Kim Gordon – No Home Record



Quais fatores definem nossa identidade? Como as coisas que fazemos ou as pessoas que temos ao redor de nós influi em quem somos? E se essas coisas estão atreladas a nós por anos, décadas, quais as marcas que deixam quando ficam para trás?

É quase inevitável pensar em questões assim quando escutamos o primeiro álbum solo de Kim Gordon. Pois não tem como a artista não ter ficado marcada por suas décadas de trabalho à frente do Sonic Youth, uma das bandas que ajudou a definir o rock alternativo desde os anos 80. O que, no entanto, não quer dizer que Gordon tenha ficado parada desde 2011. De lá para cá foram nada menos do que 3 discos lançados com projetos como Body/Head e Glitterbust, além de vários EPs, aparições na TV e no cinema e até um livro de memórias. Mas, mesmo antes do fim do Sonic Youth, Gordon já se envolvia em uma série de projetos paralelos, como a banda Free Kitten.

Talvez faça mais sentido pensar em No Home Record como uma continuação desse trabalho multifacetado de Gordon do que em buscar nele ecos do Sonic Youth. Não que não existam paralelos. Em alguns aspectos, o debute de Gordon lembra os álbuns que o Sonic Youth fez em sua era de ouro, no fim dos anos 80 e começo dos 90. Os sons angulares, com uma forte pegada industrial, os vocais distantes e cool. Mas mesmo esses fatores já haviam voltado à tona nos projetos mais recentes da musicista. No Home Record pode não ser, nem de longe, o álbum mais experimental de Gordon nos últimos anos, mas compartilha do mesmo impulso desses. Da vontade de fazer coisas diferentes, de testar suas possibilidades. De todas essas coisas que a arte experimental prima por fazer.

Talvez por isso seja um disco tão variado. Vamos desde um punk relativamente simples com “Hungry Baby” até, de forma mais surpreendente, experimentações melódicas que parecem sair da mesma estrutura do trap, como na faixa “Paprika Pony”. Vindo de uma artista tão completa como Gordon, nada deveria nos surpreender. E, de fato, quando analisamos friamente, não surpreende mesmo. Pois, ainda que variado e rico, No Home Record cai em algo que volta a aproximá-lo de alguns álbuns do Sonic Youth: é um trabalho extremamente intelectual. Suas faixas são criadas em torno de estruturas bem definidas, e, a partir disso, são bem estruturadas. Colocar juntas todas essas partes exige um esforço mental, além de grande conhecimento sobre diferentes estilos musicais e sobre o que é cool. Essas são qualidades que ninguém pode negar que Kim Gordon tenha e das quais se utiliza muito bem.

O que isso significa, no entanto, é que não estamos diante de uma obra musical leve, para ouvirmos no modo aleatório. O álbum exige certa dedicação. Quase como ler um manifesto. Pois, de certa forma, é isso que é. No Home Record é uma espécie de declaração daquilo que podemos esperar da música de Gordon daqui para a frente. Não por acaso a música que fecha o disco é chamada “Get Yr Life Back”. E, julgando por aquilo que Kim reunião nessa coleção sonora, ficamos sabendo que ela não vai ignorar sua história com a banda que a tornou famosa, mas que sua identidade certamente não se resume a sua história.

OUÇA: Air BnB”, “Hungry Baby” e “Get Yr Life Back”