Alex Lahey – The Best Of Luck Club



A Alex Lahey é uma filha da Internet, mas que ganhou elevada notoriedade em seu país – a Austrália – com a ajuda de mídias bem mais tradicionais: ela ganhou dois concursos, ambos em 2016; o primeiro de uma associação para artistas sem contrato e que foi responsável por alavancar a sua carreira com uma gravadora; e o outro, da maior rádio local, a Triple J, que a levou direto para um dos maiores festivais de lá, o grandioso Splendour in the Grass.

Em The Best Of Luck Club, seu segundo álbum, Alex Lahey repete essa fórmula que conquistou toda essa gente lá em 2016 e no seu primeiro disco de 2017. Repete, mas com algumas ressalvas que fazem que esse novo registro não carregue todo seu talento, toda sua glória e toda sua sonoridade, fazendo com que ele seja quase homeopático nessas qualidades.

Apesar de estar dentro de seu lugar seguro, Lahey parece dosar de forma estranha o seu som e quase nenhuma música lembra muito fortemente o que ela fez com intensa maestria no primeiro disco. “Don’t Be So Hard On Yourself”, “Misery Guts” e “Isabella” talvez sejam as únicas faixas que a gente consiga relacionar diretamente com o I Love You Like A Brother em suas guitarras rápidas, sua cantoria eufórica e as letras irônicas, bem feitas e inteligentes.

Apesar de ainda mostrar uma inteligência incrível para compor, ela deixa de lado em muitos momentos as suas viradas harmônicas rápidas e a sua voz quase gritada, que completariam o pacote que ela entrega com louvor desde o começo de sua carreira. Alex se arrisca em melodias mais lentas e BPMs menos energéticos, como estávamos acostumados. E é um pouco estranho ver uma moça com tanta presença se apagar tanto assim.

Paralelamente, é possível traçar um panorama e várias semelhanças entre Alex Lahey e sua conterrânea, a Courtney Barnett. Alex parece seguir muito de perto os passos da outra moça, que também é LGBT, também vem de Melbourne, também tem uma habilidade impressionante com a guitarra, também tem um poder de letrista excelente; ou seja, as duas tem um pacote de habilidades e qualidades muito idêntico e um começo de carreira bem parecido.

Barnett, assim como Lahey, se manteve em seu lugar seguro no seu segundo álbum e aqui aparece mais uma semelhança: o lugar comum acabou enfraquecendo e as doses mudadas ficaram sem uma certa qualidade e categoria que era esperada da musicista. A energia abaixou, a poeira baixou e o furor do debut bem colocado acabaram se perdendo um pouco.

E tudo bem isso tudo. The Best Of Luck Club não é um álbum ruim, é apenas um disco que tem músicas que mostram que Alex Lahey tem ainda seu talento ali e outras músicas que parecem um deslize rápido que não deve ser repetido. No fim das contas, temos um álbum com músicas memoráveis, mas que não se vê como completo como obra composta.

OUÇA: “Don’t Be So Hard On Yourself” e “Isabella”

2017: Best Albums (Editor’s Choice – André)

10 | TAYLOR SWIFT – Reputation

Um dos maiores trunfos da Taylor Swift é a sua capacidade de usar absolutamente tudo o que falam dela ao seu favor. E é exatamente isso que a cantora entrega em seu sexto álbum de estúdio. Reputation é um álbum caótico e desconexo resultante de tempos caóticos na vida da moça. Em meio a tretas, rixas e brigas com meio mundo, Taylor entrega aqui o motivo pelo qual, na verdade, nada disso importa muito: ela é muito boa no que faz. Não podemos nos esquecer de que Taylor lançou seu primeiro registro aos 16 anos e que ela cresceu sob os olhos do mundo e sob uma pressão gigantesca em ser a queridinha moça perfeita. Taylor precisava desesperadamente de uma mudança drástica em sua carreira e vida, e aproveitou esse momento para realizá-la. Em Reputation, Taylor é tanto a vilã quanto a vítima e não se importa nem um pouco com isso. A qualidade musical até dos momentos mais questionáveis de Reputation mostra por que ela é e está onde está: a moça é boa. Menos “End Game”, essa a gente finge que não existe.

OUÇA: “Delicate”, “Getaway Car”, “…Ready For It?”, “New Year’s Day” e “I Did Something Bad”


09 | SISO – Saturno Casa 4

Saturno Casa 4 é o álbum de electropop que a cena musical brasileira estava precisando. Extremamente bem escrito e produzido, Siso mostra que não saiu de casa à toa e sim pra fechar negócio. Parcerias acertadas, letras incríveis e um som não muito comum de se encontrar por aqui. Casando eletrônicos com instrumentos orgânicos e uma vulnerabilidade ímpar, Siso cria seu próprio universo em Saturno Casa 4 e, o melhor de tudo, ele mesmo aponta tudo o que há de errado nele com críticas sutis e certeiras. É apenas seu primeiro trabalho completo, mas Siso com certeza ainda dará muito o que falar.

OUÇA: “O Amor É 1 Arma De Destruição Em Massa”, “Saudade”, “Tentação” e “4 De Ouros”


08 | GLORIA GROOVE – O Proceder

Gloria Groove é uma drag queen negra da Zona Leste de São Paulo que tem uma voz poderosíssima capaz de deixar muitas cantoras com inveja, e ela resolveu fazer um álbum de hip hop. São poucos os momentos em O Proceder nos quais Gloria faz uso de toda a sua potência vocal, mas ela troca isso por uma coisa muito mais importante: sua autenticidade. O Proceder é periférico, é hip hop, é socialmente consciente, é luta, é vivência. Indo na contramão do que se espera musicalmente de uma drag queen, Gloria não tem medo de exigir seu lugar e afirmar “Eu sou a dona da porra toda” e essa convicção é uma batalha diária. Mas em momento nenhum ela se acha melhor do que os outros por causa disso, muitíssimo pelo contrário. A humildade que Gloria esbanja em suas letras, se igualando sempre aos seus fãs e colegas de profissão, é um exemplo a ser seguido. O Proceder é um álbum curto e conta com duas músicas já lançadas quase um ano antes do trabalho completo chegar, mas ele passa sua mensagem. Gloria Groove com toda a certeza ainda vai muito longe, e ela é sim a dona da porra toda.

OUÇA: “Dona”, “Gloriosa”, “O Proceder” e “Império”


07 | PARTNER – In Search Of Lost Time

Esse é um tipo de álbum que eu nunca imaginei que fosse encontrar de novo. Um álbum que me fizesse sentir com 16 anos, procurando e encontrando música nova em comunidades do Orkut. Nada é capaz de transportar pra 2007 tão facilmente e tão instantaneamente quanto o debut da dupla Partner – um álbum leve e divertido, com um som que infelizmente caiu em desuso nos últimos dez anos. É impossível separar a música apresentada por Josée e Lucy aqui de seu próprio senso de humor, que permeia o álbum como um todo, mas a música feita pelas amigas está longe de ser uma piada. In Search Of Lost Time mostra e te lembra que é necessário se levar menos a sério às vezes e a dupla faz uma música extremamente competente enquanto se diverte. E escreve sobre o quanto é bom ficar em casa. Tem coisa melhor?

OUÇA: “Play The Field”, “Comfort Zone”, “Daytime TV”, “Creature In The Sun” e “Ambassador To Ecstasy”


06 | AS BAHIAS E A COZINHA MINEIRA – Bixa

Em seu segundo trabalho, As Bahias e A Cozinha Mineira mostram que sabem muito bem o que estão fazendo. Seu som, mesmo no estonteante Mulher, já era difícil de ser classificado direito – MPB, claro, mas um MPB que também ia até o forró, samba, axé, rock… E agora, em Bixa, Raquel e Assucena adicionam também o eletrônico e o disco na gama de ritmos que podem fazer com perfeição. A produção de Bixa é muito mais pop e acessível do que Mulher foi, mas em momento algum as moças perdem sua identidade nesse meio do caminho. Bixa é um álbum bastante colorido e visual, assim como sua capa sugere, e essas cores todas se fazem presente principalmente nos vocais e harmonizações das duas cantoras – que apresentam um controle vocal invejável – e nas letras ambíguas e cheias de metáforas. Bixa é um álbum completo em todo e qualquer sentido que você queira. E, pelo amor de Deus, vão ver as duas ao vivo assim que tiverem oportunidade. Além de boas em estúdio, elas são donas de um dos melhores shows que eu já fui na vida. Vida longa às Bahias.

OUÇA: “Sua Tez”, “Um Doido Caso”, “Drama” e “Universo”


05 | ALEX LAHEY – I Love You Like A Brother

Há anos não aparecia um álbum em minha vida lá por Novembro que escalasse imediatamente ao meu Top 5 preferidos do ano. E essa é Alex Lahey. Apostando num pop punk/indie rock bem simples e direto, a australiana acerta em cheio em seu primeiro álbum completo, I Love You Like A Brother. De Courtney Barnett em “Lotto In Reverse” a The Pipettes em “I Want U”, as influências da moça são as mais variadas, mas muito bem costuradas em sua própria identidade. Subvertendo papeis de gênero, tanto seu quanto de seu irmão, na faixa título do disco e esbanjando dor de cotovelo no restante do álbum, Alex Lahey se mostra bastante confiante em seu primeiro registro. E não tem como ser diferente, I Love You Like A Brother é impecável.

OUÇA: “I Haven’t Been Taking Care Of Myself”, “I Love You Like A Brother”, “Lotto In Reverse”, “I Want U” e “Awkward Exchange”


04 | SLOWDIVE – Slowdive

O Slowdive conseguiu em 2017 fazer quase o impossível: um álbum de reunião, depois de mais de duas décadas, que realmente parece necessário. Essa reunião, que contém todos os membros-chave da banda, conta com inovações e modernizações em seu som; mas poucas. O que a banda apresenta em Slowdive é apenas uma coisa: o motivo de seu nome estar sempre atrelado à palavra ‘icônico’. Souvlaki já era uma obra prima e agora Slowdive justifica o porquê disso. Slowdive fez uma volta melhor que a do My Bloody Valentine, e muito mais essencial. Ao invés de tentarem fingir que o tempo não passou, eles mostram porque influenciaram centenas de bandas nos últimos vinte anos. Isso tudo em apenas uma música, “Star Roving”. E o mais impressionante é que o restante do álbum realmente mantém a mesma qualidade.

OUÇA: “Star Roving”, “Slomo”, “Sugar For The Pill” e “No Longer Making Time”


03 | LORDE – Melodrama

Melodrama é o álbum que ninguém estava muito esperando. Não dava pra saber como o segundo trabalho da Lorde seria sonoramente, já que o primeiro foi gravado e lançado antes de o mundo inteiro estar de olho nela. E o resultado foi surpreendente. Melodrama é um álbum absurdo. Cheio de contradições que se complementam, momentos extremamente cinemáticos e cheios de luz e vida mesmo em estúdio. Não dá pra dizer que Lorde amadureceu muito desde o debut porque ele também já foi um álbum maduro e completo. Mas ela se aprimorou sim em, bom, tudo. Letras, produção, voz, conceito. Lorde se entregou ao pop, sim, e isso está longe de ser algo ruim. Melodrama conta com momentos de genialidade pura, como a jornada de auto-descobrimento pós-boy lixo de “Green Light” e, principalmente, ‘I overthink your punctuation use‘. Na verdade, “The Louvre” é uma música que traduz tão perfeitamente o começo de um relacionamento nos dias de hoje que chega até a ser um pouco assustadora a sua universalidade. E Melodrama é bem isso. A universalidade do álbum como um todo é absurda. Melodrama é o álbum que ninguém estava esperando, porque ninguém achou que alguma pessoa ia conseguir jogar na cara do mundo inteiro o quanto todos somos iguais nas nossas paranoias, medos, anseios e dramas. E a Lorde faz exatamente isso do começo ao fim do disco.

OUÇA: “Supercut”, “Perfect Places”, “The Louvre”, “Green Light”, “Hard Feelings/Loveless” e “Liability”


02 | ALVVAYS – Antisocialites

Antisocialites é um dos álbuns mais bonitos não só desse ano, mas dos últimos tempos de uma forma geral. O quinteto de Toronto em seu segundo disco adicionou elementos de garage rock e punk em seu indie pop já levemente barulhento, e o resultado é um álbum bastante agradável. É possível se perder no tempo ouvindo Antisocialites no repeat, sem nunca se cansar. Trata-se de um trabalho bastante curto, com dez músicas e apenas 32 minutos de duração; mas não existe um único filler aqui. Cada música, cada letra, cada decisão, cada acorde foi muito bem pensado nesses três anos de intervalo. O resultado é um disco lindíssimo, cheio de influências e ritmos que acrescentam ainda mais vida às composições da banda. A voz etérea de Molly Rankin parece finalmente confiante e flutua sobre o instrumental de forma bastante calma, porém firme. Antisocialites é a prova de que todo o potencial que o Alvvays mostrou em seu debut não foi à toa, e está aqui agora em forma de fato.

OUÇA: “In Undertow”, “Dreams Tonite”, “Saved By A Waif”, “Lollipop (Ode To Jim)” e “Hey”


01 | JAPANDROIDS – Near To The Wild Heart Of Life

Não tinha como outro álbum encabeçar essa lista. Tenho um caso de amor com o Japandroids há quase dez anos, e metade desse tempo a dupla canadense ficou inativa. A incerteza de que se haveria algum dia um álbum novo, principalmente depois da obra prima que foi Celebration Rock em 2012, era agoniante. E agora esses lindos voltam com Near To The Wild Heart Of Life, um álbum que continua exatamente de onde tinham parado. Algumas poucas inovações, como violões acústicos e um ou outro sintetizador aqui e ali, mas o cerne de Wild Heart continua sendo o mesmo. Trata-se de uma música atemporal, ninguém consegue trazer uma catarse atrás da outra como o Japandroids e isso agora é mais evidente do que nunca. As letras estão mais maduras, e agora celebram as conquistas difíceis da vida e não os momentos efêmeros como faziam no passado. E eles fazem questão de nos dizer que ainda estão apenas próximos ao coração selvagem da vida; eles não chegaram lá ainda. Mas quando chegarem… A palavra ‘hino’ tem sido comumente usada para hits do pop, mas não existe outra melhor para o conteúdo de Wild Heart; a cada ‘a drink for the body is a dream for the soul‘ e ‘can’t leave your dreams to chance or to a spirit in the sky‘ – é um Hino depois do outro. Então mesmo escrevendo isso em Dezembro, preciso dizer que essa posição, a de número 01, a de Melhor Álbum do Ano, para mim, já havia sido preenchida em Janeiro.

All life long, ‘til I’m gone

OUÇA: “Arc Of Bar”, “No Known Drink Or Drug”, “Near To The Wild Heart Of Life”, “Midnight To Morning” e “True Love And A Free Life Of Free Will”

Alex Lahey – I Love You Like A Brother


Fui ouvir o disco sem muitas expectativas, já que se tratava de uma cantora ainda não muito notória e que me era desconhecida e, para a minha grande felicidade, vejo muito potencial na ainda tão nova Alex Lahey. O disco está repleto de músicas verdadeiramente cativantes e dançantes, com destaque para “I Haven’t Been Taking Care of Myself” e “Awkward Exchange”. É inegável que a australiana se dedicou a cada música conseguindo produzir, no seu debut, um álbum coerente e consistente, sem quaisquer fillers. Lahey se preocupou em produzir um disco cujas letras fossem genuinamente honestas, acompanhadas por uma instrumentação empolgante, ainda que não muito elaborada.

É uma mão cheia para os aficionados por indie pop no estilo de Best Coast ou Alvvays e para aqueles que desejam uma sonoridade energizante com riffs de guitarra agradáveis e melodias memoráveis, que ficam entoando na cabeça por um bom tempo. E claro, não poderia deixar de mencionar a admirável capacidade da artista em retratar situações comuns e desagradáveis do cotidiano ou até mesmo as dificuldades de um relacionamento e pós-términos, como, por exemplo, ter que balancear o trabalho com namoro ou aquele ex que não sai da sua cabeça, de uma forma divertida e confortavelmente identificável, se utilizando de uma narrativa envolvente. Afinal, quem nunca vivenciou a famosa fase de início de relacionamento em que tudo é maravilhoso e que nos dá aquela sensação reconfortante e alegre como se fosse um eterno fim de semana? Mas, como já mencionado, a artista traz como foco as nuances dos momentos positivos da vida, revelando ao longo de “Every Day’s the Weekend” a possível mistura de sentimentos e frustrações que podem surgir após o momento mágico do início de um relacionamento, se encarregando de nos encorajar, ao final da música, a aproveitar o momento e percorrer todo esse caminho até a linha de chegada – “I know that’s okay. We should ride this wave to shore”.

Um ótimo contraponto desse disco bem-humorado e animado é a relativamente calma “Backpack”, que reflete a frustração de tentar se manter por perto alguém com crise existencial que pretende se aventurar pelo mundo enquanto ainda há tempo ou pode, dependendo da interpretação, retratar a correria no mundo moderno e como isso afeta a forma como nos relacionamos com as pessoas, bem representado no verso “And you move faster than the world spins ‘round/ It’s hard for me to put my arms around you/ When your backpack’s on”.

O resultado é um álbum estimulante e que nos faz sentir bem imediatamente, capaz de até mesmo transformar dias mais nebulosos e melancólicos em dias radiantes ou, ao menos, suportáveis.

OUÇA: “Awkward Exchange” e “I Haven’t Been Taking Care Of Myself”