M83 – DSVII.



O M83 se especializou em contar histórias e, por isso, talvez seja uma das bandas que mais se utilizou do formato “álbum” para propor sua arte. Ouvir um disco do M83 é se entregar a um conto de fadas neon onde tudo é fantástico e nostálgico, pois nesse mundo de características epopeicas, o ponto de partida é a imaginação infantil e toda sua extensão. 9 anos após a sua obra-prima Hurry Up, We’re Dreaming pouco resta dúvida sobre o papel que a figura da criança tem para o artista. Poderíamos passar alguns bons parágrafos discutindo as incursões psicológicas da centralidade do papel da criança e seus efeitos na profundidade da obra acima mencionada, mas não é este o objetivo aqui. Basta que saibamos, como chave de análise, que a potência criativa do grupo reside na transformação do mundo cru, quiçá perverso, em um ambiente totalmente inexplorado e ingênuo. A hora da aventura pode ser sempre o agora. É o que assertivamente o M83 nos convida a fazer com seu novo projeto, DSVII.

As pistas do que se espera do álbum começam pela sua capa: um cavaleiro montado em um réptil depara-se com uma escada rumo ao topo de uma pirâmide. Junto a ele, parece aconselhá-lo uma outra criatura mítica. O entorno parece ser um outro planeta tingido de tons foscos de roxo, verde e azul.

A travessia começa, pois, com a epopeica “Hell Riders”, canção de quase 7 minutos de duração dá as primeiras notas e tons da narrativa. DSVII afasta-se notavelmente do maximalismo proposto no álbum de 2011, ou mesmo daquele presente em Junk (2016). Nesta faixa, há coros angelicais (muito presentes em vários outros momentos do disco) e melodias medievalistas muito bem executadas nos sintetizadores que dialogam claramente com as trilhas dos jogos de videogame. O álbum flui perfeitamente a partir daí, as composições e as variedades de som aplicadas enriquecem e conferem uma atmosfera completamente cativante, como é o caso das ótimas e emocionantes “A Bit Of Sweetness”, “Meet The Friends” e “Jeux d’enfants” (novamente, o léxico infanto-juvenil sendo apresentado). São músicas extremamente sensíveis que trabalham em baixos decibéis, mas que funcionam como fôrmas para a imaginação do ouvinte. Um presente para a nossa necessidade de se recolher, refletir e se reinventar.

Passados os 50% da audição do disco, nada resta de dúvida sobre o ótimo trabalho entregue pelo M83. “Lunar Son” é a grande joia da segunda parte do LP, ao passo que traz lindos solos de flautas ritmados por pianos.  Ao final, o álbum revela onde o nosso simpático personagem vai parar: o templo da tristeza. A faixa ata as duas pontas do disco com um desenvolvimento primoroso, valendo-se de todos os elementos explorados nas outras 14 faixas do disco. O final desta faixa não tem nada de tristeza, a parte do fato de que a aventura teve seu fim. A travessia do jovem herói foi completa e muitos passos acima do começo, mas, como em um movimento espiralado, seu fim está na mesma linha do começo.  É hora de voltar a realidade, até que a próxima audição comece e a criança dentro de cada um de nós possa brincar novamente.

OUÇA: “Hell Riders”, “Meet The Friends” e “Lunar Son”

M83 – Junk

M83

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Se você acha que não conhece o som do M83, pense de novo. Com certeza já ouviu o hit “Midnight City” em algum comercial, balada ou até mesmo em trilha sonora de filmes. Durante 5 anos essa música marcou a banda e agora com o lançamento do novo álbum de estúdio, Junk, o M83 voltou pra mostrar que não pretende ser conhecido só por uma música. Mas será?

Junk apresenta muito mais qualidade musical do que os seus antecessores, e pode parecer até uma compilação legítima de músicas dos anos 80. Compilação porque Anthony Gonzalez disse em uma entrevista do lançamento do álbum que criou uma ‘bagunça organizada’, e que as músicas não foram feitas para seguir uma mesma linha, formando mais uma coleção de músicas do que um álbum. Além de um mix de sintetizadores, saxofones e guitarras, Junk é cheio de participações especiais como a cantora norueguesa Susanne Sundfør e a francesa Mai Lan; também traz colaboração do americano Beck e o guitarrista Steve Vai.

Apesar do ritmo animado dos anos 80, o álbum conta com algumas faixas lentas que funcionam como ‘áreas de respiro’, por exemplo a balada “For The Kids” (feat com Susanne Sundfør) e a inacabável “Solitude” (faixa mais longa do álbum). Entretanto, a ideia de respiro utilizada por Gonzalez teve o efeito contrário. Quase ‘matando’ a atmosfera dançante e festiva que se encontrava nas 5 faixas anteriores, essas faixas lentas atrapalham a fluidez do álbum e deixam a experiência maçante, fazendo que quem escute implore para apertar o botão de pular a música.

Tirando os arranjos e as letras (algumas delas em francês), Junk é bem mediano e não mostra nada de tamanha grandeza e que possa se equiparar a “Midnight City”. As músicas são boas? São, mas funcionam bem melhor sozinhas. Gonzalez criou muita desarmonia entre as faixas e escutar o álbum inteiro é o equivalente a ter diversas alterações no humor em questão de minutos.

No final a impressão que fica é de que ainda conheceremos o M83 como ‘aquela banda do comercial/desfile/filme’, e que a ‘bagunça organizada’ ficou bagunçada demais, quase fazendo jus ao título do álbum*.

*Junk em tradução livre é alguma coisa de pouco ou nenhum valor, ou até mesmo lixo.

OUÇA: “Bibi The Dog”, “Road Blaster” e “Go!”.