Esben and The Witch – Nowhere


Algumas bandas conseguem continuar as mesmas apesar de mudarem muito. Esben and the Witch é uma delas. Ao ouvir Nowhere, não podemos dizer que a sensação seja de algum modo muito distinta da que vinha lentamente se apossando de nossos ossos nos primeiros álbuns. A banda continua particularmente sombria. E isso em uma intensidade que é difícil encontrar hoje em dia, ao menos fora do campo do metal. E a raiz das mudanças que a banda encarnou podem se originar aí. Cada vez mais caminham para ser uma banda de metal. Se no começo eram uma vertente do dream pop particularmente obscura, com muitos elementos eletrônicos, mas que não abafavam a visceralidade, hoje os vocais estão menos etéreos e mais dramáticos, com uma ênfase nos instrumentos do power trio deixando de lado tudo que tinham de experimental, que fazia com que se distinguissem de centenas de outras bandas.

O correto seria avaliar Nowhere como um álbum de metal, pois é isso que ele é. Acredito que quem gosta desse estilo musical e ainda não conhece a banda deve escutar esse trabalho e, provavelmente, vai gostar do resultado. Embora talvez se decepcione com os outros discos, caso se proponha a ir mais a fundo. Como álbum de metal, Nowhere é um belo representante. Já como um disco de Esben and The Witch, deixa bastante a desejar.

Se ainda existem alguns, sutis, traços de post-rock, também é verdade que as melodias são bastante tradicionais, beirando o genérico.

Os vocais aqui tomam um destaque inédito na trajetória do grupo. E, de fato, não são ruins. Mas os melismas exagerados, encaixados numa produção que é muito clara, faz com que o resultado seja esquecivel. Tudo é muito limpo, com um espírito operático que torna difícil a conexão. A sensação é de extrema artificialidade. Se a versão do gótico presente nesse disco não chega a ser a mesma da de um filme do Tim Burton, ao menos é igualmente desprovida de emoção real, da aflição que sabemos que o trio sabe fazer tão bem.

Não são só os vocais que seguram notas mais do que deviam. As guitarras constantemente fazem o mesmo, causando uma verdadeira sensação de que o álbum se arrasta. E de que estamos ouvindo uma mesma canção, ainda que com seus altos e baixos. A parte boa disso é que, por não ser longo, Nowhere pode realmente ser experimentado como se fosse uma única faixa, uma espécie de sinfonia. Considerando as referências das quais o metal costuma se apropriar, não é difícil imaginar que essa foi exatamente a intenção.

Ou seja, se, depois de ouvir as duas primeiras músicas, ainda tiver vontade de continuar, estiver gostando, pode ter certeza de que o resto também o fará, caso contrário, melhor passar para a próxima.

OUÇA: “A Desire For Light” e “Dull Gret”

Esben and The Witch – Older Terrors

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Música boa é aquela que te faz viajar, que provoca sensações. No caso de Older Terrors, álbum da consistente banda Esben and The Witch, as faixas não só provocam sensações, como também evocam imagens – indo ao encontro das notas góticas do grupo, o cenário, invariavelmente, é noturno. O “mini” álbum do trio, lembrando, nesse sentido, os velhos tempos do rock progressivo, tem apenas quatro músicas – mas cada uma com mais de 10 minutos de duração, proporcionando assim, quatro “viagens” diferentes ao ouvinte.

Há um quê de mistério no som da banda – que a cada novo trabalho parece evoluir – ou fica mais pesado, ou mais elaborado, ou ambos. A música que o grupo entrega neste Older Terrors mostra uma complexidade que, em certos momentos, chegam a lembrar bandas como Mogwai, que têm a complexidade sonora – e a capacidade de explorar diferentes instrumentos, em combinações por vezes improváveis – como característica.

O vocal de Rachel Davies também torna o som da banda ainda mais peculiar, criando uma curiosa harmonia entre o metal, post-rock e demais gêneros pelos quais esse novo álbum passeia. A performance de Davies no vocal é, sem dúvida, um dos pontos fortes do álbum, que ajudam a fazer com que as músicas, embora compridas, não soem cansativas aos ouvidos de quem se aventurar pela obra.

OUÇA: “Marking The Heart Of A Serpent” e “The Wolf’s Sun”

Esben and The Witch – A New Nature

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Esben and The Witch sempre foi uma banda próxima do pós-punk, mas nunca tanto quanto em A New Nature. Em diversas faixas chega a ser difícil perceber que a banda não é uma contemporânea de Siouxie and The Banshees ou Gene Loves Jezebel. Paradoxalmente, no entanto, este movimento se deu numa aproximação à sonoridade de outra banda atual: Savages. A influência do dream pop, tão presente nos trabalhos anteriores, aqui está diminuída drasticamente, assim como a utilização de elementos eletrônicos. Guitarra, baixo e bateria, não tão despidas quanto no punk das Savages, mas sim lembrando aquelas bandas que nos anos oitenta passaram a fazer música atmosférica sem perder suas raízes punk. Talvez Esben and The Witch esteja, hoje, fazendo o caminho inverso, mas melhor seria que a banda considerasse este território que agora ocupa como seu espaço natural, e desenvolvesse sua sonoridade no entorno deste equilíbrio.

“Press Heavenwards!”, a primeira faixa do álbum, é o melhor exemplo de como esta evolução foi benéfica. Não é só o melhor momento deste trabalho, mas provavelmente também um dos melhores da banda até aqui. E este exemplo inicial é tido como parâmetro para todo o desenvolvimento daquilo que vem em seguida. A maior parte das faixas captura uma parte da essência desta primeira, seja seu vale melódico inicial ou suas alturas extáticas finais, o que se demonstra como um acerto. Quebrar esta grandiosidade é um caminho melhor do que expandi-la ainda mais, como “The Jungle” prova: a faixa tem seu mérito por momentos experimentais, mas é o ponto baixo do disco, e sua colocação no centro causa uma sensação de que o conjunto se arrasta mais do que de fato o faz. Não é, no entanto, uma falta grave, pelo menos serve de prova de que a banda continua a experimentar, e provavelmente deve continuar a fazê-lo em suas próximas obras, resta saber se será tão bem sucedida quanto foi neste álbum, que consegue, se não outra coisa, ao menos ser uma ponte, o elo perdido, entre o pós-punk clássico e o contemporâneo.

Esta posição intermediaria, e mesmo a comparação com outras bandas (seja Savages ou Siouxie) é um atestado da competência de Esben and The Witch, mas é também seu grande problema como banda, que perpassa não apenas A New Nature como seus trabalhos anteriores. Em algum lugar entre a história e o presente a identidade da banda se torna difusa. Ela parece ter, agora, encontrado um terreno sólido onde fixar acampamento, basta explorar esses arredores e seguir seu próprio comando, pressionando em direção aos céus.

OUÇA: “Press Heavenwards!”