Lower Dens — The Competition

Quatro anos após Escape From Evil (2015), Lower Dens ressurge com um novo álbum intitulado The Competition, e, dessa vez, o duo de Baltimore parece que conseguiu chegar a um resultado coeso e encorpado. Baseado em temas como capitalismo, relacionamentos, e sentimentos como a raiva, por exemplo, a dupla não-binária (ou trans, como afirmou Jana Hunter — sobre si — no Tumblr em 2015) chegou com um trabalho instrumentalmente mais pesado que seus antecessores.

Em “Young Republicans”, Jana canta: “In every generation / There are those who just don’t fit in” e é assim que The Competition soa: como uma aceitação completa daqueles que não se encaixam nos padrões cristalizados da sociedade. Seja pelas letras, ou pelo uso provocador de sintetizadores, ou até mesmo pela uma oitava abaixo na voz de Hunter (devido ao processo de hormonização). Sendo assim, faixa citada é um extrato do que é o novo trabalho. 

Dito isto, nos 44 minutos de duração do disco há espaço para canções como “Buster Keaton”, uma balada anos 1980, com sintetizadores estelares que fala sobre um romance que surgiu numa tentativa de costurar os lábios, e, claro, não deu muito certo (imagino que nem os lábios nem o relacionamento rs); faixas como “I Drive”, repleta do começo ao fim com super saws e dançante, mesmo que de temática triste; e “In Your House”, uma surpresa simples entre as outras faixas mais recheadas de efeitos sonoros.

Os pontos negativos ficam por conta da tentativa excessiva de se fazer algo no estilo. O som dos anos 1980 é, hoje em dia, inegavelmente um hype e um modelo a ser seguido por muitos. Com isso, The Competition pode se perder diante de tantos e tantos CDs do gênero. No entanto admiro Jana Hunter e Nate Nelson por mostrarem ao mundo exatamente como são e a continuarem exercendo a difícil, mas não impossível, tarefa que é ser no mundo.

OUÇA: “Galapagos”, “Young Republicans”, “Real Thing” e “In Your House”

Lower Dens – Escape From Evil

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A música pode funcionar, de forma geral, de dois jeitos: ela pode criar um universo, um ambiente próprio, que você entra, explora, e tudo é novo, alienígena mesmo, caso de bandas como Animal Collective. Mas também ela pode potencializar o mundo à sua volta, sendo a trilha sonora perfeita pro que está acontecendo.

Lower Dens, não em sua discografia, mas nesse terceiro álbum apenas, oferece a trilha sonora perfeita pra uma noite na metrópole. A música se funde com o ambiente, potencializando-o, tornando-o mais intenso, cinematográfico mesmo. Nem mesmo é necessário aumentar muito o volume, o som dos carros passando se mistura de forma quase homogênea com o som da música.

É um caminho que percebo ser diferente dos dois primeiros álbuns do grupo, que tinham mais essa tentativa de criar um universo dentro das músicas mesmo, com um dream pop vindo direto do Beach House. As músicas eram sonhos. Aqui, nesse terceiro trabalho, já é algo mais consciente do que subconsciente, mais concreto do que abstrato, mais cinematográfico do que musical.

Mas é melhor do que os outros dois álbuns? Ou é bom, em absoluto? Pra primeira das perguntas, digo que é uma boa adição pra uma discografia já sólida, sendo nem pior nem melhor, ou nada do que posso dizer hoje, aqui, agora. Pra segunda, ficou aí já meio respondido também: um álbum sólido, mas que não tem nada realmente marcante.

OUÇA: “Company”, “Electric Current” e “Non Grata”