2018: Best Albums (Editor’s Choice – André)

10 | PALE WAVES – My Mind Makes Noises

O hype mais certeiro de 2018, My Mind Makes Noises é um electropop divertidíssimo e muito bem construído. Do hit “Television Romance” à introspectiva “Karl (I Wonder What It’s Like To Die)”, o Pale Waves navega por caminhos já trilhados antes por bandas como Chvrches e The 1975, e não há nada de errado nisso. O que o quarteto pode faltar em termos de originalidade eles certamente compensam com a qualidade de suas produções. My Mind Makes Noises é em sua maioria leve e divertido, pra se ouvir no dia a dia enquanto passamos pelas tribulações cotidianas, sem grandes pretensões ou experimentações. Talvez seja exatamente isso que o tornou um disco tão memorável nesse ano que chega ao fim.

OUÇA:  “Television Romance”, “There’s A Honey” e “Drive”


09 | CHVRCHES – Love Is Dead

O terceiro disco do Chvrches nos mostra uma banda muito mais pop e acessível do que qualquer outra coisa que já lançaram antes. Os sintetizadores densos de The Bones Of What You Believe que haviam sido suspensos na maior parte de Every Open Eye fazem aqui seu moderado retorno, mas ainda assim o clima aqui (apesar de seu título) não é muito pesado. Love Is Dead marca a primeira vez na qual o grupo trabalhou com produtores externos, talvez por isso a grande mudança na vibe em relação aos outros dois discos. Isso, nesse caso, está longe de ser algo ruim. “My Enemy”, parceria que conta com vocais de ninguém menos do que Matt Berninger, é um show à parte. O Chvrches tem trilhado uma carreira consistente e interessante nesses anos desde que apareceu, e a coisa aqui não é diferente.

OUÇA: “Deliverance”, “My Enemy” e “Graves”


08 | HARU NEMURI – 春と修羅 「Haru To Shura」

Haru To Shura é um álbum difícil de ser classificado, estranho e extremamente interessante. A japonesa Haru Nemuri caminha livremente entre o dream pop, rap e o noise rock e desafia os gêneros o tempo todo. Lembra daquela coisa que foi o Art Angels da Grimes? Pense isso, mas cantado em japonês e com mais guitarras e é possível chegar perto do que é Haru To Shura. Trata-se do primeiro álbum da moça, seguindo o EP Atom Heart Mother do ano passado, e serve pra firmar Nemuri como um dos mais interessantes nomes da música atual. A moça, que também faz parte do maravilhoso lineup do Primavera Sound 2019, já lançou dois novos singles (“I Wanna” e “Kick In The World”) que mostram que ela não está parando por aqui. Certeza de que muita coisa boa ainda virá de Haru Nemuri, e espero que reconhecimento internacional também faça parte do pacote.

OUÇA: “Sekai Wo Torikae Shite Okure”, “Narashite”, “Underground” e “Yumi Wo Miyou”


07 | DREAM WIFE – Dream Wife

As moças do Dream Wife nos presentearam com um indie punk dosado com a quantidade perfeita de acessibilidade pop e nítidas influências de bandas como Savages, The Libertines, Be Your Own Pet e Bikini Kill. O resultado? Um dos melhores e mais competentes debuts de 2018. Divertidíssimo, cheio de riffs interessantes, letras feministas e universais, e uma urgência, um fogo que não aparece com frequência. O som apresentado por Dream Wife pode não ser nem um pouco original, no final das contas, mas isso não importa nem um pouco quando trata-se de um rock tão bem feito quanto o que elas fizeram. Afinal, a tríade guitarra-baixo-bateria e nada mais funciona desde os ’70 por um motivo. E continua funcionando hoje.

OUÇA: “Fire”, “Hey Heartbreaker”, “Kids” e “Act My Age”


06 | DEATH CAB FOR CUTIE – Thank You For Today

Thank You For Today acabou se revelando uma das maiores surpresas do ano. Mesmo Death Cab for Cutie sendo uma de minhas bandas preferidas há muitos anos, eu admito que seus últimos álbuns pecaram um pouco – desde o Narrow Stairs em 2008 eu não incluía um de seus discos em meu top 10 do ano. Mas Thank You For Today, seu nono álbum de estúdio, superou todas as expectativas. Seu som aqui está muito mais parecido com sua fase ‘anos 2000’ do que com seus últimos trabalhos, e é o seu primeiro desde que o guitarrista e produtor Chris Walla saiu da banda em 2014 (e mesmo assim produzir Kintsugi, lançado em 2015). Thank You For Today soa quase como um presente para os fãs de longa data da banda, um álbum que resgata aquele sentimento que fez você se apaixonar por indie rock em 2005.

OUÇA: “Summer Years”, “Gold Rush” e “Northern Lights”


05 | SCREAMING FEMALES – All At Once

O Sreaming Females, depois de 15 anos de carreira e chegando agora em seu sétimo álbum de estúdio, já se consolidou como uma daquelas bandas das quais você já sabe o que esperar. E All At Once segue exatamente nesse momento. A maior surpresa de  All At Once é a direção quase pop-punk que a banda decidiu tomar; mas, talvez, mais surpreendente ainda seja o fato de que isso não alterou em nada a sua identidade construída nos trabalhos anteriores. Uma das maiores novidades que o Screaming Females nos trouxe em seu novo disco de estúdio é, na verdade, a sua simplicidade;  a banda nos traz os mesmos elementos de punk e metal que sempre fizeram com perfeição, mas dessa vez os misturam com uma produção acessível e fazem de All At Once um dos melhores discos lançados esse ano.

OUÇA: “Agnes Martin”, “Black Moon”, “My Body” e “I’ll Make You Sorry”


04 | LUCY DACUS – Historian

Lucy Dacus, desde o seu debut No Burden, já estava se firmando como uma das maiores compositoras do so-called indie rock atual. A moça, que tem apenas 23 anos, já nos mostra uma maturidade e complexidade invejáveis em seu segundo disco, Historian. “Night Shift”, que abre o disco, já é sozinha uma aglutinação de todos os elogios feitos à moça durante esse ano de 2018 como um todo: uma música extremamente pessoal e que traz Lucy Dacus como uma das melhores e mais interessantes vozes do ano. A moça, além de seu segundo álbum de estúdio, também lançou nesse ano o mini-álbum/EP boygenius composto, gravado e cantado ao lado de Phoebe Bridgers e Julien Baker, que apenas ilustra e consolida Lucy como uma das melhores compositoras de sua geração.

OUÇA: “Night Shift”, “Yours & Mine”, “Addictions” e “Pillar Of Truth”


03 | MITSKI – Be The Cowboy

Be The Cowboy, quinto álbum da maravilhosa Mitski, tinha um trabalho bastante complicado: seguir a obra prima que foi Puberty 2 em 2016. E ela não apenas consegue entregar um disco tão bom quanto o anterior, como lança um dos melhores álbuns de 2018. Be The Cowboy aposta em uma produção diferente do que foi Puberty 2, evitando as guitarras distorcidas e nos trás algo mais limpo e polido, levemente mais eletrônico e tão emocional quanto. ‘I’m a geyser, feel it bubbling from below‘, Mitski canta em “Geyser”, música com a qual abre o álbum. E a partir daí, ela voa. Em Be The Cowboy, Mitski Miyawaki prova mais uma vez que é uma das melhores compositoras de sua geração. Be The Cowboy seguiu um álbum perfeito se igualando a ele e talvez até o superando.

OUÇA: “A Pearl”, “Nobody”, “Washing Machine Heart”, “Geyser”, “Remember My Name”, “Pink In The Night” e “Why Didn’t You Stop Me?”


02 | SNAIL MAIL – Lush

Desde seu EP Habit em 2016 (e sua maravilhosa faixa “Thinning”), Lindsey Jordan e seu Snail Mail já estavam causando barulho na cena indie. Isso com, na época, apenas 16 anos. A moça, inclusive, foi descrita pela Pitchfork como ‘a adolescente mais inteligente do indie rock’ no ano passado. E agora, com Lush, seu primeiro álbum completo, ela ultrapassa todas e quaisquer expectativas. Com um som lindamente influenciado por nomes como Cat Power, Liz Phair, Pavement, Fiona Apple e Sonic Youth (como ela e a própria banda admitem), Lush traz uma Lindsey confiante e muito mais experiente do que aquela que lançou o ótimo Habit – e pouquíssimo tempo se passou. Com Lush, Lindsey rapidamente se coloca no mesmo patamar que nomes como Lucy Dacus e Julien Baker como uma das mais honestas e interessantes vozes do indie rock atual. Se em tão pouco tempo a moça já cresceu tanto e lançou um dos melhores discos do ano, tudo isso antes dos 20, sua carreira promete ser extraordinária. E eu pessoalmente fico no aguardo.

OUÇA: “Pristine”, “Let’s Find An Out”, “Heat Wave”, “Full Control” e “Speaking Terms”


01 | E A TERRA NUNCA ME PARECEU TÃO DISTANTE – Fundação

Desde 2012 com Allelujah! Don’t Bend! Ascend! do Godspeed You! Black Emperor um álbum instrumental não acabava o ano no topo da minha lista de melhores, se me recordo bem. E agora, em 2018, isso acontece de novo com o primeiro álbum completo dos paulistanos E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante, Fundação. E não tinha como ser diferente. Fundação é um álbum que não aparece com frequência, é um álbum impecável, extremamente complexo e emocional que aglutina tudo o que a banda já havia apresentado antes em seus EPs e singles desde 2014. Fundação é um álbum que, como todo bom post-rock, dispensa palavras e apresentações. A banda já havia se provado como uma das melhores e mais intensas do gênero (não apenas pensando em nacionais, mas como um todo) e agora aqui veio a última gota que faltava para sua consolidação. Isso tudo sem falar em seus shows ao vivo… Sendo ou não fã de post-rock eu recomendo a todos assistirem ao E A Terra ao vivo se tiverem a oportunidade. É uma catarse brutal como pouquíssimas outras experiências na vida.

OUÇA: “Karoshi”, “Daiane”, “Como Aquilo Que Não Se Repete”, “Se A Resposta Gera Dúvida, Então Não É A Solução” e “Quando O Vento Cresce E Parece Que Chove Mais”

Death Cab for Cutie – Thank You For Today


Há alguns anos, conheci Death Cab for Cutie meio que por acaso. “Transatlanticism” até hoje é uma das minhas músicas favoritas para aqueles dias que a bad surge do nada. Não consegui me acostumar com os trabalhos que seguiram esse álbum, tão querido por vários. Quando soube que iam lançar material novo, aguardei sem expectativa. E isso foi bom.

Em seu nono álbum, a banda americana nos trouxe, em suma, a definição musical de saudosismo – e um pouco de saudade. Começa logo de cara com uma das melhores músicas, “I Dreamt We Spoke Again”. Utilizando de um artifício característico da banda – batidas animadas, letras depressivas – a música nos apresenta um eu-lírico que, recordando dos momentos de um relacionamento, encara uma conversa unidirecional com a outra parte daquele. Nas palavras do seu autor, a música “fornece uma livre interpretação, (…), não sendo necessariamente sobre a morte de alguém, nem sobre um relacionamento amoroso”.

E o álbum segue. Seu primeiro single, “Gold Rush”, fala sobre como conectamos memórias a lugares físicos (e costumamos não querer que estes mudem, tentando manter aquelas). Mesmo sendo uma música com uma batida animadinha e agradável, gostaria de dar o enfoque (merecido) a música que termina esse disco: “60 & Punk”.

Ben, em uma entrevista recente, explicitou que tal música é sobre quando conhecemos nossos heróis e, como manda o figurino, nos decepcionamos ao descobrir que eles também são humanos. Em especial, no caso de Ben, há um forte envolvimento com alcoolismo, porém (devido à reabilitação da pessoa que ele prefere deixar anônima) há esperança, e o eu-lírico recorda de como foi que essas duas vidas se conectaram.

Deixando de lado a análise das letras, Thank You For Today é agradável de se ouvir (em especial para limpar a casa – experiência própria), além de nos lembrar um pouco daquele Death Cab for Cutie que encantava a internet há alguns anos atrás.

Porque, às vezes, o saudosismo nos faz parar e repensar sobre tudo o que vivemos até aqui. E eles conseguiram colocar vários exemplos disso em dez músicas.

OUÇA: “I Dreamt We Spoke Again”, “When We Drive” e “60 & Punk”.

2015: Best Albums (Staff)

10 | JAMIE XX – In Colour

JAMIEXX2015

Depois de se aventurar remixando um disco de Gil-Scot Heron e dos dois discos do The xx, banda da qual Jamie faz parte, In Colour é o que pode ser chamado de primeiro trabalho solo, de fato, do rapaz. E não há decepção (mesmo que duvide de que alguém apostava que esse seria um disco ruim). A euforia não se mostra de maneira nenhuma rasa: o registro é totalmente introspectivo. Mesmo em músicas como “I Know There’s Gonna Be (Good Times)”, um dancehall que pode até parece Major Lazer ao ouvido mais desavisado, o gesto de dançar aqui quase convoca a quem ouve a se examinar. A paisagem sonora é densa, com sussurros e distorções, demandando atenção de quem ouve para apreender cada mínimo detalhe: cheio de vocais indefiníveis, ruídos e uma produção cíclica, uma das grandes sacadas é a mixagem do orgânico com os sons sintetizados, como a guitarra sempre afiada de Romy Croft, além dos seus vocais adocicados e sussurrados, como uma confissão. Excelente disco que pode até ser tocado em alguma festa, mas possui, como toda grande obra, força o bastante para permanecer relevante em qualquer outra situação da vida.

por Daniel de Matos

OUÇA: “I Know There’s Gonna Be (Good Times)” e “Loud Places”

________________________________________________

09 | DEATH CAB FOR CUTIE – Kintsugi

DEATCHBA2015

Estar em constante mudança por praticamente doze anos é uma qualidade para poucas bandas: Ben Gibbard e seus garotos do Death Cab for Cutie parecem conseguir em cada novo trabalho. Com Kintsugi, seu oitavo álbum de estúdio, esse desejo de recriar-se é maior ainda. Com a saída de Chris Walla, guitarrista e um dos principais responsáveis pelo lado criativo da banda, houve essa urgência aparente de mostrar um novo lado, e que ainda assim, conseguisse criar laços ao passado. Cheio de melancolia e canções sobre amores amargos, em suas onze faixas, o disco representa justamente o que seria o significado de seu nome. Kintsugi é o nome de uma técnica japonesa para consertar cerâmicas, e o álbum soa com sua proposta de renovação em meio as perdas que passamos pela vida. Com toda delicadeza lírica de Gibbard e melodias que embalam este novo momento da banda, Kintsugi é o caminho mais certo e seguro entre a ligação da nostalgia do que o Death Cab sempre representou em seu cenário, e o frescor encontrado na maturidade ao longo de todos esses anos.

por Tatiana Kolenczuk

OUÇA: “Little Wanderer”, “You’ve Haunted Me All My Life” e “Hold No Guns”

________________________________________________

07 | CHVRCHES – Every Open Eye 

Cover

Sob os temores que rondam o segundo álbum, os escoceses do Chvrches lançaram em 2015 o Every Open Eye. O sucesso do debut ficara para trás por uns instantes e agora eles não são mais uma banda com um grande disco. Conseguiram a façanha de repetir o sucesso com o segundo também, para o nosso alivio. Um álbum maduro para um projeto tão novo. Um disco completo, intenso, consistente, com boas referências e que dá orgulho ao escutar. Orgulho em saber que o gênero que eles carregam está tão bem representado. Nos faz crer que a banda que está apenas no começo, tem um ótimo futuro pela frente. Em seus segundos iniciais, Lauren, Iain e Martin nos entregam, sem nenhum aviso, uma enxurrada de synth pop de qualidade e que decresce levemente até seu fim. No susto, somos surpreendidos por um álbum capaz de nos deixar sem fôlego e com uma única vontade: de deixa-lo tocar solto e dançar.

por Carolina Amorim

OUÇA: “Leave A Trace” e “Never Ending Circles”

________________________________________________

07 | BELLE AND SEBASTIAN – Girls In Peacetime Want To Dance

BELLE2015

Que massagem nos ouvidos e na alma que é o álbum Girls In Peacetime Want To Dance… O Belle and Sebastian, que já foi folk, já foi twee pop, já foi soft pop e até indie experimental, surge em 2015 com o pé afundado no pop. Isso mesmo, o cachorro velho aprendeu os truques novos e lançou um disco cheio de sons eletrônicos, sintetizadores e vozes com efeitos de estúdio. Nunca se viu um Belle and Sebastian tão produzido e dançante. Isso não significa que não se encontre a raiz freaky folk do grupo ou que a altíssima qualidade das letras tenha caído. Está tudo lá, bem fácil de encontrar debaixo desse novo traje que a banda adotou.

por João Victor Krieger

OUÇA: “Play For Today”, “Ever Had A Little Faith” e “Nobody’s Empire”

________________________________________________

06 | TAME IMPALA – Currents

TAME2015

Foram inúmeras as acusações ao Currents, discursos saudosistas ou comparativos que reivindicavam o antigo Tame Impala de volta. Por que nosso referencial daquilo que é bom está sempre no passado e nunca no vir a ser? Em clima mais introspectivo que de costume, é verdade, a lisergia, as outras dimensões e os relacionamentos conflituosos estão presentes: movimentamo-nos por tais temáticas e por entre nossas próprias reflexões. O resultado final são melodias bem trabalhadas que parecem não ter fim, não pelo tempo de duração, mas pelos caminhos que são capazes nos levar. Para aqueles que os sentimentos vividos foram de encontro com a proposta do Currents, o disco não poderia ser melhor, tanto para compor a discografia da banda quanto a playlist dos ouvintes. Ouvir, inclusive, não é nossa única função diante do disco, que conta com uma capa inspirada e três videoclipes de canções que ilustram e compõe sua narrativa. As mudanças nesse ano não se deram só para a musicalidade do Tame Impala, mas para todos os seres inseridos nessa dinâmica do tempo que passa sem avisar.

por Marta Barbieri

OUÇA: “The Less I Know The Better”, “New Person, Same Old Mistakes” e “Let It Happen”

________________________________________________

05 | FOALS – What Went Down

MELHORESfoals

Com som mais pesado e cheio de atitude, a banda britânica Foals concebeu seu quarto álbum de estúdio, sendo este um legítimo álbum de indie rock da melhor qualidade. É fato que desde seu último registro Holy Fire, a banda vem percorrendo caminhos que se distanciam do leve math rock do começo de sua carreira, entretanto, arquitetam aqui um som que transforma a identidade do Foals em algo singular e característico do grupo. Se há uma palavra para definir este álbum é o “equilibrio”, que fomenta um trajeto que vai desdes os reverbs de guitarra mais violentos aos calmos vocais do vocalista Yannis Philippakis. Com melodias e clímax muito bem construídos, o álbum apresenta a virtude de promover uma verdadeira imersão ao som intenso do grupo. Do caos a calmaria, o What Went Down é um marco importante para a carreira de uma banda que consegue se renovar constantemente.

por Flávia Denise

OUÇA: “Give It All”, “What Went Down” e “Mountain At My Gates”

________________________________________________

04 | GRIMES – Art Angels

GRIMES2015

Depois de seduzir os amantes de músicas alternativas, Grimes fez o mesmo com quem não fica sem canções pegajosas. O diferencial da artista foi criar um tipo de música chiclete que, além de ter melodias grudentas, possui conteúdo de sobra, graças a letras que ressoam não apenas com o público da cantora, acostumado à peculiaridade da canadense. Aliás, o fato de ser pop até a medula não faz de Art Angels uma obra que destoa da discografia da Grimes, afinal, trata-se apenas de um passo arriscado e certeiro, capaz de proporcionar um pop ao mesmo tempo acessível, estranho e experimental. Se o álbum se chamasse Catarse, ele estaria representado adequadamente, pois é exatamente isso que ele provoca.

por Ronaldo Trancoso

OUÇA: “Kill V. Maim”, “Flesh Without Blood” e “REALiTi”

________________________________________________

03 | FLORENCE AND THE MACHINE – How Big How Blue How Beatiful

FLORENCE2015

Depois de quase quatro anos sem material inédito – com exceção de algumas faixas para soundtracks – Florence and The Machine volta ao spotlight melhor do que nunca. Equalizando o melhor de seus dois ábuns anteriores, Lungs e Ceremonials, How Big How Blue How Beautiful é uma obra cíclica, lírica e coesa. Não passa a imagem sacra de Ceremonials, nem rebelde de Lungs, e observamos uma Florence mais à vontade consigo mesma, com composições ainda mais pessoais. How Big How Blue How Beautiful tem uma produção impecável, que também pode ser observada na “The Odyssey”, sequência de clipes que contam uma bonita e sensível história repleta de danças e simbolismos, do jeitinho que Flo adora. Não por menos, o novo material recebeu cinco indicações ao Grammy e a banda está excursionando mundo afora com sua nova turnê.

por Luca Serrachioli

OUÇA: “What Kind Of Man”, “Queen Of Peace” e “Delilah”

________________________________________________

02 | SUFJAN STEVENS – Carrie & Lowell

SUFJAN2015

Talvez este seja o álbum mais delicado do ano. Sufjan Stevens compôs Carrie & Lowell como tentativa de exorcizar os demônios da relação com sua mãe e que foram revigorados com a recente morte dela. Não há dúvidas de que o destaque fica por conta das letras. O poder e a sinceridade da poesia de Stevens é de cortar o coração. É impossível ouvir o disco e não compartilhar de sua dor. Como música, o disco funciona bem como um todo e tem uma estrutura bastante linear. As canções se caracterizam pelo violão suavemente dedilhado, a voz doce quase sussurrada e ausência de percussão. Nenhum minuto é supérfluo e as canções se encaixam em perfeita harmonia. Descrever Carrie & Lowell em uma palavra: tocante. Em duas palavras: tocante e imperdível.

por Angelo Fadini

OUÇA: “Should Have Known Beter”, “Fourth Of July”, “The Only Thing” e “Death With Dignity”

________________________________________________

01 | KENDRICK LAMAR – To Pimp A Butterfly

KENDRICK2015

Kendrick Lamar é o homem do ano. To Pimp A Butterfly é com a absoluta certeza a obra mais bem pensada e arquitetada desse 2015. Tudo se encaixa, as músicas são feitas para seguirem umas com a outras, todo o significado por trás está lá. E tudo isso depois da esnobada tremenda do Grammy há 3 anos atrás. Kendrick pode surgir como um expoente de uma geração, alguém que marque uma era (ou não, mas sabemos que esse ano foi marcado por ele). Tudo que envolve o disco carrega uma mensagem por trás (os protestos de Ferguson com as pessoas cantando “Alright” é uma prova do hino que Lamar canta). Não sabemos o futuro, nem deveremos saber, mas podemos afirmar que 2015 será lembrado como o ano de Kendrick.

por Heitor Facini

OUÇA: “Alright”, “King Kunta” e “i”

Death Cab for Cutie – Kintsugi

cab

_______________________________________

Imagino que não há muita necessidade de ficar explicando quem é Death Cab for Cutie, então vou pular essa parte e falar logo sobre Kintsugi, seu oitavo álbum e primeiro em alguns sentidos. Listá-los-ei agora, antes de mais nada:

  • Primeiro álbum da banda que não foi produzido por um de seus membros;
  • Primeiro álbum desde que Chris Walla anunciou que estaria os deixando (contudo, ele ficou até sua gravação e produção ser finalizada);
  • Primeiro álbum desde que Ben Gibbard se separou de Zooey Deschanel;
  • Primeiro álbum em quatro anos, marcando o período mais longo entre trabalhos.

Kintsugi, já começando por seu título, revela que será um álbum sobre a reparação de algo que foi quebrado, e ele excede as expectativas nesse sentido não se tornando em momento algum o clichê emo que muitas bandas já fizeram. Pra quem não sabe, kintsugi é o nome de uma técnica japonesa que consiste basicamente em consertar usando ouro, prata ou platina alguma peça de cerâmica que foi quebrada. A ideia é evidenciar as rachaduras com o metal precioso no lugar de disfarçá-las e ao mesmo tempo torná-la mais valiosa e bonita do que era antes de quebrar. Uma metáfora extremamente apropriada para Kintsugi, o álbum.

Se o anterior Codes & Keys já indicava ser uma espécie de transição em relação aos trabalhos passados, Kintsugi mostra que a transição foi completada. Focando-se muito mais em guitarras elétricas do que nos pianos de outrora, o Death Cab for Cutie parece novo e revigorado. As guitarras são elétricas, mas os riffs são cristalinos e compostos em sua grande maioria por notas e não acordes. Aquela coisa que junto com a bateria cria instantaneamente uma atmosfera mais dançante do que estamos acostumados com o Death Cab (pré-Codes & Keys). Há leves experimentalismos que dão certo, e o sentimento que predomina no álbum é o de serenidade, de calma. Na verdade, parece se tratar de outra banda completamente e tentar compará-los hoje com o Death Cab que fez Transatlanticism e Plans não faz sentido nenhum.

E essa é a única forma de apreciar (e, mais do que isso, entender) o Death Cab for Cutie que fez Kintsugi – Ben Gibbard sem dúvida teve alguns anos difíceis desde seu último álbum, com seu divórcio tanto da esposa quanto do parceiro e produtor com o qual esteve junto no Death Cab desde que a banda começou. Não é mais a mesma banda, e nem o mesmo Ben, de 2003 e não há como esperar que seja. No entanto, Ben usou essas experiências para criar um álbum que é ao mesmo tempo introspectivo, dançante e quase espiritual. Suas letras continuam se baseando em metáforas bem construídas e, se é pra comparar com alguma coisa, ele está mais próximo do The People’s Key do Bright Eyes do que de algo que eles mesmo já fizeram antes (mas mesmo assim não muito).

Kintsugi não é um álbum que apresenta muitos defeitos, pra falar a verdade. Existe uma certa estranheza que o permeia, mas ela está longe de ser algo necessariamente negativo. Mas se é um álbum bom, por que sua nota aqui é uma interrogação? Bem, única e simplesmente por que suas faixas no geral não parecem pertencer a um álbum do Death Cab for Cutie, com poucas exceções. É um álbum tecnicamente ótimo, com uma produção interessante e é lindo ver o Death Cab fazendo algo diferente assim dar certo. Mas, no meio da reparação dos cacos de sua vida, Ben Gibbard parece ter esquecido de colocar o pedaço que é a essência do Death Cab no meio.

OUÇA: “Black Sun”, “The Ghosts Of Beverly Drive”, “Little Wanderer”, “Good Help (Is So Hard To Find)” e “You’ve Haunted Me All My Life”