HEALTH – VOL. 4 :: SLAVES OF FEAR


O HEALTH sempre foi uma banda difícil de explicar porque nos seus álbuns costumavam haver elementos de gêneros muito divergentes e um trabalho de construção de dissonâncias e atmosferas pesadas e alienígenas que perturbavam e instigavam os sentidos. VOL. 4 :: SLAVES OF FEAR é o quarto álbum do HEALTH, o primeiro trabalho depois da saída do tecladista orignal e co-fundador Jupiter Keyes e vai fundo no peso do metal industrial mas sem a elegância da esquisitice dos registros anteriores.

Em Death Magic, o álbum anterior, o HEALTH conseguiu chegar num ponto de equilíbrio interessante entre o som pesado conceitual cheio de camadas e algo mais pop e acessível. VOL. 4 :: SLAVES OF FEAR traz o peso trabalhado de uma forma diferente, usando quase nada das múltiplas camadas de sintetizadores características de trabalhos anteriores e apostando mais nas distorções de guitarra e percussão pra fazer um proto-metal industrial que acaba soando achatado e repetitivo.

Um elemento que se mantém dos álbuns anteriores é uma certa coesão conceitual e o tema aqui é o medo de viver no mundo da forma como ele está. Nada parecido com as críticas ácidas à publicidade do Death Magic de 2015 ou o caráter introspectivo e sentimental do Get Color de 2009, apenas um niilismo quase infantil na forma em que aceita e apenas relata que está tudo podre e vamos todos morrer mesmo, então pra que se importar? Letras como as de “THE MESSAGE”, “LOSS DELUXE” e “STRANGE DAYS (1999)” tem reduções simplistas de temas complexos como a morte, o medo e o sofrimento e parecem poemas de um adolescente revoltado e não letras de uma banda que, embora nunca fosse reconhecida por esse aspecto, já trouxe passagens líricas muito interessantes no passado.

Sonoramente, é muito difícil saber quando uma música acaba e começa a outra porque os power acordes aqui se repetem à exaustão sem nenhuma progressão ou nuance e a mixagem que carrega o volume pra criar peso artificialmente de uma forma que parece até amadora faz as músicas soarem ainda mais unidimensionais, achatando os instrumentos e a voz numa camada só. Os riffs que aparecem só geram peso de forma solta sem nenhum propósito narrativo e não envolvem o ouvinte, muito menos são lembrados depois que as músicas acabam.

VOL. 4 :: SLAVES OF FEAR é, na melhor das hipóteses, um bom álbum pra bater cabeça se você não se importar com a monotonia das construções das faixas. E se torna decepcionante porque não foi um grande ponto de ruptura ou um experimento que não funcionou. Muito pelo contrário, quase todos os elementos que aparecem  aqui já foram trabalhados de forma muito melhor por eles em álbuns anteriores o que deixa a impressão de que, mesmo tendo levado quatro anos pra sair, ainda assim é um álbum preguiçoso.

OUÇA: “PSYCHONAUT” e “BLACK STATIC”

HEALTH – Death Magic

heal

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Em seus dois primeiros álbuns, o HEALTH era uma banda quase alienígena: sons futuristas, texturas esquisitas e camadas e mais camadas de um peso que não se parecia em nada com o que conhecemos sonoramente em nosso tempo na terra. Depois de seis anos sem lançar um álbum, Death Magic traz uma pegada um pouco mais humana, popular até em algumas partes, ao som da banda, aproximando seu trabalho de algo mais palatável para um público que não está acostumado com isso, porém, sem perder a identidade.

Logo de cara, vemos um dos pontos fortes do disco, que é a forma narrativa como ele acontece. “Victim”, a primeira faixa, começa com uma textura de sintetizadores e guitarras, com um tempo bem marcado pela percussão que aos poucos vai sendo emendada à segunda faixa, “Stonefist”, que mostra o característico peso da banda, com um refrão instrumental curto, mas eficaz, tudo isso com passagens melódicas e mais fáceis de entender que dão um descanso aos ouvidos e fazem as passagens mais pesadas ganharem sentido.

Depois da apresentação da banda nas faixas iniciais, vemos a verdadeira mudança no som deles no meio do disco. “Dark Enough” é talvez o mais próximo do popular que o disco chega, uma estrutura fácil e um pouco repetitiva até faz um som dançante e se distancia um pouco da atmosfera futurista que vinha sendo construída até então. A faixa seguinte segue na mesma pegada mas, em seu final, já começa a retomar os contornos que vinham sendo traçados antes.

“New Coke” é o melhor momento do disco porque é onde eles conseguem sintetizar o que há de melhor no pop com um experimentalismo baseado em textura e psicodelia que funciona muito bem como uma faixa isolada, mas também está num ponto crucial do álbum pois está preparando o ouvinte para o final. As duas faixas seguintes continuam dando a cara de adeus até chegar em “Drugs Exist” que, vai desacelerando e te colocando pra baixo até desaparecer completamente e deixar apenas umas poucas notas soando ao fundo.

Hoje em dia é praticamente impossível fazer música sem subterfúgios eletrônicos, seja pelos sintetizadores dentro das próprias músicas, seja pela pós-produção, alguma coisa vai passar por um filtro de computador. Porém, mais difícil do que fazer música sem um computador é soar original usando um. Dificilmente alguém explora as infinitas possibilidades que o eletrônico oferece, e é isso o que o HEALTH, com suas experiências de texturas, sons e, principalmente peso, fazem em Death Magic, ao se aproximarem do pop dentro da música eletrônica acabam trazendo um soco de criatividade a um tipo de música quase pasteurizado.

OUÇA: “Stonefist”, “Flesh World (UK)” e “New Coke”