Carne Doce – Tônus


Eu optei por aguardar ao escrever sobre o novo álbum de Carne Doce, Tônus, terceiro disco de estúdio da banda goiana. Composições menos políticas, vocais menos gritados, instrumental menos afobado. A primeira impressão, um estranhamento saudosista. Inclusive, quem vai aos shows da banda com frequência, já havia experimentado algumas das inéditas ao vivo, e o sentimento que pairava era de curiosidade sobre o que viria no novo trabalho.

Passadas algumas semanas do lançamento, percebo o quão introspectivo, maduro e conciso o disco é. Salma Jô e companhia optaram por falar para dentro ao invés de para fora. Não há momentos catárticos, como “Artemísia” e “Falo” propunham no álbum anterior, Princesa, ou até mesmo “Passivo”, do disco homônimo.

Tônus fala sobre desencontros e impudores, de forma madura e autônoma, assim como a identidade visual do disco, com fotografias de Salma em meia arrastão sob luz negra, produzidas em conjunto com Macloys Aquino, guitarrista da banda.

As novas composições estão menos políticas, mas elas continuam expressando a assinatura de Salma: poesias dúbias e complexas, de diversas interpretações e construções individuais. Mesmo assim, o disco conta majoritariamente com letras sobre o ponto de vista feminino, desmistificando o tabu sexual, como em “Amor Distrai (Durin)”, parceria com Dinho da Boogarins, e ensejando arbítrio nas relações pessoais, como em “Nova Nova”, faixa escolhida como primeiro single.

Instrumentalmente, as linhas de baixo comandadas por Anderson Maia estão um absurdo, como em “Comida Amarga”, por exemplo, enquanto os sintetizadores de João Victor Santana, que inclusive produziu o disco, tomaram maior espaço.

O disco possui diversas camadas poéticas e instrumentais que são descobertas aos poucos pelo ouvinte, e essa é justamente sua beleza. “Golpista”, por exemplo, consegue nos fazer sentir angústia, medo e dúvida em uma única música, e por fim, ainda clama por esperança, por dias melhores.

Tônus é um disco que nos apresenta Carne Doce em sua forma mais genuína. É pele, é corpo, é sentimento. Propõem gostos amargos e agridoces, e conquista espaço a cada ouvida. Aliado à performance de Salma e sua trupe ao vivo, o disco tem potencial de se tornar ainda mais carnal.

OUÇA: “Comida Amarga”, “Nova Nova” e “Golpista”.

Fã assíduo de boa música – seja lá o que isso for.

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