos os tempos, quiçá a pessoa mais cool da música, o gente boníssima Mac DeMarco, que já lançou um álbum o 2 e um EP, o Rock N Roll Night Club e caiu nas graças da Pitchfork pelo seu som que ele rotula como ‘Jizz Jazz’, seja lá o que isso signifique. Dentre suas influências estão grandes nomes das antigas como Steely Dan, Harry Nilsson e Beach Boys.

Conhecido por sua excentricidade e bom humor, letras divertidas e uma sonoridade diferente do que é visto na música ele lançou o seu segundo álbum de estúdio o Salad Days. Gravado em seu apartamento em NY, o divertido Mac DeMarco ainda está presente no álbum, porém suas letras são mais pessoais mostrando o cansaço da extensa turnê mundial, sua mudança do Canadá para NY, sua relação espiritual com o seu estúdio/casa, mas ainda assim mesmo tratando de assuntos relativamente mais sérios eles são sempre tratados de forma bem humorada típica de Mac.

Começando com a música que leva o nome do álbum com as clássicas melodias “praieiras” dos anos 70 já conhecidas dos fãs. A letra de “Salad Days” mostra um Mac cansado (‘Always feeling tired, smiling when required, write another year off and kindly resign’), o artista que ocupava casas de para 500 pessoas passou a fazer três quatro shows por semana em lugares para 1500 pessoas e de acordo com ele essa mudança além de significativa musicalmente para ele foi muito exaustiva que ele se sentia depressivo e queria fugir daquilo, por mais que amasse fazer os shows.

“Blue Boy” é a gostosa música que segue o álbum, com uma linha de baixo digna de músicas da Nova Brasil FM, back vocals, guitarras desafinadas e agudas e sua melodia que agrada a todos, inclusive aqueles que não são interados no mundo de Mac. As músicas que continuam o álbum possuem basicamente as mesmas caracteristicas, guitarras desafinadas, puxadas do surf music com elementos hippies, a voz e vocalizações características de Mac DeMarco tudo isso com um acompanhamento instrumental impecável.

“Let Her Go” (na minha humilde opinião) é candidata a uma das melhores e mais legais músicas de 2014, a progressão das duas guitarras são lindas e junto com a linha de baixo, a voz com efeito calmante, a letra e o riff do refrão. Todo o conjunto tão simples, mas tão bem trabalhado é o destaque do álbum. Entre outros destaques estão a romântica “Let My Baby Stay” e “Chamber Of Reflection”.

Mais para o fim do álbum a sensação de já ter escutado fica muito presente, além de as melhores músicas estarem na primeira metade de Salad Days, os mesmos efeitos, os mesmos timbres de guitarra aparecem. Se ao vivo as músicas dão um tom mais dançante, em estudio elas trazem uma paz de espirito que falta na música atual. Em meio a um universo musical onde o psicodélico universitário e o folk de starbucks dominam as playlists da galera, Mac DeMarco com Salad Days é autêntico, sua música não soa forçada por que ele como pessoa transparece essa música e mesmo não sendo inovador é um album diferente e divertido que facilmente agrada a quem escuta.

Se você quer um álbum para fugir do mainstream e entrar no mundo Pitchfork de se escutar música, Salad Days é a sua porta de entrada, inclusive pelo amor de deus assistam o “Macumentary” de Mac DeMarco que fará você um fã incondicional não só da música do cara como da figura que ele e sua banda são.

OUÇA: “Salad Days”, “Let Her Go” e “Let My Baby Stay”.