Bat for Lashes – Lost Girls



Lost Girls, o quinto álbum que Natasha Khan lança com o nome artístico de Bat for Lashes, é, de certa forma, muito visual. Já na capa, fica claro que o que vamos encontrar tem uma grande influência dos anos 1980. Além disso, o álbum nasceu de um período criativo em que a britânica escrevia seu primeiro roteiro de cinema, após se mudar para Los Angeles.

A relação com o cinema e com as memórias oitentistas de Natasha – em especial, filmes de fantasia e ficção científica – é a espinha dorsal do álbum. Não é à toa que uma das faixas – com um som que traz muita influência de The Cure – tem o título de “Vampires”. Assim como nos outros trabalhos da cantora, a sensação é de que o que estamos ouvindo é algo etéreo. São músicas que convidam o ouvinte a sonhar e viajar, seja através das nossas próprias memórias da icônica década de oitenta, ou dos laços afetivos que criamos com a música e a cultura daquela época.

No caso de Lost Girls, essa característica nostálgica passa longe de ser apenas uma forma de surfar na onda de revivals dos anos 80, que vêm tomando conta da cultura pop nos últimos anos. Há um toque pessoal nas criações de Natasha. A sua voz singela, acompanhada dos sintetizadores característicos do synth pop que marcou a música nos anos 1980, nunca soa batida neste álbum. É, sim, um som de outra época – quase de outro mundo. Mas é um baita som.

OUÇA: “Kids In The Dark”, “Jasmine”, “Mountains”

Bat for Lashes – The Bride

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A força da antítese se encontra no contrastante. É comparando duas extremidades, duas forças, que a falta de um evidencia a outra. Fogo e água, luz e sombra, bem e mal. A gente poderia gastar horas na lista de antagonistas… Assim, não é com nenhuma surpresa que a faixa que abre The Bride, quinto disco da britânica Natasha Khan, mais conhecida por seu nome de palco, Bat for lashes, seja a doce, melódica e etérea “I Do”. O caráter etéreo não é, entretanto, exclusividade da faixa de abertura,  permeia toda a carreira e registro aqui presente.

“I Do”, lançada em meados de janeiro como princípio da divulgação do disco, causou certo estranhamento e funciona como um convite ou o aceite de um. As cordas e os toques eletrônicos da canção abrem caminho para um mundo de sonho, com imagens enevoadas, o canto de uma sereia prestes a afogar os marinheiros. A certeza e a entrega da moça, dessa noiva em especial, que aceitará o contive de seu amado é também um convite para que o ouvinte aceite as convenções desse jornada e peguem a moça pela mão. Ela diz que sim e espera de nós a mesma cortesia.

Composto inteiramente por ela, com exceção de três faixas, nas quais ela escreve com apoio de terceiros e a produção dela mesma, com Jacknife Lee e Dan Carey, o trabalho marca também o fim da colaboração de David Kosten, parceiro sempre presente desde o primeiro disco, Fur And Gold, de 2006, The Bride é um disco conceitual e narrativo cuja a protagonista é, justamente, uma noiva. Usando a narrativa e a ficção, como todos os bons contadores de história, para elaborar conceitos abstratos como o amor, a morte e o luto, essa é a jornada de uma noiva que perde seu futuro esposo num acidente de carro, à caminho da igreja.

Sonoramente, a guitarra marcada em “Joe’s Dream” ou a bateria acelerada em “Sunday Love” mostram que a paisagem sonora já construída de Bat for Lashes pode sim flertar nos limites além de seu território tradicional, abarcando as fronteiras com o art rock e o desert rock, esse último, principalmente no que tange o imaginário e os vídeos já feitos para as outras canções, que encontram ecos nas obras de David Lynch.

A trajetória é completa: passa pela concretização do sonho de matrimônio, o sonho premonitório (“Joe’s Dream”), a entrada na igreja (“In God’s House”), a lua de mel sozinha (“Honeymooning alone”), a busca pelo amado que não está no plano dos vivos (“Sunday Love” e “Close Encounters”), o luto e, por fim, a superação (“I Will Love Again”). Embora a protagonista seja a noiva, ela pode ser qualquer um de nós; a noiva é o artifício que Khan encontrou para falar sobre amor, morte, luto e cura. Em maior ou menor escala, a trajetória dessa personagem pode também ser e entendida como a nossa.

OUÇA: “Sunday Love”, “In God’s House” e “Honeymooning Alone”