2018: Best Albums (Editor’s Choice – André)

10 | PALE WAVES – My Mind Makes Noises

O hype mais certeiro de 2018, My Mind Makes Noises é um electropop divertidíssimo e muito bem construído. Do hit “Television Romance” à introspectiva “Karl (I Wonder What It’s Like To Die)”, o Pale Waves navega por caminhos já trilhados antes por bandas como Chvrches e The 1975, e não há nada de errado nisso. O que o quarteto pode faltar em termos de originalidade eles certamente compensam com a qualidade de suas produções. My Mind Makes Noises é em sua maioria leve e divertido, pra se ouvir no dia a dia enquanto passamos pelas tribulações cotidianas, sem grandes pretensões ou experimentações. Talvez seja exatamente isso que o tornou um disco tão memorável nesse ano que chega ao fim.

OUÇA:  “Television Romance”, “There’s A Honey” e “Drive”


09 | CHVRCHES – Love Is Dead

O terceiro disco do Chvrches nos mostra uma banda muito mais pop e acessível do que qualquer outra coisa que já lançaram antes. Os sintetizadores densos de The Bones Of What You Believe que haviam sido suspensos na maior parte de Every Open Eye fazem aqui seu moderado retorno, mas ainda assim o clima aqui (apesar de seu título) não é muito pesado. Love Is Dead marca a primeira vez na qual o grupo trabalhou com produtores externos, talvez por isso a grande mudança na vibe em relação aos outros dois discos. Isso, nesse caso, está longe de ser algo ruim. “My Enemy”, parceria que conta com vocais de ninguém menos do que Matt Berninger, é um show à parte. O Chvrches tem trilhado uma carreira consistente e interessante nesses anos desde que apareceu, e a coisa aqui não é diferente.

OUÇA: “Deliverance”, “My Enemy” e “Graves”


08 | HARU NEMURI – 春と修羅 「Haru To Shura」

Haru To Shura é um álbum difícil de ser classificado, estranho e extremamente interessante. A japonesa Haru Nemuri caminha livremente entre o dream pop, rap e o noise rock e desafia os gêneros o tempo todo. Lembra daquela coisa que foi o Art Angels da Grimes? Pense isso, mas cantado em japonês e com mais guitarras e é possível chegar perto do que é Haru To Shura. Trata-se do primeiro álbum da moça, seguindo o EP Atom Heart Mother do ano passado, e serve pra firmar Nemuri como um dos mais interessantes nomes da música atual. A moça, que também faz parte do maravilhoso lineup do Primavera Sound 2019, já lançou dois novos singles (“I Wanna” e “Kick In The World”) que mostram que ela não está parando por aqui. Certeza de que muita coisa boa ainda virá de Haru Nemuri, e espero que reconhecimento internacional também faça parte do pacote.

OUÇA: “Sekai Wo Torikae Shite Okure”, “Narashite”, “Underground” e “Yumi Wo Miyou”


07 | DREAM WIFE – Dream Wife

As moças do Dream Wife nos presentearam com um indie punk dosado com a quantidade perfeita de acessibilidade pop e nítidas influências de bandas como Savages, The Libertines, Be Your Own Pet e Bikini Kill. O resultado? Um dos melhores e mais competentes debuts de 2018. Divertidíssimo, cheio de riffs interessantes, letras feministas e universais, e uma urgência, um fogo que não aparece com frequência. O som apresentado por Dream Wife pode não ser nem um pouco original, no final das contas, mas isso não importa nem um pouco quando trata-se de um rock tão bem feito quanto o que elas fizeram. Afinal, a tríade guitarra-baixo-bateria e nada mais funciona desde os ’70 por um motivo. E continua funcionando hoje.

OUÇA: “Fire”, “Hey Heartbreaker”, “Kids” e “Act My Age”


06 | DEATH CAB FOR CUTIE – Thank You For Today

Thank You For Today acabou se revelando uma das maiores surpresas do ano. Mesmo Death Cab for Cutie sendo uma de minhas bandas preferidas há muitos anos, eu admito que seus últimos álbuns pecaram um pouco – desde o Narrow Stairs em 2008 eu não incluía um de seus discos em meu top 10 do ano. Mas Thank You For Today, seu nono álbum de estúdio, superou todas as expectativas. Seu som aqui está muito mais parecido com sua fase ‘anos 2000’ do que com seus últimos trabalhos, e é o seu primeiro desde que o guitarrista e produtor Chris Walla saiu da banda em 2014 (e mesmo assim produzir Kintsugi, lançado em 2015). Thank You For Today soa quase como um presente para os fãs de longa data da banda, um álbum que resgata aquele sentimento que fez você se apaixonar por indie rock em 2005.

OUÇA: “Summer Years”, “Gold Rush” e “Northern Lights”


05 | SCREAMING FEMALES – All At Once

O Sreaming Females, depois de 15 anos de carreira e chegando agora em seu sétimo álbum de estúdio, já se consolidou como uma daquelas bandas das quais você já sabe o que esperar. E All At Once segue exatamente nesse momento. A maior surpresa de  All At Once é a direção quase pop-punk que a banda decidiu tomar; mas, talvez, mais surpreendente ainda seja o fato de que isso não alterou em nada a sua identidade construída nos trabalhos anteriores. Uma das maiores novidades que o Screaming Females nos trouxe em seu novo disco de estúdio é, na verdade, a sua simplicidade;  a banda nos traz os mesmos elementos de punk e metal que sempre fizeram com perfeição, mas dessa vez os misturam com uma produção acessível e fazem de All At Once um dos melhores discos lançados esse ano.

OUÇA: “Agnes Martin”, “Black Moon”, “My Body” e “I’ll Make You Sorry”


04 | LUCY DACUS – Historian

Lucy Dacus, desde o seu debut No Burden, já estava se firmando como uma das maiores compositoras do so-called indie rock atual. A moça, que tem apenas 23 anos, já nos mostra uma maturidade e complexidade invejáveis em seu segundo disco, Historian. “Night Shift”, que abre o disco, já é sozinha uma aglutinação de todos os elogios feitos à moça durante esse ano de 2018 como um todo: uma música extremamente pessoal e que traz Lucy Dacus como uma das melhores e mais interessantes vozes do ano. A moça, além de seu segundo álbum de estúdio, também lançou nesse ano o mini-álbum/EP boygenius composto, gravado e cantado ao lado de Phoebe Bridgers e Julien Baker, que apenas ilustra e consolida Lucy como uma das melhores compositoras de sua geração.

OUÇA: “Night Shift”, “Yours & Mine”, “Addictions” e “Pillar Of Truth”


03 | MITSKI – Be The Cowboy

Be The Cowboy, quinto álbum da maravilhosa Mitski, tinha um trabalho bastante complicado: seguir a obra prima que foi Puberty 2 em 2016. E ela não apenas consegue entregar um disco tão bom quanto o anterior, como lança um dos melhores álbuns de 2018. Be The Cowboy aposta em uma produção diferente do que foi Puberty 2, evitando as guitarras distorcidas e nos trás algo mais limpo e polido, levemente mais eletrônico e tão emocional quanto. ‘I’m a geyser, feel it bubbling from below‘, Mitski canta em “Geyser”, música com a qual abre o álbum. E a partir daí, ela voa. Em Be The Cowboy, Mitski Miyawaki prova mais uma vez que é uma das melhores compositoras de sua geração. Be The Cowboy seguiu um álbum perfeito se igualando a ele e talvez até o superando.

OUÇA: “A Pearl”, “Nobody”, “Washing Machine Heart”, “Geyser”, “Remember My Name”, “Pink In The Night” e “Why Didn’t You Stop Me?”


02 | SNAIL MAIL – Lush

Desde seu EP Habit em 2016 (e sua maravilhosa faixa “Thinning”), Lindsey Jordan e seu Snail Mail já estavam causando barulho na cena indie. Isso com, na época, apenas 16 anos. A moça, inclusive, foi descrita pela Pitchfork como ‘a adolescente mais inteligente do indie rock’ no ano passado. E agora, com Lush, seu primeiro álbum completo, ela ultrapassa todas e quaisquer expectativas. Com um som lindamente influenciado por nomes como Cat Power, Liz Phair, Pavement, Fiona Apple e Sonic Youth (como ela e a própria banda admitem), Lush traz uma Lindsey confiante e muito mais experiente do que aquela que lançou o ótimo Habit – e pouquíssimo tempo se passou. Com Lush, Lindsey rapidamente se coloca no mesmo patamar que nomes como Lucy Dacus e Julien Baker como uma das mais honestas e interessantes vozes do indie rock atual. Se em tão pouco tempo a moça já cresceu tanto e lançou um dos melhores discos do ano, tudo isso antes dos 20, sua carreira promete ser extraordinária. E eu pessoalmente fico no aguardo.

OUÇA: “Pristine”, “Let’s Find An Out”, “Heat Wave”, “Full Control” e “Speaking Terms”


01 | E A TERRA NUNCA ME PARECEU TÃO DISTANTE – Fundação

Desde 2012 com Allelujah! Don’t Bend! Ascend! do Godspeed You! Black Emperor um álbum instrumental não acabava o ano no topo da minha lista de melhores, se me recordo bem. E agora, em 2018, isso acontece de novo com o primeiro álbum completo dos paulistanos E A Terra Nunca Me Pareceu Tão Distante, Fundação. E não tinha como ser diferente. Fundação é um álbum que não aparece com frequência, é um álbum impecável, extremamente complexo e emocional que aglutina tudo o que a banda já havia apresentado antes em seus EPs e singles desde 2014. Fundação é um álbum que, como todo bom post-rock, dispensa palavras e apresentações. A banda já havia se provado como uma das melhores e mais intensas do gênero (não apenas pensando em nacionais, mas como um todo) e agora aqui veio a última gota que faltava para sua consolidação. Isso tudo sem falar em seus shows ao vivo… Sendo ou não fã de post-rock eu recomendo a todos assistirem ao E A Terra ao vivo se tiverem a oportunidade. É uma catarse brutal como pouquíssimas outras experiências na vida.

OUÇA: “Karoshi”, “Daiane”, “Como Aquilo Que Não Se Repete”, “Se A Resposta Gera Dúvida, Então Não É A Solução” e “Quando O Vento Cresce E Parece Que Chove Mais”

2018: Best Albums (Editor’s Choice – Henrique)

10 | LE CORPS MINCE DE FRANÇOISE – Sad Bangers

Apesar de nunca terem oficialmente parado de lançar coisas novas, a dupla da Finlândia não lança algo em duração completa desde 2011. São por volta de sete anos de diferença entre o primeiro álbum e esse segundo, mas a animação e a música boa continuam vivas aqui como eram lá – Love & Nature com sua icônica capa de ovo frito apareceu em minha lista de melhores do ano, inclusive. Sad Bangers não é exatamente algo que soe tão fresco e interessante quanto o Love & Nature, mas tem sintetizadores bem colocados com letras feministas, pessoais e muito necessárias para o momento em que vivemos, deixando o disco temporal e propício, mesmo que lançado no susto.

OUÇA: “Another Sucker”, “Thank God I Didn’t Get To Know You At All” e “Glitter”


09 | DUDA BEAT – Sinto Muito

Eu fui muito relutante para começar a ouvir a Duda Beat de fato. Ouvi e re-ouvi o Sinto Muito algumas vezes antes de pensar no quão bonito e bem feito era o som da cantora de Recife. Isso tudo porque Duda aparece um pouco fora das caixinhas de gênero que tenho ouvido muito recentemente, mas Sinto Muito é extremamente arrebatador e apaixonante. Duda Beat consegue cativar em diversas frentes e de diversas maneiras, seja com o seu sotaque carregado mesmo na cantoria ou seja em sua melodia que casa perfeitamente com sua voz doce, Duda mostra um primeiro trabalho eficaz e certeiro. mostrando que está mais do que pronta para conquistar o Brasil e o mundo.

OUÇA: “Bédi Beat”, “Bixinho” e “Bolo De Rolo”


08 | VANCE JOY – Nation Of Two

O Vance Joy tem tudo para ser ídolo de 8 em cada 10 garotinhas indies fofas. E isso não é ruim. Vance Joy faz parte de uma entoada de artistas que está usando o folk de maneira a se aproximar do pop. Nation Of Two chega para desprender o australiano do seu maior hit até agora – “Riptide”, do primeiro disco lá de 2014 – e traz uma nova coleção de hits bastante chicletes para você cantarolar junto. Nation Of Two tem melodias fortes e cativantes e, no fim das contas, é um álbum bastante gostoso de ouvir e nada muito além disso, nada muito genial, nada com letras inteligentes, apenas um álbum de folk que tem os elementos certos para fazer do disco algo concreto e interessante.

OUÇA: “Call If You Need Me”, “We’re Going Home”, “Saturday Sun” e “One Of These Days”


07 | CONFIDENCE MAN – Confident Music For Confident People

Eu adoro descobrir bandas do nada. Confidence Man é um exemplo disso. A banda é desconhecida do grande público, mas esse primeiro álbum é uma coletânea de pérolas da melhor estirpe. Primos longínquos do Cansei de Ser Sexy e do Natalie Portman’s Shaved Head, o Confidence Man faz música séria com cara de escrachada (ou seria o contrário?) e consegue cativar com batidas simples e letras toscas.

OUÇA: “Try Your Luck”, “Don’t You Know I’m In A Band” e “Boyfriend (Repeat)”


06 | CHVRCHES – Love Is Dead

Perdi um pouco a vontade de Chvrches depois de não ter apreciado tanto assim o segundo disco do trio, o Every Open Eye e cheguei a pensar que eles provavelmente não lançariam outra coisa tão boa ou melhor que o The Bones Of What You Believe. Ainda bem que eu estava enganado e o Chvrches entrega pra gente agora em 2018 o Love Is Dead, terceiro disco da carreira e com músicas que figuram, facilmente, entre as melhores do trio. Com uma entoada mais puxada para o pop e com uma presença de sintetizadores não tão marcantes, o Chvrches se apoia muito mais na voz de Lauren do que em todo o resto, criando um som bem distante do anterior e um pouco próximo do primeiro álbum.

OUÇA: “Graffiti”, “Get Out”, “Forever” e “Heaven/Hell”


05 | NATALIE PRASS – The Future And The Past

Foi quase que o homônimo disco de estreia da Natalie Prass apareceu na minha lista de melhores do ano lá em 2015. Com sua voz pitoresca no maior estilo musical da Disney, Natalie abandona um pouco essa persona fofinha e segue como um mulherão poderoso em The Future And The Past, revelando músicas que figuram, facilmente, nas melhores do ano. O que faltou para o primeiro disco aparecer numa lista de melhores do ano aparece de sobra aqui. Prass apara com folga e leveza as pontas soltas e faz um som com um ar menos etéreo e mais focado no indie pop cativante que ela chegou a fazer em músicas como “Bird Of Prey”, colocando a cantora num patamar próximo de contemporâneas como Courtney Barnett, Lianne La Havas e NAO.

OUÇA: “Oh My”, “Shourt Court Style”, “The Fire” e “Sisters”


04 | CAROLINE ROSE – LONER

LONER tem uma cara de primeiro disco, mas não é a primeira empreitada da interessante Caroline Rose. Depois de não ter muita atenção lançando álbuns que beiravam o country, a moça dos EUA decidiu inovar e repaginou sua carreira. LONER tem músicas escrachadas, no estilo historinha, rápidas e certeiras. É um com um humor ácido que Rose cativa uma certa audiência com seu disco, mas ainda não está fadada a ser descoberta pelo grande público, infelizmente. A pérola desse terceiro álbum da cantora parece inaugurar uma nova chance de uma carreira interessante e empolgante.

OUÇA: “More Of The Same”, “Jeannie Becomes A Mom” e “Soul No.5”


03 | GEORGE EZRA – Staying At Tamara’s

Depois de “Budapest” ficou díficil pensar que o George Ezra conseguiria se afastar de uma música tão popular. O resultado e a guinada para outra direção demoraram menos do que a gente esperava. Staying At Tamara’s é o segundo disco do jovem da Inglaterra e é muito mais bem preparado, certeiro e interessante do que o primeiro álbum que revelou o hit, mas ainda assim dentro do seu folk original. Há aqui algo muito mais sólido e bem feito do que o debut, que elevam a atmosfera do álbum em patamares que não pareciam ser conquistáveis por alguém da estirpe de Ezra. Com um disco desses, é fácil falar que agora o rapaz tem cadeira cativa no hall de grandes vozes da música britânica.

OUÇA: “Pretty Shining People”, “Get Away”, “Shotgun” e “Paradise”


02 | THE VACCINES – Combat Sports

Assim como o primeiro lugar, o Vaccines demorou para lançar algo tão interessante quanto o primeiro disco, mas dessa vez acertou a mão em cheio. De banda querida da NME em 2010 e 2011 a um desastre de 2012 em diante, a banda do Reino Unido acaba mostrando um som mais rápido e inteligente em seu quarto álbum, o digno Combat Sports de 2018. Justin e seus parceiros aparecem de cara mais limpa, renovados e com um hiato mais considerável entre discos – o último tinha sido em 2015 – o que deixa as coisas mais frescas e bacanas para a banda. Talvez o mundo não aprecie bandas nesse estilo tanto mais quanto apreciava lá em 2010, mas o Vaccines está voltando a fazer algo interessante e merece retomar sua coroa de volta de guitar band mais interessante da década.

OUÇA: “Put It On A T-Shirt”, “I Can’t Quit”, “Your Love Is My Favourite Band”, “Out On The Street” e “Take It Easy”


01 | MGMT – Little Dark Age

O MGMT demorou três álbuns para fazer outra coisa interessante. Demorou, demorou, mas fez com gosto. Little Dark Age não tem quase nenhum defeito e aponta o duo novamente para uma estrada cheia de oportunidades e de esperança. A banda voltou a figurar em espaços importantes em grandes festivais, fez uma turnê exaustiva ao redor do globo com as músicas novas, apareceu em programas de TV com uma roupagem mais interessante e cativou logo no primeiro single. Órfãos do Oracular Spectacular que esperavam algo tão bom quanto esse primeiro álbum podem ficar mais sossegados agora e torcer para que eles não percam a mão, novamente.

OUÇA: “Little Dark Age”, “When You Die” e “Me And Michael”

Chvrches – Love Is Dead


Chvrches, o trio escocês formado por Lauren Mayberry, Iain Cook e Martin Doherty lança seu novo álbum intitulado Love Is Dead. A banda que já possui em sua trajetória álbuns como The Bones Of What You Believe (2013) e Every Open Eye (2015), acaba de chegar em seu terceiro álbum com um título que nos chama atenção Love Is Dead, mas não é só o título que nos chama atenção, não é mesmo? Chvrches costumava produzir seus próprios álbuns, mas dessa vez chamaram o produtor Greg Kurstin para o novo registro e isso pode ser uma forte evidência de que a banda agora deseja mostrar uma outra faceta e buscar uma determinada audiência que não víamos nos registros anteriores.

Mas, qual faceta é essa? Bom, Love Is Dead chega mais Pop do que nunca, mostrando descaradamente a vontade de emplacar de algum modo, de circular, de embalar, ou seja, aqui vemos um Chvrches com vontade de circular, de buscar uma outra projeção, de ser mais acessível de algum modo, e por isso, de modo geral, as faixas soam menos como o Chvrches que conhecemos em trabalhos anteriores. De algum modo, a banda começa a se despir da imagem “mais indie” construída ao longo de sua trajetória, distanciando de algum modo do fazer artístico para se aproximar de um fazer mais comercial.

Em Love Is Dead vemos um Chrvches que se maximiza, com faixas explosivas, vocais muito mais altos do que o habitual, sintetizadores mais estridentes, repetições, trechos que grudam, ou seja, Love Is Dead possui todos os elementos de uma “fórmula Pop” e isso faz com que as faixas sejam mais acessíveis, ou melhor, as faixas do registro podem chegar facilmente aos ouvidos de qualquer ouvinte e gerar uma satisfação imediata, uma identificação.  Logo, Love Is Dead nos mostra um Chvrches “para todos os públicos”, um Chvrches que se desnuda de uma identidade mais intimista para assumir uma faceta mais maximizada e acessível, e óbvio, não existe nenhum problema nisso!

A “fórmula Pop” não é um erro, não é um problema, não é motivo para vergonha, não é mesmo? E justamente por isso, mesmo com toda a construção desse registro em busca de uma maior circulação ainda conseguimos ver algo de Chvrches nisso tudo, porque ao mesmo tempo que há a busca por essa projeção um tanto mais maximizada, existe a vontade de manter aquilo que caracteriza o fazer artístico anterior e isso fica evidente em faixas que soam mais desconexas com a proposta “Pop” do registro.

Sendo mais direta, Chvrches em Love Is Dead deixa evidente a vontade de soar um pouco mais “mainstream, pero no mucho!”, isto é, sabemos bem que a banda sempre flertou com um sonoridade mais Pop, mas só agora assume de uma vez por todas essa faceta. Porém, mesmo com um “shape mais Pop” – considerando toda a produção envolvida – Chvrches ainda é Chvrches e não veremos aqui nada de extrovertido, ou seja, as faixas podem ser mais acessíveis, mais maximizadas, mais altas, mas ainda há essa dimensão mais “cinza” no álbum, mais amarga, mais triste atrás de toda essa faceta “energizante”.  Me atrevo a dizer que ao mesmo tempo que o registro soa “pop”, ele também pode soar intimista, e por isso, ele pode dividir algumas sensações durante as audições, possibilitando momentos de “ok, quero dançar, mas quero chorar”, sabe?

Por fim, com melodias boas, refrãos marcantes – e também grudentos – sintetizadores estridentes, participações (Matt, The National), vocais mais altos, e de modo geral, com timbres eletrônicos que soam mais sintéticos, Love Is Dead  não é grandioso, mas ele chega com força, com energia, com vontade de se projetar sonoramente, e por isso, assume uma sonoridade mais pegajosa/grudenta para os nossos ouvidos, mas ele não desagrada. Assim, aqui vemos um Chvrches com menos profundidade do que antes, mas que ainda soa agradável e potente ao explorar estruturas tão diferentes das habituais.

OUÇA: “Deliverance”, “Miracle”, “Never Say Die” e “My Enemy”

2015: Best Albums (Audiência)

10 | OF MONSTERS AND MEN – Beneath The Skin

MELHORESmons

Depois de ouvir My Head Is An Animal me apaixonei pelo Of Monsters and Men. Para mim, eles eram a banda mais fofa do mundo. Então, é claro, estava super ansiosa para ouvir Beneath The Skin, esperando mais um álbum cheio de fofura. Quando eu finalmente ouvi o tão esperado álbum, havia algo diferente nele e eu não conseguia dizer se era algo bom ou não. Passada a estranheza inicial ouvi o álbum de novo… E de novo, e de novo, e de novo! Quanto mais você ouve, melhor ele fica. Hoje posso dizer com certeza que ele é diferente, de uma forma muito positiva. É mais melancólico, mais elaborado e mais pessoal e inspirado. A banda evoluiu, mas não perdeu seu caráter. Os vocais de Nanna e Raggi ainda são o grande destaque das músicas e toda a fofura ainda está lá, mas em meio a um instrumental mais forte e envolvente. Posso afirmar que estou muito feliz com o caminho que a banda está seguindo e ansiosa por ver o que virá a seguir.

por Júlia Zomignani

OUÇA: “Hunger”

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09 | FOALS – What Went Down

MELHORESfoals

Ao meu ver, sempre admirei o Foals por sempre estarem se inovando, e mudando a cada álbum. Porém no What Went Down não vi muita diferença pro anterior Holy Fire, apenas uma reciclagem ou até um auto plágio. Para não dizer que é um álbum mediano, para o poder que a banda possui, a execução foi muito bem mixada e produzida, mascarando a falta de inovação com músicas diferentes e pegajosas como “What Went Down”, “Mountain At My Gates”, “Snake Oil”, “London Thunder” e “A Knife In The Ocean”.

por Renan Lousada

OUÇA: “London Thunder”

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08 | COURTNEY BARNETT – Sometimes I Sit And Think, And Sometimes I Just Sit

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A australiana Courtney Barnett basicamente já chegou chegando no mundo da música em 2015: com seu primeiro CD ela já está concorrendo ao Grammy em duas categorias: Best New Artist eBest Alternative Album. Quando eu olhei para o nome do disco da Courtney Barnett é impossível de não se relacionar com ele, fora a arte do álbum que é incrível. A cantora consegue expressar todas as crises que um jovem de 20 anos pode estar passando na vida. Cheia de emoções, fortes ideias, a escorpiana veio para falar as verdades através de suas letras. O que mais me encanta neste álbum, é principalmente a diferença de uma música para a outra, você nunca sente que está ouvindo a mesma música por 40 minutos, sempre te faz dançar na cadeira de um jeito diferente. A sua voz bem ritmada junto às melodias as guitarras e violões, fazem você fechar seus olhos e viajar, cantarolar junto. Obrigada Courtney Barnett, por ter feito o meu 2015 muito melhor!

por Brunna Tolentino (@leslyeknope)

OUÇA: “Nobody Really Cares If You Don’t Go To The Party”, “Pedestrian At Best”, “Small Poppies” e “An Illustration Of Loneliness (Sleepless In New York)”

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07 | CHVRCHES – Every Open Eye

Cover

Há casos em que evoluir não consiste em deixar as coisas mais complexas e sim em torná-las mais simples. Every Open Eye é um desses. O disco não traz grandes novidades perante o álbum de estreia da banda escocesa, The Bones Of What You Believe (2013). Os marcantes sintetizadores estão lá, os doces e inusitados vocais de Lauren Mayberry também. Mas os escoceses souberam analisar o que não deu tão certo em seu primeiro trabalho, entregando um disco, dentro do possível no gênero musical no qual se enquadra, mais analógico, mais simples, mais orgânico, mais despretensioso, mais redondinho e por isso mais fácil de gostar na primeira audição.

por Édipo Barreto (@QDNG)

OUÇA: “Clearest Blue”

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06 | JAMIE XX – In Colour

JAMIEXX2015

Com uma narrativa bem amarrada, músicas coloridas e vibrantes, graves que oscilam do marcante ao sutil, rico em influências de diversos estilos como house, UK garage e dancehall (mas sem perder a identidade) e participações dos companheiros do The xx (Romy e Oliver), após cinco anos no forno, Jamie xx lança seu álbum de estréia que o consagra como um talentosíssimo produtor e nome promissor na música eletrônica contemporânea.

por Rodolfo Yuzo (@rodolfoyuzo)

OUÇA: “Girl” 

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05 | FLORENCE AND THE MACHINE – How Big How Blue How Beautiful

FLORENCE2015

Lançado em maio de 2015, How Big How Blue How Beautiful, o novo disco da artista Florence Welch chega ao mercado marcado de melodias já conhecidas do público, mas com letras detalhando sentimentos mais reais. Destaca-se pela forma grandiosa de suas interpretações, como por exemplo a emocional “Ship To Wreck”. Com algumas músicas mais dançantes e outras mais melódicas, podemos dar destaque especial para “Caught”, uma faixa que, como a maioria das outras, gruda no nosso ouvido e não dá vontade de parar. Um outro grande acerto vai para “Long & Lost”, que nos faz lembrar que o álbum que estamos ouvindo é realmente da Florence. Minimalista. Simples. Melancólica.

por Bruno Capelato

OUÇA: “Ship To Wreck”, “Caught” e “What Kind Of Man”

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04 | SUFJAN STEVENS – Carrie & Lowell

SUFJAN2015

Dizem que perder alguém que se ama é como perder um membro do próprio corpo. Eu vejo de outra maneira. Acho que a maior dor em se perder alguém importante é fechar os olhos, sentir o pulsar de cada extremidade da sua anatomia e se dar conta de que, apesar de tudo, você ainda está ali, estilhaçadamente inteiro. Esse é o sentimento que perpassa Carrie & Lowell, do brilhante Sufjan Stevens. Abalado com a perda de sua mãe, ele coloca em cada canção um pouquinho do que é seguir em frente depois de um evento como esse. “Fourth Of July” não é somente uma das músicas do ano, mas uma canção pra ficar na história. Stevens conseguiu transformar música em um olhar triste. Eu te desafio a resistir encará-lo.

por João Vitor Medeiros (@indiedadepre)

OUÇA: “All Of Me Wants All Of You”, “Should Have Known Better”, “The Only Thing” e “Fourth Of July”

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03 | KENDRICK LAMAR – To Pimp A Butterfly

KENDRICK2015

É difícil achar uma lista de melhores do ano que não tenha o To Pimp A Butterfly de Kendrick Lamar. O americano deu um passo além esse ano. Se o Good Kid, M.A.A.D City nos tinha apresentado alguns hinos contemporâneos, tô claramente falando de “Bitch, Don’t Kill My Vibe”, o trabalho de 2015 do rapper americano é mais uniforme. A beleza desse maravilhoso disquinho de Kendrick está no fato dele ser uniforme, único, uma coisa só. Ouví-lo do início ao fim é uma viagem feita por depressão, culpa e tristeza, além, é claro, sobre o racismo sofrido pelos negros. Com misturas clássicas de jazz, funk, soul e interludes tão fantásticos quanto os singles do disco, Kendrick é o cara que pensou em fazer uma música pra que todo mundo cante e se sinta bem consigo mesmo, enquanto você canta, é como se tivesse se convencendo de que realmente se ama e que tudo vai ficar bem. “I Love Myself” e o To Pimp A Butterfly.

por Lucas Schutz (@suc4s)

OUÇA: “King Kunta”, “Alright” e “u”

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02 | GRIMES – Art Angels

GRIMES2015

Depois do hypado – e incrível – Visions (2012) existia aquela dúvida sobre como seria o álbum sucessor de uma das obras mais bem criticadas dos últimos cinco anos. Poucos apostavam que o LP4, Art Angels, seria de um som bem mais acessível, e até algumas vezes mais chiclete, e mais viciante que o anterior, mesmo com temas mais profundos como morte e empoderamento feminino presentes. Desta vez o grande mérito de Claire Boucher é conseguir soar menos experimental do que os álbuns anteriores e ao mesmo tempo rico em detalhes e diferentes influências musicais e culturais. A mudança brusca gerou uma espécie de “ame-a ou deixe-a” entre os fãs, algo que foi até fortalecido, de maneira moderada, pela própria Claire – que está rindo e não sendo normal como nunca antes.

por Rodrigo Takenouchi (@diguete)

OUÇA: “Flesh Without Blood” e “Kill V. Maim”

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01 | TAME IMPALA – Currents

TAME2015

Se em 2012 Kevin Parker buscou inspiração nos trabalhos de Britney Spears para produzir as canções de Lonerism, segundo álbum de estúdio do Tame Impala, em Currents (2015), terceiro registro de inéditas da banda australiana, grande parte das referências apontam para a boa fase de Michael Jackson. Entre batidas lentas, solos de guitarras sedutores e vozes delicadamente posicionadas, Parker e os parceiros de banda deixam de lado a psicodelia empoeirada dos anos 1970 para investir em elementos típicos do R&B. São pouco mais de 50 minutos em que vozes sobrepostas e sintetizadores parecem cercar o ouvinte, detalhando uma seleção de faixas essencialmente acessíveis como “The Less I Know The Better”, “Eventually” e “Cause I’m A Man”. Uma coleção de acertos que tem início ainda na capa do registro – trabalho do artista gráfico Robert Beatty -, e segue até o último suspiro de “New Person, Same Old Mistakes”, faixa de encerramento da obra. Um disco que já nasceu clássico.

por Cleber Facchi (@MiojoIndie)

OUÇA: “Let It Happen” e “The Less I Know The Better”

2015: Best Albums (André)

10 | BEST COAST – California Nights

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Após uma escorregada feia e grave em seu segundo disco, o Best Coast retorna em sua melhor forma. E tudo funciona como sempre deveria: bem. Letras que parecem ter vindas de um diário, riffs monstruosos em sua simplicidade.  O Best Coast mais do que compensou pela insipidez de The Only Place e nos presenteou com o melhor álbum que eles poderiam ter lançado. O melhor verso de California Nights é o seu mais simples: ‘I know it’s love that’s got me feeling ok‘. E ninguém nunca precisou de mais nada. O amor pode e deve te deixar se sentindo ok, mas ‘ok’ não é nem de longe a melhor palavra para California Nights. Iremos com ‘ótimo’, ‘supreendente’ e ‘incrível’.

OUÇA: “Feeling Ok”, “Jealousy”, “So Unaware”, “Run Through My Head” e “Heaven Sent”

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09 | CHVRCHES – Every Open Eye

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Otimismo é uma coisa que não parecia combinar muito bem com o Chvrches apenas dois anos atrás, mas é o que encontramos em Every Open Eye. Um instrumental mais ensolarado flertando forte com os anos 80 mas ainda gótico suave. Todas as músicas são épicas como hinos e grudentas como o hit do verão, em seu segundo disco o Chvrches altera um pouco a fórmula mas faz um álbum ótimo. A melhor metáfora para o novo trabalho do Chvrches foi uma que eles mesmos fizeram no clipe de “Empty Threat”: adolescentes góticos bêbados se divertindo em um parque aquático.

OUÇA: “Clearest Blue”, “Empty Threat”, “Never Ending Circles”, “Bury It” e “Playing Dead”

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08 | OF MONSTERS AND MEN – Beneath The Skin

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O Of Monsters and Men tinha um trabalho bem difícil pela frente, e ele era conseguir superar seu excelente primeiro álbum My Head Is An Animal. E eles conseguiram. Beneath The Skin mostra uma banda mais em contato consigo mesma, mais séria, melódica e (por falta de outra palavra) sombria e sóbria. Sua música continua trazendo um sentimento de pura esperança mais do que nunca, e isso já pode ser percebido desde “Crystals”. My Head Is An Animal foi um começo excelente, mas Beneath The Skin consegue ser melhor ainda. Versos como ‘Cover your crystal eyes and let your colours bleed and blend with mine‘ traduzem perfeitamente coisas que muitas vezes não conseguimos falar apenas com palavras para quem mais precisamos. É exatamente pra isso que a música de forma geral existe, e Beneath The Skin faz isso o tempo todo – é uma catarse a cada verso.

OUÇA: “Crystals”, “Empire”, “Thousand Eyes”, “I Of The Storm” e “Wolves Without Teeth”

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07 | TULIPA RUIZ – Dancê

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Tulipa Ruiz volta em seu terceiro álbum com um único objetivo: te fazer dançar. E ela consegue, navegando com maestria as diferentes influências e ritmos e se mostrando uma das mais competentes cantoras da nova MPB. As composições assinadas por Tulipa e seu irmão Gustavo estão em sua melhor forma, assim como os vocais da moça. Tudo em Dancê funciona perfeitamente, é um álbum que te faz esquecer por alguns minutos de todas as incertezas da vida e dançar sem preocupações. Podia não ter dado em nada, então como é que virou?

OUÇA: “Virou”, “Prumo”, “Proporcional”, “Expirou” e “Algo Maior”

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06 | TEREZA – Pra Onde A Gente Vai

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Ah, o Tereza. Pra Onde A Gente Vai é seu segundo disco, e definitivamente o álbum mais divertido e engraçado do ano. Mas isso não quer dizer que trata-se de um álbum de comédia. O Tereza consegue, pela segunda vez, caminhar na linha tênue entre a irreverência e a maturidade, se levando a sério o suficiente para poder fazer piada – e não o contrário. Em termos de composição instrumental, Pra Onde A Gente Vai mostra um Tereza muito mais competente e profissional do que o de seu álbum anterior. As letras continuam geniais, no melhor estilo Outubro Ou Nada! do Bidê ou Balde – e, claro, sem contar que Pra Onde A Gente Vai é o lar do indiscutível melhor verso do ano; ‘Um dia com você na praia tem gosto de mamão papaya‘. Essas coisas não têm preço, e não podem ser fabricadas.

OUÇA: “Tara De Bicho”, “Intrusa”, “Eu Não Vou Mais Ligar”, “Não Sei” e “DJ”

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05 | JOHN GRANT – Grey Tickles, Black Pressure

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Grey Tickles, Black Pressure é um dos álbuns mais peculiares do ano. Em seu terceiro registro, John Grant continua misturando suas influências folk com eletrônicos de formas inusitadas e aparentemente desordenadas. Um álbum cujo tema principal, de uma forma ou de outra, é o amor – a si mesmo, aos amantes, à vida – e que abusa de referências a toda e qualquer coisa, transborda senso de humor e é mais do que tudo uma obra de arte. É um álbum que definitivamente nunca apareceu antes e não poderia ter sido feito por nenhuma outra pessoa. Grey Tickles, Black Pressure é o tipo de álbum que usa clichês de um jeito novo e original, que casa o folk e o eletrônico, que sempre vai ser interessante mesmo daqui a dez ou quinze anos.

OUÇA: “You And Him”, “Disappointing”, “Down Here”, “Grey Tickles, Black Pressure” e “Geraldine”

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04 | QUARTO NEGRO – Amor Violento

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É até difícil falar de Amor Violento, segundo trabalho dos paulistanos do Quarto Negro. Ele é um álbum que não se encaixa em definições pré-concebidas de gêneros musicais, o mais próximo é ‘shoegaze intenso ocasionalmente leve’. Mas mesmo isso parece não ser o suficiente. Amor Violento é um álbum que precisa ser vivenciado, talvez mais do que qualquer outro nessa lista. A única forma de entendê-lo é dar o play e se entregar completamente sem tentar entender o que está acontecendo, é deixar a atmosfera de guitarras, pianos e teclados te envolver por inteiro. É prestar atenção nas ótimas letras, quando elas estão claras o suficiente para serem compreendidas, e deixar que as composições falem quando não estão. Amor Violento é uma experiência sensorial única.

OUÇA: “3012”, “Julien”, “Orlando”, “Há Um Oceano Entre Nós” e “Amor Violento”

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03 | SCREAMING FEMALES – Rose Mountain

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Rock. Puro, cru e simples. Guitarra, baixo, bateria e uma voz marcante. Isso é tudo que o Screaming Females sempre precisou pra fazer um álbum maravilhoso, e é isso que temos aqui pela sexta vez. Marissa Paternoster encontrou seu estilo de vez em Rose Mountain. Seus vocais estão cada vez mais vindos diretamente da Escola Corin Tucker de Vibrato Entre Riffs Pesados, com músicas que vão do punk ao metal com a mesma fluidez de uma respiração. Rose Mountain é um passo certeiro na consolidação do Screaming Females como uma das melhores bandas de rock da atualidade. O conceito de ‘banda de rock’, assim como o de ‘rock’ em geral, está cada vez mais diluido, mas é só ouvir uma música como “Criminal Image” ou “Ripe” que tudo cai em seu lugar certo. Um álbum como Rose Mountain não aparece sempre, e deve ser celebrado quando chega.

OUÇA: “Criminal Image”, “Hopeless”, “Wishing Well”, “It’s Not Fair” e “Ripe”

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02 | GRIMES – Art Angels

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Praticamente três anos desde o pop experimental de “Oblivion”, Grimes retorna ainda mais pop e ainda mais experimental. Com uma produção muito mais radiofônica do que qualquer outra coisa que ela já fez, Art Angels é instantaneamente uma das coisas mais interessantes que você já ouviu. Pra cada batida pop acessível, existe algum algo completamente oposto – seja um grito, grunhido, sussurro ou instrumento estranho. Com uma mistura bem peculiar de influências que podem ir do punk ao country, Grimes em Art Angels está muito mais parecida com Kathleen Hanna do que com qualquer outra coisa. No começo dos anos 90, o movimento Riot Grrrl reinventou o punk aliando-o a temas feministas e podemos perceber que há algo parecido acontecendo no mundo pop hoje em dia. Não dá pra saber se ele tomará a mesma forma que o Riot Grrrl teve, mas sua necessidade continua gritante. E a Grimes é com certeza um dos principais nomes dessa nova Revolution Girl Style Now!

OUÇA: “Kill V. Maim”, “Flesh Without Blood”, “Artangels”, “Pin” e “Venus Fly”

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01 | COURTNEY BARNETT – Sometimes I Sit And Think, And Sometimes I Just Sit

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Quando ouvi “Pedestrian At Best” lá em Fevereiro, eu sabia que o até-então não lançado primeiro álbum da Courtney Barnett estaria nessa lista. Após ouvi-lo repetidas vezes durante o ano, a certeza era só uma: ele estaria nessa lista, e nessa posição. Não há outro álbum esse ano que mereça mais esse lugar do que Sometimes I Sit And Think, And Sometimes I Just Sit. Courtney Barnett entregou um álbum anacrônico, cheio de composições e letras que ultrapassam o ‘genial’ por quilometros. Mas mais importante, todos os versos cantados por Courtney, seja em formato confessional ou narrativo, fazem parte da vida de todos. Músicas como “Small Poppies” e “An Illustration Of Loneliness” são extremamente universais em sua simplicidade. Courtney Barnett faz música com o mundano em forma de fluxo de consciência, e canta histórias que acontecem com todas as pessoas, músicas sobre comprar vegetais orgânicos, nadar ou sobre procurar casas para morar. E tudo isso com uma boa dose de humor e auto-depreciação, pra contrabalancear a seriedade presente em cada música. Isso tudo, e o fato de que Courtney canta a palavra ‘funny’ por longos cinco segundos no refrão de “Pedestrian At Best”, depois de restaurar sua fé na versatilidade das guitarras. Não tem pra mais ninguém.

We either think we are invincible or that we are invisible, when realistically we’re somewhere in between.

OUÇA: “Depreston”, “Pedestrian At Best”, “An Illustration Of Loneliness (Sleepless In NY)”, “Small Poppies”, “Nobody Really Cares If You Don’t Go To The Party” e “Debbie Downer”

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00 | SLEATER-KINNEY – No Cities To Love

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Ready to climb out from under concrete.

Seria injusto com qualquer outra banda ou artista considerar No Cities To Love para uma lista de melhores desse ano. A importância e significância de No Cities To Love, principalmente depois de ler o maravilhoso livro de memórias Hunger Makes Me A Modern Girl da Carrie Brownstein, é imensurável tanto para a banda quanto para seus fãs. O Sleater-Kinney voltou depois de quase dez anos longe dos palcos, revigorado e com ainda mais força do que tinha antes. Um dos melhores aspectos de No Cities To Love é o fato de ser quase metalinguístico; elas justificam e explicam os dez anos separadas da melhor forma que sabem como, com palavras e guitarra (“Hey Darling”), e mostram que estava na hora certa de voltar também da mesma forma (“Bury Our Friends” e “Surface Envy”). A urgência vista em “Surface Envy” é algo que nunca esteve em nenhum outro lançamento delas, a voz rasgada de Corin Tucker junto com a bateira de Janet Weiss é o suficiente pra te deixar sem fôlego por dias.

I’m breaking the surface, tasting the air, reaching for things that I could never before.

No Cities To Love era inevitável. Sleater-Kinney é inevitável. Uma banda como Sleater-Kinney precisa existir, por que nunca existiu nada igual antes e nem depois. Somente elas mesmas podem continuar o trabalho que começaram, e é o que fazem aqui em seu oitavo álbum. Continuam exatamente de onde pararam, mas dessa vez mais maduras e responsáveis. O hiato também foi necessário para que houvesse esse distanciamento, para que fosse possível esse retorno com essa intensidade. E agora voltaram, e o mundo está muito melhor por isso. Não existe outra coisa a ser dita sobre No Cities To Love e nem para o Sleater-Kinney a não ser Muito Obrigado.

It’s not a new wave, it’s just you and me.

OUÇA: It’s not the cities, it’s the weather we love! It’s not the weather, it’s the nothing we love! It’s not the weather, it’s the people we love!

2015: Best Albums (Staff)

10 | JAMIE XX – In Colour

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Depois de se aventurar remixando um disco de Gil-Scot Heron e dos dois discos do The xx, banda da qual Jamie faz parte, In Colour é o que pode ser chamado de primeiro trabalho solo, de fato, do rapaz. E não há decepção (mesmo que duvide de que alguém apostava que esse seria um disco ruim). A euforia não se mostra de maneira nenhuma rasa: o registro é totalmente introspectivo. Mesmo em músicas como “I Know There’s Gonna Be (Good Times)”, um dancehall que pode até parece Major Lazer ao ouvido mais desavisado, o gesto de dançar aqui quase convoca a quem ouve a se examinar. A paisagem sonora é densa, com sussurros e distorções, demandando atenção de quem ouve para apreender cada mínimo detalhe: cheio de vocais indefiníveis, ruídos e uma produção cíclica, uma das grandes sacadas é a mixagem do orgânico com os sons sintetizados, como a guitarra sempre afiada de Romy Croft, além dos seus vocais adocicados e sussurrados, como uma confissão. Excelente disco que pode até ser tocado em alguma festa, mas possui, como toda grande obra, força o bastante para permanecer relevante em qualquer outra situação da vida.

por Daniel de Matos

OUÇA: “I Know There’s Gonna Be (Good Times)” e “Loud Places”

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09 | DEATH CAB FOR CUTIE – Kintsugi

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Estar em constante mudança por praticamente doze anos é uma qualidade para poucas bandas: Ben Gibbard e seus garotos do Death Cab for Cutie parecem conseguir em cada novo trabalho. Com Kintsugi, seu oitavo álbum de estúdio, esse desejo de recriar-se é maior ainda. Com a saída de Chris Walla, guitarrista e um dos principais responsáveis pelo lado criativo da banda, houve essa urgência aparente de mostrar um novo lado, e que ainda assim, conseguisse criar laços ao passado. Cheio de melancolia e canções sobre amores amargos, em suas onze faixas, o disco representa justamente o que seria o significado de seu nome. Kintsugi é o nome de uma técnica japonesa para consertar cerâmicas, e o álbum soa com sua proposta de renovação em meio as perdas que passamos pela vida. Com toda delicadeza lírica de Gibbard e melodias que embalam este novo momento da banda, Kintsugi é o caminho mais certo e seguro entre a ligação da nostalgia do que o Death Cab sempre representou em seu cenário, e o frescor encontrado na maturidade ao longo de todos esses anos.

por Tatiana Kolenczuk

OUÇA: “Little Wanderer”, “You’ve Haunted Me All My Life” e “Hold No Guns”

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07 | CHVRCHES – Every Open Eye 

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Sob os temores que rondam o segundo álbum, os escoceses do Chvrches lançaram em 2015 o Every Open Eye. O sucesso do debut ficara para trás por uns instantes e agora eles não são mais uma banda com um grande disco. Conseguiram a façanha de repetir o sucesso com o segundo também, para o nosso alivio. Um álbum maduro para um projeto tão novo. Um disco completo, intenso, consistente, com boas referências e que dá orgulho ao escutar. Orgulho em saber que o gênero que eles carregam está tão bem representado. Nos faz crer que a banda que está apenas no começo, tem um ótimo futuro pela frente. Em seus segundos iniciais, Lauren, Iain e Martin nos entregam, sem nenhum aviso, uma enxurrada de synth pop de qualidade e que decresce levemente até seu fim. No susto, somos surpreendidos por um álbum capaz de nos deixar sem fôlego e com uma única vontade: de deixa-lo tocar solto e dançar.

por Carolina Amorim

OUÇA: “Leave A Trace” e “Never Ending Circles”

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07 | BELLE AND SEBASTIAN – Girls In Peacetime Want To Dance

BELLE2015

Que massagem nos ouvidos e na alma que é o álbum Girls In Peacetime Want To Dance… O Belle and Sebastian, que já foi folk, já foi twee pop, já foi soft pop e até indie experimental, surge em 2015 com o pé afundado no pop. Isso mesmo, o cachorro velho aprendeu os truques novos e lançou um disco cheio de sons eletrônicos, sintetizadores e vozes com efeitos de estúdio. Nunca se viu um Belle and Sebastian tão produzido e dançante. Isso não significa que não se encontre a raiz freaky folk do grupo ou que a altíssima qualidade das letras tenha caído. Está tudo lá, bem fácil de encontrar debaixo desse novo traje que a banda adotou.

por João Victor Krieger

OUÇA: “Play For Today”, “Ever Had A Little Faith” e “Nobody’s Empire”

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06 | TAME IMPALA – Currents

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Foram inúmeras as acusações ao Currents, discursos saudosistas ou comparativos que reivindicavam o antigo Tame Impala de volta. Por que nosso referencial daquilo que é bom está sempre no passado e nunca no vir a ser? Em clima mais introspectivo que de costume, é verdade, a lisergia, as outras dimensões e os relacionamentos conflituosos estão presentes: movimentamo-nos por tais temáticas e por entre nossas próprias reflexões. O resultado final são melodias bem trabalhadas que parecem não ter fim, não pelo tempo de duração, mas pelos caminhos que são capazes nos levar. Para aqueles que os sentimentos vividos foram de encontro com a proposta do Currents, o disco não poderia ser melhor, tanto para compor a discografia da banda quanto a playlist dos ouvintes. Ouvir, inclusive, não é nossa única função diante do disco, que conta com uma capa inspirada e três videoclipes de canções que ilustram e compõe sua narrativa. As mudanças nesse ano não se deram só para a musicalidade do Tame Impala, mas para todos os seres inseridos nessa dinâmica do tempo que passa sem avisar.

por Marta Barbieri

OUÇA: “The Less I Know The Better”, “New Person, Same Old Mistakes” e “Let It Happen”

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05 | FOALS – What Went Down

MELHORESfoals

Com som mais pesado e cheio de atitude, a banda britânica Foals concebeu seu quarto álbum de estúdio, sendo este um legítimo álbum de indie rock da melhor qualidade. É fato que desde seu último registro Holy Fire, a banda vem percorrendo caminhos que se distanciam do leve math rock do começo de sua carreira, entretanto, arquitetam aqui um som que transforma a identidade do Foals em algo singular e característico do grupo. Se há uma palavra para definir este álbum é o “equilibrio”, que fomenta um trajeto que vai desdes os reverbs de guitarra mais violentos aos calmos vocais do vocalista Yannis Philippakis. Com melodias e clímax muito bem construídos, o álbum apresenta a virtude de promover uma verdadeira imersão ao som intenso do grupo. Do caos a calmaria, o What Went Down é um marco importante para a carreira de uma banda que consegue se renovar constantemente.

por Flávia Denise

OUÇA: “Give It All”, “What Went Down” e “Mountain At My Gates”

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04 | GRIMES – Art Angels

GRIMES2015

Depois de seduzir os amantes de músicas alternativas, Grimes fez o mesmo com quem não fica sem canções pegajosas. O diferencial da artista foi criar um tipo de música chiclete que, além de ter melodias grudentas, possui conteúdo de sobra, graças a letras que ressoam não apenas com o público da cantora, acostumado à peculiaridade da canadense. Aliás, o fato de ser pop até a medula não faz de Art Angels uma obra que destoa da discografia da Grimes, afinal, trata-se apenas de um passo arriscado e certeiro, capaz de proporcionar um pop ao mesmo tempo acessível, estranho e experimental. Se o álbum se chamasse Catarse, ele estaria representado adequadamente, pois é exatamente isso que ele provoca.

por Ronaldo Trancoso

OUÇA: “Kill V. Maim”, “Flesh Without Blood” e “REALiTi”

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03 | FLORENCE AND THE MACHINE – How Big How Blue How Beatiful

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Depois de quase quatro anos sem material inédito – com exceção de algumas faixas para soundtracks – Florence and The Machine volta ao spotlight melhor do que nunca. Equalizando o melhor de seus dois ábuns anteriores, Lungs e Ceremonials, How Big How Blue How Beautiful é uma obra cíclica, lírica e coesa. Não passa a imagem sacra de Ceremonials, nem rebelde de Lungs, e observamos uma Florence mais à vontade consigo mesma, com composições ainda mais pessoais. How Big How Blue How Beautiful tem uma produção impecável, que também pode ser observada na “The Odyssey”, sequência de clipes que contam uma bonita e sensível história repleta de danças e simbolismos, do jeitinho que Flo adora. Não por menos, o novo material recebeu cinco indicações ao Grammy e a banda está excursionando mundo afora com sua nova turnê.

por Luca Serrachioli

OUÇA: “What Kind Of Man”, “Queen Of Peace” e “Delilah”

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02 | SUFJAN STEVENS – Carrie & Lowell

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Talvez este seja o álbum mais delicado do ano. Sufjan Stevens compôs Carrie & Lowell como tentativa de exorcizar os demônios da relação com sua mãe e que foram revigorados com a recente morte dela. Não há dúvidas de que o destaque fica por conta das letras. O poder e a sinceridade da poesia de Stevens é de cortar o coração. É impossível ouvir o disco e não compartilhar de sua dor. Como música, o disco funciona bem como um todo e tem uma estrutura bastante linear. As canções se caracterizam pelo violão suavemente dedilhado, a voz doce quase sussurrada e ausência de percussão. Nenhum minuto é supérfluo e as canções se encaixam em perfeita harmonia. Descrever Carrie & Lowell em uma palavra: tocante. Em duas palavras: tocante e imperdível.

por Angelo Fadini

OUÇA: “Should Have Known Beter”, “Fourth Of July”, “The Only Thing” e “Death With Dignity”

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01 | KENDRICK LAMAR – To Pimp A Butterfly

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Kendrick Lamar é o homem do ano. To Pimp A Butterfly é com a absoluta certeza a obra mais bem pensada e arquitetada desse 2015. Tudo se encaixa, as músicas são feitas para seguirem umas com a outras, todo o significado por trás está lá. E tudo isso depois da esnobada tremenda do Grammy há 3 anos atrás. Kendrick pode surgir como um expoente de uma geração, alguém que marque uma era (ou não, mas sabemos que esse ano foi marcado por ele). Tudo que envolve o disco carrega uma mensagem por trás (os protestos de Ferguson com as pessoas cantando “Alright” é uma prova do hino que Lamar canta). Não sabemos o futuro, nem deveremos saber, mas podemos afirmar que 2015 será lembrado como o ano de Kendrick.

por Heitor Facini

OUÇA: “Alright”, “King Kunta” e “i”

Chvrches – Every Open Eye

CHURCHES

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“Throw me no more bones and I will tell you no lies this time”

Donos de um dos melhores discos de 2013, seu excelente debut The Bones Of What You Believe, os escoceses do Chvrches retornam agora em 2015 com o tão-temido segundo trabalho. O segundo disco é um período bastante delicado para a maioria das bandas, principalmente as que fizeram um sucesso grande, como é o caso do Chvrches, em seu primeiro álbum. É o segundo álbum que determina se a banda teve ‘sorte’ no primeiro ou se realmente possuem o talento para continuar em uma carreira boa. E, principalmente, é o segundo álbum que determina se a banda sabe caminhar a linha bastante tênue entre seguir fiel à sua estética e mostrar evolução ou apenas regravar o primeiro disco uma segunda vez. E o Chvrches? Fez tudo isso da forma certa, lançando o melhor segundo álbum que eles poderiam.

Se em The Bones Of What You Believe o Chvrches foi se introduzindo aos poucos, com as linhas de vocais e sintetizadores leves de “The Mother We Share” antes de te mergulhar completamente em “Lies” e “Science/Visions”, em Every Open Eye sua proposta é a oposta. O álbum começa com “Never Ending Circles”, já com os sintetizadores mais densos do álbum como se fosse uma continuação direta de seu anterior. Mas, ao decorrer do álbum, vemos um Chvrches que se mostra aos poucos cada vez mais otimista do que o de Bones.

A discografia do Chvrches até aqui, com apenas curtos dois álbuns, pode ser comparada a um mergulho. No primeiro, eles te introduzem à água e te empurram para baixo. No segundo, eles pegam sua mão e te puxam de volta à superfície. Essa transição já é completada na faixa quatro de Every Open Eye, a incrível “Make Them Gold”. A partir daí, vemos variações diferentes de um Chvrches otimista, leve e positivo. E isso é maravilhoso. ‘We are falling, but not alone. We will take the best parts of ourselves and make them gold‘.

Um dos maiores destaques de Every Open Eye é, com certeza, a faixa “Clearest Blue”. Com seu constante crescendo até explodir de uma forma bastante contida, não é difícil se imaginar correndo por um campo aberto tendo-a como trilha sonora. Também é possível trocar a ideia do campo aberto para uma academia dos anos 80 ou a gravação de um vídeo de jazzercise. E por falar nisso; o Chvrches sempre flertou com essa coisa música-de-academia (“Strong Hand”, “Now Is Not The Time”), mas agora pararam com o flerte e resolveram assumir o relacionamento, como visto em “Empty Threat”. E isso também é maravilhoso.

O Chvrches fez um dos melhores álbuns de 2013 com seu synthpop-com-quase-cara-de-shoegaze, e continuaram sua carreira com um dos melhores álbuns de 2015. Seu synthpop perdeu a quase cara de shoegaze, mas em seu lugar foram adicionados sintetizadores cristalinos, letras otimistas e um clima geral de positividade que não parecia muito comum ao Chvrches de antes. E isso é maravilhoso.

OUÇA: “Clearest Blue”, “Empty Threat”, “Make Them Gold”, “Bury It”, “Never Ending Circles” e “Playing Dead”

Chvrches – The Bones Of What You Believe

chur

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Em clima de completa honestidade, tenho que começar essa resenha dizendo que pessoalmente eu nunca fui um grande fã de música eletrônica – sem nenhum motivo específico. Por isso, o fato de eu ter passado tantas horas desse ano ouvindo The Bones Of What You Believe, primeiro lançamento da banda escocesa Chvrches, não surpreende ninguém mais do que a mim mesmo. Mas foi o que aconteceu.

O trio já tinha causado certa comoção ano passado com a música “The Mother We Share” que, não desmerecidamente, acabou entrando em várias listas de melhores de 2012. Mas foi apenas após o lançamento do single “Gun” que eu realmente parei e comecei a prestar atenção neles. E The Bones Of What You Believe não decepcionou.

Passeando livremente por vários estilos sempre de forma coesa, o Chvrches adiciona novos elementos a cada música do álbum. Com sintetizadores ora pulsantes e marcantes e ora calmos e confortáveis, tudo amarrado pela voz infantil-na-medida-certa de Lauren Mayberry, ele torna-se fácil um dos lançamentos mais interessantes do ano.

Demorou um pouco até eu conseguir exatamente o porquê de The Bones Of What You Believe ter me prendido tanto. E foi basicamente isso: eles produzem uma parede de som tão densa e espessa que você quase consegue senti-la fisicamente – músicas como “Science/Visions” e “Tether” ilustram isso de forma perfeita.

Uma parede de som tão bem executada assim não é algo tão fácil de se encontrar em bandas ditas como ‘pop’, seja em música eletrônica ou no próprio rock. Se o Chvrches tivesse optado por trocar os instrumentos, este seria um dos melhores álbuns shoegaze dos últimos tempos. Mas que bom que não trocaram, pois a cena atual está abarrotada de bandas brincando com pedais e fazendo barulho com a guitarra, mesmo que esse ano em particular tenham sido poucos os lançamentos relevantes no gênero.

Além dos instrumentais extremamente competentes, as letras confusas e ambíguas porém excelentes (que, inclusive, salvam até mesmo as duas músicas mais chatinhas do álbum que não são cantadas por Lauren) também merecem destaque. O que fica, juntando todos os pontos positivos da banda, é a confiança que eles apresentam. Quando Lauren canta ‘I’ll be a gun and it’s you I’ll come for‘ você sente a apreensão que tal ameaça apresenta.

Chvrches veio para resgatar a fé na vertente indie da música eletrônica. Creio que um álbum não mostrava tanta força ou possuía tantos destaques dentro do gênero desde La Roux. Só nos resta agora esperar que o Chvrches não desapareça sem dar sinais de vida nos próximos anos, pois isso seria um enorme desperdício de seu potencial.

OUÇA: “Gun”, “The Mother We Share”, “Recover”, “Lies”, “Science/Visions” e “Night Sky”