2018: Best Albums (People’s Choice)

10 | THE CARTERS – Everything Is Love

Beyoncé e Jay-Z lançaram um álbum juntos. São tantos plot twists vindos desses dois que eu os considero o M. Night Shyamalan do mundo da música. Um show melhor que o outro, álbuns fascinantes e projetos audiovisuais que nem sei por onde começar a descrever – o que foi o clipe no Louvre?! Após Lemonade e 4:44, o lançamento de EVERYTHING IS LOVE consagra o casal como o mais poderoso do mundo da música. LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI.

OUÇA: “LOVEHAPPY”, “BLACK EFFECT”, “SUMMER” e “NICE”


09 | FLORENCE AND THE MACHINE – High As Hope

Depois do insosso e quase furioso How Big How Blue How Beautiful de 2015, Florence Welch retorna, quase como uma surpresa e sem muito alarde, com seu quarto disco de estúdio agora em 2018. High As Hope apareceu repentinamente, sem muito furdunço e sem muitas promessas a serem cumpridas depois do balde de água fria que foi o disco anterior. De qualquer maneira, mesmo sem expectativas e, ainda pior, com o curto intervalo de tempo entre o anúncio oficial e o lançamento, a internet sempre vai à polvorosa quando um álbum da cantora é anunciado – a esperança vai lá pro alto. Não foi diferente com High As Hope. LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI.

OUÇA: “Hunger”, “Patricia” e “100 Years”


08 | BLOOD ORANGE – Negro Swan

Existe até uma página na Wikipedia intitulada homofobia na cultura hip hop. Em seu 10° álbum de carreira, lançado no final de agosto, Eminem usa um insulto homofóbica para se referir ao rapper Tyler The Creator. A homofobia ainda persiste no rap, ainda é velada no rap, ainda perdoamos comportamentos homofóbicos no rap. De Beastie Boys, Kid Rock, 50 cent, Kanye West, Travis Scott, Migos… Nesse histórico de masculinidade tóxica e homofobia, Blood Orange ao lado de Tyler The Creator e seguindo a linhagem do Frank Ocean integra uma nova versão. Homens queers que citam David Bowie que se inspiram em Prince. E Negro Swan, quarto álbum de carreira do Blood Orange, é um ótimo expoente dessa nova possibilidade de futuro mais inclusiva e livre para r&b e o rap. LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI.

OUÇA: “Orlando”, “Jewelry”, “Saint” e “Charcoal Baby”


07 | BACO EXU DO BLUES – Bluesman

Se em Esú (2017) Baco Exu do Blues transpôs a barreira entre deuses e homens e encurtou a distância entre os céus e a terra, em Bluesman o rapper baiano contempla sua própria fragilidade enquanto jovem negro vivendo em uma sociedade hostil aos corpos e mentes negras e reflete de forma honesta sobre sua saúde mental. Depressão e ansiedade estão no coração de Bluesman, mas Baco também fala sobre autoestima, sobretudo a autoestima do homem e da mulher negra, sobre estar vivo e prosperar em um mundo racista que não se conforma com o sucesso, a criatividade e beleza daqueles cuja humanidade era negada há pouco mais de 100 anos. Ser bluesman, afinal, é celebrar a arte negra que propõe um exercício de re-imaginação do papel dos negros na sociedade e rejeitar a imagem do negro submisso, desprovido de talento e fadado à invisibilidade em meio a um mundo branco. Bluesman é certamente um dos melhores álbuns brasileiros de 2018, pois abre novas portas criativas para o rap brasileiro e toca em assuntos urgentes em nosso país como o cuidado com a saúde mental e os efeitos do racismo em nosso cotidiano.

OUÇA:  “Kanye West Da Bahia”, “Me Desculpa Jay-Z” e “Girassóis De Van Gogh”


06 | BEACH HOUSE – 7

O sétimo álbum do duo de Baltimore Beach House, intitulado 7, foi lançado no dia 11 de maio de 2018. Era o quarto dia de lua minguante, na metade da transição para a lua nova, e se via menos da lua clara, bem menos, do que da lua escura. Eu julgaria irrelevante essa informação no contexto de qualquer outro álbum que não o 7. Envolto por simbolismos desde o título, que remete a ciclos encerrados, recomeços, tomada de consciência e completude, Victoria Legrand e Alex Scally criaram uma atmosfera de mistérios e incertezas em torno do álbum: agora a banda tem 77 músicas, o primeiro single foi lançado em 14/2. Victoria, em entrevista ao Pitchfork, disse que o número 7 “aponta para uma direção”, como o número 1, mas, diferentemente do primeiro, é uma direção desconhecida. Cultivando ainda mais a atmosfera nebulosa, Victoria encerrou a entrevista dizendo: “Somos todos controlados pela lua”. LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI.

OUÇA: “L’Inconnue”, “Dark Spring” e “Black Car”


05 | DUDA BEAT – Sinto Muito

Eu fui muito relutante para começar a ouvir a Duda Beat de fato. Ouvi e re-ouvi o Sinto Muito algumas vezes antes de pensar no quão bonito e bem feito era o som da cantora de Recife. Isso tudo porque Duda aparece um pouco fora das caixinhas de gênero que tenho ouvido muito recentemente, mas Sinto Muito é extremamente arrebatador e apaixonante. Duda Beat consegue cativar em diversas frentes e de diversas maneiras, seja com o seu sotaque carregado mesmo na cantoria ou seja em sua melodia que casa perfeitamente com sua voz doce, Duda mostra um primeiro trabalho eficaz e certeiro. mostrando que está mais do que pronta para conquistar o Brasil e o mundo.

OUÇA: “Bédi Beat”, “Bixinho” e “Bolo De Rolo”


04 | CARNE DOCE – Tônus

Eu optei por aguardar ao escrever sobre o novo álbum de Carne Doce, Tônus, terceiro disco de estúdio da banda goiana. Composições menos políticas, vocais menos gritados, instrumental menos afobado. A primeira impressão, um estranhamento saudosista. Inclusive, quem vai aos shows da banda com frequência, já havia experimentado algumas das inéditas ao vivo, e o sentimento que pairava era de curiosidade sobre o que viria no novo trabalho. LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI.

OUÇA: “Comida Amarga”, “Nova Nova” e “Golpista”


03 | ROBYN – Honey

O que fazer quando a tão esperada volta (solo) de uma de suas artistas preferidas, que realmente teve um impacto significativo na sua vida em seu gosto musical, é levemente decepcionante e não o que você esperava? Esse é o motivo do atraso dessa resenha. Tenho ouvido Honey com bastante frequência mas ainda não sei o que pensar dele nem pro bom e nem pro ruim. Só sei que não sei muito bem ainda. LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI.

OUÇA: “Missing U”, “Honey” e “Because It’s In The Music”


02 | JANELLE MONÁE – Dirty Computer

Pirulitos, roupa de couro, homens, mulheres, vaginas, Tessa Thompson, trono. Insuficientes são as palavras capazes de descrever o álbum visual de Janelle Monáe, Dirty Computer (2018). No terceiro de sua carreira, Janelle faz um tributo à liberdade. Liberdade como mulher, negra e queer. Liberdade que exige luta, vulnerabilidade e esperança. LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI.

OUÇA: “Django Jane”, “So Afraid” e “Pynk”


01 | KALI UCHIS – Isolation

(…) Isolation, apesar de ser o primeiro álbum de Kali Uchis, consolida a cantora entre os principais artistas em ascensão no cenário musical atual, pois conta com uma produção impecável e multifacetada, faixas com letras interessantes e muito bem escritas e participações de peso como Tyler, The Creator, Jorja Smith e Reykon. A primeira impressão que se tem de Isolation é que este é um álbum recheado de influências. Kali Uchis apresenta grande versatilidade ao navegar por um conjunto diversificado de estilos e influências espalhado pelas faixas. LEIA O TEXTO COMPLETO AQUI.

OUÇA: “Nuestro Planeta”, “After The Storm” e “Tyrant”

Blood Orange – Negro Swan


Existe até uma página na Wikipedia intitulada homofobia na cultura hip hop. Em seu 10° álbum de carreira, lançado no final de agosto, Eminem usa um insulto homofóbica para se referir ao rapper Tyler The Creator. A homofobia ainda persiste no rap, ainda é velada no rap, ainda perdoamos comportamentos homofóbicos no rap. De Beastie Boys, Kid Rock, 50 cent, Kanye West, Travis Scott, Migos …

Nesse histórico de masculinidade tóxica e homofobia, Blood Orange ao lado de Tyler The Creator e seguindo a linhagem do Frank Ocean integra uma nova versão. Homens queers que citam David Bowie que se inspiram em Prince. E Negro Swan, quarto álbum de carreira do Blood Orange, é um ótimo expoente dessa nova possibilidade de futuro mais inclusiva e livre para r&b e o rap.

Com declamações da primeira apresentadora trans e ativista LGBT, Janet Mock, Dev Hynes (Blood Orange) instaura uma atmosfera de acolhimento com canções, cujo centro criativo são personagens minorizados – como negros, homossexuais, mulheres e transsexuais. Como Mock consegue resumir, na sexta faixa do disco, “Family”:

Você me perguntou ‘o que é família?’. Eu penso em família como comunidade. Penso nos espaços onde você não tem que se encolher. Onde você não tem que fingir ou interpretar. Você pode parecer e ser vulnerável… Você se mostra como você é, sem julgamento, sem ser ridicularizado. Sem medo ou violência, sem policiamento ou confinamento. Você pode estar lá e se sentir completo. Então podemos escolher nossas famílias. Não somos limitados pela biologia. Conseguimos fazer por nós mesmos. Podemos criar nossas próprias famílias“.

Essa declamação, também mostra como Negro Swan não é apenas mais um disco triste. Tocar músicas tristes é fácil. A tristeza na música pode ser tanto uma escolha estética quanto a exibição de algum tipo de vulnerabilidade real. Podemos citar inúmeros exemplos de álbuns de rap ou R&B, lançados este ano, que expressam algum tipo de melancolia. Mas com a grande maioria desses discos, ainda é difícil se envolver emocionalmente. Em Negro Swan, a tristeza é honesta, é bruta. As faixas soam como versões demos, sem edições. Ele usa esses arranjos para nos contar sobre as lembranças que ainda o assombram,  pensamentos que o afligem e a esperança a quem ele ainda se agarra.

A construção de cada melodia é o resultado de um híbrido entre smooth-jazz e beats bem característicos do r&b. Aqui, cada instrumento tem espaço para crescer no seu próprio tempo, nada é forçado. Em “Charcoal Baby”, colaboração com Aaron Maine (Porches) essa gradação é clara e parece seduzir o ouvinte. ‘Quando você acorda / Não é a primeira coisa que você quer saber / Você ainda pode contar / Todas as razões pelas quais você não está por perto?‘, questiona a melancólica letra da canção enquanto sintetizadores e batidas se espalham sem pressa e se assemelham ao R&B de veteranos como Michael Jackson e Prince.

Esse refinamento também está presente em Saint, composição em que Hynes deixa de ser protagonista, abrindo passagem para que nomes como Ava Raiin, Adam Bainbridge (Kindness), Aaron Maine e BEA1991 assumam parte expressiva dos versos, reforçando o senso de “comunidade” que rege o disco.

Negro Swan é aquele disco que a cada audição parece ser um novo disco. A sensibilidade lírica das melodias também está presente em detalhes que talvez passem despercebidos em um primeiro momento – a atmosfera jazzística de “Take Your Time”, o flerte com a música gospel em “Holy Will”, e, principalmente, a base acústica e vozes cuidadosamente trabalhadas em “Smoke”.

Como na maioria das faixas de Negro Swan, “Orlando” não se contenta em ser apenas uma coisa. Partindo de uma homenagem aos ataques a um boate gay em Orlando, em 2016, o interlúdio de Mock amplia a mensagem da música sobre o valor de “fazer muito” em uma cultura que não permite que pessoas marginalizadas alcancem sucesso. A primeira faixa do disco já confirma o conceito central do álbum: como as pessoas de cor e queers lidam com trauma em uma cultura racista e heteronormativa.

Talvez Negro Swan seja um dos discos mais importantes e contundentes lançados em 2018. Pode ser pela opressão desencadeada pelo governo Trump, pelo retrocesso civilizacional que ele representa e pelo recrudescimento de vários fascismos ao redor do planeta. Se lançado no Brasil, o disco poderia ser uma resposta direta ao coiso, um hino para o movimento #elenão. Que nos apropriamos, então, desse disco como um instrumento de revolta, de crítica ao crescimento de governos fascistas e ao velho preconceito em relação às minorias. Como um grito de esperança.

OUÇA: “Orlando”, “Jewerly”, “Saint” e “Charcoal Baby”.

Blood Orange – Freetown Sound

bloodorange

_______________________________________

right now there are a million black girls just waiting to see someone who looks like them

Devonté Hynes talvez seja um dos nomes mais influentes do mundo da música atual. Um produtor e escritor brilhantes, ele já trabalhou com nomes excepcionais da música mundial, como Florence [and The Machine], Solange Knowles e Kylie Minogue. Blood Orange é sua terceira incursão musical, tendo passado por uma banda breve e outro projeto solo e esse é o terceiro disco do rapaz dentro desse nome. Freetown Sound remete à cidade em que seu pai nasceu na Serra Leoa e é um disco que surgiu no momento certo, sem querer e (in)felizmente.

Shem was a black man, in Africa. if you repeat this fact, they can’t laugh at ya

Freetown Sound funciona muito bem de certo modo e até certo ponto. Hynes aproveita o seu apelo musical crescente – como produtor de uma infinidade de artistas consagrados – para fazer um álbum político e necessário. E nisso ele acerta em cheio e de uma maneira curiosa: incursões e falas empoderadas em meio de suas músicas. São versos sobre, principalmente, feminismo, homofobia e racismo.

I’m sure she’d have to go to bed with him anyway to give him what he wans for her to get what she wants

Tendo crescido numa cidade multicultural [Londres] que não está livre do racismo diário que a comunidade enfrenta, Hynes com certeza tem a mesma propriedade que Kendrick Lamar, Beyoncé ou qualquer outro expoente negro atual para falar sobre essa insurgência homofóbica e racista que devasta o mundo. E é com essa propriedade que Hynes faz letras chocantes e intrigantes como nunca antes tinha feito. É por isso que o disco funciona muito bem até certo ponto: ele acerta muito bem em suas letras-protesto e seus devaneios políticos que acaba deixando de lado uma parte importante que sempre foi bem cuidada em seus outros discos: a musicalidade.

Dentro dessa musicalidade é interessante observar dois pontos essenciais para entender até onde o álbum é bom.

a) A voz marcante de Hynes fica apagada em boa parte das músicas. E isso é um erro imperdoável para isso tudo que ele quer fazer aqui. Se Devonté queria dar voz para seus versos de protesto, tinha que aproveitar melhor esse poder inegável que suas cordas vocais têm (isso pode ser visto claramente em músicas do Coastal Grooves, seu primeiro álbum como Blood Orange, ou em Falling Off The Lavender Bridge, o debut do seu outro projeto Lightspeed Champion) e inflamar melhor suas atitudes que demonstram claramente o cansaço com todo esse levante da direita. Talvez isso tudo aconteça porque Hynes conta com participações ilustres em suas músicas (como Samantha Urbani fez em algumas do Cupid Deluxe) e acabe deixando seu protagonismo meio de lado (como também o fez no álbum anterior).

b) As batidas, com uma inspiração clara de Michael Jackson e expoentes clássicos da música negra antiga, funciona de forma sensual e, por alguns momentos, cativante. Mas não casa muito bem aqui. Hynes fez um álbum inflamado com uma pegada musical calma e sensual. O que deveria funcionar como algo que junte essas duas coisas que nãos e misturam de jeito nenhum numa emulsão perfeita é bem instável e não funciona bem.

don’t shoot!

No fim, Freetown Sound é um disco respeitoso para as minorias por aí, um disco com excelentes letras e pensamentos de protesto e uma boa homenagem ao pai de Devonté, mas falha homericamente ao tentar juntar boa música nesse processo musical todo. A variedade instrumental parece deixar o disco bem perdido no espaço-tempo e serve apenas para Hynes resgatar influências negras que, até então, não tinha utilizado em seus projetos. Parece ter sido um crescimento enquanto artista, enquanto escritor, mas um retrocesso e confusão na sua capacidade de casar isso tudo de maneira bem amarrada. Freetown Sound tira o brilho do que há de melhor no Blood Orange: ele mesmo.

yeah, man, c’mon, all the nonsense got to cease

OUÇA: “Best To You”, “Juicy 1-4” e “Better Than Me”