As Bahias e A Cozinha Mineira – Tarântula



Nessa altura da vida, acredito que a maravilhosa banda As Bahias e a Cozinha Mineira dispensa grandes apresentações. O trio já nos presenteou com os incríveis álbuns Mulher (2015) e Bixa (2017) e agora chegam em seu terceiro trabalho de estúdio, Tarântula. E as coisas continuam seguindo como era de se esperar, só que quase.

Em um mundo utópico, o fato de que Assucena e Raquel são travestis não deveria importar em absolutamente nada, mas a realidade não é essa. Para nós LGBTs a mera existência sendo quem é já se trata de um ato político, principalmente em nosso cenário atual, e isso é ainda mais verdade para a população T. E as duas levantam essa bandeira com muita força toda a oportunidade que têm, e isso é absurdamente necessário e algo incrível. Em sua música não é diferente, e aqui isso acontece mais do que nos trabalhos anteriores.

Mulher foi marcado por músicas épicas como “Apologia Às Virgens Mães” e “Uma Canção Pra Você (Jaqueta Amarela)”, mas é “Reticências” e “Josefa Maria” que realmente representam o álbum: uma gama gigantesca de influências e uma constante mudança de direção e ritmo, muitas vezes na mesma música. Em Bixa, foram adicionados elementos eletrônicos e uma produção mais pop acessível, mas ainda mantendo sua essência no MPB, passando por boleros e baladas. E agora em Tarântula

Tarântula tenta seguir na mesma linha do Bixa, com menos eletrônicos, mas com a mesma produção acessível e impecável. É a primeira vez em que existe uma música da banda cantada apenas pelo Rafael (a linda “Volta”), e também a primeira participação creditada de um artista de fora em um álbum das Bahias (Projota em “Tóxico Romance”). Mas mesmo se tratando de um álbum ótimo e com certeza acima da média, Tarântula peca um pouco e falta quando comparado com os outros dois.

As letras e composições continuam inteligentíssimas, com destaque para “Pipoco E Pipoca” e “Chute De Direita”, que são o tipo de música que não poderia ter vindo de nenhum outro artista. “Das Estrelas”, com um ótimo clipe estrelado pela maravilhosa Renata Carvalho, retoma o mesmo tom épico de “Uma Canção Pra Você” e um destaque bastante positivo. “Tóxico Romance”, com toda a certeza é a melhor música do trabalho, com uma letra bastante sexual sobre um encontro ilícito durante uma madrugada da vida. E quem nunca?

Existem sim músicas incríveis e destaques excelentes, mas esse é o problema de Tarântula: são destaques, e não o álbum todo. Pela primeira vez existem músicas não tão memoráveis em um disco das Bahias. Tarântula tem tudo o que “deveria” ter em um álbum das Bahias, ele só não tem no geral a mesma força que existe em seus outros dois lançamentos.

Eu já disse isso aqui mesmo no YMD em algum momento e agora repito: assistam às Bahias e a Cozinha Mineira ao vivo quando puderem, mesmo se não gostarem tanto das músicas feitas pelas moças. Elas são donas de um dos melhores shows ao vivo da música nacional.

OUÇA: “Tóxico Romance”, “Pipoco E Pipoca”, “Das Estrelas”, “Chute De Direita” e “Mátria”

2017: Best Albums (Editor’s Choice – Henrique)

10 | SAMPHA – Process

Confesso de antemão que para mim é uma enorme surpresa um cara como o Sampha estar presente em minha lista de melhores do ano. O R&B peculiar que o britânico faz não é, nem de longe, um dos meus estilos mais ouvidos; e quiça tenho outros artistas que representem o gênero na minha biblioteca. Mesmo assim Process é um disco tão incrível que é impossível negar a genialidade do músico que consegue fazer um disco tão bagunçado e tão coeso ao mesmo tempo que é até difícil explicar o que cativa ali dentro. O músico demorou para lançar seu primeiro disco – está na ativa desde 2009 – mas a beleza de Process supera toda essa expectativa.

OUÇA: “Blood On Me”, “Kora Sings”, “(No One Knows Me) Like The Piano” e “Reverse Faults”


09 | THE JUNGLE GIANTS – Quiet Ferocity

Quiet Ferocity é o terceiro álbum do The Jungle Giants e foi só aqui que eles finalmente conseguiram entregar um álbum bem coeso e bastante interessante. A mudança em relação aos álbuns anteriores é nítida logo nos primeiros acordes de “On Your Way Down” e persiste até o fim do disco em “People Always Say”. O instrumental alinha-se muito bem com as letras da banda e a grata surpresa fica por conta das experimentações que vemos em músicas como “Feel The Way I Do”. O The Jungle Giants dá uma distanciada do seu som original, mas ainda bebe muito de um indie pop característico.

OUÇA: “On Your Way Down”, “Feel The Way I Do” e “Time And Time Again”


08 | SAN CISCO – The Water

O San Cisco deu uma leve escorregada em Gracetown, seu segundo disco, por dar uma de Tame Impala e tentar ir prum lado mais psicodélico. O cabelão de Jordi e o jeito largado de Scarlett eram mais do que pose, talvez, mas ficaram um pouco mais comedidos em The Water. A cara indie pop da banda dá uma retornada e consegue mesclar perfeitamente com algumas sonoridades mais experimentais. A música boa de The Water é chiclete e daquelas bem simples, mas gostosas demais de ouvir. O disco acaba rapidinho e a gente sempre fica na vontade de repetir e não consegue cansar – e foi exatamente isso que aconteceu.

OUÇA: “Kids Are Cool”, “Sunrise” e “SloMo”


07 | FRANCES – Things I’ve Never Said

A voz doce e delicada de Frances me acompanha desde o ano passado. Eu conheci a moçoila numa dessas ávidas buscas por música nova na internet e desde então fiquei muito ansioso para o primeiro álbum da britânica. Things I’ve Never Said é uma abertura de carreira perfeita e rendeu comparações à músicos consagrados da música da ilha-continente. Adele e Sam Smith já estão fazendo escola e Frances deve dar um baita orgulho para suas influências. Assim como sua inspiração direta [a Adele], Frances começou cedo na música e já entrega um disco cheio de sentimentos como esse. É música feita para arrepiar a pele e piano muito bem tocado para deixar todo mundo com aquele sorriso meio bobo na cara.

OUÇA: “Don’t Worry About Me”, “Drifting” e “Let It Out”


06 | AS BAHIAS E A COZINHA MINEIRA – Bixa

A fauna de Bixa é singular. Cachorro, urubu, coruja, pica-pau, peixe, tigre, veado… É nessa alegoria animalesca e numa nuance tropical que as líderes d’As Bahias e A Cozinha Mineira trazem seu segundo disco. Fugindo um pouco da MPB clássica que é a influência principal de Mulher, primeiro álbum, aqui temos uma mistura sensacional de ritmos. Temos bolero, disco, MPB, samba, jazz, axé. Fato é que Bixa não economiza nem um pouco suas cartas quando quer mostrar a força e a maestria da banda na sua versatilidade musical.

OUÇA: “Um Doido Caso”, “Dama Da Night” e “Mix”


05 | NATALIA LAFOURCADE – Musas

Musas é um disco de celebração. Celebração da história da cultura da América Latina, sobretudo dos falantes da língua espanhola. Natalia Lafourcade faz um álbum de homenagens com regravações e canções originais, emborcando totalmente em seu som as veias abertas da sua América; e faz isso de forma maestral, passando pelos ritmos de diferentes países e nos levando à viagens distantes ao passado sem sequer sairmos do presente. Musas continua a boa onda que começou com Hasta La Raíz (2015) e expôs Natalia Lafourcade ao grande público mundial. De uma delicadeza e cuidado ímpares, o disco ainda conta com a participação do duo Los Macorinos que complementam a voz da – já musa da música mexicana – Lafourcade com bastante significado.

OUÇA: “Tú Sí Sabes Quererme”, “Mi Tierra Veracruzana” e “Te Vi Pasar”


04 | FLEET FOXES – Crack-Up

Talvez seja só na minha concepção, mas Crack-Up do Fleet Foxes é um disco que não pode ser ouvido aos pedaços. As músicas funcionam de uma maneira operesca, unidas dentro de uma quase-mesma harmonia e unidas nitidamente (seja através do título e suas hifenações e barras indicando continuações ou através da sonoridade que acaba em uma faixa mas já é logo relembrada em outra). Os instrumentos se encaixam perfeitamente, a voz de Robin Pecknold acentua todos esses altos e baixos que percorrem o álbum e o produto final é esse presente que chegou pra gente seis anos depois do segundo álbum da banda. O hiato pode não ter feito muito bem para nós, fãs, ansiosos por esse retorno, mas fez bem para eles, que voltaram de maneira estrondosa com esse disco tão singular.

OUÇA: o álbum inteirinho (se você ouvir músicas separadas o sentimento não será o mesmo, acredite)


03 | LOS CAMPESINOS! – Sick Scenes

A discografia do Los Campesinos! é muito coesa e praticamente sem baixos ao longo dela. Algumas músicas do Romance Is Boring (2010) e do We Are Beautiful, We Are Doomed (2008) podem até não chegar tão perto das pérolas que encontramos nos outros discos, mas a banda sempre prolífica esteve sempre muito bem alinhada e produzindo músicas muito boas. Sick Scenes é a continuação natural do som mais limpo e educado, assim digamos, que a banda vem fazendo desde Hello Sadness (2011) e apresenta novas adições ao hall de músicas incríveis que a banda faz em cima de seu indie pop. Talvez um dos únicos remanescentes interessantes desse estilo que mistura um pouco de hardcore com o indie, o Los Campesinos! traz nesse disco músicas sem muitas surpresas dentro do seu feijão-com-arroz, mas que se encaixam muito bem dentro dessa proposta e, com isso, conseguem cativar muito bem por conta de toda essa profissionalidade da banda em produzir esse estilo com uma proeza e uma qualidade excepcionais.

OUÇA: “Renato Dall’Ara (2008)”, “Sad Suppers”, “I Broke Up In Amarante” e “Hung Empty”


02 | BLACK KIDS – ROOKIE

Posso ser um pouco suspeito quando o assunto é Black Kids, claro, mas não consigo deixar de negar que a banda perdeu a mão em apenas uma coisa aqui nesse novo registro: demorar tempo demais para lançar um álbum. São quase dez anos separando o primeiro álbum e ROOKIE, que representa uma volta natural aos tempos pré-Partie Traumatic e soa delicioso desde a primeira audição. Uma sonoridade mais respeitosa às influências originais – como The Cure, por exemplo -, mas ainda assim um disco regado de letras ácidas e ironias engraçadas típicas da banda de Jacksonville. É naturalmente óbvio que ROOKIE não tem a força da obra prima que foi o primeiro álbum e isso em diversas instâncias – seja na produção elevada ou na fanbase que se perdeu com a espera ou na enrolação nauseante para aparecer com um segundo disco. A boa recepção do disco que foi lançado sem uma gravadora gigante por trás, entretanto, nos faz esperar que o Black Kids não demore tanto para lançar outro álbum e que faça isso da mesma maneira que fez esse: bem por baixo dos panos, quase exclusivo e sem muito burburinho – parece que isso é o que os deixa mais felizes, afinal de contas.

OUÇA: “IFFY”, “If My Heart Is Broken”, “V-Card (Not Nuthin’)” e “Rookie”


01 | SONDRE LERCHE – Pleasure

Não conheço o Sondre Lerche há tanto tempo assim e acompanhava sua história nos bastidores até. Pleasure foi, então, uma surpresa gigante para mim quando saiu lá no começo do ano e foi o disco responsável por colocar o artista no patamar de “músicos preferidos”. Desde que saiu o disco não conseguiu ser deixado de lado e foi tocado algumas várias vezes por semana. A boa fase do cantor é refletida em todas as canções que passeiam muito bem pelo seu meio-eletrônico-meio-folk, com sussurros, gritarias e bagunça generalizada sem muito significado. Sondre consegue por caos na ordem – e não o contrário como muita gente faz – e com isso faz um som que é facilmente associado somente à ele e sua cena da Noruega. Aqui estão músicas que versam sobre os mais diferentes sentimentos, mas sempre muito bem alinhadas com o instrumental; ou seja, o disco é muito bem pensado e encaixado em todo o seu processo criativo e isso é facilmente notado. A melhor surpresa que 2017 conseguiu trazer musicalmente e eu adoro quando casos como esse acontecem – é necessário prestar melhor atenção nessas pedras preciosas bem guardadas da música mundial.

OUÇA: “I’m Always Watching You”, “Serenading In The Trenches” e “Hello Stranger”

2017: Best Albums (Editor’s Choice – André)

10 | TAYLOR SWIFT – Reputation

Um dos maiores trunfos da Taylor Swift é a sua capacidade de usar absolutamente tudo o que falam dela ao seu favor. E é exatamente isso que a cantora entrega em seu sexto álbum de estúdio. Reputation é um álbum caótico e desconexo resultante de tempos caóticos na vida da moça. Em meio a tretas, rixas e brigas com meio mundo, Taylor entrega aqui o motivo pelo qual, na verdade, nada disso importa muito: ela é muito boa no que faz. Não podemos nos esquecer de que Taylor lançou seu primeiro registro aos 16 anos e que ela cresceu sob os olhos do mundo e sob uma pressão gigantesca em ser a queridinha moça perfeita. Taylor precisava desesperadamente de uma mudança drástica em sua carreira e vida, e aproveitou esse momento para realizá-la. Em Reputation, Taylor é tanto a vilã quanto a vítima e não se importa nem um pouco com isso. A qualidade musical até dos momentos mais questionáveis de Reputation mostra por que ela é e está onde está: a moça é boa. Menos “End Game”, essa a gente finge que não existe.

OUÇA: “Delicate”, “Getaway Car”, “…Ready For It?”, “New Year’s Day” e “I Did Something Bad”


09 | SISO – Saturno Casa 4

Saturno Casa 4 é o álbum de electropop que a cena musical brasileira estava precisando. Extremamente bem escrito e produzido, Siso mostra que não saiu de casa à toa e sim pra fechar negócio. Parcerias acertadas, letras incríveis e um som não muito comum de se encontrar por aqui. Casando eletrônicos com instrumentos orgânicos e uma vulnerabilidade ímpar, Siso cria seu próprio universo em Saturno Casa 4 e, o melhor de tudo, ele mesmo aponta tudo o que há de errado nele com críticas sutis e certeiras. É apenas seu primeiro trabalho completo, mas Siso com certeza ainda dará muito o que falar.

OUÇA: “O Amor É 1 Arma De Destruição Em Massa”, “Saudade”, “Tentação” e “4 De Ouros”


08 | GLORIA GROOVE – O Proceder

Gloria Groove é uma drag queen negra da Zona Leste de São Paulo que tem uma voz poderosíssima capaz de deixar muitas cantoras com inveja, e ela resolveu fazer um álbum de hip hop. São poucos os momentos em O Proceder nos quais Gloria faz uso de toda a sua potência vocal, mas ela troca isso por uma coisa muito mais importante: sua autenticidade. O Proceder é periférico, é hip hop, é socialmente consciente, é luta, é vivência. Indo na contramão do que se espera musicalmente de uma drag queen, Gloria não tem medo de exigir seu lugar e afirmar “Eu sou a dona da porra toda” e essa convicção é uma batalha diária. Mas em momento nenhum ela se acha melhor do que os outros por causa disso, muitíssimo pelo contrário. A humildade que Gloria esbanja em suas letras, se igualando sempre aos seus fãs e colegas de profissão, é um exemplo a ser seguido. O Proceder é um álbum curto e conta com duas músicas já lançadas quase um ano antes do trabalho completo chegar, mas ele passa sua mensagem. Gloria Groove com toda a certeza ainda vai muito longe, e ela é sim a dona da porra toda.

OUÇA: “Dona”, “Gloriosa”, “O Proceder” e “Império”


07 | PARTNER – In Search Of Lost Time

Esse é um tipo de álbum que eu nunca imaginei que fosse encontrar de novo. Um álbum que me fizesse sentir com 16 anos, procurando e encontrando música nova em comunidades do Orkut. Nada é capaz de transportar pra 2007 tão facilmente e tão instantaneamente quanto o debut da dupla Partner – um álbum leve e divertido, com um som que infelizmente caiu em desuso nos últimos dez anos. É impossível separar a música apresentada por Josée e Lucy aqui de seu próprio senso de humor, que permeia o álbum como um todo, mas a música feita pelas amigas está longe de ser uma piada. In Search Of Lost Time mostra e te lembra que é necessário se levar menos a sério às vezes e a dupla faz uma música extremamente competente enquanto se diverte. E escreve sobre o quanto é bom ficar em casa. Tem coisa melhor?

OUÇA: “Play The Field”, “Comfort Zone”, “Daytime TV”, “Creature In The Sun” e “Ambassador To Ecstasy”


06 | AS BAHIAS E A COZINHA MINEIRA – Bixa

Em seu segundo trabalho, As Bahias e A Cozinha Mineira mostram que sabem muito bem o que estão fazendo. Seu som, mesmo no estonteante Mulher, já era difícil de ser classificado direito – MPB, claro, mas um MPB que também ia até o forró, samba, axé, rock… E agora, em Bixa, Raquel e Assucena adicionam também o eletrônico e o disco na gama de ritmos que podem fazer com perfeição. A produção de Bixa é muito mais pop e acessível do que Mulher foi, mas em momento algum as moças perdem sua identidade nesse meio do caminho. Bixa é um álbum bastante colorido e visual, assim como sua capa sugere, e essas cores todas se fazem presente principalmente nos vocais e harmonizações das duas cantoras – que apresentam um controle vocal invejável – e nas letras ambíguas e cheias de metáforas. Bixa é um álbum completo em todo e qualquer sentido que você queira. E, pelo amor de Deus, vão ver as duas ao vivo assim que tiverem oportunidade. Além de boas em estúdio, elas são donas de um dos melhores shows que eu já fui na vida. Vida longa às Bahias.

OUÇA: “Sua Tez”, “Um Doido Caso”, “Drama” e “Universo”


05 | ALEX LAHEY – I Love You Like A Brother

Há anos não aparecia um álbum em minha vida lá por Novembro que escalasse imediatamente ao meu Top 5 preferidos do ano. E essa é Alex Lahey. Apostando num pop punk/indie rock bem simples e direto, a australiana acerta em cheio em seu primeiro álbum completo, I Love You Like A Brother. De Courtney Barnett em “Lotto In Reverse” a The Pipettes em “I Want U”, as influências da moça são as mais variadas, mas muito bem costuradas em sua própria identidade. Subvertendo papeis de gênero, tanto seu quanto de seu irmão, na faixa título do disco e esbanjando dor de cotovelo no restante do álbum, Alex Lahey se mostra bastante confiante em seu primeiro registro. E não tem como ser diferente, I Love You Like A Brother é impecável.

OUÇA: “I Haven’t Been Taking Care Of Myself”, “I Love You Like A Brother”, “Lotto In Reverse”, “I Want U” e “Awkward Exchange”


04 | SLOWDIVE – Slowdive

O Slowdive conseguiu em 2017 fazer quase o impossível: um álbum de reunião, depois de mais de duas décadas, que realmente parece necessário. Essa reunião, que contém todos os membros-chave da banda, conta com inovações e modernizações em seu som; mas poucas. O que a banda apresenta em Slowdive é apenas uma coisa: o motivo de seu nome estar sempre atrelado à palavra ‘icônico’. Souvlaki já era uma obra prima e agora Slowdive justifica o porquê disso. Slowdive fez uma volta melhor que a do My Bloody Valentine, e muito mais essencial. Ao invés de tentarem fingir que o tempo não passou, eles mostram porque influenciaram centenas de bandas nos últimos vinte anos. Isso tudo em apenas uma música, “Star Roving”. E o mais impressionante é que o restante do álbum realmente mantém a mesma qualidade.

OUÇA: “Star Roving”, “Slomo”, “Sugar For The Pill” e “No Longer Making Time”


03 | LORDE – Melodrama

Melodrama é o álbum que ninguém estava muito esperando. Não dava pra saber como o segundo trabalho da Lorde seria sonoramente, já que o primeiro foi gravado e lançado antes de o mundo inteiro estar de olho nela. E o resultado foi surpreendente. Melodrama é um álbum absurdo. Cheio de contradições que se complementam, momentos extremamente cinemáticos e cheios de luz e vida mesmo em estúdio. Não dá pra dizer que Lorde amadureceu muito desde o debut porque ele também já foi um álbum maduro e completo. Mas ela se aprimorou sim em, bom, tudo. Letras, produção, voz, conceito. Lorde se entregou ao pop, sim, e isso está longe de ser algo ruim. Melodrama conta com momentos de genialidade pura, como a jornada de auto-descobrimento pós-boy lixo de “Green Light” e, principalmente, ‘I overthink your punctuation use‘. Na verdade, “The Louvre” é uma música que traduz tão perfeitamente o começo de um relacionamento nos dias de hoje que chega até a ser um pouco assustadora a sua universalidade. E Melodrama é bem isso. A universalidade do álbum como um todo é absurda. Melodrama é o álbum que ninguém estava esperando, porque ninguém achou que alguma pessoa ia conseguir jogar na cara do mundo inteiro o quanto todos somos iguais nas nossas paranoias, medos, anseios e dramas. E a Lorde faz exatamente isso do começo ao fim do disco.

OUÇA: “Supercut”, “Perfect Places”, “The Louvre”, “Green Light”, “Hard Feelings/Loveless” e “Liability”


02 | ALVVAYS – Antisocialites

Antisocialites é um dos álbuns mais bonitos não só desse ano, mas dos últimos tempos de uma forma geral. O quinteto de Toronto em seu segundo disco adicionou elementos de garage rock e punk em seu indie pop já levemente barulhento, e o resultado é um álbum bastante agradável. É possível se perder no tempo ouvindo Antisocialites no repeat, sem nunca se cansar. Trata-se de um trabalho bastante curto, com dez músicas e apenas 32 minutos de duração; mas não existe um único filler aqui. Cada música, cada letra, cada decisão, cada acorde foi muito bem pensado nesses três anos de intervalo. O resultado é um disco lindíssimo, cheio de influências e ritmos que acrescentam ainda mais vida às composições da banda. A voz etérea de Molly Rankin parece finalmente confiante e flutua sobre o instrumental de forma bastante calma, porém firme. Antisocialites é a prova de que todo o potencial que o Alvvays mostrou em seu debut não foi à toa, e está aqui agora em forma de fato.

OUÇA: “In Undertow”, “Dreams Tonite”, “Saved By A Waif”, “Lollipop (Ode To Jim)” e “Hey”


01 | JAPANDROIDS – Near To The Wild Heart Of Life

Não tinha como outro álbum encabeçar essa lista. Tenho um caso de amor com o Japandroids há quase dez anos, e metade desse tempo a dupla canadense ficou inativa. A incerteza de que se haveria algum dia um álbum novo, principalmente depois da obra prima que foi Celebration Rock em 2012, era agoniante. E agora esses lindos voltam com Near To The Wild Heart Of Life, um álbum que continua exatamente de onde tinham parado. Algumas poucas inovações, como violões acústicos e um ou outro sintetizador aqui e ali, mas o cerne de Wild Heart continua sendo o mesmo. Trata-se de uma música atemporal, ninguém consegue trazer uma catarse atrás da outra como o Japandroids e isso agora é mais evidente do que nunca. As letras estão mais maduras, e agora celebram as conquistas difíceis da vida e não os momentos efêmeros como faziam no passado. E eles fazem questão de nos dizer que ainda estão apenas próximos ao coração selvagem da vida; eles não chegaram lá ainda. Mas quando chegarem… A palavra ‘hino’ tem sido comumente usada para hits do pop, mas não existe outra melhor para o conteúdo de Wild Heart; a cada ‘a drink for the body is a dream for the soul‘ e ‘can’t leave your dreams to chance or to a spirit in the sky‘ – é um Hino depois do outro. Então mesmo escrevendo isso em Dezembro, preciso dizer que essa posição, a de número 01, a de Melhor Álbum do Ano, para mim, já havia sido preenchida em Janeiro.

All life long, ‘til I’m gone

OUÇA: “Arc Of Bar”, “No Known Drink Or Drug”, “Near To The Wild Heart Of Life”, “Midnight To Morning” e “True Love And A Free Life Of Free Will”

As Bahias e A Cozinha Mineira – Bixa


As Bahias e a Cozinha Mineira se destacaram bastante na cena nos últimos tempos, com o boom da “geração lacração” e seu ótimo álbum de lançamento, Mulher, de 2015. Nele, as Bahias apresentavam uma versão repaginada de Gal Costa e Elis Regina. Hoje, com Bixa, o trio se torna Caê numa versão mais pop, assim como em seu Bicho, de 1977.

Sou suspeito para falar porque sou apaixonado por Mulher. Considero esse álbum um daqueles que será reconhecido como clássico apenas no futuro, por outras gerações. Faixas como “Apologia às Virgens Mães”, “Uma Canção Pra Você – Jaqueta Amarela”, “Melancolia” e “Fumaça” são peças únicas da música nacional, que nos arrepiam ao ouvir e transcendem em suas experiências ao vivo.

Ao comparar então Bixa com Mulher, o novo álbum peca em sua entrega final. As Bahias não atingem sua potência vocal, e a Cozinha Mineira troca as guitarras mais pesadas por samples. Se sonoramente ele pode até não agradar muito, e vezes soa até confuso, a qualidade das composições é algo que se mantém impecável e intocável. Raquel e Assucena são duas das maiores letristas que há no nosso país.

Confuso, porque Bixa é uma mistura de ritmos e experimentações. Ele passeia pelo pop eletrônico em “Dama da Night”, pelo samba em “Pica-Pau”, pelo reggae em “Mix” e até pelo bolero em “A Isca”. Enquanto Mulher é um álbum mais orgânico, Bixa tem uma pegada mais urbana.

Por fim, Bixa não é um álbum memorável, mas sua experiência não deixa de ser interessante. Ele vem para concretizar a relevância d’As Bahias e a Cozinha Mineira e expandir o grupo além da “geração lacração”, carimbando sua importância na cena nacional. Vida longa ao grupo e à sua música.

OUÇA: “Tendão de Aquiles” e “Sua Tez”.