James Blake – Assume Form


Assume Form surge como o quarto álbum de estúdio do cantor e produtor inglês. Em seu último trabalho, Blake permeia o ambiente com seriedade e sentimento, transformando aquilo que é etéreo em som. Por meio do álbum, o cantor externa temas como o próprio ego, amor, luz e insegurança, utilizando as participações de Travis Scott, André 3000, ROSALÍA, Moses Sumney e Metro Boomin para a materialização temática do projeto.

Logo de cara, Blake mostra-se aberto, dialogando diretamente com o público, em uma espécie de divã. Há conversas francas sobre amor, confiança e entrega – e, claro, expectativa, como  em ‘I hope this is the first day, that I connect motion to feeling‘, trecho da faixa homônima. Existe aí anseio em expressar tudo de novo que permeia as sensações, sejam elas físicas ou imateriais.

O álbum possui cerca de 48 minutos de execução, divididos em 12 faixas. Assume Form é tudo aquilo que poderíamos esperar de Blake, com algo a mais. Ainda mais confessionalidade e passionalidade. As batidas transitam entre o que é quase imaterial, portanto, imperceptível, e sua voz captando a atenção do ouvinte para o que deve ser escutado. Blake dialoga graças ao seu magnetismo e identificação, afinal, quem nunca experimentou as sensações do amor?

“Into The Red”, quarta faixa do álbum, é uma grata surpresa, tanto em termos musicais quanto em sua narrativa. Em  sua entrevista para o iTunes, Blake revelou que a música foi feita para uma mulher que gastou tudo o que tinha para lhe dar algo. A ideia, para Blake, quebrou o pressuposto que atribui ao homem a questão financeira, atraindo-o para a ideia de igualdade. Enquanto o cantor narra sua história com a companheira, a melodia, com batidas leves e alegres, o acompanha como se dançasse com suas palavras. “Barefoot In The Park” possui participação da cantora espanhola de  eletro-flamenco ROSALÍA e, apesar dos belos vocais, não oferece nada de novo musicalmente, apresentando uma batida sem componentes singulares e totalmente esquecível.

Outra surpresa, um dos pontos altos do álbum, é a faixa “Where’s The Catch?, com participação de André 3000, rapper e integrante do aclamado duo OutKast, a música trabalha com jogo de palavras cantados por cima de uma batida obscura, onde as rimas de 3000 contrastam diretamente com a voz de Blake, criando uma dinâmica única e magnética, em um fluxo intenso e combinado de sons e rimas. “Lullaby For My Insomniac”, responsável por encerrar o álbum, é a síntese da doçura e expressa promessas genuínas a quem se ama.

O disco, moldado no etéreo e no diálogo, oferece ao ouvinte uma nova perspectiva de Blake, sintetizando sua entrega ao amor e, de certo modo, seu enclausuramento em uma bolha sentimental. Musicalmente, o cantor não oferece algo tão fora do esperado e, na verdade, isso não é ruim. O álbum funciona desta forma e apresenta um bom trabalho, relaxado e tranquilo. Novos ares, talvez?

OUÇA: “Assume Form”, “Where’s The Catch?”, “Into The Red” e “Power On”

James Blake – Overgrown

2013james

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James, 24 anos, natural de Londres. Formado em Música Popular na Goldsmiths University, a mesma de Lucian Freud: vide Freud (e Kate Moss); e o diretor Steve McQueen, do relativamente aclamado longa-metragem Shame. Ativo desde 2009, quando, em seu quarto, iniciou carreira ao lançar o nenhum pouco aclamado debut single entitulado “Air & Lack Thereof”. Surgiu como queridinho da infame Pitchfork em fins de 2010, 2011, com o lançamento de pérolas contemporâneas, respectivamente, Klavierwerke (sim, à la J.S. Bach) e Enough Thunder. Discos (EPs) brilhantes, naturais de Londres, músicas dum intelectual de quarto, claustrofóbico. Era anunciado, portanto, um dos pontos altos da arte da segunda década. O álbum pela A&M e formal estréia viria entitulado homônimamente e com a exata mesma arte gráfica dos trabalhos anteriores: um borrado gélido, quase anônimo, frígido e travestido de inovante. Obra repetidamente aclamada, de repercussão e notoriedade aprazíveis. Agora, em 2013, portanto, figurava-se o desafio do segundo álbum: mítico desfalecimento e fraqueza de postura no ir mais longe ou retroceder na mesmice (vide Coexist, The xx).

James Blake é um daqueles que mexem com arte. E como boa arte, talvez não progressiva mas sim evolucionista. Overgrown demonstra um crescimento desmanchado, engenhoso, um disparo no desconhecido ego londrino. Seu debut (o da A&M, homônimo, 2011) é concreto, isto é fato; ficou aí para a história, para a arte musical industrial levemente vanguardista. Agora, Overgrown é problemático; jornada esquisita, ensaio patológico duma estética só: nenhuma. Inicia-se pela capa, ao mostrar o rosto, inédito até o próprio, algo é dito, talvez sobre um artista crescendo como individual, de aspectos únicos e possibilidades exclusivas; talvez um desmascaramento do declarado anteriormente (casto borrado ser). O identificar-se explica soberba, mas este musicista não se faz do tipo a chamar atenção para si; claramente noticiado em Overgrown, faixa título e faixa abertura, ‘Eu não quero ser uma estrela/Mas uma pedra na costa’ (‘I don’t wanna be a star/But a stone on the shore’), confessando talvez a intenção de durar mais que o restante dos seus semelhantes alguma vez no topo musical mundial. James cuida durante a obra para não tornar-se paródia de si próprio, dado a temas sentimentais, procura extremos com palpável ansiedade ao abordar e discutir monologamente seu narcisismo dócil.

Perpetuando a pose duma sonoridade noturna, Blake constrói em Overgrown melancolia cibernética. Face e corpo da música nova da década, um disco de delicadeza estremecedora enquanto igualmente espesso. Noções apreciáveis do álbum se encontram neste mesmo sentimento de firmeza e bom gosto num reducionismo positivo, em função à percussão mais audível em comparação ao debut de 2011, as faixas são mais dinâmicas e trabalham com durações padrão. Por falar em percussão, o ritmo desta obra conta com andamentos decepados em prol duma sinestesia brilhante, ponto favorável; e a manutenção de outra artimanha famosa de James, instrumentação irreconhecível, alguns pianos com acento médio e perda de agudos (bem ao estilo de equalização da música pop) e diversos granulados sintéticos, inomináveis e jorrando incansavelmente dum mesmo antro, a voz de James. Um adendo, podendo vir a parecer exagero: Blake é um dos que restam ao saber utilizar bem um piano neste cenário, o pop. Timbres curiosíssimos, que descartam a massante necessidade de cordas; existem grãos harmônicos retidos por toda a obra, trilha sonora de artista de Tumblr (australiana gentle-insomnia, por exemplo).

Brian Eno produziu o disco, seja lá o que for que isso signifique. Um Brian Eno desregramentado. Um daqueles gênios, daqueles que tanto se tem a dizer e que tão pouco no fim haverá sido dito. Sua colaboração no álbum, ou eno-xificação, não é clara, no entanto. Fascinante ideia, de qualquer maneira, esta de haver Blake, produtor jovem e de apelo fresco e Eno, mestre da sintetização ambiental e transformação sonoplástica de diversos artistas em estágio de auge profissional. É importante, nada obstante, que se note a necessidade de se fugir do produto descartável, música essa que soa e em breve desaparece por inconsistência elaboral; não que isso seja presente no álbum em questão, mas, nunca se está distante de conceder à massa música fácil, módica.

A melhor faixa do disco é sem sombra de dúvida “Every Day I Ran”, bônus da edição do iTunes (dê um jeito de conseguí-la), experimental e de potencialização exuberante do que possivelmente venha a ser os próximos trabalhos de peso de James Blake. O disco peca em aleatoriedades, detalhes mesquinhos e talvez a variância sonora trabalhada: diversidade aplicada é sempre um risco. Aquém de tudo, James Blake permanece valioso, leão digital (como diria “Digital Lion”, sétima faixa), perfeito utilizador da voz como instrumento protagonista e de granulados sintéticos; notório artista moderno e flexível, inovante.

OUÇA: “Overgrown”, “Take A Fall For Me” e “To The Last”