Bibio – Ribbons



Ribbons, novo disco de Bibio, é mais uma experiência prazerosa da doce melancolia que o músico britânico faz de melhor. Com uma ambientação introspectiva e fundamentada em violões e sons acústicos, o álbum deve agradar aos fãs de canções como “Jealous Of Roses” e “Haikuesque (When She Laughs)”.

O que diferiu Bibio em toda sua carreira de outros artistas similares sempre foi sua dedicação em fazer com que a atmosfera construída reflita um sentimento profundo e quase entorpecedor, seja em um formato mais acústico ou experimentando com elementos da música eletrônica. Aqui, Ribbons é um trabalho comovente, singelo, de pura e genuína emoção que dialoga intimamente com o ouvinte através de uma paisagem sonora sustentada por um formidável instrumental, já que as líricas e vocais aparecem muito pouco.

Um grande ponto forte de Ribbons é o quão fácil é ouvir o disco. Com canções tranquilas, o compilado provoca uma agradável sensação de conforto com instrumentos suaves e uma masterização levemente ruidosa e lo-fi, que confere ao álbum uma sonoridade quase caseira. O tom de melancolia atingido aqui não traz uma carga pesada, que dificulta uma experiência mais casual, mas é abordada com leveza.

Há uma coesão admirável na produção de Bibio. Todas as 16 faixas fluem perfeitamente entre si, fazendo com que os mais de 50 minutos de duração passem muito mais rápido do que o imaginado. Poucas canções de fato se destacam, mas o conjunto da obra é convidativo para que o ouvinte escute o álbum completo do início ao fim.

O ponto alto, no entanto, é “Curls”, o primeiro single. A faixa, uma balada folk movida pelo banjo com alguns flertes com o sintetizador, resume a estética intimista do álbum. A dedicação à delicadeza aparece até mesmo em canções mais animadas como “Old Graffiti”, que adapta a sonoridade do jazz e funk para a proposta de disco.

Ribbons é um álbum muito bem-elaborado, honesto em sua roupagem e imersivo. Além disso, é um trabalho incrivelmente sensível, com melodias sutis e agradável de se ouvir.

OUÇA: “Curls”, “Old Graffiti” e “Pretty Ribbons And Lovely Flowers”

Bibio – Phantom Brickworks


Phantom Brickworks, o novo álbum do virtuoso músico inglês Bibio, veio como uma surpresa inesperada para os ouvintes mais atentos à trajetória do músico e acostumados com suas faixas expansivas, funkeadas e cantadas. Diferentemente do seu predecessor A Mineral Love, Phantom Brickworks é um álbum totalmente instrumental e etéreo que mais se assemelha àquelas músicas feitas para longas sessões de meditação, totalmente ambientes e suaves. Phantom Brickworks, por representar uma mudança tão radical na trajetória musical de Bibio, nos desafia a repensar os limites da música na forma que a consumimos hoje e nos convida a uma reflexão sobre o papel das sonoridades mais etéreas, incompreensíveis e complexas no vasto mundo da música contemporânea.

Como lidar com um álbum de mais de uma hora que contém faixas em sua maioria longas, muito parecidas entre si e totalmente ambientes? Existiria valor artístico em um álbum tão etéreo, tão incompreensível, tão fora da realidade material? Phantom Brickworks possui nove faixas intermediadas pelas faixas “Phantom Brickworks I, II e III”, que servem de guia para o ouvinte, embora tenham o mesmo clima suave e calmante. Toques suaves de piano aparecem aqui e ali e efeitos sonoros que imitam ambientes abertos e retratam sonoramente as mais misteriosas manifestações da natureza estão presentes em todas as faixas, o que forma um belíssimo e ao mesmo tempo assustador retrato, uma espécie de sinfonia fantasmagórica.

Bibio parece querer mostrar a nós todos, tão acostumados com o barulho e a agitação, o que significa recolher-se do caos e nos dirigir à natureza e à introspecção. É por isso que a experiência de ouvir Phantom Brickworks é totalmente diferente se estivermos focados em outra coisa ao ouvi-lo. Se não estivermos inteiramente imersos no universo do álbum, as faixas servirão apenas de pano de fundo tépido, sem nenhuma expressividade. Bibio sempre foi um grande experimentador no que toca à sonoridade e o músico levou essa filosofia à última consequência em Phantom Brickworks: o experimento é parte da música e não há como ser um bom ouvinte sem antes entender a própria música como uma experiência que nos eleva e nos leva a lugares antes desconhecidos. Será que a música pode ser uma oportunidade de nos recolhermos a lugares mais profundos do nosso ser? Será que a música pode ser um veículo que nos leve de volta à natureza, ao silêncio, enfim, a nós mesmos? A proposta de Bibio parece nos indagar exatamente essas coisas.

Por fim, Phantom Brickworks não é um álbum para todos, é necessário dizê-lo. E está tudo bem. O catálogo musical de Bibio apela, felizmente, a um vasto número de ouvintes e Phantom Brickworks com certeza terá seu lugar no coração de um tipo específico de ouvintes. O clima fantasmagórico e etéreo do álbum é mais um convite do que uma afirmação e que bom que há pessoas que aceitam tal convite. A música jamais exclui.

OUÇA: “Phantom Brickworks II”, “Capel Bethania” e “09:13”.