2018: Best Albums (Editor’s Choice – André)

10 | PALE WAVES – My Mind Makes Noises

O hype mais certeiro de 2018, My Mind Makes Noises é um electropop divertidíssimo e muito bem construído. Do hit “Television Romance” à introspectiva “Karl (I Wonder What It’s Like To Die)”, o Pale Waves navega por caminhos já trilhados antes por bandas como Chvrches e The 1975, e não há nada de errado nisso. O que o quarteto pode faltar em termos de originalidade eles certamente compensam com a qualidade de suas produções. My Mind Makes Noises é em sua maioria leve e divertido, pra se ouvir no dia a dia enquanto passamos pelas tribulações cotidianas, sem grandes pretensões ou experimentações. Talvez seja exatamente isso que o tornou um disco tão memorável nesse ano que chega ao fim.

OUÇA:  “Television Romance”, “There’s A Honey” e “Drive”


09 | CHVRCHES – Love Is Dead

O terceiro disco do Chvrches nos mostra uma banda muito mais pop e acessível do que qualquer outra coisa que já lançaram antes. Os sintetizadores densos de The Bones Of What You Believe que haviam sido suspensos na maior parte de Every Open Eye fazem aqui seu moderado retorno, mas ainda assim o clima aqui (apesar de seu título) não é muito pesado. Love Is Dead marca a primeira vez na qual o grupo trabalhou com produtores externos, talvez por isso a grande mudança na vibe em relação aos outros dois discos. Isso, nesse caso, está longe de ser algo ruim. “My Enemy”, parceria que conta com vocais de ninguém menos do que Matt Berninger, é um show à parte. O Chvrches tem trilhado uma carreira consistente e interessante nesses anos desde que apareceu, e a coisa aqui não é diferente.

OUÇA: “Deliverance”, “My Enemy” e “Graves”


08 | HARU NEMURI – 春と修羅 「Haru To Shura」

Haru To Shura é um álbum difícil de ser classificado, estranho e extremamente interessante. A japonesa Haru Nemuri caminha livremente entre o dream pop, rap e o noise rock e desafia os gêneros o tempo todo. Lembra daquela coisa que foi o Art Angels da Grimes? Pense isso, mas cantado em japonês e com mais guitarras e é possível chegar perto do que é Haru To Shura. Trata-se do primeiro álbum da moça, seguindo o EP Atom Heart Mother do ano passado, e serve pra firmar Nemuri como um dos mais interessantes nomes da música atual. A moça, que também faz parte do maravilhoso lineup do Primavera Sound 2019, já lançou dois novos singles (“I Wanna” e “Kick In The World”) que mostram que ela não está parando por aqui. Certeza de que muita coisa boa ainda virá de Haru Nemuri, e espero que reconhecimento internacional também faça parte do pacote.

OUÇA: “Sekai Wo Torikae Shite Okure”, “Narashite”, “Underground” e “Yumi Wo Miyou”


07 | DREAM WIFE – Dream Wife

As moças do Dream Wife nos presentearam com um indie punk dosado com a quantidade perfeita de acessibilidade pop e nítidas influências de bandas como Savages, The Libertines, Be Your Own Pet e Bikini Kill. O resultado? Um dos melhores e mais competentes debuts de 2018. Divertidíssimo, cheio de riffs interessantes, letras feministas e universais, e uma urgência, um fogo que não aparece com frequência. O som apresentado por Dream Wife pode não ser nem um pouco original, no final das contas, mas isso não importa nem um pouco quando trata-se de um rock tão bem feito quanto o que elas fizeram. Afinal, a tríade guitarra-baixo-bateria e nada mais funciona desde os ’70 por um motivo. E continua funcionando hoje.

OUÇA: “Fire”, “Hey Heartbreaker”, “Kids” e “Act My Age”


06 | DEATH CAB FOR CUTIE – Thank You For Today

Thank You For Today acabou se revelando uma das maiores surpresas do ano. Mesmo Death Cab for Cutie sendo uma de minhas bandas preferidas há muitos anos, eu admito que seus últimos álbuns pecaram um pouco – desde o Narrow Stairs em 2008 eu não incluía um de seus discos em meu top 10 do ano. Mas Thank You For Today, seu nono álbum de estúdio, superou todas as expectativas. Seu som aqui está muito mais parecido com sua fase ‘anos 2000’ do que com seus últimos trabalhos, e é o seu primeiro desde que o guitarrista e produtor Chris Walla saiu da banda em 2014 (e mesmo assim produzir Kintsugi, lançado em 2015). Thank You For Today soa quase como um presente para os fãs de longa data da banda, um álbum que resgata aquele sentimento que fez você se apaixonar por indie rock em 2005.

OUÇA: “Summer Years”, “Gold Rush” e “Northern Lights”


05 | SCREAMING FEMALES – All At Once

O Sreaming Females, depois de 15 anos de carreira e chegando agora em seu sétimo álbum de estúdio, já se consolidou como uma daquelas bandas das quais você já sabe o que esperar. E All At Once segue exatamente nesse momento. A maior surpresa de  All At Once é a direção quase pop-punk que a banda decidiu tomar; mas, talvez, mais surpreendente ainda seja o fato de que isso não alterou em nada a sua identidade construída nos trabalhos anteriores. Uma das maiores novidades que o Screaming Females nos trouxe em seu novo disco de estúdio é, na verdade, a sua simplicidade;  a banda nos traz os mesmos elementos de punk e metal que sempre fizeram com perfeição, mas dessa vez os misturam com uma produção acessível e fazem de All At Once um dos melhores discos lançados esse ano.

OUÇA: “Agnes Martin”, “Black Moon”, “My Body” e “I’ll Make You Sorry”


04 | LUCY DACUS – Historian

Lucy Dacus, desde o seu debut No Burden, já estava se firmando como uma das maiores compositoras do so-called indie rock atual. A moça, que tem apenas 23 anos, já nos mostra uma maturidade e complexidade invejáveis em seu segundo disco, Historian. “Night Shift”, que abre o disco, já é sozinha uma aglutinação de todos os elogios feitos à moça durante esse ano de 2018 como um todo: uma música extremamente pessoal e que traz Lucy Dacus como uma das melhores e mais interessantes vozes do ano. A moça, além de seu segundo álbum de estúdio, também lançou nesse ano o mini-álbum/EP boygenius composto, gravado e cantado ao lado de Phoebe Bridgers e Julien Baker, que apenas ilustra e consolida Lucy como uma das melhores compositoras de sua geração.

OUÇA: “Night Shift”, “Yours & Mine”, “Addictions” e “Pillar Of Truth”


03 | MITSKI – Be The Cowboy

Be The Cowboy, quinto álbum da maravilhosa Mitski, tinha um trabalho bastante complicado: seguir a obra prima que foi Puberty 2 em 2016. E ela não apenas consegue entregar um disco tão bom quanto o anterior, como lança um dos melhores álbuns de 2018. Be The Cowboy aposta em uma produção diferente do que foi Puberty 2, evitando as guitarras distorcidas e nos trás algo mais limpo e polido, levemente mais eletrônico e tão emocional quanto. ‘I’m a geyser, feel it bubbling from below‘, Mitski canta em “Geyser”, música com a qual abre o álbum. E a partir daí, ela voa. Em Be The Cowboy, Mitski Miyawaki prova mais uma vez que é uma das melhores compositoras de sua geração. Be The Cowboy seguiu um álbum perfeito se igualando a ele e talvez até o superando.

OUÇA: “A Pearl”, “Nobody”, “Washing Machine Heart”, “Geyser”, “Remember My Name”, “Pink In The Night” e “Why Didn’t You Stop Me?”


02 | SNAIL MAIL – Lush

Desde seu EP Habit em 2016 (e sua maravilhosa faixa “Thinning”), Lindsey Jordan e seu Snail Mail já estavam causando barulho na cena indie. Isso com, na época, apenas 16 anos. A moça, inclusive, foi descrita pela Pitchfork como ‘a adolescente mais inteligente do indie rock’ no ano passado. E agora, com Lush, seu primeiro álbum completo, ela ultrapassa todas e quaisquer expectativas. Com um som lindamente influenciado por nomes como Cat Power, Liz Phair, Pavement, Fiona Apple e Sonic Youth (como ela e a própria banda admitem), Lush traz uma Lindsey confiante e muito mais experiente do que aquela que lançou o ótimo Habit – e pouquíssimo tempo se passou. Com Lush, Lindsey rapidamente se coloca no mesmo patamar que nomes como Lucy Dacus e Julien Baker como uma das mais honestas e interessantes vozes do indie rock atual. Se em tão pouco tempo a moça já cresceu tanto e lançou um dos melhores discos do ano, tudo isso antes dos 20, sua carreira promete ser extraordinária. E eu pessoalmente fico no aguardo.

OUÇA: “Pristine”, “Let’s Find An Out”, “Heat Wave”, “Full Control” e “Speaking Terms”


01 | E A TERRA NUNCA ME PARECEU TÃO DISTANTE – Fundação

Desde 2012 com Allelujah! Don’t Bend! Ascend! do Godspeed You! Black Emperor um álbum instrumental não acabava o ano no topo da minha lista de melhores, se me recordo bem. E agora, em 2018, isso acontece de novo com o primeiro álbum completo dos paulistanos E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante, Fundação. E não tinha como ser diferente. Fundação é um álbum que não aparece com frequência, é um álbum impecável, extremamente complexo e emocional que aglutina tudo o que a banda já havia apresentado antes em seus EPs e singles desde 2014. Fundação é um álbum que, como todo bom post-rock, dispensa palavras e apresentações. A banda já havia se provado como uma das melhores e mais intensas do gênero (não apenas pensando em nacionais, mas como um todo) e agora aqui veio a última gota que faltava para sua consolidação. Isso tudo sem falar em seus shows ao vivo… Sendo ou não fã de post-rock eu recomendo a todos assistirem ao E A Terra ao vivo se tiverem a oportunidade. É uma catarse brutal como pouquíssimas outras experiências na vida.

OUÇA: “Karoshi”, “Daiane”, “Como Aquilo Que Não Se Repete”, “Se A Resposta Gera Dúvida, Então Não É A Solução” e “Quando O Vento Cresce E Parece Que Chove Mais”

Lucy Dacus – Historian


Existem muitas ideias sobre o que é a História. Normalmente o que aprendemos na escola é aquela versão mais tradicional, focada em grandes eventos políticos e militares, uma história comandada e protagonizada por homens “importantes”, e já podemos considerar uma relativa sorte que hoje em dia não seja mais tão comum que o ensino dessa matéria esteja centrado em decorar as datas desses combates ou de quando morreram esses homens. Dentre as ideias do que é história que se opõem a essa, no entanto, está aquela que foca na vida das pessoas comuns, em pequenos acontecimentos que podem ser considerados banais, ou mesmo em como essas grandes mudanças macropolíticas influenciaram as vidas de quem tinha que aprender a conviver com elas. É esse o tipo de história que preocupa Lucy Dacus nesse seu segundo álbum.

Ou melhor, mais do que se preocupar com o que é história e com essas questões abstratas, a cantora e compositora prefere antes assumir o papel de historiadora. Ao contrário de muitas das canções que contam histórias, portanto, Lucy Dacus parece estar nos levando a ouvir sua música não como literatura no seu estilo dylanesco, mas sim como história, como uma narração da realidade, ainda que focada sempre nesse nível da microhistória. No caminho do seu debute para o segundo álbum, Dacus parece ter passado a considerar que o aspecto mais importante de sua arte são as letras, e mesmo quando elas não contam uma história no sentido tradicional, com começo, meio e fim, é perceptível que os mecanismos estão ali, os personagens, em geral em primeira ou segunda pessoa, sentem, vivem, fazem coisas, como num conto, ou como na vida real.

O que não quer dizer que a melodia seja completamente abandonada. É verdade que não vemos aqui nada de muito novo ou revolucionário, Lucy Dacus está naquele longo espectro de uma sonoridade particular que vai de Angel Olsen a Torres, embora mais simples do que ambas. Não há uma mudança muito grande daquilo que havia sido apresentado por ela inicialmente em No Burden, e os crescendo de guitarra continuam a povoar, sendo presentes em quase todas as faixas, o que, no entanto, não faz com que seus resultados sejam menos agradáveis para quem curte esse estilo musical, essas distorções, essa mistura entre o peso e o etéreo.

Ainda que, em seu som, as faixas criem um conjunto bastante homogêneo, o álbum não fica chato em nenhum momento, e os 47 minutos de audição passam rápido, e se encaixam tão bem como música de fundo para alguma leitura quanto para quando você colocar os fones, aumentar o volume, e fechar os olhos em um momento catártico, embora dificilmente seriam recomendáveis para a pista de dança, apesar de alguns momentos positivos e animados.

O objetivo de escutar Historian, no entanto, é passar todas as camadas sonoras e focar nas palavras de Dacus, em como ela constrói seu universo. Em alguns momentos isso é particularmente fácil, e essas faixas acabam por se tornar as melhores do álbum, mas é uma pena que não aconteça com todas. Se essa escolha pelo foco nas letras foi algo tão consciente, não existiria a necessidade de deixa-las escondidas sob camadas de guitarras em momento algum. Mas manter a qualidade do debute já é uma virtude num segundo álbum, e com dois discos como os que Lucy Dacus fez até agora, qualquer pessoa que goste da combinação de guitarras e letras estaria perdendo se não acompanhasse o desenvolvimento dessa carreira.

OUÇA: “Night Shift”, “Pillar Of Truth” e “Nonbeliever”

Lucy Dacus – No Burden

lucydac

_______________________________________

Existe uma onda maravilhosa de mulheres pegando em guitarras e lançando lindos discos nos últimos anos. Um dos mais recentes casos é o da Lucy Dacus, que acaba de lançar No Burden, seu primeiro disco.

A moça, canadense de Vancouver, abre o disco com sua melhor música, “I Don’t Wanna Be Funny Anymore”. A canção fala sobre problemas de se encaixar em um dos grupos estabelecidos pelos amigos jovens e de não se sentir bem sendo quem se é. É como um grito de alguém que clama por mudar rápido, que os anos passem rápido, que todo amanhã seja hoje. Ironicamente, a música soa como uma pequena piada, como alguém vestido de palhaço enquanto fala, com muita seriedade, sobre a bolsa de valores.

No decorrer de No Burden, Lucy cresce com riffs potentes, um pouco inspirados nos bons tempos do Weezer, e uma voz que não é doce, mas não marca por sua força, mas sim por pequenas oscilações no timbre.

A cantora constrói suas músicas como pequenos hinos, sempre com uma semelhança estrutural, o que acaba resultando em um grande disco de puro indie-rock. Sem apelar pra baterias eletrônicas para conquistar os jovens, sem ser meloso e chato, sem virar o Strokes e achar que está fazendo mais do que realmente se está fazendo pela música. Um disco com honestidade pavementiana e indie-rockzinho pós-tumblr que encanta por sua simplicidade.

Lucy Dacus se propõe a criar um disco recheado de músicas que poderiam embalar os primeiros anos de rock de centenas de adolescentes por aí. Vale a pena ouvir o debut da menina.

OUÇA: “I Don’t Wanna Be Funny Anymore”, “Troublemaker Doppelganger”, “Map On A Wall”