FIDLAR — Almost Free


Depois de quase 4 anos, o FIDLAR voltou de um jeito inesperado. Inesperado pelo menos pra mim. Como alguém que não ouviu nenhum dos singles lançados antes do álbum sair, eu fui pega de surpresa ao dar o primeiro play em Almost Free.

Este é um álbum diferente, como é de se esperar de qualquer banda que acumula 10 anos de estrada. Enquanto fã, confesso que demorei algumas ouvidas para me acostumar ao novo “ritmo”. Não que não tenha gostado, foi mais um sentimento de “o que está acontecendo aqui?”. Entretanto, não se engane pensando que trata-se de algo disruptivo, totalmente experimental, fora da casinha. Eles continuam os mesmos “garotos punk rock” dos dois álbuns anteriores, mas agora eles estão experimentando outras ondas. Neste álbum, utilizam os discursos que já conhecemos de outros carnavais em diferentes formatos, que vão além das “pedreiras” que estamos acostumados — ainda, é claro, que elas estejam presentes, como é o caso de “Get Off My Rock”, que abre o disco.

De álcool e drogas, críticas ao comportamento do estadunidense médio, términos de namoro, com influências de The Clash a Red Hot Chili Peppers, Almost Free é um baita álbum. Pra quem se acostumou ouvindo ao homônimo FIDLAR, de 2013, pode ser que estranhe, em um primeiro momento, quando ouvir toda a miscelânea que temos aqui. Dentre todas as camadas que existem no álbum, dá pra sentir que este foi um trabalho em que os caras chegaram no estúdio e realmente tocaram o que estavam com vontade. Tem sonoridades bem diferentes entre si e, também, seus altos e baixos, mas é um disco autêntico.

Destaque para a instrumental faixa-título, “Almost Free”, que aconteceu quase “por acidente”, já que a banda tentou escrever uma letra pra ela. Mas acabou que nenhuma das letras combinou o suficiente e, por falta de tempo, ela acabou entrando nua e crua mesmo. E, pra mim, esse é um dos melhores acertos do álbum. A música é um respiro em meio a toda loucura “fidlaresca” e ainda demonstra o talento em potencial que o quarteto tem.

OUÇA: “By Myself”, “Can’t You See” e “Almost Free”.

FIDLAR – Too

fidlar

_______________________________________

Crescer na sociedade pós-moderna é um paradoxo. Na juventude, todos te dizem para estudar e criar hábitos saudáveis, assim, você será um adulto exemplar – ou pelo menos medíocre – e poderá garantir uma boa velhice. Tudo gira em volta de uma linha do tempo sem volta, na qual estudamos pra trabalhar, trabalhamos para trabalhar ainda mais, e trabalhamos mais pra nos aposentar com uma boa grana. Mas pra que diabos você quer ter uma boa velhice? Para bem se lembrar de como foi uma juventude monótona?

Com precedentes no punk, inspiração na subcultura do skate e surf da Califórnia e nos moldes do pop, um grupo de skatistas de Los Angeles que queria fazer um som de vez em quando tinha um mantra nas pistas: Fuck It Dog, Life Is A Risk. O que virou o nome de sua futura bem-sucedida banda – em sigla, FIDLAR – é nitidamente um apelo anti-comodismo empurrado o tempo todo por todo e qualquer segmento da nossa sociedade.

Foi na base desta ideologia que os quatro garotos de LA resolveram gravar o primeiro EP em 2011, chamado DIYDUI, seguido por Shit We Recorded In Our Bedroom e Don’t Try, ambos em 2012. O primeiro álbum, homônimo, foi lançado apenas em 2013. Ali, a banda já havia atingido grandes proporções com letras que envolvem muito álcool e drogas e amaldiçoam problemas de todo jovem, como dinheiro, família e relacionamentos.

Neste ano, o grupo resolveu escrever mais um capítulo em sua discografia e sutilmente mudou a linguagem com a qual conversa com o público. Eles entraram em estúdio e lançaram Too com o selo independente da Mom + Pop Music, responsável também por álbuns de Cloud Nothings, Smith Westerns e Metric. O som, desta vez, parece mais calibrado e mostra sinais de evolução e experimentações.

Mas será que é este o tipo de som que fãs de bandas como o FIDLAR gostam de ouvir? A euforia em torno do grupo sempre se motivou pela cultura do it yourself – como se referem os títulos dos primeiros EPs da banda – e, nestes casos, o efeito lo-fi é sempre um grande aliado. Mas há algo a ser refletido. O grupo alguma vez mostrou algo muito diferente? A resposta é não e ainda: o efeito lo-fi sempre foi sutil nos trabalhos da banda e continua, só que com (ainda) menos intensidade.

A impressão que fica é que eles sempre buscaram essa sonoridade mais balanceada e resolveram fazer algumas experimentações novas, assim como qualquer banda. Coloco neste grupo as músicas “Overdose” – uma boa aposta, mas diferente de todo o trabalho já feito pelos californianos – e “Hey Johnny”, com uma grande influência pop e altamente dispensável.

É importante ressaltar alguns fatos que envolvem o vocalista Zach Carper e que influenciaram diretamente em toda a produção do novo álbum. Primeiro, a morte de sua namorada – que estava grávida – na turnê de 2013, após usar uma agulha infectada para injetar heroína. Depois, ainda viciado em álcool e drogas (oh, really?) quando ajudava nas composições de Too, o músico entrou para a reabilitação pela quinta vez e os outros integrantes simplesmente pararam de falar com ele. Bem, eles já estavam de saco cheio. No fundo do poço, Carper recebeu uma ligação do ex-viciado Billie Joe, do Green Day, e foi incentivado a se livrar das drogas. Outro fato marcante foi a revelação do vocalista sobre um abuso sexual que sofreu aos oito anos, cuja lembrança, para ele, foi o grande incentivador de seu vício.

Ou seja, muitas águas rolaram e algumas lições foram aprendidas pelos integrantes, que já beiram os seus 30 anos. Por isso, nas letras, o FIDLAR continua contando como é ser jovem e inconsequente, mas desta vez com a preocupação da vida adulta mais latente. É o que ouvimos nas músicas “Stupid Decisions” e “Bad Habits”, com o genial verso ‘oh my god, I’m becoming my dad’.

Como primeiro single do álbum, os americanos escolheram “West Coast”, que mostra uma maior exploração de sintetizadores. Mas eles não são novidade para fãs da banda, assim como em “Why Generation”, que explora mais a onda indie. Ainda antes de lançar o trabalho na íntegra, a banda publicou o videoclipe de “40oz. On Repeat” no YouTube: um vídeo à la blink-182 versão Hermes e Renato. “Drone”, último single com clipe a ser lançado, é rápida, com refrão fácil e feita na fôrma dos fãs antigos da banda.

Uma novidade em Too são os riffs e solos de guitarra com traços de rock anos 70, como em em “Punks” e “Leave Me Alone” – que acompanha esta nova onda de solos sem perder a habitual bateria marcada. O ápice do álbum fica por conta de “Sober”, que começa com o que parece ser uma briga de casal e exclama exatamente como nós não gostaríamos de nos sentir ao crescer: eu percebi algo quando fiquei sóbrio, a vida é uma merda quando você envelhece.

E este é o discurso principal do álbum Too: a vida é uma merda quando nos tornamos adultos. Inserido no contexto musical, esta ideia é muito bem representada nas novas experimentações sonoras e discursivas do FIDLAR. A mensagem final, ao ouvir o disco inteiro, é: existem alguns limites que não devem ser ultrapassados e que garantem sua integridade física e mental. E isso pode parecer chato e entediante para alguns.

No contexto geral e no fim das contas, Too é muito bem feito e cuidado. Em contraponto, é mesmo diferente e definitivo na discografia do grupo. Isso deixa uma grande interrogação para os fãs da banda e de suas músicas que bradam a inconsequência: qual será o próximo passo a não ser cair no comodismo?

O que se espera é contar com o FIDLAR e outras da nossa geração para representar, na música, nossa energia jovial em sons que falam aquilo que seu ego e a vida social adulta sempre tentam esconder de você.

OUÇA: “Bad Habits”, “Leave Me Alone”, “Punks” e “Sober”

FIDLAR – FIDLAR

2013fidlar 

______________________________________

Se o álbum tem a intenção de passar ao ouvinte “drogue-se, é divertido”, o objetivo foi atingido com sucesso.

O álbum abre com uma faixa suja e, honestamente, ele não limpa até a última nota. Por ‘sujo’ eu quero dizer – guitarra distorcida e vocais a la Sex Pistols, baixo simples e bateria veloz. Características da banda, ao meu ver. Os meninos de Los Angeles não abrem mão da distorção em qualquer sentido da palavra, muitas vezes não dá pra diferenciar o que é da guitarra e o que é do vocal.

Suas letras eloquentes e repetitivas conseguem ionizar quem ouve, contudo não têm nenhum tipo de poesia. A primeira vez que ouvi FIDLAR tive a impressão de que tinha deixado a primeira faixa em loop, e só consegui apreciar as músicas na terceira tentativa de ouvir o disco até o fim. Cansativo, ou simples poluição sonora. Foi quando percebi que a principal mensagem que eles querem passar é justamente a vontade de fugir da realidade. Não os culpo, e também tô no mesmo barco, mas ah, não daria pra mostrar isso de uma forma um pouco mais audível?

Num contexto social onde o indie folk está tomando conta, as drogas são de fácil acesso em qualquer lugar, quando até a “juventude perdida” tem espaço por conta da popularidade indescritível da internet. Quem precisa poesia? Só quem não gosta de Cheep Beer. E admito não gostar. Gosto de variação musical e contextual quando ouço um álbum. Gosto de ficar viajando e pensando sobre o que os caras tão querendo dizer, mas se me vem com “Wake Bake Skate” já no título da música, vou saber que é só disso que vão falar: acordar, se chapar e “partiu pra vala”. Tópico direto, sem a terceira dimensão. Isso: FIDLAR é um disco bidimensional, quadrado e arranhado.

É um disco confuso, pobre e interessante. Pobre por tudo que citei acima; interessante à extensão de manter semi-vivo o punk. Não leva o punk muito a sério, como os originais – contracultura, política revolucionária implementada em suas letras. A agressividade tá ali, e já é um passo mais perto da rebeldia. Mas para toda rebeldia ter sentido, tem de haver uma causa. Se a causa é a legalização de drogas, faça música sensata, com embas(e)amento político coerente! Ora fica pedindo palmas por arte fajuta. Em resumo, é um disco para se ouvir quando em influência ilícita, curto e grosso.

OUÇA: “5 To 9”, “Paycheck” ou Qualquer uma das faixas, são todas bem parecidas