Carly Rae Jepsen – Dedicated



Dedicated é o tão aguardado quarto álbum de estúdio da cantora canadense Carly Rae Jepsen, seu primeiro depois de ter mudado completamente o jogo e o cenário da música pop com Emotion em 2015. Emotion foi um trabalho que pegou muita gente de surpresa, eu incluso, com o nível de suas composições. De uma hora pra outra, aparentemente, a cantora de “Call Me Maybe” que virou meme nos entrega uma obra ambiciosa, coesa e extremamente bem escrita e produzida. Emotion, querendo ou não, é um dos melhores e mais influentes álbuns pop das últimas décadas – até seu acompanhante, Emotion Side B, ilustrava que seus b-sides e músicas rejeitadas ainda eram melhores do que álbuns completos de outras pessoas por aí.

Seguindo essa torrente de música boa e bem feita, Carly lançou em 2017 a perfeição pop que é o single “Cut To The Feeling”. E agora todos estavam de olho nela, no que viria depois. Se Emotion foi lançado quando muitos ainda a consideravam apenas ‘a moça de “Call Me Maybe”‘, um pop farofeiro que não devia ser levado a sério, as coisas agora estão dramaticamente diferentes. E é aí que Dedicated entra, chega e quebra com tudo de novo. E dessa vez não podemos mais dizer que estamos surpresos.

Desde a primeira música divulgada ano passado, “Party For One”, Carly já profetizava que seu novo trabalho seria um pouco mais sóbrio e sério do que Emotion foi, mas ainda mantendo sua essência chiclete e leve. De uma vez por todas fica claro que Carly fez aulas com a sueca Robyn sobre como construir uma narrativa e forte densa tendo como base as batidas (“Cry”, “Your Type”). Dedicated traz tudo isso e ainda completa com uma excelente influência do pop dos anos 70, como Cher e Donna Summer.

Os temas tratados liricamente no álbum continuam sendo relacionamentos, crushes correspondidos ou não, decepções amorosas e confissões. Nada exatamente inovador, seja na música pop ou no indie underground, mas que quando são bem feitos e bem escritos se tornam verdadeiras gemas. O melhor exemplo disso está em “Now That I Found You”, uma música sobre quando você tem uma conexão instantânea e quase inexplicável com o @, e o twist em seu refrão está nos versos ‘Don’t give it up, don’t say it hurts‘ – o @ não parece estar tão pronto para essa ligação quanto Carly. Mas ela está, e continua ‘I want it all‘, tanto o bom quanto o não-tão-bom. E quem nunca passou por isso?

A universalidade das letras em Dedicated é, no fim do dia, seu maior trunfo. Carly canta sobre coisas, situações e pessoas comuns a todos, criando e contando histórias fáceis de se identificar – de uma forma não tão diferente do que nomes como Courtney Barnett o fazem, em um tipo completamente diferente de som. Em “Happy Not Knowing”, Carly traz uma dinâmica inusitada (quase como quando Robyn cantou em “Call Your Girlfriend” sobre ser ‘a outra’) cantando sobre o quanto ela não quer que o @ se declare, sobre o quanto ela não quer saber sobre os reais sentimentos do @. ‘If there’s something between you and me, baby, I have no time for it‘, ela canta em seu refrão.

Em “Too Much”, provavelmente a melhor composição do disco inteiro, Carly confessa que sempre faz as coisas ‘demais’. Festas, álcool, sentimentos, pessoas; tudo é 8 ou 80. ‘Is this too much?‘, ela pergunta em um momento quase sussurrado de vulnerabilidade. Confessar que seus sentimentos são ‘demais’ não é uma coisa fácil, por que sempre existe o risco de que o @ se assuste com tal sinceridade. Essa é uma linha tênue sobre a qual Carly caminha o disco inteiro.

A sensação que Dedicated passa é que dessa vez Carly está sem medo de mostrar quem realmente é, como ela pensa e sente as coisas ao seu redor. E às vezes isso tudo realmente é too much. Carly está mais crua e vulnerável do que nunca aqui, se expondo como nunca o fez antes. Depois de ouvir Dedicated, minha vontade é sentar num boteco do centro de São Paulo e tomar um gin tônica barato com ela, enquanto conversamos sobre os @ e a vida de forma geral. Por que agora tenho certeza de que essa mulher, uma deusa, uma louca, uma feiticeira, me entenderia.

OUÇA: “Too Much”, “Julien”, “Now That I Found You”, “The Sound”, “Want You In My Room” e “Real Love”

Carly Rae Jepsen – Emotion

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Carly Rae Jepsen mostra que não é para apenas talvez ligar para ela. A canadense de 29 anos teve um estouro no ano de 2012 quando lançou a canção “Call Me Maybe” e muitas vezes chegou ao ouvido das pessoas como aquela música bizarra. Várias paródias pelo mundo alcançaram o sucesso da cantora, inclusive de alguns clubes brasileiros de futebol como o Santos (o que aumenta o nível de bizarrice). Mas “Call Me Maybe” faz parte do passado.

O novo disco da cantora, Emotion, é muito coeso e consistente para o pop atual. Seguindo a tradicional eletronização do estilo, Carly faz sucesso com refrões simples e que entram na cabeça após apenas duas ou três execuções da música. O potencial viral da cantora é tremendo (algo que pode ser visto no single lançado há algum tempo “I Really Like You”, que gerou paródia também, mas em menor proporção). Mas isso não significa que o disco não tem qualidade musical também.

Os vocais são bem afinados e os beats encaixam perfeitamente com a voz da artista. O disco todo é voltado para uma vibe mais oitentista do que o eletrônico atual que se aproxima mais da trap musica e do dup step. E isso combina. Não fica uma musica frita, mas aquela musica que na balada muita gente vai cantar (mesmo que não conhecesse antes dela tocar, já que ela se baseia na repetição de refrões simples).

O disco é repleto de potenciais hits, mas provável que nenhum supere “Call Me Maybe”. Mas mesmo assim é possível perceber a evolução no trabalho dela. Carly pode se encaixar muito bem como uma nova diva do pop.

OUÇA: “I Really Like You”,”Run Away With Me” e “Emotion”