Clairo – Immunity



Nessa mesma época em 2017, se você procurasse por Clairo ou ouvisse alguém falando sobre, era bem provável que a primeira informação que chegaria até você seria algo sobre “bedroom pop” ou que ela, Clairo, era a responsável pelas músicas chiclete (“Pretty Girl” e “Flaming Hot Cheetos”) que volta e meia o Spotify insistia em colocar na sua lista de músicas recomendadas.

Assim como muitos nomes do bedroom pop, Clairo construiu sua carreira musical em meio ao Soundcloud e Tumblr, com videoclipes gravados na webcam do computador e melodias de 3 ou 4 acordes feitas no Garageband. Agora, dois anos depois, ao lado de nomes como Cuco e Rex Orange County (que também vieram do bedroom pop) e com algumas parcerias de peso (SG Lewis, Mura Masa, Wallows), a nova realidade é que Clairo, Claire Cottrill, é o que melhor representa a mistura do pop e soft rock jovem em grandes festivais de música mundo afora.

Em seu primeiro álbum de estúdio, Immunity, Cottrill reforça o que a faixa “4EVER” do EP diary 001 (2018) já anunciava: uma nova era de produção, com vocais mais claros e arranjos mais elaborados, mas sem perder a essência lo-fi e chill beats que marcavam as músicas anteriores.

Não é à toa que a excelente produção do álbum ficou por conta de Rostam Batmanglij, ex-Vampire Weekend e que já produziu para nomes fortes do pop, indie e R&B como Carly Rae Jepsen, HAIM, Charli XCX e Frank Ocean. E por falar em HAIM, algumas faixas do disco contam com a ajuda de Danielle Haim na bateria.

Assim como o nome indica, Immunity trata de alguns assuntos delicados, como descobrir e lidar com a sexualidade (“Bags”, “Sofia”, “Softly”); a relação de Cottrill com artrite reumatoide juvenil e como a doença afeta o seu dia-a-dia (“Sinking”, “I Wouldn’t Ask You”); depressão (“Alewife”) e relacionamentos passados com corações partidos (“White Flag”, “Feel Something”).

O disco é recheado de músicas sinceras e emocionais, com influência clara de álbuns como o Blue (1971) de Joni Mitchell, mas o ponto alto do fica por conta de faixas como “Bags” e “I Wouldn’t Ask You”.

Em “Bags”, é impossível não compartilhar da ansiedade de Clairo sobre gostar de alguma amiga/amigo próximo (em entrevista ao site Genius, Cottrill afirmou que a música é sobre uma de suas primeiras experiências gostando de meninas). A faixa fala sobre não saber lidar com o novo sentimento, e que no final, ter qualquer interação com a pessoa, mesmo que sejam apenas pequenos momentos descontraídos como sentar no sofá e assistir TV, seria melhor do que declarar seus sentimentos e a pessoa eventualmente ir embora (“I guess this could be worse / Walking out the door with your bags”).

Já “I Wouldn’t Ask You”, a faixa de quase 7 minutos que fecha o álbum, é uma emocionante carta de agradecimento que Cottrill dedica à um antigo namorado que a ajudou e a acompanhou no hospital durante períodos de crise de sua artrite reumatoide. A faixa tem dois grandes momentos, com o primeiro sendo uma produção simples, que consiste basicamente em um piano e o vocal, acompanhada por um coral de crianças cantando em loop o verso “I wouldn’t ask you to take care of me”, que por sua vez reforça o sentimento de invalidez de Cottrill perante a situação. O segundo momento é mais upbeat e retrata o momento em que Clairo se da conta do amor e gratidão que sentia pelo parceiro.

Considerando todas as faixas, Immunity mostra o desejo de Clairo e Rostam de pavimentarem um novo caminho, experimentando novos sons e estilos musicais, flertando com o indie rock anos 2000 à lá Strokes em “Sofia” e até uma pegada mais R&B com lo-fi beats em “Softly”.

Com esse álbum de estreia, Clairo mostra para todos que apostavam que ela seria apenas uma One Hit Wonder, ou que ela nunca sairia do seu quarto e continuaria criando melodias no Garageband, que ela na verdade tem potencial e repertório de sobra, e vem ganhando espaço na cena atual junto à outras artistas LGBTQ+ como Snail Mail, girl in red e King Princess.

Músicas como as de Cottrill se fazem cada vez mais necessárias e especiais, principalmente pela naturalidade, sinceridade e delicadeza com que os assuntos são retratados em suas letras. No final, Immunity é como a própria foto da arte de capa: acolhedor, tímido, simples e cativante, mas sem tentar demais.

OUÇA: “North”, “Bags”, “Impossible” e “I Wouldn’t Ask You”