Grouper – Grid Of Points


Liz Harris não lançava um álbum sob o nome de Grouper, pelo qual é mais conhecida, desde 2014. Ao longo desse período, a artista focou em EPs e colaborações, e, embora esses trabalhos apresentassem marcas indiscutíveis de sua sonoridade, serviram mais para abrir o apetite dos fãs para um novo disco. Se você é uma dessas pessoas, é bem possível que Grid Of Points tenha se revelado uma decepção.

Não que o álbum seja ruim, muito longe disso, mas porque o próprio ato de chamar de álbum é quase uma demonstração de boa vontade. Grid Of Points tem apenas 21 minutos, ou seja, metade da duração que os anteriores lançados por Grouper. Digamos que você chega em casa depois de um longo dia, coloca o álbum para tocar, e vai preparar sua janta, ou deitar no sofá para relaxar, ou ler um livro. Antes da comida ficar pronta ou de terminar o primeiro capítulo, o álbum acaba, de forma abrupta e deixa aquele gosto de quero mais.

Porque tudo que atrai quem gosta de Grouper está aqui. São canções bem desenvolvidas, com foco para voz e o piano, que criam atmosferas envolventes. A sensação de ouvir Grid of Points é a de atravessar uma densa floresta, ou a de encarar o mar. Os vocais de Harris, em muitas das faixas, chegam mesmo a ter aquele efeito ondulante de idas e vindas. De intensidades que se elevam e se desfazem. A melancolia que marca a obra da artista está presente com mais força do que nunca. E chega até a ser ainda mais impactante quando aliada a títulos como “Thanksgiving Song” e “Birthday song”, que remetem a datas festivas.

Harris usa sua voz como instrumento, o que deixa as letras de suas composições em segundo – ou terceiro, ou quarto… – plano, mas que nunca parece forçado. Grid Of Points encaixa bem com as obras anteriores de Grouper, especialmente com Ruins, seu antecessor direto. Chega a ser recomendável ouvir em conjunto com esse outro álbum, pois, caso contrário, aquela sensação de insatisfação pode prevalecer. E vamos esperar que não tenhamos que esperar mais quatro anos para ver o qu

OUÇA: O álbum todo, não vai demorar muito.

Grouper – The Man Who Died In His Boat

2013grouper 

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Liz Harris, enquanto explicava o nome e os motivos de seu novo disco num material para a imprensa, disse que, quando era adolescente, tinha visto os restos de um veleiro naufragado perto de onde morava, Portland, em Oregon. Não demorou muito para que os jornais locais noticiassem o fato e, quando ela adentrou o barco, sentiu algo estranho, a sensação de estar traindo o homem que ali morou uma vez. Não havia nenhum sinal de morte abrupta. O veleiro tinha, aparentemente, sido abandonado e, como ela diz, “o barco, como um cavalo sem dono, eventualmente, voltou para casa”. The Man Who Died In His Boat é uma crônica disto.

O disco pertence a uma época diferente de agora. Foi gravado há cinco anos, no mesmo período de Dragging A Dead Deer Up A Hill, a obra-prima de 2008 da Grouper. Estes dois discos são destaques da discografia de Harris porque são escapes do que ela costuma geralmente fazer. O último álbum, A I A, que tem, na verdade, duas partes (Dream Loss e Alien Observer) é ainda mais avulso e singular do que este aqui. E o fato de The Man Who Died In His Boat ser um produto fora de seu tempo por natureza só ajuda a descontextualizar o álbum. Harris também diz que as canções daqui são as mesmas que não entraram em Dragging A Dead Deer Up A Hill. Há algumas suposições que devem ser feitas. Uma delas é sobre a quantidade de material que Grouper ainda tem disponível e a qualidade dele, mas, agora, com um disco de meia década atrás, a questão já fica antiquada. Outra é sobre a demora. E a mais importante ainda é, justamente: por que agora?

Tempo ou até uma localização nele, na música da Grouper, nunca foi uma preocupação fundamental. Mesmo que o disco tenha um motivo e, arriscando um pouco mais, uma temática, The Man Who Died In His Boat não precisa de um acontecimento para se situar. Em meio a drones e, pela primeira vez deste Dragging, voz e violão, cria ligações com memórias distantes. O truque (ou seria um dom?) de Harris é que estas ligações nunca pertencem a um lugar muito distinto. A sensação é de uma contemplação contínua cuja fonte nunca é muito bem identificada. E parte do apelo de alguma arte feita por Harris vem justamente da tentativa de descobrir o local de origem desta. Pode vir a ser um objeto abstrato ou uma experiência marcante (como um homem que morre em seu barco), mas o deslumbramento é sempre o mesmo.

O que salva The Man Who Died In His Boat (e boa parte do catálogo de Liz Harris) da abstratação total não é a nossa projeção forçada sobre as canções. Mesmo que os títulos das faixas (“Vital”, “6”, “Towers”, “Living Room”) possam indicar lugares e motivações, é o que está por trás do som que dá algum contexto. Em “Vital”, um avião decola na parte final, representando o final de uma saga. Antes, era impossível falar que Grouper trabalhava com ideias de canções. Agora, é justo dizer que The Man Who Died In His Boat é um conjunto de esboços sonoros. Ideias que, de tão amplificadas e maximizadas, são as maiores representantes da solidão.

A maior contradição do que Grouper faz aqui é, também, a razão do apelo de um disco como esse. Ao mesmo tempo em que Liz Harris trabalha com um conceito de interior que, muitas vezes, suprime qualquer sentido de valorização, o disco funciona como uma manifesto de afirmação do sentido da vida. Não é o mesmo que dizer que Harris trava uma batalhas entre belo versus feio, tristeza versus felicidade, mas que Liz conseguiu provar aqui que, às vezes, somente às vezes, quanto maior for a distância entre o intérprete e a canção, melhor será o resultado.

OUÇA: “Vital”, “Vanishing Points” e “Towers”