Guided by Voices – Zeppelin Over China


Com 36 anos de existência, o Guided by Voices é uma banda que não tem clichê nenhum para apresentar, além de sua própria fórmula e o único integrante original, Robert Pollard. A veterana lançou 12 álbuns nos últimos 10 anos, mais do que a maioria de jovens grupos que têm esse tempo de carreira, apostam sempre no bom e velho indie lo-fi, sem alterar sua identidade, e possui um vocalista que até possui uma carreira solo, mas (quase) nunca abandonou o barco.

Em 2019, o vigésimo sexto filho dessa longa jornada, iniciada em 1987 com Devil Between My Toes, foi lançado. Um dos trabalhos mais longos do grupo, Zeppelin Over China tem 32 faixas curtas, incluindo interlúdios, e uma alta diversificação sonora dentro do universo GBV. Os 75 minutos de álbum funcionam como uma imersão aos momentos de composição e gravação do álbum.

Essa sensação de estar imerso no ambiente de produção não é novidade para os fãs. Isso acontece, principalmente, porque o som da banda de Ohio é fresco. As letras são escritas rapidamente e as gravações acontecem sem tempo para super produções. Isso é uma marca registrada de Pollard, que hoje, aos 61 anos, acumula mais de cem álbuns gravados e 1.600 composições entre carreira solo, GBV e projetos paralelos.

Um dos trabalhos que contribuíram para este número, Zeppelin Over China começa com as boas-vindas energéticas de “Good Morning Sir” passa por guitarras mais clássicas, como em “Step For The Wave”, e uma vibe britpop anos 90, como em “Carapace” e “The Rally Boys”. Entre a leveza de sempre, estão faixas mais pesadas, com pedais que sujam as guitarras, como em “Blurring the Contats”, “Holy Rhythm” e “Charmless Peters”, que pode, tranquilamente, te levar a “Motor Away”, de Alien Lanes, 1995.

O novo trabalho do grupo também salva um espaço para belas acústicas, como “Bellicose Starling” — que nos leva, imediatamente, a auto referências como “Hold On Hope”, de Do The Collapse, 1999  —,  e experimentações mais pop que podem ser ouvidas em faixas como “Jam Warsong”, “My Future in Barcelona” e “You Own The Night”, relembrando a boa época de clássicos como “Glad Girls”, de Isolation Drills, 2001.

O álbum, que parece muito menos pop e animado que muitas obras anteriores, certamente não é um daqueles que resume a obra da banda, até pelas inúmeras mudanças de integrantes durante os quase 40 anos de carreira. No entanto, a atual formação, que se estabeleceu em 2016, parece saber canalizar maravilhosamente o talento de Pollard para descrever emoções. Apesar que, aquele professor de Dayton que eventualmente tocava com sua banda de garagem, consegue, até hoje, se virar bem e criar obras incríveis, não importa com quem esteja.

OUÇA: “You Own The Night”, “Jam Warsong”, “Jack Tell” e “My Future In Barcelona”

Guided by Voices – Space Gun


É chover no molhado dizer que Robert Pollard é um dos músicos mais prolíficos da atualidade. Depois de literalmente mais de 100 álbuns, acho que deu pra todo mundo entender que ele respira música e deve compor uma canção por minuto. Mesmo depois de tantos trabalhos, o músico encontra lugar pra explorar dentro do rock e sabe equilibrar bem consistentemente novidade e tradição. Essa preocupação com a história e o futuro da música aparece já na formação escolhida pra gravar o álbum com os veteraníssimos Doug Gillard e Kevin March, guitarrista e baterista que já trabalham com Pollard no GBV há anos, e os novatos Mark Shue e Bobby Bare Jr., baixista e guitarrista que, embora tenham outros trabalhos se juntaram há pouco tempo na dinâmica única do Guided By Voices.

O que chama atenção numa primeira audição do disco é que  desde a abertura com uma demonstração de força absurda já na faixa-título o nível de energia fica lá no alto em quase toda a sua duração, mas lá nas 3 ou 4 últimas faixas o fôlego vai abaixando e uma canseira aparece, dando a impressão de que o álbum poderia ter acabado mais cedo ou ter distribúido melhor as canções.

Outra coisa que se mantém elevada é a ironia dos músicos tanto nas letras como nos instrumentais. Faixas como “Sport Component National” que traz na letra algo como a interpretação de um programa de canal esportivo e no instrumental uma coisa meio Beach Boys se fossem góticos, “I Love Kangaroos”, que parece a letra de uma cantiga infantil sobre viajar e navegar e “Flight Advantage” que traz versos bobos como “Birds will fly, the spiders will dance” mas tocados com un instrumental pesadíssimo são exemplos dessa ironia e mostram que tá tudo bem não se levar tão a sério e só gravar uma faixa divertida com a sua banda de vez em quando.

No meio de tanta ironia ainda temos momentos pra se falar sério e pra explorar os limites da forma musical. “Colonel Paper”, a segunda canção do álbum traz na letra a história de alguém que tenta encontrar sentido no que retira do latão de lixo, uma reflexão sobre o estado em que o mundo se encontra, afundado em lixo de todos os sentidos com pessoas elevando pedaços desse lixo a “coronéis”, tudo isso embalado por um rock afiadíssimo com poucos mas poderosos movimentos de bateria e guitarra nos dois minutos da canção. “Blink Blank” que fecha o lado A do álbum tem uma das melhores letras do álbum mostrando a crise do distanciamento da intelectualidade em relação à “pessoa comum” que tenta viver sua vida sem se preocupar com as “grandes questões”, o instrumental é um post-punk com uma pegada espacial bem grudento mas que funciona bastante.

Robert Pollard e companhia não são mais principiantes nem amadores e Space Gun mostra que apesar de já terem produzido tanto, eles ainda tem muito o que dizer.

OUÇA: “Space Gun”, “Colonel Paper”, “Sport Component National” e “Blink Blank”

Guided by Voices – How Do You Spell Heaven


Poucos meses depois de lançar um álbum duplo com 32 faixas no começo do ano, o Guided By Voices volta com How Do You Spell Heaven: o 25º álbum da banda e o 101º álbum da discografia do frontman Robert Pollard entre projetos paralelos e sua carreira solo. Ao contrário do que seria esperado de alguém que produz tão freneticamente, sempre há algo de bom a ser extraído dentro dessa extensa coleção de canções. Seja pela forma como as músicas são apresentadas, a produção (ou a falta dela em alguns casos), o experimentalismo ou as letras. Talvez seja por isso que tanta gente se identifique com o som do GBV, sempre vai haver uma faceta da banda que te agrade no meio de tanta coisa já produzida.

O talento de Pollard pra melodias cativantes se sente logo de cara na abertura “The Birthday Democrats” com um riff bem grudento que se repete durante a canção toda e ajuda a construtir a atmosfera grandiosa da faixa. No final da canção, um pequeno presente pros fãs de longa data: um pedaço de uma música qualquer da banda que não está em nenhum álbum, remanescente da época em que o GBV gravava suas canções em casa com fitas k7.

O maior problema do álbum talvez seja o lugar comum que ele apresenta em algumas faixas. “King 007” e “Boy W” pegam emprestados elementos mais que batidos do AOR e do classic rock sem nenhuma adição, crítica ou ironia. “Pearly Gates Smoke Machine” com os mesmos elementos, é um instrumental até bacaninnha de escutar mas poderia ter metade da duração pra não se tornar o solo de guitarra tedioso que é.

Os melhores momentos com certeza são as faixas mais simples em que, com poucos elementos, um grande impacto pode ser sentido. “Steppenwolf Mausoleum” representa um pouco a vibe do álbum, um arpejo que se repete em diversos momentos da música e uma aura que deixa clara a decadência do rock n’ roll da forma antiga como algo de relevância no mundo de hoje. “Tenth Century” e “Just To Show You” são faixas poderosas e emotivas cada uma a seu modo: a primeira uma balada voz e violão, a segunda um rock mais quadradão mas que evoca a essência de um rock datado mas cheio de sinceridade.

Contrastando com o álbum anterior onde havia uma intensa experimentação e até algumas músicas com cara de largadas pela metade, How Do You Spell Heaven vem com algo mais seguro, um rock mais parecido com o que se tocava nas rádios do fim dos 80/começo dos 90 com riffs cativantes e uma pegada de certa forma acolhedora e familiar. E essa é a maior potência e fraqueza deste registro: encontrar algo que você já ouviu por aí aos montes pode ser arrebatador ou entediante.

OUÇA: “The Birthday Democrats”, “Cretinous Number Ones”, “Tenth Century” e “Just To Show You”

Guided by Voices – August By Cake

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Mesmo tendo passeado por diversas vertentes e estilos ao longo de mais de vinte álbuns, uma coisa é constante no trabalho do Guided by Voices: ele está sempre incompleto. E isso não é de forma alguma demérito mas, sim, uma característica de um compositor que está à procura da música perfeita e não tem medo de abandonar alguma pela metade quando não se sente satisfeito. Essa característica produz resultados um tanto quanto estranhos como lançar dois ou três álbuns no mesmo ano ou o seu mais recente trabalho: August By Cake, um disco duplo com 32 faixas.

Muito do que se critica no trabalho de Robert Pollard no Guided by Voices é o fato de parecer que ele não se esforça o bastante pra “terminar” a maioria de suas canções. August by Cake, estranhamente, se beneficia dessa característica: o amontoado de faixas incompletas e, por isso, curtas, faz com que o trabalho tenha coesão e ouvir trinta e duas faixas não seja uma coisa tão maçante como parece à primeira vista.

Claro que no meio disso tudo há certas bizarrices e momentos que fazem você se perguntar qual a necessidade de uma ou outra escolha. Em “We Liken The Sun”, por exemplo, existem todos os elementos para um novo hino indie mas o fade out no meio da faixa não tem muita explicação e “Fever Pitch” que vem na sequência parece totalmente deslocado com seu vocoder distorcido e uma melodia esquisita com guitarra  sintetizada.

Ao falar sobre o disco passado do Guided by Voices, mencionei que eles haviam voltado às origens do indie rock como nos primórdios do projeto e, nas faixas mais “acabadas”, isso ainda continua claro: uma cara de som de garagem mas com técnica de quem já tá na estrada há muito tempo. As letras continuam altamente bem trabalhadas e a estética sonora geral contribui para que elas funcionem.

Se você aceita que vai ouvir um trabalho em andamento em vez de uma obra completa e, depois de se acostumar à cadência inconstante e, ao mesmo tempo, fluida, August By Cake  se mostra como um grande esforço pra parecer que não fez esforço nenhum enquanto procurava pela canção perfeita. Talvez Robert Pollard nunca termine sua busca mas espero que deixe registros do seu processo tão interessantes quanto August by Cake.

OUÇA: “Generox Gray ®”,”We Liken The Sun”, “Its Food” e “Amusement Park Is Over”.

Guided by Voices – Please Be Honest

GBVOICES

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Num cenário indie dominado por uns dois ou três power acordes e muitos sintetizadores, o último trabalho do Guided by Voices traz o indie rock de volta às origens com peso e elementos acústicos arrumados em um experimentalismo consciente que só um músico experiente consegue fazer.

Logo de cara, percebemos a criatividade de Robert Pollard sendo extremamente técnico ao mesmo tempo que faz um som sem frescuras. Faixas curtas mas com variações o suficiente para deixar qualquer fã de progressivo excitado são a marca desse álbum.

Ao mesmo tempo que experimenta bastante, Please Be Honest traz diversos elementos do início da banda: uma produção baixa, acústica de garagem e arranjos propositalmente esquisitos e amadores, tudo isso conduzido por letras que mexem com emoções e experiências colocadas de um jeito criativo por Pollard. Mesmo quando não fica claro sobre o que ele está falando, as melodias e ritmos se encarregam de passar o recado.

A estética do disco mostra um retorno à sonoridade dos primeiros trabalhos da banda numa tentativa de agradar aos fãs mais antigos, mas decepciona porque depois de anos experimentando maneiras de destacar suas letras, voltar ao começo não parece tão legal assim. Mas vale a pena escutar se você gosta do indie rock dos primórdios executado com uma ténica impressionante e letras que te cativam.

OUÇA: “My Zodic Companion”, “The Grasshopper Eaters” e “The Caterpillar Workforce”

Guided by Voices – Motivational Jumpsuit

gbv
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Em julho de 2013, Robert Pollard deixou a entender em um entrevista para a revista Magnet que English Little League poderia ser o último álbum da banda, pois bem, não só se sabe que isso não aconteceu como também que, fora Motivational Jumpsuit, haverá outro lançamento ainda esse ano, intitulado Cool Planet.

Eis que foi lançado Motivational Jumpsuit, o mais novo álbum do Guided by Voices e, devo dizer, não poderia estar mais satisfeita com o resultado. Sim, é claro, Robert Pollard ainda compõe músicas que nunca passam dos três minutos (e que nem chegam a isso), não que este fato seja por completo algo ruim. Guided by Voices, que mantém o famoso hábito de gravar discos em uma quantidade excessiva, produz tanto músicas geniais como também algumas que, bom, poderiam ser facilmente descartadas.

Não obstante, Motivational Jumpsuit é surpreendentemente cativante, tão gostoso de ouvir que nem se percebe o tempo passar e, quando o álbum termina, sente-se uma vontade avalassadora de colocá-lo para tocar novamente. No mesmo, pode-se notar desde guitarras bem definidas, solos calmos que combinam perfeitamente com o clima da música (“Shine”), violão ritmado que lembra um estilo mais acústico e, como marca registrada do GBV, a mescla das distorções, vários riffs e mudanças constantes das guitarras que juntamente com a bateria, nos proporciona diversas sensações. Percebe-se ainda estilos diferenciados, como um impressionante e consistente powerpop, post-punk e glam rock.

Devo dar destaque à algumas faixas que compõem o novo disco, como “A Bird With No Name”, “Shine” e “Some Things Are Big (And Some Things Are Small)” que, certamente merecem ser citadas pelas maravilhosas melodias.

Acrescento que, apesar de o novo álbum ser agradável, o mesmo peca em alguns sentidos. Como dito anteriormente, o Guided by Voices, por compor em massa, faz com que se torne comunalmente provável encontrar músicas não tão boas entre as várias faixas que compõem algum disco da autoria deles e isso não foi diferente em Motivational Jumpsuit. Algumas das músicas possuem ritmo parecido e outras serão facilmente esquecidas, porém esses contras não diminuem o álbum, já que as ótimas faixas, como por exemplo “Littlest League Possible”, “Record Level Love” e “Shine (Tomahawk Breah)” o tornam sólido e, definitivamente, o fazem valer a pena. Motivational Jumpsuit é um must-listen para os fãs do indie rock e lo-fi que nos provou que Guided by Voices ainda sabe criar grandes músicas.

OUÇA: “Littlest League Possible”, “Record Level Love” e “Shine (Tomahawk Breath)”

Guided by Voices – English Little League

2013gbv

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O Guided by Voices é talvez uma das bandas mais importantes da música alternativa nas últimas décadas. Um dos principais grupos lo-fi dos anos 90 (junto de nomes como Built to Spill e Sebadoh), o GBV mostrou como uma banda independente poderia crescer, passando dos poucos álbuns gravados e distribuídos pelos integrantes da banda até o conhecimento geral e assinatura com grandes gravadoras. Com um hiato a partir de 2004, Robert Pollard anunciou que em 2010 o Guided by Voices retornaria com a sua formação clássica, responsável pelo genial Bee Thousand de 1994. A banda voltou e manteve o título de prolífica que teve nos anos 90; três discos foram lançados em 2012 e English Little League chegou no início de 2013.

Sendo uma banda que produz numa quantidade tão absurda, é de se esperar que o Guided by Voices não possua a carreira mais estável do mundo. Desde sempre a banda tem problemas em fazer discos inteiramente bons; é comum a obra do GBV ter músicas que vão do genial ao horrível. English Little League não foge deste padrão, e, com 17 músicas enroladas em seus 45 minutos de duração, é um disco irregular, com faixas memoráveis e outras facilmente descartáveis.

A abertura com “Xeno Pariah” é rápida e com uma sonoridade clássica dos hits de rock mais pesados da banda, e também é nesse estilo que aparece na metade final do álbum a ótima “Flunky Minnows”, a melhor canção do álbum. Embora elas se destaquem, a maior parte de English Little League é repleta por baladas e músicas mais pops. “Send To Celeste (And The Cosmic Athletes)” e “Birds” são boas, mas não conseguem chegar perto do nível de grandes baladas feitas pela banda em seus tempos áureos, como “Yours To Keep” e “I Am A Scientist” – ambas do disco de 1994 gravado com a mesma formação atual.

O som das guitarras que influenciou tantas bandas que vieram no começo dos anos 2000 continua lá e em várias canções podemos escutar várias camadas e riffs diferentes, variações até mesmo dentro da mesma música. A qualidade do grupo continua no topo, e Robert Pollard é merecidamente listado várias vezes entre os maiores songwriters da história. Aqui Pollard ainda não perdeu a mão, mas está claramente cansado. Não é fácil manter o nível com mais de 1600 músicas escritas (sim, a BMI coloca 1603 canções na conta de Pollard).

Cito novamente “Flunky Minnows” como o ponto de English Little League que mostra mais claramente como o Guided by Voices ainda é capaz de fazer grandes músicas. Ela consegue aquele efeito admirável de fazer um estilo clássico soar atual em pleno 2013. ‘Everything is wonderful and microscopes are fun’, canta Pollard sobre guitarras incessantes e que variam de linha algumas vezes entre os dois minutos e pouco da música.

No fim, o décimo-nono (!) disco gravado pelo Guided by Voices é uma audição interessante e até nostálgica com seu som típico dos anos 90, mas perde na irregularidade. Com o bizarro número de quatro (!) discos em dois anos, a banda mostra que continua trabalhando muito na quantidade e nem tanto na qualidade. Muitas músicas soam parecidas demais e várias poderiam facilmente ficar de fora do disco. Felizmente, a qualidade do GBV ainda aparece em certos momentos de ótimo rock e salva o disco.

OUÇA: “Flunky Minnows”, “Xeno Pariah” e “Send To Celeste (And The Cosmic Athletes)”