HOMESHAKE – Helium


Do início da década pra cá, tem muito artista por aí usando e abusando da estética do chamado Bedroom Pop: uma sonoridade lo-fi, com vocais e instrumentos afogados em distorção de má qualidade que pode ser proposital ou só falta de grana pra fazer algo melhor mesmo, identidade visual remetendo aos momentos mais pessoais da intimidade do artista, e letras simplistas que tocam em tópicos de desilusão amorosa e momentos rotineiros retratados de forma mais melodramática e com linguagem mais acessível, mas com a intenção de trazer o ouvinte pra perto a partir de toda uma atmosfera intimista e pessoal, fazendo o mesmo se sentir confortável com tudo que o artista quer passar e tornando a distância entre os dois menor.

O uso desses padrões pra aproximar ouvintes a partir de uma dinâmica lo-fi já vem de décadas atrás, com artistas famosos como Daniel Johnston e Elliott Smith, por exemplo, até o garoto que realmente faz suas músicas pesarosas dentro do seu quartinho pra uns gatos pingados na internet ouvirem, como foi o caso do Vinícius (Yoñlu). Porém, a diferença entre o que já tinham feito nesse gênero e o que podemos chamar de Bedroom Pop é a infusão de gêneros como o Jangle Pop e o Psych Pop, usando de sintetizadores e guitarras agudas para criar algo mais relaxante e com uma certa impressão de desleixo.

E foi nessa onda que surgiu o projeto HOMESHAKE, do canadense Peter Sagar, onde absolutamente tudo que descrevi lá em cima sobre o Bedroom Pop foi usado, complementado por loops de bateria eletrônica (nos álbuns mais recentes) e uma voz suave que destaca de forma balanceada os grooves com forte influência de R&B de cada música. Álbuns como Midnignt Snack e Fresh Air conseguiam atingir um equilíbrio interessante pela constante entrega de boas melodias e uma variedade de variações instrumentais que mantinham a atenção do ouvinte sem se tornar pedante ou repetitivo, apesar do último ter quase chegado nessa marca em certos pontos.

Só que o problema de Helium, novo álbum do artista, é que ele é assim quase o tempo inteiro. A produção mais limpa e formal deixa um certo vazio na sonoridade do HOMESHAKE exatamente onde morava o apelo do projeto, deixando mais a atmosfera da coisa pela atmosfera e não pelas gambiarras musicais que distinguiam cada canção em trabalhos anteriores. Se canções como “Like Mariah” e “Just Like My” tinham até certo potencial de serem destaques no álbum por possuírem elementos que se sobressaem, os mesmos foram enterrados por uma mixagem homogênea que acaba cortando qualquer êxtase possível, tornando o que era pra ser “chill music” em música de elevador mesmo.

Mas não se engane, apesar dos exemplos citados, a grande maioria das músicas aqui não tem nada de realmente atrativo pra te fazer voltar a elas. Qualquer elemento engraçadinho como sons de telefone emulados por uma guitarra ou vozes conversando no fundo que tentavam evocar momentos mais rotineiros pra diferenciar a banda de outras do gênero, humanizando essa arte e aconchegando o ouvinte de forma mais incisiva do que o Bedroom Pop tradicional tenta fazer, foi exterminado de vez aqui a favor de sintetizadores sem inspiração e produção lavada que aproximam mais o projeto de algo que você escuta em qualquer rádio genérica de música dos anos 80 de madrugada.

Apesar de não chegar a ser uma ética sonora que realmente desagrade, peca terrívelmente em qualquer chance de longevidade que as músicas poderiam ter, tornando Helium descartável e medíocre, não causando nenhuma impressão realmente digna de qualquer destaque a quem procura uma sonoridade confortável e familiar como quem se sentiu atraído pelos primeiros álbuns do Peter. Partindo da criatividade sonora dele em diversos momentos na discografia, o projeto poderia ter tomado diversos rumos que destacam essas forças, mas aparentemente escolheram seguir o caminho mais enfadonho.

OUÇA: “Like Mariah”, “All Night Long” e “Just Like My”