Brittany Howard – Jaime



Dona de uma das vozes mais poderosas de sua geração, Brittany Howard deixou um pouco de lado a sua aclamada banda Alabama Shakes, além de Thunderbitch e Bermuda Triangle, para dar tempo e espaço para o seu primeiro álbum solo: Jaime. E a gente não poderia ficar mais agradecido, afinal, a americana cumpriu com maestria o que se propôs a fazer, como sempre.

Com faixas curtas, o debut parece mais uma única música com interlúdios que separam mensagens diferentes. Mas isso não quer dizer que se trata de uma obra monótona. Muito pelo contrário: temos sopros de paixão, raiva, gritos políticos, ternura e saltos enérgicos entrelaçados, sempre com o mesmo intuito de se conectar intensamente com o ouvinte.

Exemplo é a sequência “Georgia” e “Stay High”: do vigor poderoso de solos de guitarra distorcidos e o vocal de Howard que passa de sussurros para altas imposições, voltamos, sem perceber, para brandura em uma viagem delicada sonorizada, a princípio, pela dupla infalível na suavidade: violão e xilofone.

De falsetes a graves incríveis, Howard segura nossa mão em “Tomorrow”, mas solta sem medo de experimentar. Os descompassos minimamente calculados estão presentes em toda a obra, que traz, com sucesso, a força e identidade da cantora americana. História que está marcada inclusive no nome do álbum — Jaime é o nome de sua irmã mais nova, a primeira que a incentivou a escrever música, e que morreu aos 13 anos.

Ainda sobre sua família, Howard conta de forma literal como o seu pai sofreu um crime de ódio quando ela era apenas um bebê, em “Goat Head”. As emoções, os questionamentos e a transparência emocional da cantora continua em “Presence”, que traz a incrível frase “You make me feel so black and alive”.

O pico do álbum, no entanto, é o grito político em “13th Century Metal”, primeiro single e som visceral com frases de peso e mensagens afirmativas, como “I am dedicated to oppose those whose will is to divide us. And who are determined to keep us in the dark ages of fear”. Aqui, Howard esquece a melodia para afirmar, reafirmar, fazer valer a sua voz com força, e não com jeito.

Howard é, sem exagero, uma raridade do universo da música: ela transborda beleza não apenas de projetos maravilhosos, mas também em cada música que compõe, em cada falsete que engata, em cada grito contra a desigualdade. Quem é fã da, até então, vocalista do Alabama Shakes, tem muita sorte do ânimo e talento que a mesma tem de sobra.

OUÇA: “13th Century Metal”, “Georgia” e “Stay High”

paulista, jornalista, cantora de karaokê e psicóloga de boteco.

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