Gus Dapperton – Where Polly People Go To Read



Após alguns singles, feats e dois EPs super bem-sucedidos e aclamados pela crítica, Yellow And Such (2017) e You Think You’re Comic (2018), o produtor e músico nova iorquino Gus Dapperton finalmente se rendeu ao clássico formato que chamamos de álbum, em 2019. O garoto de apenas 22 anos, completados recentemente, lançou Where Polly People Go To Read e três videoclipes para entrar de vez no universo auto suficiente que criou para si, que vai da produção à mixagem de suas próprias músicas.

Neste universo, o estético é tão importante quanto à sonoridade: ouvir Gus Dapperton não é a mesma coisa que assistir Gus Dapperton. O músico sabe como transferir a emoção de seu dream pop indie não apenas em seus videoclipes e shows, em que tem o seu jeito único de dançar, mas também em seu estilo, moda e feições. Não à toa, o (também) designer já deu entrevista para a Vogue sobre o que o inspira para se vestir. E se você pensou “bora pra Void”, é isto mesmo: Gus tenta remeter à sua infância, ou seja, à moda do final dos anos 90.

Na tríade de vídeos que lançou para promover seu debut, o americano experimentou duas estéticas principais que permeiam a sua obra: o lo-fi e a super produção. O que, basicamente, resume também suas músicas: enquanto você percebe que é apenas uma pessoa produzindo tudo, cantando em todas as vozes e coros e até mesmo o esforço da mixagem para soar lo-fi, as faixas são muito bem feitas, a vontade de sair dançando como num super musical é gritante e ainda sobra criatividade nas letras e instrumentos.

Falando em instrumentos, Gus prefere a produção analógica e menos artificial, apesar de, no final de tudo, o seu som soar bem sintético. “Coax and Botany” e “My Favorite Fish” são os melhores exemplos do seu álbum de estreia, principalmente pela base de guitarra e violão mais evidentes. No segundo caso, também, a voz do músico está muito mais limpa com o experimento de melodias mais graves e diversas.

Sem dúvida, Where Polly People Go To Read é uma reafirmação de autenticidade de um ex-aluno de música que abandonou os estudos por não querer ficar preso às teorias. Um dos destaques, “World Class Cinema” consegue ser o perfeito resumo desta espontaneidade com seus versos sem base e a voz duplicada em oitava de Gus. Sua contraposição é a seguinte, “Nomadicon”, que é tranquila e etérea, apesar de evidente uma vontade de crescer. Mas ela só atinge mesmo a ansiedade com a frase cruel do refrão ‘I hate it that I hurt you just for fun, It tasted like the perfect medicine’.

O que sabemos, até agora, é que Gus Dapperton é aquele artista que não quer ser definido por um estilo – nem de música, nem de roupa, nem de dança. E, mesmo que consigamos classificá-lo dentro do indie e dream pop, é justo que ele mesmo não se limite e traga para a cena muito mais obras artisticamente ricas.

OUÇA: “World Class Cinema”, “Coax and Botany” e “My Favorite Fish”